Quando ataque terrorista tem a ver com o peixe

Hoje houve mais um atentado terrorista, assassinato e tomada de reféns, no sul da França, perpetrado desta vez por um franco-marroquino. Apesar de sua opacidade aparente, a questão é cristalina.

O supermercado onde faço as minhas compras desde 2015, ano do atentado de 13 de novembro, chama-se Super U. Jamais entro lá sem alguma preocupação. Aliás, jamais entro em qualquer lugar público em Paris com sentimento diferente. Hoje, houve mais um atentado terrorista, assassinato e tomada de reféns justamente no Super U, no sul da França, perpetrado desta vez por um franco-marroquino. O presidente Macron acaba de declarar em Bruxelas que o perigo do terrorismo persiste, mas agora é endógeno. Não é mais comandado do Exterior.

Apesar de sua opacidade aparente, a questão é cristalina: os jovens magrebinos se iniciam como simples delinquentes (tráfico de drogas, roubo, etc.) e são presos. Uma vez na prisão – barril de pólvora prestes a explodir, com uma população carcerária de mais de 70 mil pessoas -, são cooptados pelas redes salafistas e se radicalizam, dando continuidade ao mesmo ódio desenfreado pela França e pelos franceses. Ódio este que se prende ao passado colonial, é claro, mas também ao ostracismo que funciona como um círculo vicioso: quanto mais ódio, mais ostracismo e mais ódio. Logo tornam-se criminosos comuns podendo “eliminar” quem odeiam sob o pretexto “nobre” da causa jihadista e ainda passam por heróis aos olhos dos outros islamitas radicais.

A religião muçulmana é a mais fácil do mundo. Basta a pessoa declarar que acredita em Alá. Depois, é só alegar lealdade ao grupo Estado Islâmico (EI), gritar “Allahu Akbar” (Deus é o maior, em árabe) e, assim, maquiada e fantasiada de jihadista, cometer uma carnificina sob aura religiosa quando, na verdade, não é mais do que um pequeno facínora de periferia.

Retribuição

Hoje, sexta-feira, foi dia de peixe. Meus avós, imigrantes europeus no Brasil, jamais permitiram que comêssemos carne neste dia. Consideravam falta de respeito trair os hábitos do país cristão que os recebera, além de pensarem que era de mau gosto fazer isto diante de pessoas que, por motivos religiosos diferentes dos deles, preferiam o peixe neste dia da semana.

Esse é o meu costume até hoje, assim como ficou gravado em minha educação o forte sentido moral de “direito e dever”, segundo o qual o primeiro sempre deve se equivaler ao segundo. Em relação ao seu trabalho artístico*, a minha avó, já naturalizada brasileira, dizia:

“O que realizo é também uma forma de retribuir a este país o que ele me deu. ”

Claro que não dá para comparar, mas – penso que, em nossa época, se os muçulmanos da França pudessem ter o mesmo reconhecimento, amor e ausência de ódio, igual vontade de integração, consideração, gosto e atenção com a aculturação que os meus avós – os franceses certamente seriam mais respeitosos, tolerantes e, aqui, não teríamos chegado aonde estamos.

Até a próxima, que agora é hoje!

Vídeo Estadão: “Por que a França virou alvo de ataques?”

  • Obra escultórica que, no final da vida, Felícia Leirner doou ao governo do Estado e se encontra agora reunida no museu ao ar livre que leva o seu nome, em Campos do Jordão.


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Apesar de Sting, Paris não é mais uma festa

Romain Naufle, o apaixonado “médico dos violões”, estava no Bataclan para festejar com amigos. Morreu no dia 13 de novembro de 2015, crivado de balas dos terroristas que ensanguentaram Paris. Desde que a porta de ferro de sua lojinha permaneceu cerrada e cobriu-se de flores e mensagens, a nossa vida não é mais a mesma.

Esperando ‘Miss Liberty’, a homenagem às vítimas do terrorismo

m Paris, aguarda-se a escultura que será colocada este ano, em frente ao Palácio de Tóquio, em homenagem às vidas inocentes ceifadas pelos atentados terroristas.

14 de Julho: o preço da liberdade

É a 26ª vez que assisto in loco a comemoração da queda da Bastilha e hoje particularmente também do centenário da entrada do Tio Sam na 1ª Guerra. E é a 1ª vez que vejo o Brasil, minha pátria original, nesse estado.

De Paris ao vivo e em HD

Apareceram caminhões do exército, carros de polícia, bombeiros e ambulâncias. Enquanto alguns militares de uniforme bloqueavam as ruas e entravam nos cafés, outros avançavam com armas, e os policiais vestiam os seus coletes antibalas.

