De Chirico, fascista?

Não é todo mundo que tem o privilégio de acordar de um “pesadelo metafísico”. Eu tive. Acordei esta manhã com um medo desgraçado. Sonhei que estava numa praça deserta de  Giorgio De Chirico, cercada de personagens estranhos e alcachofras gigantes. E, ainda por cima, o antipático pintor estava lá, em carne e osso, com aquele jeito arrogante e olhar desconfiado. Enquanto muitos, na manhã deste sábado, dia 27 de novembro, certamente assobiavam ou cantavam no chuveiro, pensando no Natal que se aproxima, eu me perguntava: será que as praças vazias pintadas por De Chirico prenunciam a arquitetura totalitária? O artista acompanhou o “retorno à ordem” de Mussolini?  

Giorgio de Chirico : à esquerda, “A recompensa da adivinha”, 1913, Philadelphia Museum of Art, The Louise & Walter Arensberg Collection, 1950 – à direita,”Melancolia de uma tarde”, 1913, Centro Pompidou – Museu nacional de arte moderna, Paris (à esquerda © Artists Rights Society (ARS), Nova York / SIAE, Roma © ADAGP, Paris, 2020 03 – à direita © Centro Pompidou, MNAM, Dist. RMN-Grand Palais / Jean-Claude Planchet © ADAGP, Paris, 2020)

Lembrei de uma cena que se passou nos anos 1970. O pintor concedeu uma entrevista a um jornalista francês. Este último, acreditando dizer a coisa certa e fazer um elogio, lembrou ao velho mestre que em 1911 as suas estranhas telas anunciavam a pintura surrealista, com dez anos de antecedência. “Sim, mas estou pouco ligando”, respondeu Giorgio De Chirico (1888-1978) .

Claro, a arte moderna nunca foi a sua “cup of tea”, e muito menos o seu combate. Mas este desprezo era recíproco. Em 1928, André Breton, justamente o mandachuva dos surrealistas, excomungou De Chirico por ter cometido um crime: voltar ao passado, abandonando os primeiros trabalhos, de 1911 a 1918. Ficaram para trás os espaços vazios e perturbadores, de onde emergia uma locomotiva; desapareceram para sempre aqueles enigmáticos manequins desarticulados com rostos sem olhar, que estavam no meu pesadelo. Adeus, pintura “metafísica”! De Chirico deixou de lado a revolução artística para pintar, com afinco e capricho, gladiadores de coxas cor-de-rosa e cavalos brancos galopando à beira-mar sob as nuvens. Virou neoclássico.

Percebi que algo imenso acontecia em mim

Acontece que o Giorgio De Chirico neoclássico, detestado por Breton, nascera de uma iluminação em Roma, em 1919. Em suas memórias, ele conta que fora motivado pela visão da famosa pintura, Amor sacro e amor profano, também chamada Vênus e a donzela. Escreve: “Foi na Galeria Borghese em Roma que, uma manhã, diante da tela de Ticiano, tive a revelação do que é uma grande pintura: na sala vi aparecerem línguas de fogo enquanto que, lá fora, através do espaço do céu totalmente claro acima da cidade, ecoava um ruído solene. […] percebi que algo imenso acontecia em mim.”

Ticiano: “Amor sacro e amor profano”, também chamado “Vênus e a donzela”, cerca de 1515.

A partir deste momento, De Chirico se toma por – nada mais nada menos do que –   Ticiano. Torna-se o “Ticiano Vecellio do século 20″. Cresce o seu desdém pela “grande bacanal da pintura moderna”, pela “ditadura dos marchands”, pelos julgamentos peremptórios dos “críticos mercenários” e pelo “esnobismo e estupidez” dos colecionadores americanos.

Mal-humorado e reacionário ele era

De Chirico, até que podia ter certa razão, porém mal-humorado e reacionário ele era. Hoje, ao fazer uma pesquisa para tentar responder à minha pergunta desta manhã, vi que, em 1983, durante a primeira retrospectiva consagrada à sua obra no Centro Pompidou, o crítico e historiador Pierre Cabanne (1921-2007), especialista de Picasso e autor da famosa entrevista com Marcel Duchamp, chegou a acusá-lo de ter sido “trombeteiro de Mussolini”.

Entre a pintura de De Chirico e o fascismo, exprimir-se-ia a mesma obsessão, a de um “retorno à ordem”. “Os atletas nus e musculosos, o gosto pelo greco-romano, a nostalgia pelo Renascimento, a obediência aos mestres e o culto à ‘bela obra’ correspondem perfeitamente às ambições de Mussolini”, escreveu o crítico. Além disso, De Chirico teria sido um dos protegidos de Margharita Sarfatti,  “jewish mother fascista”, amante do Duce, crítica de arte e sacerdotisa do Novecento, movimento artístico tão passadista quanto nacionalista.

