Masp, um mau exemplo para o povo brasileiro

Qualquer responsável por uma instituição cultural sabe que neste momento político de exceção – hora de “clamor popular” retrógrado e moralista – não é sensato apresentar exposições deste teor. Até na sabedoria milenar do I Ching, o oráculo chinês, existe um hexagrama que, em outras palavras, aconselha: quando o tempo não está propício, aguarda-se a poeira abaixar. Qualquer responsável digno sabe igualmente que se houver cerceamento das liberdades básicas e dos direitos civis, a sua instituição não deve jamais submeter-se.

Em psicanálise, o processo de caráter defensivo pelo qual um indivíduo apresenta uma explicação coerente ou moralmente aceitável para atos, ideias ou sentimentos cujos motivos verdadeiros ele não percebe (ou percebe, porém não quer que outros percebam), chama-se racionalização.

Foi exatamente o que aconteceu nas explicações fornecidas pelos curadores do MASP quanto à proibição da exposição Histórias da Sexualidade (até o dia 9 de fevereiro de 2018), que faz parte do foco temático do Museu este ano, para menores de 18 anos que não podem entrar nem mesmo se acompanhados dos pais.

Não há um só país civilizado que use de proibição taxativa em exposições de arte e, menos ainda, de controle de idade. Que país é este, onde um aviso na porta e uma indicação etária não sejam suficientes para alertar se uma exposição é inconveniente para crianças?

Mesmo assim, em vez de encontrar alternativas expográficas (agrupando as obras mais problemáticas em espaços exclusivos) para liberar o acesso a todas as idades ou, em caso de impossibilidade, cancelar ou adiar esta mostra até segunda ordem, questionando e se insurgindo contra a pressão do Juizado de Menores, os curadores declararam: “precisamos aceitar a proibição, atendendo a três requisitos que caracterizam atividades para maiores de 18 anos”.

O paradoxo não para aqui. Os curadores disseram ainda que “só tiveram duas opções para realizar a mostra: abrir mão de quase um terço das obras ou transformar a faixa etária numa questão política”, sendo que escolheram a segunda para “não perder a pesquisa”. E clamaram ao público para que este “saia às ruas em protesto”, como se fosse possível transformar uma medida injusta, já aceita e assumida pelo museu, em debate público.

Na verdade, por uma questão de coerência e lógica, se não fosse possível encontrar formas museológicas de contornar o problema (o que é pouco provável visto o peso institucional que tem este museu), os responsáveis deveriam ter optado por abrir mão da totalidade da mostra, renunciar circunstancialmente à sua pesquisa (que, sem dúvida, poderia ser utilizada mais para frente) e aí, sim, transformar este caso em uma gigante questão política e de sociedade!

Ao contrário, escolheram trabalhar numa exposição “na companhia de advogados” (?!), abrir mão de mediadores para mostrar arte a alunos do Ensino Médio, e submeter-se covarde e oportunisticamente à aplicação arbitrária de requisitos que podem servir a outras atividades, porém certamente não são compatíveis com as artes plásticas. O “nudismo” por exemplo.

Não se trata de “culpar” instituições, trata-se de chamá-las às responsabilidades básicas que devem ter com o público, a sociedade e o país. Não é somente à classe artística e à sociedade que cabe pressionar o governo! As pessoas devem ir às ruas, sim. Mas as Instituições precisam ser a primeiras a descer de suas confortáveis e gratificantes torres de cristal para reclamar garantias de direitos sociais e civis, a fim de que o vírus obscurantista não se espalhe a outras áreas, além das artes plásticas.

Como já escrevi no artigo anterior, nos tempos da ditadura – eu que jamais pertenci a algum partido, nunca me considerei de esquerda ou de direita, tirando de cada lado o que julgava mais justo – fui pessoalmente protegida pelo Estadão contra as arbitrariedades da repressão. Desde então, é a primeira vez que vejo o mesmo tipo de repressão repetir-se na história do nosso país. E não como farsa.

Até a próxima, que agora é hoje e se representantes de um museu de prestígio como o MASP vêm a público com racionalizações para desculpar o fato de que a instituição submeteu-se, não tomou qualquer atitude, não se manifestou e tampouco se revoltou contra essa medida de exceção (jamais usada em museu brasileiro pois é, inclusive, anticonstitucional), como exigir a mesma coisa do povo? Como pedir que ele saia às ruas?