Prêmio Marcel Duchamp 2016 é atribuído a Kader Attia

O que mais surpreende neste artista franco-argelino é a sua capacidade de refletir sobre a consciência individual e coletiva num mundo em crise. O que ele faz tem talvez mais a ver com a etnologia, antropologia, geopolítica e história, do que com as artes plásticas em seu sentido tradicional. Colonização, guerras, terrorismo, religiões, ideologia, política, pintura e arquitetura são os temas que disseca com maestria.

 

 

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Feminismo e machismo: lados da mesma moeda

Por coincidência, no dia 9 de Janeiro, data em que foi publicado na França o controvertido manifesto que pede a “liberdade de importunar para preservar a liberdade sexual”, comemorava-se os 110 anos do nascimento de Simone de Beauvoir. A mesma que escreveu e assinou outro manifesto chamado “Eu abortei”, em 1971, junto com Catherine Deneuve, Marguerite Duras, Françoise Sagan e mais 340 mulheres, quando esta ação ainda era passível de julgamento penal e prisão. Beauvoir, aliás, em uma das cartas apaixonadas que enviou ao amante, o escritor americano Nelson Algreen, entre 1947 e 1964, afirmou que “adoraria lavar as cuecas dele”. Eis uma grande, desprendida e exemplar feminista. Talvez não conseguisse salvar da dissensão a futura relação homem-mulher, mas certamente teria assinado o manifesto.

 

Imagem: Cartas de Simone de Beauvoir a Nelson Algreen, um amor transatlântico (1947-1964)

 

A presente declaração não foi escrita nem pensada por Catherine Deneuve, mas conceituada e redigida por 5 intelectuais, apoiada por algumas celebridades, entre as quais a atriz, e assinada por mais de cem mulheres respeitáveis de todas as áreas da cultura. Em resumo, ela começa dizendo que “o estupro é um crime” e em nenhum momento defende ou relativiza o assédio. Deixa claro que “a paquera insistente ou desajeitada não é um delito” e que a “galanteria, de forma alguma, pode ser considerada uma agressão machista”. O texto também não denigre a “palavra liberada” depois do caso Weinstein, embora deplore (com toda razão) o “risco de puritanismo”, moralização e  estandardização, aqueles “modelos únicos de comportamento” que caracterizam a “americanização” de certas sociedades.

O próprio presidente Emmanuel Macron, no dia 25 de Novembro do ano passado, por ocasião do “Dia Internacional da eliminação da violência contra as mulheres”, chamou a atenção para o perigo de se cair num “cotidiano de delações”, e de que “cada relação homem-mulher ficasse sob a suspeita de ‘dominação’, como uma proibição”. O manifesto deste mês, portanto, pareceu límpido, ponderado, digno, respeitoso e cheio de bom senso. Além de ter sido corroborado pela tribuna do New York Times, de Daphne Merkins, uma antifeminista brilhante que manifestou praticamente as mesmas ideias.

Quanto à preocupação das signatárias francesas com a moralização que também codifica cada vez mais a criação artística e literária, em nome do que é ou não conveniente, ela é igualmente legítima para todos nós – críticos, artistas, atores, jornalistas, escritores etc., em toda parte. Quando se trata de “normalizar” a arte, isto não tem outro nome: chama-se censura. Reescrever a ópera Carmem, que transforma a heroína em assassina de Don José, em nome da luta contra as violências sofridas pelas mulheres, não seria igualmente uma violação do artista e de sua obra, em nome do “bem”?

Nem tudo é luta o tempo todo…

Na carta do jornal Le Monde, contudo, o que provocou tal bafafá foi apenas uma frase mal explicada e mais alguns mal-entendidos em desastradas declarações públicas. A tribuna foi acusada, injustamente, de promover a “banalização das violências sexuais” e o desprezo pelas mulheres. Os detratores foram incapazes de assimilar um “outro olhar” sobre a questão. E o linchamento público de uma atriz e mulher da envergadura de Catherine Deneuve, com posições irrepreensíveis, e cuja experiência dramática e literária atravessou um século pelas mãos dos maiores cineastas do mundo, não pode ter sido mais injusto e ignóbil.

