Cassandro mon amour

Estou apaixonada por uma pessoa da qual nenhum homem pode ter ciúme. Ela é doce, carismática, vibrante, humana, corajosa e tem uma vida inacreditável. Uma vida que, apesar de tudo que me desgosta nela, para mim é um exemplo de transposição, superação de todos os limites sociais, fraquezas pessoais e preconceitos.

Cassandro, nome artístico de Saúl Armendáriz (1970), mais conhecido sob o apelido de ringue Cassandro el Exótico, é um esportista de luta livre nascido em El Paso, no Texas, que trabalhou no México e inspirou a cineasta Marie Losier, cujo documentário, apresentado no Festival de Cannes este ano, sai hoje nos cinemas em Paris.

A inspiradora do nome já dá o tom do seu destino: Cassandra foi a prostituta que com todo o seu ganho construiu e sustentou uma fundação de ajuda a mulheres batidas mexicanas. Vendo o lutador que escapou das drogas e adições pela espiritualidade, este ser que – com suas dezenas de ferimentos, cicatrizes e intervenções cirúrgicas – dança ao sol, como nos rituais astecas, vêm à memória a obra de Frida Kahlo.

Sim, porque além de fazer pensar no que há de “sacrifício” e de tradição mexicana na dualidade “vida e morte”, este artista se aproxima um pouco de Marina Abramović pela fusão entre a sua vida, biografia, suas neuroses pessoais e a sua “arte corporal” ou performática, porém de uma maneira ainda mais autêntica e profunda – sem sequer saber que é artista. E se afasta totalmente do artificialismo e das estratégias de uma Orlan, por exemplo, que – ao contrário de Cassandro – nunca foi uma “lição de vida” para ninguém.

Muros aviltantes

Não importa se é bom, passável ou ruim. Interessa que o filme, rodado na Ciudad Juarez, é profundamente marcado pelo dual, pelo sofrimento e desafio dos muros simbólicos e reais, aqueles anteparos aviltantes que todos enfrentamos e construímos mentalmente em nossa existência, também os que os governos de extrema-direita estão erigindo.

Se adorei Cassandro el Exótico, drag queen da luta livre, não é porque sou politicamente correta. Longe de mim este tipo de correção. Se sinto ternura e compaixão por Saúl, ser humano doce, vibrante, corajoso, sofrido e perseguido que está por trás do carismático Cassandro, é porque também poderia colocá-lo no meu colo. Abraçá-lo por puro instinto maternal com o qual amo meus filhos – como eles são, apesar do que são ou poderiam ser. Sentimento judaico-cristão, talvez, que me faz aceitar a diferença mesmo que ela me choque.

Até a próxima, que agora é hoje e a transgressão talvez seja a melhor forma de nos fazer entender o que é fraternidade!

 

Adeus mamíferos, pássaros, peixes, anfíbios e répteis

Podemos nos despedir destes vertebrados. 60 % dos animais desapareceu em 44 anos, sobretudo nas zonas tropicais da América do Sul e central, onde a perda é de 89%. Sejam quais forem os argumentos dos presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro, eles deverão tomar em conta esta trágica conclusão do último relatório da WWF (Fundo Mundial para a Natureza), publicado hoje, dia 30, em seu site

Estão em causa as atividades humanas e suas consequências: agricultura intensiva, degradação dos solos, exploração e pesca exageradas, mudança climática, poluição pela matéria plástica, espécies invasoras, explosão da demanda de meios naturais e energia, etc.

O problema não se restringe apenas ao futuro dos bichos, mas ao capital natural do planeta, uma vez que tudo que funda as sociedades humanas se deve à natureza. Trata-se da sobrevivência da humanidade inteira.

Questão de vida ou morte

Sejam quais forem os argumentos dos presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro, esta é uma questão de vida ou morte. Segundo um estudo feito pelo economista americano Robert Costanza (apresentado pela WWF), a natureza nos fornece, gratuitamente, serviços de um valor igual a 125 trilhões de dólares por ano. Ou seja, se devêssemos pagar pelo ar que respiramos, pela água potável, e alimentação que ainda é gratuita, precisaríamos desembolsar bem mais do que o PIB mundial que é de 80 trilhões de dólares por ano. Fora isso, um terço da produção alimentar mundial depende de polinização (por 20 mil espécies de abelhas, centenas de outros insetos e mesmo de vertebrados como certos pássaros e morcegos).

É urgente!

A WWF considera urgente que os líderes mundiais, os responsáveis públicos e privados admitam que a natureza é a nossa única casa e que repensem a nossa maneira de produzir e consumir. Há recomendações e estudos concretos. Não resta muito tempo. Os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro já deveriam começar a planejar a presença de seus países no acordo ambicioso que será adotado na conferência mundial em Pequim, em 2020.

“A nossa casa morre e nós olhamos para outras coisas” disse Jacques Chirac – um presidente esclarecido, humanista, da direita – no “Sommet de la Terre”, em 2002.  Até a próxima que agora é hoje, a humanidade está em perigo, e para onde olham os governos de extrema-direita destituídos da luz do conhecimento?