“Himeneu travestido durante uma cerimônia a Priapo” é o título desta obra de Nicolas Poussin (1594-1665), pertencente ao Masp, que foi restaurada e, em 2009 recuperou o falo camuflado de Priapo, o deus grego da fertilidade, durante muitos séculos. O quadro, que está na exposição “Histórias da Sexualidade”, pertenceu à família real espanhola e é provável que as camadas de tinta que recobriam esta parte da tela tivessem sido feitas no século 18, quando a Espanha era um país muito católico e puritano. Com as guerras napoleônicas, a obra caiu nas mãos de aristocratas ingleses e foi vendida em seguida a ao colecionador francês Georges Wildenstein que, por sua vez, a vendeu em 1953 a Francisco Assis Chateaubriand, fundador do MASP, em 1947. Foto – Paulo Mauricio Lima AFP
EXEMPLO DE TOLERÂNCIA E ABERTURA. Recusada pelo Louvre que a julgou brutal demais, a escultura gigante que evoca um homem copulando com um animal, foi finalmente exposta no Centro Pompidou – lugar mais tolerante e aberto à arte contemporânea. Como costuma ocorrer em toda parte, “Domestikator”, trabalho do holandês Joep Van Lieshout, foi mal interpretado. Segundo o diretor do Pompidou, a obra trata de “utopia” e para o escultor “ela representa também, simplesmente, a questão da ‘domesticação’ na sociedade de hoje.”

 

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4 razões para amar o barro

Na arte, assim como na vida, costumamos celebrar muitos elementos e matérias, porém o barro é sempre esquecido, às vezes até mesmo desconhecido pelos artistas.

E, no entanto, esta amada mistura de argila  e água, é nela que também podemos pensar quando queremos ficar de bem com a existência. Não apenas porque o barro seja bíblico ou simbólico, como repositório divino do sopro da vida, mas porque “é” a própria vida.

Escuro, úmido, orgânico, sempre enigmático, nunca se sabe de que reserva, margem de rio ou manguezal, ele provém. Frio, liso, elástico, odorante, quando exala seu perfume mineral entre os dedos torna-se sensualidade pura. Fala aos sentidos, mas também à memória e à percepção da arte. Não admira que se tivesse feito amar por Rodin, minha avó e todas as crianças que, enquanto “pequenos Prometeus” como eu, tiveram a sorte de acariciá-lo para modelar figurinhas em seus “olimpos”, sendo que o meu “lugar paradisíaco de divindades” era o ateliê de escultura dela.

Para Didier Vermeiren (1951), artista belga que esteve na 18a Bienal de São Paulo (1985), “Rodin não é um talhador mas um modelador”. Vermeiren, que, no começo deste ano, visitava o Museu do mestre falando ao microfone da Radio France Culture, comentou: “nos fizeram acreditar que Rodin era um talhador, essa figura heroica do escultor que ataca um bloco de mármore. Não é verdade! Isso evidentemente é a figura de Michelangelo que ainda domina, ele que dizia que a verdadeira escultura era a pedra e não a argila. Para Michelangelo trabalhar a argila era como fazer pintura.”

Princípio básico, herdado de Brecheret

Só entendi o significado do barro, quando passei a fazer companhia à minha avó Felícia (1904-1996), enquanto ela trabalhava no ateliê envidraçado, no fundo da casa. Lá, ela me construia uma pequena armação de madeira e arame, geralmente com a forma de um homem. Depois, dirigia-se ao tanque, onde afastava os pedaços de pano encharcados de água que protegiam a argila do ressecamento, arrancava um bom pedaço daquele material e, após amassá-lo e transformá-lo em uma bola, mostrava-me como preencher com ele o homenzinho.

“Se não der certo”, dizia, “a gente desfaz e refaz a figura, tudo de novo!”. Mas, quando ela via o meu horror ao imaginar a destruição do boneco, tentava me acalmar afirmando com muita autoridade:

– “Um artista deve ter a coragem de destruir o que ele julga ruim. Não pode ter medo, não pode ter preguiça! Ele tem que refazer, refazer, refazer, até o momento em que achar que está bom de verdade!”

Sim, certamente. Embora eu não fosse artista e gostasse do meu homenzinho mesmo que ele saísse torto, entendi muito bem a lição. Assim, enquanto eu me aplicava em copiar os gestos dela, usando as mesmas espátulas de madeira com aros de ferro, Felícia dizia coisas sobre o ato de esculpir que associo hoje às palavras de Vermeiren quando ele fala de Rodin.

Ao invés do “ataque à matéria”, a minha avó, apesar da força de suas mãos, empregava toda a sua energia para manipular a forma na duração eterna e inquebrantável dos contornos. A mim, parecia mais uma carícia, do que um ataque. E era o princípio básico, herdado de Victor Brecheret (1894-1955), seu professor, que provavelmente também herdou de Rodin: perpetuar os volumes num só transcurso, sem interrupções na linha que os contorna, imprimindo às formas todo o seu significado.

Até a próxima que agora é hoje e, como está no Tao Te Ching, “do barro fazemos um pote, mas é o vazio interior que retêm o que queremos”. Viva esse material divino! Material que:

  1. representa a vida

  2. tem o dom de nos deixar de bem com o mundo.