Certamente. Porém, em sua acusação, Pierre Cabanne deixou de lado um pequeno pormenor: De Chirico deixou a Itália em 1925 para se estabelecer na França. Foi quando, na Bienal de Veneza do mesmo ano, a imprensa já começava a ignorar o seu trabalho. E o pintor não parece ter guardado boas lembranças do período Mussolini, pois, em seus escritos rememora com horror “a chamada revolução fascista” de 1922, quando a milícia dos “camicie nere” (camisas negras), essa canalha formada por jovens, irrompia nos cinemas para forçar o público a ouvir hinos militares em pé. De Chirico só voltou ao seu país, depois da guerra.

É possível que Pierre Cabanne tenha errado ao chamar De Chirico de “trombeteiro de Mussolini”. No entanto, penso que ele se questionou corretamente sobre um ponto. Nem precisou estar debaixo do chuveiro para se perguntar, como eu esta manhã: “as cidades imóveis de pedra e mármore da ‘pintura metafísica’ não anunciam o urbanismo totalitário, a arquitetura massiva, as praças e perspectivas desproporcionais da estética fascista?”

Até a próxima, que agora é hoje e é verdade que ao ver as arcadas monumentais do Palácio das Artes de Milão (1933) ou o imponente cubo do Palazzo della Civiltà Italiana, em Roma (1940), pode-se jurar que os seus arquitetos se inspiraram em uma das telas do misantropo pintor. Assombradas pelo vazio e pela ausência, assombram  até mesmo os nossos sonhos!

“Palazzo della Civiltà Italiana”, em Roma (1940)

Imagem destacada no alto: retrato de Giorgio De Chirico, 1936.• Créditos : Carl Van Vechten / Donaldson Collection – Getty

Minha malograda entrevista com Lévi-Strauss

No início dos anos 1990, quando já me encontrava em Paris, o editor do Caderno 2 no Estadão pediu-me uma entrevista com Claude Lévi-Strauss (1908-2009) para a seção “Encontros notáveis”. O célebre e influente antropólogo e etnólogo morava no 16° arrondissement, o mais burguês da cidade. Como, naquela época, eu era para lá de atrevida, não tive pruridos. Telefonei imediatamente.

“Monsieur Lévi-Strauss?”

“Sim.”

“Aqui é Sheila Leirner, crítica no jornal O Estado de S. Paulo, estou lhe chamando…

“Para pedir uma entrevista, é isso?”, ele me interrompeu secamente.

“Mais ou menos isso. Na verdade, eu gostaria de conversar com o senhor sobre a sua antiga ideia, agora tão atual, de que a humanidade está constantemente às voltas com dois processos contraditórios, um visando a unificação, e o outro tentando manter ou restabelecer a diversificação.”

“Não dou entrevistas.”

“Nem mesmo para o jornal de um país que Monsieur conheceu tão bem?”, insisti.

“Ainda menos”, respondeu.

“Tenho certeza de que até Lacan junto de quem o senhor foi ‘chefe’ do estruturalismo e André Breton, cujo surrealismo o marcou, teriam dado entrevista para o Estadão.”

“Chefe? Detesto esta palavra! ‘Chefe do estruturalismo’… veja só!”

“Na verdade, eu gostaria de conversar sobre a sacudida que o senhor deu nos seus fãs com certas declarações. O senhor pôs-se a formular pensamentos e a fazer observações que não iam no bom sentido da história, aquele que era indicado pela doxa progressista. Chocou-os bastante em 1983 quando publicou o tal do texto em forma de prefácio ao seu livro Le Regard éloigné, onde escreveu que ‘a fusão entre os povos não deve ser muito intensa para não acabar em desaparecimento das diferenças’!”

Penso assim até hoje

“Mas, é isso mesmo! Eu pensava desta maneira antes e penso assim até hoje. Não esqueça que, já em 1971, na conferência da Unesco exprimi toda a minha preocupação com relação a esta tendência à homogeneização de pessoas, estilos de vida, tudo aquilo que empobrece a diversidade dos povos!”

“Por outro lado, quando o senhor fez essa conferência intitulada “Raça e Cultura”, acho que foi premonitório. Inquietou-se com o crescimento demográfico, mas foi contra o que agora a gente chama de “mundialização”. O senhor foi contra as ideias da própria Unesco que defendia a difusão do saber e as trocas entre os homens porque, segundo eles, isto ajuda a compreender e se comunicar.”