Será que ninguém percebe?

Será que ninguém vê o que está por trás dos discursos chocantes de ódio e atritos (aparentemente “já desnecessários”) entre o candidato da extrema-direita, seus acólitos e familiares?

Imagem: Eugène Delacroix, “Méphistophélès dans les airs”(O Diabo no ar), cerca de 1825.

Poucos talvez imaginam, porém está “tudo certinho”, “totalmente necessário”, “exatamente como deve ser”.  O conjunto de esforços com fim eleitoral, segue o seu curso inerente. Não é preciso ser especialista. Estes eventos são conhecidos de todos, já podemos até mesmo chamá-los de “clássicos”, em todas as campanhas populistas do mundo. Sejam elas de esquerda ou de extrema-direita.

Bolsonaro e a mundialização do mal

Ali, cada acontecimento obedece às famosas táticas de Steve Bannon, orientado em direção a alvos precisos. Este DIABO manso, “Grande Sedutor” (nome com o qual o Evangelho designa o anjo mau), hoje talvez o maior expert em comunicação do mundo, declarou há pouco na Itália, publicamente ao lado do vice Matteo Salvini, estar criando “um grande movimento (anti-sistema) de ajuda aos governos (e candidatos) populistas do planeta (Brasil, inclusive), com o patrocínio dos maiores capitais americanos e estrangeiros.” Isto, para que o “Grande Capital” possa circular livremente num mundo agora “liquidificado”, para usar o termo do filósofo e sociólogo Zygmunt Bauman.

O ‘Diabo Bannon’

É muito simples, sem disfarce, não foi escondido de ninguém e não se trata de “teoria de complô”. Mesmo que não exista ou não for provado que existe um pacto do candidato com o DIABO, o tinhoso é onipresente, está cada vez mais rico e trabalha “de graça” pois não são os candidatos que o pagam. Se você votar em Jair Bolsonaro, estará necessáriamente contribuindo com o PROJETO AMERICANO DE DESTRUIÇÃO MUNDIAL DA DEMOCRACIA, já em andamento na América Latina e Europa (cuja desintegração é almejada, claro, a começar pelo Brexit abertamente orquestrado por Bannon).

Nessa altura, como diz o provérbio chinês, quando é a lua que brilha é melhor não ficar olhando só para o dedo que a aponta. Se você votar neste candidato, não é só o PT que estará atingindo. O PT não vale nem uma migalha do pão que o DIABO amassou. Até a próxima, que agora é hoje e… pense nisso.

 

A mentira e o ‘voto de mentira’

“Anulando o voto ou votando em branco os eleitores favorecem quem está liderando”? Em situação normal, sim. Mas esta não é uma situação normal.

Imagem: LIBERDADE, ORDEM E PROGRESSO

“Anulando o voto ou votando em branco o eleitor favorece quem está liderando”. Isso é mentira.

Resumindo o que diz o TSE:

“Os votos nulos e brancos constituem apenas um direito de manifestação de descontentamento do eleitor, não tendo qualquer outra serventia para o pleito eleitoral, do ponto de vista das eleições majoritárias (eleições para presidente, governador e senador), em que o eleito é o candidato que obtiver a MAIORIA SIMPLES (o maior número dos votos apurados) ou ABSOLUTA (mais da metade dos votos apurados, excluídos os votos em branco e os nulos).”

Voto nulo ou branco no Brasil é o que chamo de “voto fantasma”. Como é ignorado, ou seja, a sua soma não é contabilizada e nem mesmo revelada como é hábito nos países civilizados e democratas, fica-se sem saber quantos eleitores estão descontentes. Um verdadeiro absurdo.

Anulando, votando em branco e mesmo se abstendo, portanto, o votante não favorece ninguém diretamente. Apenas deixa aos outros a tarefa de escolher, o que – apesar de politicamente frustrante – é absolutamente democrático, legítimo e consentâneo.

O ‘voto de verdade’

Em situação normal, se o eleitor votar no segundo colocado estará contribuindo, claro, para diminuir a diferença entre os candidatos, mesmo que não acredite nele de modo total e ainda que, de antemão, por causa da enorme diferença percentual nas pesquisas, já saiba que dificilmente o segundo conseguiria vencer.

Mas esta não é uma situação normal. É uma raríssima combinação de circunstâncias na qual muitas pessoas sentem-se “sem escapatória” diante de “duas excrescências políticas absolutas”. Com pesquisa ou sem, elas não são capazes de raciocinar com aquele tipo de lógica, simplesmente porque não suportam a ideia de “votar de mentira”, ou seja, votar “contra”. Para elas o único voto possível é o “voto de verdade” em quem acreditam, nem que seja parcialmente.