  3. fala aos sentidos, mas também à memória e à percepção.

  4. imprime às formas todo o seu significado, num só transcurso.

Cenas de “Rodin”, filme biográfico de Jacques Doillon, interpretado por Vincent Lindon (foto), Izïa Higelin e Séverine Caneele.

 

Na França, o grande kitsch temático da arte

“A França é um gigantesco parque de diversão para turistas russos, indianos ou chineses.” (Michel Houellebecq, em “O Mapa e o Território”, 2010)
“Em cinquenta anos, vejo a França como um grande parque turístico.” (Gerard Depardieu, ator, em entrevista de 2016)

Até mesmo as artes plásticas possuem o seu parque de diversão. Ao lado de Disneyland Paris, Puy du Fou, Futuroscope ou Parque Asterix, há o “Les Carrières de Lumières”, lugar dedicado ao que chamam de “exposições de arte imersiva”. De Michelangelo, Leonardo, Bosch, Klimt, Monet, Renoir e Chagall, até Gauguin e Van Gogh, milhares de telas gigantes são projetadas em 7,000 metros quadrados como em uma coreografia, sob fundo musical clássico e moderno.

O “Les Carrières de Lumières”, inaugurado em 2012, fica em Les Baux-de-Provence, comuna turística perto de Provença-Alpes-Costa Azul. Apresenta neste momento, o espetáculo “Bosch, Brueghel, Arcimboldo. Fantástico e maravilhoso” (até 7 de Janeiro de 2018). O nome não é muito original e a exposição tampouco. Como em desfile alegórico de rua ou uma narrativa de narrativas (o que é bastante redundante) 2 mil imagens movimentam-se pelos muros, no espaço de 7,000 metros quadrados, durante 30 minutos. E tudo isso sob fundo musical de Carmina Burana (Carl Orff), Quatro Estações (Vivaldi), peças de Mussorgski e Led Zeppelin.

Difícil adivinhar o que a grande arte e a imaginação sem limites dos grandes mestres do século 16 fazem nestes cenários, músicas e animações, já que não são roupas ou acessórios de moda como as que foram mostradas na linda e feérica retrospectiva Christian Dior.

Ver esses trabalhos transformados em clipe tridimensional é triste! Pior do que ouvir os “remix” musicais onde os DJ’s desrespeitam compositores e intérpretes.  Ao dar volumes reais aos volumes virtuais dos artistas e outros truques, os virtuoses espertalhões esvaziam a linguagem dos mestres, transformando obras-primas em assombrosos e gratuitos exercícios técnicos.

Fica como se o Jardim das Delícias, a Tentação de Santo Antônio (telas de Hieronymus Bosch) e outras preciosidades como as frutas de Giuseppe Arcimboldo ou as festas campestres de Brueghel, fossem ilustrações ou decorações para a grandiloquência artificial e sensacionalista de um show de cabaré. Certo, pode ser muito bonito, mas será que estas maravilhas pictóricas (em si) precisam de “efeitos especiais” para que cheguemos a elas?  Até mesmo uma pequena reprodução em cartão postal pode ser mais fiel à nossa percepção…

De 2012 para cá, o lugar atraiu mais de 2,1 milhões de visitantes. O sucesso levou a instituição a abrir uma filial deste seu “parque temático” kitsch numa antiga fundição do século 19 em Paris, onde será inaugurado em abril de 2018. Mais de 3,300 metros quadrados serão dedicados a estes shows feitos com a técnica AMIEX® (Art & Music Immersive Experience).

Até a próxima que agora é hoje e os que se vendem ao mundo do espetáculo, ao invés de levar arte ao povo – em nome da diversão, vulgarização e consumo – acabam por afastá-lo cada vez mais da verdadeira experiência estética!

 

O que é um curador?

Hoje, o vocábulo está bastante inflado, qualquer um se batiza assim e a palavra parece não significar mais nada. Apesar disso, para alguns trata-se de uma profissão em plena ascensão, para outros em vias de desaparição. Afinal, o que é um curador de arte?

O curador ou “super” curador, como também costuma ser chamado, define-se por si mesmo, segundo 10 critérios:

1) não é novidade. Os curadores sempre existiram, apenas que sob outros nomes. Se remontarmos ao renascimento, período no qual o artista passou de sua condição de artesão a “autor”, já há traços de uma forma primeva de curador. Pode-se dizer, talvez, que Giorgio Vasari foi o primeiro “conselheiro/curador” do mundo. O seu livro Vidas dos Artistas pode ser visto com um ponto de partida ao que seria a profissão de curador, cinco séculos depois.