Ora, a frase ultrajante estava simplesmente no pedido da “liberté d’importuner” (liberdade de importunar), que deve ser traduzida segundo o seu sentido em francês e não foi. Nesta língua, ela significa “liberdade de galantear e seduzir, inclusive por contato”. Nada a ver com assédio e importunação tal como conhecemos, que é crime. Trata-se da famosa “sedução à la française”. Além da incompreensão semântica, talvez fosse uma certa histeria, misturada com provincianismo e moralismo, que impediu o entendimento de algo que, afinal, é bastante simples. Nem tudo é luta o tempo todo…

Não representou uma surpresa, portanto, o fato de que o manifesto tivesse chocado algumas feministas radicais, assim como certas hipócritas do #MeToo (que denunciaram Weinstein depois que conseguiram o que queriam) ou do #BalanceTonPorc, as “donas da doxa”, as ideólogas e “bem-pensantes” e sobretudo as arrogantes egocêntricas que pensam que falam em nome da humanidade enquanto que só sabem olhar o próprio umbigo.

Atenção amorosa não mata

Pelo jeito, vai demorar bastante ainda para que certas brasileirinhas, francesinhas e americaninhas que se julgam melhores do que as outras e querem impor sua vontade compreendam que o que elas acham e sentem não é necessariamente o que outras mulheres acham e sentem. Umas gostam de mão no joelho e beijo roubado, outras não. E nem sempre isso é crime! Galantear (com maior ou menor delicadeza, com ou sem insistência) ou passar uma cantada não é o mesmo que assediar e menos ainda do que estuprar. “Importunar” de verdade também é outra coisa (e dá prisão!).

Atenção amorosa não mata e não machuca mulheres fortes. Homens sendo livres para cortejar, as mulheres serão livres para gostar ou não, e mesmo se defender, de seus métodos de sedução. Existem diferentes formas de sexualidade, erotismo e relação. Seria preciso que as puritanas com mais neurônios lessem urgentemente L’érotisme (o título do volume, em português, é em francês) de Georges Bataille. Já para as que gostam de Cinquenta Tons de Cinza, a recomendação é André Pieyre de Mandiargues (Narrativas eróticas). Para as demais, fica o delicioso filme Beijos roubados de Truffaut, baseado em O Lírio do Vale, romance de Balzac. Não é porque uma mulher prefira dar um tapa na cara de quem lhe rouba um beijo, que ela tem o direito de proibir os homens em geral de fazerem isso e certas mulheres de gostarem. O direito de amolar existe, sim.

Claro que há casos horripilantes. Com as mulheres que sofreram reais violências só podemos ser solidários. E com os criminosos que as brutalizaram, não podemos pedir outra coisa do que “tolerância zero”. Porém, existem mulheres que têm o direito de não sentirem que uma sedução mais pesada seja um traumatismo eterno. De não sentirem que são necessariamente uma isca, uma vítima, pois sabem que o aprisionamento neste “estatuto de fragilidade” pode ser uma armadilha.

Não restará pedra sobre pedra na relação homem-mulher

Feminismo e machismo tornaram-se lados da mesma moeda. Nada de novo sobre a Terra. Trata-se de mais um círculo vicioso. Desde o fim do século 19, com raízes no Iluminismo do século 18 e mesmo antes, em outros contextos históricos, o machismo engendra o feminismo que, por sua vez, paradoxalmente, gera mais virilidade agressiva e vice-versa. Com o passar do tempo, é uma subida aos extremos da violência. Uma dinâmica divergente onde os argumentos de um lado afastam o outro, provocando ações cada vez mais hostis e/ou coercivas nos dois campos, em direção à total dissensão.

Até a próxima, que agora é hoje – felizmente ainda não chegamos lá – e devemos fazer tudo para que isto não aconteça pois, o final será a fratura. Não restará pedra sobre pedra na relação homem-mulher, apenas a indiferença, o silêncio glacial da entropia!

“O Estupro de Hilas pelas Ninfas” Arte românica da primeira metade do século IV. Museu Nacional Romano, Palácio.
“Hilas e as Ninfas”(1896), John William Waterhouse (1849–1917), Manchester Art Gallery

14 de Julho: o preço da liberdade

É a 26ª vez que assisto in loco a comemoração da queda da Bastilha e hoje particularmente também do centenário da entrada do Tio Sam na 1ª Guerra. E é a 1ª vez que vejo o Brasil, minha pátria original, nesse estado.