O fato de que o Brasil tenha lutado muito para que estes indivíduos pudessem ter o direito de votar diretamente para Presidente, algo que sem dúvida eles deveriam honrar, torna-se menos grave do que desonrar os seus valores pessoais. Não existe nenhuma regra moral que os obrigue a escolher entre um tirano de extrema-direita que, para eles, é uma aberração por tudo que defende e pretende, e um pseudodemocrata continuísta, “lobo reconvertido” em pele de carneiro, representante de partido arruinador que não os convence apenas porque é universitário, foi ministro, prefeito e “parece” democrata. Não há universitários e políticos atrás das grades? Não há universitários e políticos que levaram países ao fundo do poço?

O conforto dos ‘não isentões’

Por outro lado, muitos não conseguem entender como é triste e difícil o caminho para chegar à decisão do voto nulo numa democracia. Alguns pensam que neste gesto existe “simulação”, outros “omissão”, outros ainda, “irresponsabilidade”. Acusam os (pejorativamente) chamados “isentões” de “ficarem em cima do muro” ou de “lavarem as mãos”. Seria bom se os “não isentões” soubessem que é sempre mais confortável acreditar no candidato que está melhor colocado ou pedir votos para o segundo apregoando a teoria do “menos pior”. É muito mais cômodo ter alguém em quem votar e formar a sua igrejinha, do que encontrar coragem para enfrentar o desconforto, as críticas e o isolamento que representa esta renúncia.

Até a próxima que agora é hoje e o voto branco ou nulo é tomar posição, sim! Para os que decidiram por ele, significa dar verdadeiro valor ao voto e não depositá-lo em alguém que não os represente em nenhum aspecto, em nenhuma perspectiva e em nenhuma hipótese. Mesmo “fantasma”, não contabilizado, sem qualquer serventia para o pleito eleitoral, este voto serve para mostrar que numa democracia as pessoas podem apontar claramente que não concordam com o que está sendo imposto a elas e ao povo do qual fazem parte.

O direito ao ‘nem-nem’

Como não sou astróloga, Thoreau, Mahatma Gandhi ou Martin Luther King – ou seja, não preconizo política pelos astros e não aplico ‘desobediência civil’ antes (e nem mesmo depois) que um governo seja eleito – para alguns amigos, leitores e familiares fica difícil entender como é que me declaro contra candidatos sem jamais revelar o que apoio.

Imagem: “nem-nem”, d’après Ben Vautier

Alguns acham que estou fingindo que não sou a favor de um ou de outro. Exigem um esforço de racionalidade para que eu defina o que, para mim, é impossível de definir e às vezes ultrapassa qualquer tentativa racional.

Assim, os que gostam da extrema-direita e acham que querer bombardear uma favela é apenas “politicamente incorreto”, pensam que me curvo diante da ditadura das pequenas éticas, deixando-me levar por argumentações sobre as quais “não se pode ser contra”. Que, indo contra aquele (chamado por alguns de Bolsolini, Bolsoignaro ou Bolsonazi mas) que, para mim, é apenas “xucro”, posso contar com o apoio do PCC, do PT e seus deliciosos asseclas como a doce Gleisi e o probo Lindbergh, do PSDB do honrado Aécio, de todo PSOL e de gente maravilhosa como Jean Willys, Maria do Rosário e Ciro Gomes. Ou de jornalistas isentos como Paulo Henrique Amorim. Acham também que, nesse caso, me alinho ideologicamente aos artistas limpos e honestos, e atores, que se beneficiaram com o dinheiro público por meio de inocente maracutaia envolvendo a Lei Rouanet. Chegam a imaginar que estou tentando garantir alguma vantagem para mim ou algum próximo com o auxílio do generoso PT. Querida organização criminosa cujas estratégias durante 13 anos, junto com as de outros partidos nos faz, e à nossa democracia, pagar um preço tão alto…

O apoio do desvairado que votou com revólver

Já os que gostam desta esquerda, pensam que indo contra Haddad, o poste, vulgo “codinome de Lula” (mas que eu chamo simplesmente de “parvo”), contra a vice pixote (mestra em lapsos que fazem a delícia dos psicanalistas, sendo que no último discurso ela termina “tomando o poder” igual a José Dirceu), posso contar com o apoio do PSL inteiro, de todos os partidos de direita que começam a sustentá-lo agora, do Exército, do Olavo de Carvalho, dos “antagonistas”, conservadores, armamentistas, fundamentalistas antilaicismo, 48% dos evangelistas, da burguesia brasileira “que está numa lógica mais para Hitler do que Blum” (como diz a expert francesa Armelle Enders), de machistas, racistas, homofóbicos, certa imprensa, dos fabricadores de fake news, de todos arcaístas de costumes que defendem a família, a tradição e a propriedade e cospem em tudo que não for isso; do desvairado que votou na urna com um revólver, dos que agrediram jornalistas, proibiram numa escola carioca o livro inspirado na história de um jornalista perseguido pela ditadura militar, rasgam volumes que abordam a temática dos direitos humanos e arte do Renascimento em Brasília, baleiam cachorro porque ele latiu durante uma carreata bolsonarista, dos que mataram o mestre capoeirista Moa com 12 facadas nas costas em Salvador, porque ele revelou que votou Haddad, e tantos, tantos outros.