2) não é apenas um “organizador de exposições”. O organizador (ou “comissário”, na França) pensa a exposição como uma estrutura orgânica ou um “todo ideal”, o que o aproxima do conservador de museu. O curador, ao contrário, pensa a exposição como um “gesto crítico”. Curadoria é uma “crítica tridimensional” que usa a arte como medida, fazendo da exposição um espelho – fenomenológico e democrático – da aventura criativa.

3) pode ter múltiplas competências, porém não basta ser jornalista, fotógrafo, artista, arquiteto, escritor, poeta, nem mesmo um historiador. Um curador é sobretudo um crítico e/ou teórico, com trabalho reconhecido de reflexão sobre a arte.

4) é ubíquo. Está em várias partes do planeta e visita o maior número de ateliês e exposições de arte que lhe for possível.

5) não é um artista mas encontra-se, tanto quanto ele, dentro da turbulência de valores nos quais a arte se origina. Assim como o artista, possui obsessões, temas preferidos, subjetividade individual, e integra ao trabalho a sua experiência pessoal.

6) é como um metteur en scène ou maestro. Realiza uma “obra” sobre e a partir da arte – como uma ópera, peça teatral ou concerto.

7) não possui ligação com o mercado ou a conservação de obras.

8) ainda não precisa de diploma ou formação específica, apenas do reconhecimento de sua competência.

9) é uma espécie de inocente útil dentro dos esquemas milionários da arte. Raramente é bem pago. Jamais se ouviu falar em curadoria de uma exposição que permitisse a compra de um carro esporte conversível.

10) comparado ao “conselheiro artístico” (advisor) de colecionadores, não é uma profissão de futuro. O curador, tanto quanto o crítico de arte, o comissário de exposições e o conservador de museu, perdeu a antiga prerrogativa de dar legitimidade crítica e institucional aos artistas. De uma década para cá, é o “advisor” que detém este poder.

Até a próxima, que agora é hoje e, se houvesse um só critério, curadoria seria apenas a arte de admirar!

Em Paris, moda é arte

A retrospectiva dos 70 anos de Christian Dior, “o costureiro do sonho”, inaugurada no início do mês no Museu das Artes Decorativas em Paris (até 7 de Janeiro de 2018), é um enorme sucesso de público. Isto não surpreende. A mostra é um espetáculo deslumbrante de imagens, som e luz.
Videoclipe realizado especialmente para os amigos e leitores deste blog. Recomendo assistir em tela cheia.

Na exposição Christian Dior, o costureiro do sonho, um universo feérico põe em valor mais de 400 vestidos e acessórios de alta-costura, em 3,000 metros quadrados. As suntuosas criações são assinadas pelo mestre e seus sucessores, que reinterpretam os códigos do imaginário de Christian Dior, homem de cultura enciclopédica e referências infinitas, tiradas de um repertório artístico eclético. A sua própria coleção de arte surrealista e metafísica provam isso. Junto aos tesouros de costura, estão objetos de arte de todas as épocas e todos os continentes, que lembram o quanto a visão de Christian Dior foi universal.

Quando nos inspiramos na natureza não podemos nos enganar. (Christian Dior)

O percurso abre-se com a lembrança de sua vida, os “anos loucos” da vanguarda na arte e na vida intelectual parisiense, o aprendizado do desenho de moda e a entrada na alta-costura. Antes de se dirigir à moda, Christian Dior foi diretor de uma galeria de arte, onde conviveu com toda uma geração de artistas como Giacometti, Dalí, Calder, Leonor Fini, Max Jacob, Jean Cocteau e Christian Bérard. Colecionador apaixonado, amador de jardins, arte e fotografia, porcelanas e tecidos orientais, o mestre inspirou-se em todas as fontes para criar as suas roupas.

Até a próxima que agora é hoje e, para uma experiência proustiana, há também o  Museu Christian Dior, em Grandville, com uma exposição (até 24 de setembro) que faz voltar às origens da legenda!

Galeria Pierre Colle, dirigida por Christian Dior nos anos 1950. À direita, escultura de Salvador Dalí, presente na exposição.

 

Henri Cartier-Bresson, a modelo Alla com o vestido “May”, 1953 © Henri Cartier-Bresson / Magnum Photos

 

Claude Monet, O Jardim do artista em Giverny, 1900 – Óleo s/ tela, Paris, Musée d’Orsay © RMN-Grand Palais (musée d’Orsay) / Hervé Lewandowski

 

 

Desenho de Marc Chagall, dedicado a Christian Dior

 

Elizabeth Taylor, vestindo Dior

 

 

Meu encontro com Volpi

Continuo a minha série de encontros. De tempos em tempos, publicarei algum. Ao contrário de César, com Alfredo Volpi (1896 – 1988) foi simpatia à primeira vista. Na simplicidade da casa no Cambuci, em 1976, pouco antes de eu publicar um longo texto no Estadão sobre a sua obra, ele conversou comigo de maneira amável, ainda que um tanto indiferente.