“O que havia de tão surpreendente nestas minhas afirmações?”, perguntou.

“Também foram chocantes! O nazismo ainda estava fresco demais na memória de todo mundo. Todos queriam provar, e continuam querendo, que os homens são iguais e que o racismo é um absurdo.”

“Não tinha nada de chocante. Assim como não tinha nada de chocante eu ter dito em 1983 que deve haver colaboração entre as culturas, só que sem o sacrifício de sua diversidade.”

“Pior ainda. Foi justo na época marcada pela subida da extrema direita. Em 1983, o senhor se arriscou a ‘fazer o jogo’ do Front National e da nova direita, não acha?”

Senti a irritação, do outro lado da linha. Lévi-Strauss replicou:

“Você deve ser mais uma daquelas mocinhas que vinham a Paris para fazer barricada em maio de 1968.”

“Acertou! E Monsieur, embora anarquista por natureza, certamente detestou maio de 1968, já que foi um dos primeiros gaullistas, aderindo às Forças francesas livres em Nova York, durante a guerra. É ou, não é?”

“Com que direito, Madame, a senhora presume que ‘detestei’ aquilo? Bem… detestei mesmo…”

“Monsieur Lévi-Strauss, o senhor não percebe que é aí que se encontra o problema? O senhor foi contra a mundialização. Sabe o que isso quer dizer?”

“Madame, vejo que a senhora é uma jovem senhora… petulante!”

Claude Lévi-Strauss, no Brasil. Fotógrafo desconhecido.

“Monsieur Lévi-Strauss, a sua abordagem de antropólogo foi bem-vinda quando o senhor fazia sermão e criticava a tendência da velha Europa iluminista em acreditar que era o centro do mundo. Quando estipulava não somente ‘que todas as culturas têm igual dignidade, mas que a nossa é marcada por uma indignidade particular que consiste em nos acreditarmos superiores’. Hoje, a sua posição torna-se suspeita quando o senhor expressa reservas sobre a hibridização cultural.”

“Por quê?”, gritou o antropólogo ao telefone, enquanto eu afastava o aparelho para proteger a minha orelha. Retruquei:

“Simplesmente porque a hibridização cultural é uma espécie de ‘milagre’ para os imbecis que acreditam que basta misturar os povos para obter um resultado harmonioso.”

Pude ouvir uma ligeira risadinha do outro lado do fio e Claude Lévi-Strauss ironizou:

“Ah, vejo que a senhora tem mais do que dois neurônios.”

“Obrigada. Mas, desculpe voltar à vaca fria. O senhor concluiu, ao contrário da doxa, que tratar todos os homens como ‘iguais’ apaga a diversidade e acaba em mestiçagem fraudulenta.”

“E daí?” retorquiu o meu interlocutor, um ou dois graus mais irritado do que antes.

“Daí que o senhor, de certa forma, desculpou a hostilidade racista para com quem é diferente e considerou que é ‘um direito de cada cultura ficar surda aos valores do Outro, e até mesmo desafiá-lo’. Por isso dizem que o senhor é um super-reacionário…”

“Reacionário, eu? Mas tem que haver uma separação relativa entre os povos! É o preço a pagar para a sobrevivência de um mínimo de diversidade. Os japoneses fazem muito bem de recusar a imigração. Eles têm que preservar o seu modo de vida!”

“E os muçulmanos que nos invadem, ignorando e abominando a alteridade? Monsieur Lévi-Strauss, os desculpa também?” perguntei, um pouco culpada pela minha provocação a um senhor idoso, afinal.

Aí, ele confessou:

Eu nunca gostei de ideologias

“Comecei a pensar assim num momento no qual a nossa cultura agredia outras culturas das quais eu era defensor e testemunha. Atualmente, tenho a impressão de que o movimento se inverteu e que a nossa cultura está na defensiva, frente às ameaças externas, entre as quais a explosão islâmica. Então, agora me sinto firme e etnologicamente defensor de minha cultura.”

“Entendo…” respondi, admirando a paciência dele comigo e a sua flexibilidade. E acrescentei:

“Eu acharia muito bom se, ao invés de ser chamado de reacionário, o senhor fosse considerado um… digamos… antimoderno inclassificável, um não conformista, tradicionalista e anticonservador.”

“Ah, bom?” exclamou.

“É. O senhor mesmo definiu-se como um ‘velho anarquista de direita… fiel a Marx’ (risos meus). De minha humilde parte, acho ótimo deixar perplexos os imbecis binários e seus sumários esqueminhas maniqueístas: reacionários contra progressistas, humanistas contra canalhas, universalistas contra maus defensores de identidade etc.”