O nosso direito ao ‘nem-nem’

Ora, eu não sou obrigada a não opinar para poder manter o meu voto secreto, como objetam. Posso perfeitamente opinar contra quem eu quiser sem que esteja defendendo um ou outro.

Portanto, reivindico, definitivamente, o meu direito apofático de ver a realidade pela sua negação. Se alguns teólogos empregam o apofatismo para chegar a Deus, eu também posso empregá-lo para dizer o que penso sem ser obrigada a escolher entre dois candidatos que considero, talvez em proporções diferentes porém, igualmente nefastos para o nosso país.

Até a próxima que agora é hoje e viva o nosso direito de ultrapassar o esforço racional e não ter que escolher entre a cólera e a peste! Não votar nem no autoritarismo “politicamente incorreto” defendido pelos reféns do populismo de extrema-direita, nem na pseudo socialdemocracia “politicamente correta” (e éticamente incorreta) defendida pelos reféns do populismo desta esquerda. Em ninguém!

Lição da queda

Caímos doentes, caímos apaixonados, caímos na calçada, caímos na política. Toda problemática está na queda.

Imagem: Yves Klein, “Salto no Vazio”, 1960.

Estava chovendo. Ao voltar de um exame de sangue que me estressou porque a enfermeira só encontrou a minha veia quatro picadas depois, pisei na calçada com sapatilhas macias, sem prestar atenção, e tropecei num desnível. Perdi o equilíbrio, fui arriando lindamente e caí. Pousei no chão como bailarina, sem machucadura alguma, porém um pouco arrependida da minha distração.

Logo apareceram dois cavalheiros que me acudiram com perguntas e recomendações, enquanto me colocavam em pé e colhiam a bolsa e o guarda-chuva, estatelados como eu. Sorri muito e agradeci não apenas a eles, mas intimamente à minha avó que me obrigou durante toda a infância e juventude a frequentar escolas de dança clássica e depois moderna. Nas vezes em que fui ao chão em minha vida – e não foram poucas – sempre arrumei uma forma de precipitar-me em desaceleração, de maneira coreográfica, protegendo joelhos e o resto.

‘Democradura’ à vista

Um escritor, não lembro quem, disse que sempre caímos. Caímos doentes, caímos apaixonados, caímos na calçada. Toda problemática, portanto – segundo ele – está na queda. Certamente. Caímos na política também. É o que vai acontecer se o resultado das eleições coincidir com as sondagens de ontem, segundo as quais – sem o ex-presidente – o candidato da extrema-direita persiste na dianteira. Faremos parte da cena caótica internacional, ao lado da Áustria, Polônia, Hungria, Itália, Venezuela, Turquia, Rússia, etc. Ou seja, teremos uma “democradura”, termo criado em 1987 pelo sociólogo francês Gérard Mermet, oximoro no qual se combinam palavras de sentido oposto: democracia e ditadura. Esta palavra é retomada constantemente por políticos, autores e jornalistas quando se referem às ditaduras camufladas ou trucadas. Democracia liquidada, sabemos, é caída total!

Quanto à minha queda de ontem, ao contrário, penso que foi muito útil para pensar sobre a questão em todos os seus ângulos e me perguntar que lição eu deveria tirar do acontecimento. Sim, porque já que nasceu de uma experiência, acontecimento sem preceito não faz sentido. Tanta gente viu maçãs caindo de árvores e não pensou em nada. Já imaginou se Newton não tivesse se perguntado qual era o ensinamento daquilo?

Para mim, a lição de Confúcio de que “a grande glória é saber levantar a cada vez que caímos”, serviu muito menos do que o ditado judaico que diz que para cair não precisamos de ninguém, mas para levantar é melhor ter um amigo”. O que teria feito estendida na rua, sem meus dois cavalheiros?

‘Cair’ é assunto sem fim

Lembrei, é claro, do terceiro capítulo do Gênesis, que – embora não fale dela – trata da “queda” que é quando Adão e Eva desobedecem o Criador e comem o fruto do conhecimento do bem e do mal. Depois pensei em Albert Camus, autor de um livro com este título, se bem que a verdadeira queda é de Meursault, seu personagem em “O Estrangeiro”. E pensei em Cioran, enorme escritor e filósofo romeno que adorava temas pessimistas e escreveu magníficamente sobre “The Crack-Up” de Scott Fitzgerald, que começa o livro com a frase simpática e otimista “Of course all life is a process of breaking down ….” (“Claro que a vida inteira é um processo de queda…”). Livro, aliás, que foi publicado por seu amigo, o grande Edmund Wilson, escritor e duro crítico literário que chamou “O Senhor dos Anéis” de J. R. R. Tolkien de “lixo juvenil”. Até o filósofo Gilles Deleuze adotou o termo “crack-up” de Fitzgerald para se referir à sua interpretação do “instinto de morte” freudiano. Enfim, “cair” é assunto sem fim tanto em literatura quanto em artes plásticas. E, nem sempre, baixo-astral.