Enquanto nos fazia um café perguntou a minha idade, comentou que tínhamos bem mais do que 50 anos de diferença (o que explica um pouco a puerilidade de minhas perguntas) e contou que a sopa de alho era o segredo da sua saúde e longevidade. Depois, sentou-se na cadeira da sala deixando-me a poltrona e, à medida que enrolava o cigarro de palha, dispôs-se a falar como se o nosso diálogo fosse mais uma de suas tarefas diárias, algo que era obrigado a cumprir como “plantar cogumelos”, pensei eu, lembrando de John Cage. Ele completava oitenta anos naquela semana e dava a impressão de que nada do que falássemos teria grande importância. Tinha a figura sólida do chassi – que ele mesmo construía – ou de uma tela preparada para receber a sua têmpera. E a sensibilidade e poesia de suas formas e cores, com as quais procurou transcender a realidade. Creio que foi o artista menos narcisista que já conheci:

-“Quem é Alfredo Volpi, hoje?”

-“Hoje? Um velho de oitenta anos. Só isso.”

-“Desde os quinze você vem trilhando o caminho da arte. Olhando para trás, o que é que mais o satisfaz?”

-“Não sei. Para mim nunca aconteceu nada demais. A minha vida não tem altos nem baixos. Não teve felicidades nem tristezas.”

-“E arrependimentos?”

-“No meu trabalho? Não tive, não. Quando não gosto de alguma obra, destruo.”

-“Em que sentido a sua vida particular se misturou ao seu trabalho e vice-versa?”

-“É tudo uma coisa só. A vida é o trabalho e o trabalho é que dá vida. Trabalhar nunca envelhece.”

-“Hoje em dia você é uma personalidade famosa e tem uma cotação altíssima no mercado. Como você se enxerga nesse papel?”

-“O quê?”

-“Você hoje é uma celebridade…”

-“Isso é bobagem. Que celebridade? Nunca penso na celebridade.”

-“O que é talento?”

-“Todos têm talento. Uns têm mais, outros têm menos. Quem tem mais, produz mais. Isso é uma coisa natural em mim. Cada um dá o que pode dar e não tem nada de extraordinário.”

-“O que orientou a sua vida do ponto de vista filosófico?”

-“O trabalho, somente o trabalho.”

-“A arte é uma paixão para você?”

-“É uma coisa natural. Está em mim mesmo. Como é que posso ter uma paixão? Em mim mesmo?”

-“Então, você tem paixão por quê?”

-“Pela vida.”

-“Você não se identifica de certa forma com alguma escola ou artista?”

-“Não. O que eu faço sou eu. E o que outro pintor faz, é ele. Nunca tive influências. Se gosto de um pintor, isso não quer dizer que vou me influenciar. Tenho sempre um problema diferente. Qualquer pintor bom me interessa. Gosto de ver um trabalho bom.”

-“Que influência tiveram as escolas para você?”

-“Quando comecei a pintar, nem conhecia os impressionistas e peguei os mesmos problemas deles. Foi a natureza que me indicou isto. Quando se abandona a natureza é que começa o expressionismo. De dentro para fora. Depois isto se transforma. A gente se desliga e então só passa a existir o problema da linha, forma e cor. O assunto desaparece. Some a paisagem, some tudo. As minhas bandeirinhas não são bandeirinhas; são só o problema das bandeirinhas. Problema de toda uma construção para resolver em pintura, as cores.”

Quando a arte e a vida são uma coisa só

Em 1988, quando ele faleceu, escrevi que Volpi não havia representado apenas uma categoria de arte. Mais do que isso, figurou como um modelo de artista, para quem a arte e a vida são uma coisa só, uma unidade indivisível. O mestre representou sobretudo um estilo de vida que determina (e é determinado) por opções estéticas. A vida de Volpi o levou à pintura e a pintura formou a vida de Volpi. Algo da mais absoluta coerência, integridade e verdade.

Hoje, diante dos variados apelos, dos diversos instrumentos de linguagem, de milhares de possibilidades plásticas, materiais e intelectuais, diante da indeterminação, das dúvidas e da negação, esta imagem do artista uno, determinado, “operário” do seu métier, surge como uma miragem. O paraíso perdido que esconde o segredo da felicidade: todas as respostas sem qualquer pergunta.

Aí está a razão do mito. Não na pintura, apenas. Não em seu resultado formal e naturalmente muitas vezes desigual. Mas na verdade com que uma obra e uma vida são entrelaçadas e concebidas. Artistas como Rothko, Reinhardt ou Pollock foram mitos por esse motivo. A única diferença entre eles e Volpi – excetuando as características intrínsecas das obras, é claro – é que eles morreram por sua arte. Volpi viveu por ela.