Vendo os presidentes francês e americano lado a lado, tão diferentes e depois de o segundo ter se mostrado ferino com o primeiro, a palavra “magnanimidade” pairou nos meus pensamentos. Apesar de a França acordar a diplomacia que dormia até agora, e de precisar dos Estados Unidos para inúmeras questões, como a luta contra o terrorismo, os conflitos no Oriente médio, Síria e Iraque, a oposição foi contra o convite de Emmanuel Macron a Donald Trump, evidentemente. Assim como se opôs à visita de Vladimir Putin, já que este havia tentado desestabilizar as eleições, aprovando de certa maneira a candidata do FN (Frente Nacional), partido da extrema direita. Mas a oposição hoje, na França, representa a velharia intolerante e dogmática que ainda resta e este país não quer mais. Não têm estatura para saber que não leva a nada recusar o diálogo, e que a história é sempre maior do que qualquer governo.

Precisamos de indivíduos magnânimos e livres que saibam virar a página e esquecer o que deve ser esquecido. Uma pessoa assim é a generosa, aquela que perdoa com facilidade, mostra-se indulgente com o próximo. Alguém que, a despeito de todos os riscos e perigos, age ou pensa desinteressadamente, com vistas a servir os outros, um país ou a encarnar um ideal. Afinal, o mundo é uma passagem. Ele muda, os humanos se transformam e, com tal rapidez que, mesmo as coisas que foram ditas ou as ideias que tivemos na semana passada, hoje podem não valer mais nada.

Mesmo certos jovens brasileiros parecem pequenos velhos

Isto me fez concluir que a grande tragédia (e atraso) da minha primeira pátria hoje se deve, talvez, justamente, à falta deste olhar e desta grandeza. Vemos no Brasil engajamentos congelados em tempos que não existem mais, ideologias de direita e esquerda nas quais apenas os cegos ou os idiotas persistem.

O drama que os brasileiros vivem hoje não está apenas na corrupção e podridão de certas instituições. Ele se deve sobretudo ao espírito de ortodoxia e à mesquinhez ideológica de todos os tipos, fantasiados de uma artificial generosidade, ainda que em direção dos menos favorecidos. Mesmo muitos jovens brasileiros, tanto de esquerda quanto de direita, parecem pequenos velhos imutáveis dentro dessa conformidade absoluta com as normas ou padrões doutrinários.

Os menos favorecidos não carecem de ideologias. Os mais favorecidos, tampouco. Todos necessitam apenas de países fortes. E países fortes precisam apenas de ética, determinação, educação, cultura, eficiência, inteligência e… magnanimidade.

Até a próxima que agora é hoje e viva o 14 de julho!

Rasto deixado pela Patrulha Francesa, na comemoração da festa nacional, dia 14 de julho de 2017. Foto (zoom 10x) tirada de minha janela, às 10h40.

 

Claude Monet, “Festa Nacional na Rua Montorgueil” (1878)

 

 

Movimentos, sim!

(…) O Brasil é um caso notório de subdesenvolvimento partidário (…) Não iremos a lugar algum se as elites dos diversos setores não assumirem suas responsabilidades (…). Frases pescadas no artigo de Bolívar Lamounier, hoje, dia 20, no Estadão, que cita Fernando Gabeira na, também esclarecedora, matéria de ontem, dia 19. O que não está dito, como deveria, no texto do segundo e não foi acatado pelo primeiro (que afirma “não saber o que isso significa”), é que “movimentos” não são destinados a ficar ou “representar”.

Movimentos constituem apenas um primeiro passo. A sua vocação, em segundo tempo, é a sua transformação em partidos, como o “La République En Marche” (LREM), na França. Partido este que não poderia ter nascido senão de um movimento fulgurante, por meio da interação, da “troca” genuína entre seu líder e o povo.

Se, como lembra Gabeira, na década de 1980, no Brasil ou na França, as pessoas se indagavam “se os partidos não eram uma forma de organização historicamente condenada”, isso não teve, como ele deduz erroneamente, nenhuma influência (nem remota) “na forma como o atual presidente, Emmanuel Macron, se elegeu”. Ele se elegeu pois conseguiu impor a imagem de um candidato fora do sistema, portanto sem partido político, mas que assumiu plenamente a necessidade de criar o LREM, logo em seguida, com a função de fazer eleger representantes nas legislativas.

Claro que “a democracia representativa é o único modelo sério e consistente de democracia e os partidos lhe são essenciais”, como diz Lamounier. No entanto, em países que são “casos notórios de subdesenvolvimento partidário” nos quais agora “o processo de decomposição é irreversível”, podemos (e devemos) pensar em movimentos, sim.