Sei que “o melhor segredo para não cair é ficar sentado”, como dizia Stendhal, porém penso que as quedas foram inventadas para nos levantarmos e proteger. Até a próxima que agora é hoje, pena dos que nunca caem. Só quem cai pode se levantar!

‘Visões do incêndio’: a possível mostra da sucessão presidencial

Há 12 anos fui visitar a exposição “Visões do dilúvio” no museu Magnin, em Dijon. Me perguntei se o curador tinha se inspirado nas eleições brasileiras. Hoje o museu deveria estar apresentando “Visões do incêndio”.

 

Imagem: William TURNER (1775-1851). “O Incêndio na Câmara dos Lordes”(1835). Cleveland Museum of Art.

 

Em 2006, quando fui visitar a exposição “Visões do dilúvio” no museu Magnin, em Dijon, não pude deixar de me perguntar se o curador tinha se inspirado nas eleições brasileiras:

“Será que o povo que havia votado em Collor, Maluf, Clodovil, Ciro Gomes, Russomanno, ACM Neto – os cinco deputados mais votados no país – (ou aquele outro povo naïf que iria votar no “chefe da cacaria”*) estaria representado na visão premonitória das telas pré-rafaelitas?”

A minha pergunta tinha algo de ingênuo, mas continuo convencida de que aquela mostra sobre a inundação cataclísmica da superfície terrestre que está no Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, era também o preâmbulo simbólico do que iria acontecer no Brasil de hoje. Se julgarmos por esta pintura-emblema da exposição, de Jean-Baptiste Regnault, é possível que fosse um desfile do mau-gosto do renascimento até o século 19. Mas penso que o mau gosto atravessou os séculos, chegou ao século 21 e, hoje, floresce no nosso país. Hélas!

Jean-Baptiste Regnault, “O Dilúvio”, 1789 Paris, Louvre, Pinturas ©Foto RMN/Christian Jean – Na exposição “Visões do Dilúvio”.

Agora, ao lado de outras ameaças de teor igualmente incendiário feitas pelo “chefe”, quando se ouve de um pré-candidato à presidência do Brasil a “apologia ao uso de armamento de fogo, inclusive por civis”, como se isso fosse a única garantia de nossa liberdade, sendo que – segundo ele – um “Presidente tem que meter bala em vagabundo”, isto deveria inspirar ao curador do museu Magnin uma nova exposição: “Visões do incêndio”, com imagens aterrorizantes de Turner, Goya, Brueghel e tantos outros.

Sim, pois nos dois lados, esquerda e direita, trata-se no fundo de uma autorização da violência, inclusive guerra civil. Faroeste, bangue-bangue! Mentalidade arcaica de pirômanos que, é claro, não têm confiança nos poderes públicos, mas estão assoprando para ver o circo pegar fogo.

Na França, apesar de todos os problemas sociais, racismo, violência, terrorismo, etc., o porte de armas por civis é proibido desde o século 13, apenas maus cidadãos defendem o direito de possuir ou levar consigo uma arma de fogo, e na atualidade isto só é concedido se a pessoa “provar que está ‘específicamente’ em perigo”. Neste país civilizado, um apelo a “corretivos”, “exércitos”, “mortes” mas sobretudo  às “armas”, como o que foi feito ontem, dia 29, no Paraná, seria considerado “perturbação da ordem pública e social” e um pré-candidato bélico, certamente iria para a prisão.

De minha parte, a última convocação me faz pensar de imediato nas palavras de Groucho Marx: “‘inteligência militar’ é uma expressão contraditória.” Até a próxima que agora é hoje e, nessas horas, o voto certo e responsável é o mais importante de tudo!

 

*Cacaria = Grupo ou antro de ladrões. Sinônimo: quadrilha.

Francisco de Goya (1746-1828). “El Fuego en La Noche”, 1793.
Pieter Bruegel, o Velho (1525/1530 -1569). “Dulle Griet”, 1562. Musée Mayer van der Bergh, Antuérpia.

 

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Como ‘pôr ordem’ na cultura?

O perigoso programa cultural da candidata Marine Le Pen, que quer pôr “ordem na Cultura”, foi revelado há pouco. Segundo ele, que é a imagem mesma do fascismo, “todos os criadores devem se submeter a uma ‘arte oficial’, permitida pelo Estado”.

Quem fez (ou faz) galopar o Frankenstein tupiniquim?

Discute-se muito que o socialista François Mitterrand (1916-1996), presidente da França de 1981 a 1995, foi quem armou a estratégia deliberada de fortalecer a extrema-direita para desestabilizar a direita parlamentar. O galope da extrema-direita no Brasil seria igualmente fruto de “estratégia”?

O lixo e a política

Enquanto o “civilizado e polido” prefeito de São Paulo joga flores malcheirosas na rua em vez procurar uma lata de lixo, a candidata da extrema-direita à presidência da França joga mulheres na lata de lixo em vez de colocá-las na rua. O que é, onde está e para que serve uma lata de lixo, quando estamos na rua do progresso?