Os primeiros morreram sem respostas. Volpi as tinha todas. Ou pelo menos vivia e pintava como se assim fosse. Todos foram sábios. Apenas que os primeiros perguntavam-se, Volpi, não. E esta era a sua grande forma de sabedoria, a simplicidade. A aceitação das coisas como absolutamente “naturais” em si e fora de si. Tanto quanto o John Cage (dos cogumelos), uma atitude, no final, talvez muito mais sofisticada do que o niilismo, a angústia e os recursos artificiais da pós-modernidade que nem Rothko, Pollock, ou Reinhardt experimentaram.

Até a próxima, que agora é hoje!

Meu encontro com Umberto Eco

Meu encontro com César

 

 

Colados na realidade

Há algum tempo fui ao Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris, ver a enorme exposição monográfica “Albert Marquet, pintor do tempo suspenso” que este ano foi mostrada no Museu Pouchkine de Moscou. Resolvi prestar um pouco de atenção também aos comentários de diversos visitantes que, além de ficarem falando com os vizinhos, pareciam passar mais tempo lendo as etiquetas e ouvindo o guia no smartphone, do que olhando as telas.
Albert Marquet (1875-1947), La Varenne Saint-Hilaire, A Barca, 1913 – Óleo s/ tela, 65,4 x 81 cm

Menos conhecido do que Giorgio de Chirico, Raoul Dufy ou Kees van Dongen, sempre vi este artista relegado a um cantinho nos museus. E, no entanto, Marquet – amigo de Matisse, que evoluiu do pós-impressionnismo ao fovismo, conservando um estilo próprio – é certamente um dos pintores mais fascinantes da primeira metade do século 20.

A mostra é de cair o queixo! Centenas de vistas de cidades, portos, rios, o Sena, oceano, mar, lagos, praias da Europa e da África do Norte – acho que poucos artistas viajaram tanto para fazer tantas obras parecidas umas com as outras!

Olha a bandeirinha da França!

Menos por bisbilhotice do que por curiosidade sócio estética, resolvi prestar um pouco de atenção aos comentários de diversos visitantes:

  • “Onde você acha que fica essa praia? No Midi?”

  • “Estou reconhecendo! É na Argélia!”

  • “Deixa ver o que está escrito.”

  • “Será que é aquarela? Ah não… deve ser pintura.”

  • “Eu já vi esse lugar!”

  • “Essa mancha é Notre Dame.”

  • “Que mancha escura! Ele não devia gostar de igreja.”

  • “A ponte você lembra.”

  • “Aqui está nevando.”

  • “Quanta água!”

  • “Será que tem o cartão postal?”

  • “Ele devia ver tudo isso da janela da sala.”

  • “Pintando o sol assim, podia ficar cego!”

  • “A que horas ele saía pra pintar?”

  • “Estou até sentindo o cheiro do mar, hehe!”

  • “O Havre você adivinha na hora…”

  • “Olha a bandeirinha da França!”

  • “Que nuvens esquisitas… essa parece um urso.”

  • “Pelo jeito deve ser outono.”

O pessoal via e pensava em tudo, menos em pintura. Ninguém parecia preocupado, como eu, em saber como é que Marquet fazia para que as suas obras estivessem tão além da realidade e fossem muito, mas muito, muito mais lindas do que ela.

Até a próxima, que agora é hoje!

 

 

Piza, a morte de um convicto

Arthur Luiz Piza morreu anteontem, sexta-feira, dia 26, aos 89 anos. É uma perda para a arte e também pessoal. Ele e Clelia foram, posso dizer, alguns dos poucos e estimados amigos que tive nesta cidade nos últimos 26 anos. Durante muito tempo visitei o artista em seu ateliê, estive em várias de suas exposições, acompanhei de perto a evolução do seu trabalho e compartilhei momentos alegres do casal. A última vez que os vi foi em minha própria casa, quando se preparavam para mais uma estadia em sua linda residência no Vaucluse.

 

Arthur Luiz Piza em seu ateliê, 2012 © Jeanne Bucher Jaeger

 

A história da arte é formada, sobretudo, pelos fatos e pelas ideias artísticas. Porém ela é constituída também pela persistência de certos caminhos individuais, que acabam confirmando de alguma forma os movimentos coletivos. Pois essas procuras agem não apenas como transmissoras da energia e da experiência circunstancial e pessoal desses artistas, mas principalmente como elementos dialéticos de afirmação, definição e unificação da linguagem artística no tempo e no espaço histórico.