Os valores da República francesa mudaram. Antes tínhamos “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Como “Fraternidade” não possui mais o mesmo sentido, hoje – com a atual visão de mundo – a nova divisa será “Liberdade, Igualdade e Benevolência”. Sim, adotar “benevolência” é a grande mudança que deverá orientar as gerações futuras, e não só da França. Movimentos em novos moldes, com ações participativas, à escuta real da população, podem surtir efeitos inimagináveis e terminar em partidos fortes, com formas bem definidas, em qualquer país. A prova aí está!

Até a próxima que agora é hoje, dia de lembrar que, enquanto assunto, arte e cultura só são prioridades em país vitorioso!

Como funcionou o movimento ‘En Marche!’

Foi um trabalho de proximidade. Perseverante, tranquilo, bem estudado, respeitoso do “outro”, mesmo que suas ideias fossem divergentes. Houve até mesmo programas de formação para os voluntários, que os ensinava como encarar, sem agressividade ou violência, as objeções e as propostas discordantes. Alta civilidade! Em seus meetings, Macron pediu que não se vaiasse os adversários. Sabe-se que ética e probidade começam com boa educação. Não foi o que testemunhamos até agora em nosso país.

Tudo começou com o “porta a porta”, um procedimento inédito. Foram recolhidas por voluntários, vestidos com as camisetas do movimento, 100 mil conversas sobre o cotidiano dos franceses. Enquanto isso, 400 experts em todos campos formaram grupos de trabalho. Fez-se um diagnóstico das problemáticas, iniciativas e energias, a partir da chamada “Grande Marcha” e das reflexões dos grupos de experts. Formaram-se 3 mil e 400 comitês locais, ateliês para a discussão dos temas e planos de transformação, a partir das primeiras constatações e propostas concretas.

Simultaneamente desenvolveu-se o trabalho por Internet: houve a fundação (online) do movimento e a formação de todas as redes e plataformas disponíveis, com pormenorização didática do programa, sistema simplificado de adesão, mensagens individualizadas, vídeos instantâneos, programação de eventos, “caminhadas” de conscientização do público em ruas e espaços públicos. As visitas de “porta a porta” continuaram até as eleições. Toda a informação e o resultado dos trabalhos foi convergindo à equipe próxima de Emmanuel Macron que, finalmente, pôde propor um plano definitivo de transformação do país, ou seja, um plano que partiu de baixo para cima, da forma mais democrática possível.

 

Quem fez (ou faz) galopar o Frankenstein tupiniquim?

Discute-se muito neste momento que o socialista François Mitterrand (1916-1996), presidente da França de 1981 a 1995, foi quem armou a estratégia deliberada de fortalecer a extrema-direita para desestabilizar a direita parlamentar. O galope da extrema-direita no Brasil seria igualmente fruto de “estratégia”?

 

Eleições 2017: Marine Le Pen e Emmanuel Macron no debate de ontem, 3 de maio, antes do segundo turno. Crédito: Eric FEFERBERG / POOL / AFP

 

Não que o socialista Mitterrand admitisse ter feito isso por “maquiavelismo”, mas porque acreditava que o Front National não alcançaria nunca nenhuma importância. Erro dele, de qualquer maneira. O fato é que hoje na França, graças a isto e a outros fatores, a direita explodiu (ou implodiu), mas o socialismo também. Estão fora do páreo, pelo menos até as eleições legislativas. A direita e os socialistas são os pais desse Frankenstein galopante da extrema-direita (primo da extrema-esquerda) que é fruto e parasita do sistema político francês. E que concorre mais uma vez, porém de forma jamais vista, à presidência da França.

Até a próxima, que agora é hoje e já que é também por aproximações e paralelos que conhecemos melhor a nossa própria história, da qual a arte e a cultura também dependem, pergunto: quem é responsável pelo galope do Moderno Prometeu tupiniquim, com ou sem partido, nos últimos 6 anos?

 

Frankenstein tupiniquim

 

Nota – Aos interessados francófonos que queiram aprofundar os seus conhecimentos sobre a crise da Quinta República Francesa e a reconstrução da paisagem política na França, a última emissão do programa “Répliques” do filósofo Alain Finkielkraut, com a participação do economista Jean-Claude Casanova (que fundou a revista “Commentaire” com Raymond Aron), e o filósofo e professor de ciência política Philippe Raynaud.

Nota 2 – Aos que apreciam “gavetinhas” e pensam que este blog está na “categoria errada”, aviso que arte e CULTURA são parte indissolúvel da história e portanto da política. Aliás, o programa (político) “Répliques” do filósofo Alain Finkielkraut, cujo link publico acima, também pertence à categoria CULTURA, e se ouve na RÁDIO FRANCE CULTURE.

 

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