14 de Julho: o preço da liberdade

É a 26ª vez que assisto in loco a comemoração da queda da Bastilha e hoje particularmente também do centenário da entrada do Tio Sam na 1ª Guerra. E é a 1ª vez que vejo o Brasil, minha pátria original, nesse estado.

 

 

Masp, um mau exemplo para o povo brasileiro

Qualquer responsável por uma instituição cultural sabe que neste momento político de exceção – hora de “clamor popular” retrógrado e moralista – não é sensato apresentar exposições deste teor. Até na sabedoria milenar do I Ching, o oráculo chinês, existe um hexagrama que, em outras palavras, aconselha: quando o tempo não está propício, aguarda-se a poeira abaixar. Qualquer responsável digno sabe igualmente que se houver cerceamento das liberdades básicas e dos direitos civis, a sua instituição não deve jamais submeter-se.

Em psicanálise, o processo de caráter defensivo pelo qual um indivíduo apresenta uma explicação coerente ou moralmente aceitável para atos, ideias ou sentimentos cujos motivos verdadeiros ele não percebe (ou percebe, porém não quer que outros percebam), chama-se racionalização.

Foi exatamente o que aconteceu nas explicações fornecidas pelos curadores do MASP quanto à proibição da exposição Histórias da Sexualidade (até o dia 9 de fevereiro de 2018), que faz parte do foco temático do Museu este ano, para menores de 18 anos que não podem entrar nem mesmo se acompanhados dos pais.

Não há um só país civilizado que use de proibição taxativa em exposições de arte e, menos ainda, de controle de idade. Que país é este, onde um aviso na porta e uma indicação etária não sejam suficientes para alertar se uma exposição é inconveniente para crianças?

Mesmo assim, em vez de encontrar alternativas expográficas (agrupando as obras mais problemáticas em espaços exclusivos) para liberar o acesso a todas as idades ou, em caso de impossibilidade, cancelar ou adiar esta mostra até segunda ordem, questionando e se insurgindo contra a pressão do Juizado de Menores, os curadores declararam: “precisamos aceitar a proibição, atendendo a três requisitos que caracterizam atividades para maiores de 18 anos”.

O paradoxo não para aqui. Os curadores disseram ainda que “só tiveram duas opções para realizar a mostra: abrir mão de quase um terço das obras ou transformar a faixa etária numa questão política”, sendo que escolheram a segunda para “não perder a pesquisa”. E clamaram ao público para que este “saia às ruas em protesto”, como se fosse possível transformar uma medida injusta, já aceita e assumida pelo museu, em debate público.

Na verdade, por uma questão de coerência e lógica, se não fosse possível encontrar formas museológicas de contornar o problema (o que é pouco provável visto o peso institucional que tem este museu), os responsáveis deveriam ter optado por abrir mão da totalidade da mostra, renunciar circunstancialmente à sua pesquisa (que, sem dúvida, poderia ser utilizada mais para frente) e aí, sim, transformar este caso em uma gigante questão política e de sociedade!

Ao contrário, escolheram trabalhar numa exposição “na companhia de advogados” (?!), abrir mão de mediadores para mostrar arte a alunos do Ensino Médio, e submeter-se covarde e oportunisticamente à aplicação arbitrária de requisitos que podem servir a outras atividades, porém certamente não são compatíveis com as artes plásticas. O “nudismo” por exemplo.

Não se trata de “culpar” instituições, trata-se de chamá-las às responsabilidades básicas que devem ter com o público, a sociedade e o país. Não é somente à classe artística e à sociedade que cabe pressionar o governo! As pessoas devem ir às ruas, sim. Mas as Instituições precisam ser a primeiras a descer de suas confortáveis e gratificantes torres de cristal para reclamar garantias de direitos sociais e civis, a fim de que o vírus obscurantista não se espalhe a outras áreas, além das artes plásticas.

Como já escrevi no artigo anterior, nos tempos da ditadura – eu que jamais pertenci a algum partido, nunca me considerei de esquerda ou de direita, tirando de cada lado o que julgava mais justo – fui pessoalmente protegida pelo Estadão contra as arbitrariedades da repressão. Desde então, é a primeira vez que vejo o mesmo tipo de repressão repetir-se na história do nosso país. E não como farsa.

Até a próxima, que agora é hoje e se representantes de um museu de prestígio como o MASP vêm a público com racionalizações para desculpar o fato de que a instituição submeteu-se, não tomou qualquer atitude, não se manifestou e tampouco se revoltou contra essa medida de exceção (jamais usada em museu brasileiro pois é, inclusive, anticonstitucional), como exigir a mesma coisa do povo? Como pedir que ele saia às ruas?