Equilíbrio entre contenção, prazer e erudição

Percursos como o de Arthur Luiz Piza, cuja objetividade e coerência se mantêm por meio do rigor e da convicção com que o artista encarava a criação, têm um papel preponderante em nosso processo histórico-artístico. Não que seus trabalhos sejam uma ruidosa tribuna de ideias revolucionárias, um silencioso e estoico campo de éticas, um monastério para misticismos, ou um terreno visionário de esoterismos e utopias. Ao contrário, sua obra não é radical. Ela possui apenas o clássico equilíbrio entre a contenção, o prazer e a erudição. Dentro da sua materialidade e modernas (não contemporâneas) qualidades formais, é uma arte avançada e essencial, que também pode falar de perto ao espectador comum.

Algumas obras são extremamente simples, diretas, manuais, seriais. Não há truques ou ilusões. Tudo está revelado, desde o processo criativo até o resultado final. Formam modulações, ritmos, densidades e volumes diversos, por meio dos materiais, sua disposição, uma escala cromática infinita, e também por meio das distâncias, posições e sombras manipuladas por ele.

Outras parecem monótonas e cinzentas, o que não passa de uma aparência. Comparadas às conhecidas gravuras coloridas em relevo editadas pela La Hune, não são belas, vistosas ou agradáveis. Mas esta foi a maneira de Piza trabalhar: ele sempre permeava o belo com peças mais rigorosas e agressivas. Em 1977, na galeria Arte Global, Piza mostrou trabalhos despojados, propositalmente malfeitos, livres de toda concessão possível, que por sua vez já seguiam o veio da produção de 1959 e de 1974, quando expôs na Petite Galerie, em São Paulo.

Além da essencialidade, que torna o trabalho de Arthur Luiz Piza acessível ao espectador, há para ele sobretudo o grande estímulo de ser o partícipe “tátil”, visual e mental das múltiplas decisões objetivas e intuitivas do artista, e até do acaso que se origina delas. E de tomar parte, com isso, de uma linguagem abstrata, construtiva, de tradição concreta, mas hedonisticamente liberta e, portanto, viva no presente. Para sempre.

Até a próxima, que agora é hoje, dia de lembranças e tristeza!

 

Ateliê de Arthur Luiz Piza, 2012 © Jeanne Bucher Jaeger

 

 

Pássaro? Avião? Não, apenas um super-curador!

Este é um complemento ao meu último artigo, porém não menos consternador. O texto anterior, Feiras e mercado de arte: um escândalo permanente” , falava do efeito que o mercado da arte pode ter sobre a arte, o artista e o público em termos de manipulação, o que reduz as obras a simples produtos imprimindo-lhes um valor artificial. Curiosamente, logo após a sua publicação, encontrei por coincidência (ou não) uma reportagem surpreendente que saiu há alguns dias no suplemento feminino de um jornal francês.
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Terno de lã (R$ 12.000) e camisa de algodão (R$ 4.600) Hermès. Gravata listada de seda (R$ 1.000) Charvet. Pinça de gravata dourada (R$ 1.000) Louis Vuitton. Coroa com efeito coral (R$ 1.300) J.W. Anderson, estojo para iPhone em couro (R$ 730), Chaos. Óculos vintage (cerca de R$ 1.000). Foto: Mark Peckmezian

Na matéria, o agora célebre primeiro colocado da nauseante lista de 100 personalidades mais influentes no mundo da arte contemporânea (onde a “cotação” de pessoas fica em “alta” e “baixa”, sem que se saiba muito bem quais são os critérios), é transformado em garoto-propaganda glamour de marcas de luxo. Como o preconceito não orienta o meu julgamento, apenas nunca acreditei em listas e, em princípio, não tenho nada contra marcas de luxo, só aponto o que está ligado à dissolução, despropósito e obscenidade do mundo pseudocultural, irremediavelmente “peoplelizado”*, e que grande parte das pessoas toma como “representante legítimo” dos valores da cultura.

Pássaro? Avião? Não! Apenas Hans Ulrich Obrist (1968), HUO para os íntimos, curador que conheci nos anos 1990 quando ele sobrevoava Paris e aterrissava de tempos em tempos no Museu de Arte Moderna, fazendo pequenos estágios e realizando “encomendas” no departamento ARC (animation, recherche, confrontation) sob as asas de Suzanne Pagé, hoje diretora artística da Fundação Louis Vuitton.