“Himeneu travestido durante uma cerimônia a Priapo” é o título desta obra de Nicolas Poussin (1594-1665), pertencente ao Masp, que foi restaurada e, em 2009 recuperou o falo camuflado de Priapo, o deus grego da fertilidade, durante muitos séculos. O quadro, que está na exposição “Histórias da Sexualidade”, pertenceu à família real espanhola e é provável que as camadas de tinta que recobriam esta parte da tela tivessem sido feitas no século 18, quando a Espanha era um país muito católico e puritano. Com as guerras napoleônicas, a obra caiu nas mãos de aristocratas ingleses e foi vendida em seguida a ao colecionador francês Georges Wildenstein que, por sua vez, a vendeu em 1953 a Francisco Assis Chateaubriand, fundador do MASP, em 1947. Foto – Paulo Mauricio Lima AFP
EXEMPLO DE TOLERÂNCIA E ABERTURA. Recusada pelo Louvre que a julgou brutal demais, a escultura gigante que evoca um homem copulando com um animal, foi finalmente exposta no Centro Pompidou – lugar mais tolerante e aberto à arte contemporânea. Como costuma ocorrer em toda parte, “Domestikator”, trabalho do holandês Joep Van Lieshout, foi mal interpretado. Segundo o diretor do Pompidou, a obra trata de “utopia” e para o escultor “ela representa também, simplesmente, a questão da ‘domesticação’ na sociedade de hoje.”

 

Nu no MAM: as reações reveladoras

João Doria, prefeito de São Paulo, é capaz de declarar publicamente (sem conhecer o percurso, a obra e a história da arte em geral) que o trabalho de um artista “é uma cena libidinosa”. Não sei e não é minha especialidade explicar a razão pela qual toda a baixeza que reside calada nos recônditos das sociedades só vem à tona e levanta a voz nos períodos mais podres de sua história. Mas é um fato.

Antes da segunda guerra, o exército francês era considerado como um dos mais potentes do mundo. Em 1940, quando a França entregou-se em rendição aos alemães – época em que o seu povo acabou perdendo confiança nas instituições, deixou de orgulhar-se de seu país e começou até mesmo a colaborar com o inimigo – testemunhou-se o início de um declínio que durou por muitos anos. A sociedade francesa revelou, então, o que tinha de pior: delações, racismo, intolerância, intimidação, clima de ódio, injustiça, polarização política entre colaboracionistas e resistência… Polarização, diga-se de passagem, já herdada do Caso Dreyfus que dividira a França por longo tempo, durante o final do século 19.

Não sei e não é minha especialidade explicar a razão pela qual toda a baixeza que reside calada nos recônditos das sociedades só vem à tona e levanta a voz nos períodos mais podres da história. Só sei que com o advento de Internet e das redes sociais, as ocorrências deste fenômeno são multiplicadas por milhões, tomam uma proporção devastadora e acabam revelando não só uma espécie de “imbecilidade de massa”, como também  a própria degenerescência de um país – que é o que está acontecendo hoje, infelizmente, no Brasil.

País cujo o prefeito de sua cidade mais importante é capaz de declarar publicamente (sem conhecer o percurso, a obra do artista e a história da arte em geral) que o seu trabalho “é uma cena libidinosa”. Ora, onde está a “afronta à liberdade de outrem”, como ele diz, numa apresentação que não possui nada de erótico, violento, sexual, perverso ou ofensivo – em que um homem nu encontra-se deitado como morto, ou dormindo, sobre as costas?

Claro que nem tudo pode ser mostrado às crianças. Cabe aos curadores usar a estratégia da “classificação indicativa” (coisa que não é censura, propus no artigo anterior e o Ministério da Cultura agora também defende) e aos pais de decidirem o que é melhor para os seus filhos. Onde está a ofensa, então, se a sala onde ocorria a performance, segundo os organizadores, estava “devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a nudez artística” e, mesmo com esta advertência, uma mãe decidiu levar a sua criança para assistir? Porque tanta indignação se a criança, com a permissão materna, tocou no homem como para ver se ele estava vivo ou dormindo, sem que se tenha podido testemunhar neste gesto, em nenhum momento, qualquer malícia ou intenção “sexual”?

Ou é com fins eleitoreiros que o nosso prefeito junta-se oportunisticamente aos neomoralistas integristas, os “talibãs” domésticos de plantão que, por sua vez, evidentemente também se unem a certas bancadas religiosas do nosso poder legislativo?

Em períodos de degenerescência política e social, qualquer fato pode tornar-se objeto de ódio e injustiça

A performance deste artista coreógrafo (que já realizou muitas outras na mesma linha) interpreta a célebre obra interativa “Bicho” de Lygia Clark – na qual o público é convidado a interagir mexendo em seus braços, pernas e no restante do corpo para alterar a sua posição como se ele mesmo fosse a escultura articulada da artista, falecida em 1988. Não há nada de novo, nem de excepcional em apresentações como esta. Yves Kein, John Cage, o grupo Fluxus e seu iniciador George Maciunas, Marina Abramović, Ulay, Vito Acconci, Joseph Beuys, Chris Burden, Allan Kaprow, Yayoi Kusama, Hermann Nitsch,Yoko Ono, Orlan, Gina Pane, Niki de Saint Phalle, Ben, Wolf Vostell, Ivald Granato, Gilbert & George e suas críticas à sociedade inglesa e à religião, são apenas poucos exemplos. Vários deles se apresentaram ou apresentaram personagens nus em seus trabalhos ao vivo, em diversas partes do planeta.