 

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Terno de lã (R$ 7.000) e camisa de algodão (R$ 800) Canali em MRPorter. Manteau Oversized em lã (R$ 10.300), gravata de seda (R$ 600), pinça de gravata dourada (R$ 1.000), tudo Louis Vuitton. Óculos vintage (cerca de R$ 1.000). Mocassins de couro (R$ 2.100) Church. Foto: Mark Peckmezian

 

HUO
Terno de lã (R$ 11.000) Brunello Cucinelli nas galeries Lafayette. Camisa de algodão (R$ 700) Boss. Gravata de seda (R$ 1.000) Charvet. Malha oversized em lã merinos (R$ 7.526) Raf Simons. Óculos vintage (cerca de R$ 1.000). Foto: Mark Peckmezian

 

HUO2
Terno de lã (R$ 6.700) e camisa de algodão (R$ 4.600) Zegna. Gravata de seda (R$ 1.000) Charvet. Kimono de seda bordada (R$ 50.000) Gucci. Pinça de gravata dourada (R$ 1.000) Louis Vuitton. mocassins de couro (R$ 2.100) Church. Estojo para iPhone em couro (R$ 730), Chaos. Óculos vintage (cerca de R$ 1.000). Foto: Mark Peckmezian 

 

Terno Brioni, by Kering (R$ 15.000)

Até a próxima que agora é hoje e, para mim, a sensação de ver, desta maneira, pessoas “de espírito” que lidam com os “valores elevados da cultura, arte e humanismo”, seria um pouco como descobrir que a batina do Papa Francisco é Giorgio Armani, os sapatos vermelhos dele são Nike Air Jordan, o solidéu é Polo Ralph Lauren, o anel do pescador é Van Cleef & Arpels, a estola é Burberry, o cíngulo é Hermès e a cruz peitoral é Cartier. Tudo isso, vestido por quem escolheu o nome de um santo que fez voto de pobreza. Estranha sensação…

 

*Peoplelizado – neologismo anglicista que significa tornar-se “people”, celebridade ou personagem público que atira sobre si a atenção de mídia e público fúteis e superficiais.

 

Postscriptum, sem comentários

 

20 Hanover Terrace, Londres. Casa de Damien Hirst.

 

Damien Hirst em “festa Cointreau” com a namorada e uma amiga dela. Hoje, o preço. das obras deste artista para quem “o dinheiro é mais importante do que o amor”, ultrapassa o das telas assinadas por El Greco, Rubens, Canaletto, Courbet, Delacroix e Ingres.

 

Damien Hirst em “festa Victoria’s Secret”.

 

 

Para ONU, a destruição do patrimônio cultural é ‘crime de guerra’

Com tudo que certas posições da ONU têm de contestável, o seu Conselho de segurança votou, há alguns dias, por unanimidade, uma boa decisão. Trata-se da resolução 2347, que visa reforçar a defesa dos sítios ameaçados nas zonas de conflito com os terroristas. É a primeira vez que uma determinação tão importante relativa apenas ao patrimônio cultural foi tomada por este organismo, e não vi nenhuma notícia sobre o assunto na imprensa brasileira.
Daexe
Transformado em ruína pelos terroristas do Daexe, este grande touro alado antropomorfo (XIII a.c.) era um dos “protetores” do palácio de Nimrud, capital assíria situada no sul de Mossul, no Iraque.

Dos budas de Bamiyan no Afeganistão, aos manuscritos de Tombuctu, passando por Palmira – o luxuriante oásis do deserto sírio -, os ataques deliberados contra os grandes sítios do patrimônio mundial se multiplicaram nos últimos anos.

O saque das antigas cidades devastadas pelo Daexe – Nínive, Nimrud, Hatra, antiga Mesopotâmia onde nasceram a escrita e a arquitetura monumental, cobrindo o Iraque atual em suas fronteiras, e a parte oriental da Síria, até o velho mercado de Alepo – são ataques diretos ao Homem no que diz respeito às suas raízes, memória e criação. E com um único objetivo: erradicar todos os vestígios da civilização para um retorno literal à época de Maomé.

É verdade que a adoção pela ONU, em 2015, da resolução 2199 proibindo o comércio de bens culturais do Iraque e Síria, por cinquenta estados, reforçou a legislação contra o tráfico ilícito de antiguidades. Estes compartilham os seus dados com a UNESCO, a Interpol, as alfândegas, o grupo de trabalho “Unidos a Favor da Herança”, afim de desmantelar as redes que financiam os grupos jihadistas, entre os quais os do Oriente Médio. Estes incitam às escavações selvagens, pagando os saqueadores.

Trazida a Nova York pela França e Itália, a nova proposta para a paz e segurança, por meio do patrimônio cultural e religioso, foi adotada por unanimidade. O texto pede a sua proteção em todas as zonas de conflito, sem exceção ou limitação geográfica, e para todos os tipos de ameaças (destruição, pilhagem, tráfico). Sublinha também que qualquer ataque “constituirá, segundo as leis do direito internacional, um crime de guerra”.

Até a próxima que agora é hoje e a defesa do que é cultural vai bem além da cultura. Como a vontade dos terroristas de destruir os corpos de mulheres, homens e crianças, é a mesma de aniquilar pedras, barro, museus e tesouros da humanidade – a proteção da cultura e da própria vida humana tornam-se indissolúveis!

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