Se pessoas nuas não são “tabu” em tribos indígenas, são menos ainda em espetáculos, performances (ou pinturas) de museu. No entanto, as reações provocadas, em curto espaço de tempo, pela exposição “Queermuseu”, a peça teatral “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, e a presente performance “La Bête” no MAM, mostram como, em períodos de degenerescência política e social, qualquer fato torna-se “objeto de projeção”, derivado direto do “objeto transicional” que alimenta o fogo das paixões, quase como um vaticínio ou um apelo à guerra civil virtual.

Hoje, no Brasil, as intimidações morais se aproximam daquelas que se viu durante o declínio da sociedade francesa, quando esta se encontrava perdidamente desconfortável depois da derrota na segunda grande guerra. Até a próxima que agora é hoje e quando uma parte das pessoas começa injustamente a considerar arte como “degenerada”, isto sempre significa que são estas próprias pessoas que estão em vias de degeneração!

 

 

Que vergonha, senhores!

O fechamento da exposição “Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira” no Santander Cultural na capital gaúcha, é um dos raros casos no mundo da arte, em que todos – sem exceção – pisaram na bola.

“O tato é a imaginação do que os outros podem sentir.
O fato de ele nascer da imaginação explica porque é tão raro.”
Charles Dantzig

Todos pisaram na bola. A começar pelo curador Gaudêncio Fidelis que por ingenuidade, provocação, irresponsabilidade, falta de tato ou – como escrevi no meu post “O que é um curador?” – por se sentir mais real do que o rei, mais artista do que os artistas, exagerou em suas “obsessões, temas preferidos, subjetividade individual, possivelmente também integrando ao trabalho – como fazem outros curadores – a sua experiência pessoal”. Isso, porém, de maneira centrada, egoísta, arrogante e desrespeitosa. Como se o público, com as suas diferentes sensibilidades, muitas vezes com os seus às vezes inevitáveis e perfeitamente compreensíveis limites, não existisse.

Por mais pessoal que ela seja, uma exposição não é feita para si. Ela é destinada, antes de tudo, a um público de diferentes faixas etárias e sociais. Em qualquer exposição do mundo, em Paris, Nova York, Tóquio ou Berlim, as obras inadequadas a crianças ou que podem ferir o sentimento de certos adultos, são isoladas com um aviso. O público fica livre para escolher visitar estes “espaços reservados” ou não.

Na exposição de Jeff Koons, no Centro Pompidou em Paris, por exemplo, o curador teve este cuidado. Quando o público, depois de ler a comunicação, escolhe por sua própria vontade transpor as barreiras para ver algo que sabe que vai revoltá-lo, já não pode reclamar porque a escolha foi dele. É por esta razão que jamais se viu uma “exposição explícita” em países civilizados. Que vergonha, senhor curador!

Desrespeito de todos os lados…  Ninguém se salva nessa história.

O banco Santander pisou na bola. Depois de ter acolhido a mostra, cedeu à pressão das “críticas” e de seus cofres-fortes. Voltou atrás, numa atitude francamente covarde, contraditória e arbitrária (sem consultar o curador ou lhe dar a oportunidade de rever a montagem deslavada) “pedindo desculpas a todos os que se sentiram ofendidos”. Como se os banqueiros tivessem sabido no último minuto que algumas das obras da “Queermuseu” no Santander Cultural, feita com a captação de R$ 800 mil por meio da Lei Rouanet, “desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a sua visão de mundo”. Que vergonha, banco Santander!

Parte do público também pisou na bola, com uma enorme violência, sobretudo nas redes sociais. Os germes da intolerância e preconceito subiram à tona como para nos lembrar que o conceito de “arte degenerada” não pertence apenas aos nazistas. O MBL pisou na bola gravemente. Comemorou a censura como uma “vitória da pressão popular”, alguns tecendo um amálgama oportunista, vil e demagógico entre manifestações artísticas livres, partidos e ideologias. O movimento pediu até mesmo que os correntistas do banco, encerrassem as suas contas. Trata-se de uma nova forma de macarthismo na “caça às bruxas”  ou de sovietismo na “caça aos burgueses”. Dá na mesma, caça é caça. Em  vídeo com mais de 400.000 visualizações, um representante primitivo desse retrocesso visita o centro cultural com insultos dignos dos fascistas nas piores ditaduras. Que vergonha, facção e minoria de pequenos déspotas!

Até a próxima que agora é hoje e, mesmo para mim que nunca fui nostálgica, o Brasil da minha infância parece um paraíso!

A exposição ‘Queermuseu’, no Santander Cultural, em Porto Alegre