“Eu nunca gostei de ideologias”, resmungou Lévi-Strauss.

“Pois é. O senhor, apesar de preconizar uma relação mais harmoniosa do homem com a natureza e ser contra a pilhagem dos recursos naturais, certamente nunca teria aderido aos ideólogos ecologistas atuais. Mas, e esse encontro com Mitterrand, onde ele o teria consultado sobre a questão da imigração?”

“É rumor”, protestou.

Mitterrand já era bem grandinho para falar o que queria

“Mas, o senhor acompanhou François Mitterrand ao Brasil em 1985. Eu ainda morava lá. Estive, inclusive, junto à senhora Mitterrand e ao ministro Jack Lang na visita que eles fizeram à 18a Bienal de São Paulo. Era a época da redemocratização do Brasil, após um longo período de ditadura militar. Mitterrand citou o senhor no discurso e depois falou nessa noção de ‘patamar de tolerância’ com a imigração. Todo mundo achou que o senhor tinha soprado isso na orelha dele.”

“Eu não soprei nada. Ele já era bem grandinho para falar o que queria”, Lévi-Strauss defendeu-se.

“Concordo com o senhor que ‘usar o véu islâmico na França é uma indelicadeza e uma descortesia’. Também acho que cada um é livre para praticar a sua cultura em seu próprio país, mas que não devemos chamá-los de bárbaros por causa disto. Nós também temos o direito de proibir o que não pertence à nossa cultura. Gostei muito do seu livro Somos todos canibais.”

“Obrigado. Não há um terreno comum para julgar sistemas de crenças, e menos ainda condenar o que não seja nosso. A não ser que nos julguemos superiores e por isso queiramos nos impor.”

“Verdade.”

Claude Lévi-Strauss fez um longo silêncio e foi aí que pensei que ele me daria a entrevista. Porém, ele simplesmente disse:

“Desculpe, tenho que desligar, Monique está me chamando para o almoço.”


Claro que esta conversa é imaginária. O único relato verdadeiro é o da minha chamada e a curta e seca recusa de Claude Lévi-Strauss ao pedido de entrevista para o “Encontros notáveis” do Caderno 2, com o qual colaborei várias vezes. Pior para ele!

Até a próxima que agora é hoje e pior também para o jornal, porque para mim, já que posso inventar a entrevista no meu blog, tanto faz!

Enquanto Claude Lévi-Strauss acompanhava o presidente francês François Mitterrand em sua visita ao Palácio do Planalto em Brasília, a primeira-dama Danielle e o ministro da Cultura Jack Lang, visitavam a 18a Bienal de São Paulo, em novembro de 1985. Era a época da redemocratização do Brasil, após um longo período de ditadura militar. Hoje, enquanto o governo hostil da extrema-direita estiver no poder, o atual chefe de Estado francês de forma alguma faria esta cortesia.
Roberto Muylaert, presidente da Fundação Bienal de São Paulo, e Sheila Leirner, curadora-geral da 18a edição, acompanham a primeira-dama Danielle e o ministro da Cultura Jack Lang, em sua visita à “Grande Tela” na 18a BISP, em novembro de 1985.

Qual a idade da ‘Grande Tela’?

A análise faz parte do imenso processo de glaciação dos sentidos. A ajuda das teorias é totalmente secundária.(Jean Baudrillard, Cool memories I, Ed. Galilée, p.19)

Alguns a chamavam de “Grande Parede”, outros de “Corredor” e outros ainda de “Paredón”. Dos bastidores e do nascimento daquela experiência, há muito o que contar. O mais importante, porém, é que neste seu aniversário, A Grande Tela na 18a Bienal Internacional de São Paulo (1985)  possa servir ainda para uma reflexão contemporânea sobre a arte e as formas de expô-la por meio de uma crítica tetradimensional, ou seja, por meio de uma metáfora que seja fiel aos valores nos quais a própria arte se origina.

A Grande Tela nasceu da náusea e da fascinação. Durante um período no qual mais enjoativo do que o cheiro e a textura da tinta em excesso, era a saturação de imagens. Em 1985, como se sabe, a pintura renascia de todas as maneiras. Os seus filhotes cresciam como cogumelos, chegavam às centenas e se acumulavam de uma forma assustadora no Pavilhão da Bienal. Muitos deles com a tinta ainda fresca. Tal fenômeno de multiplicação de imagens impedia quase a visão individual e propunha uma abordagem radicalmente coletiva. O que era tanto mais possível quanto maior fosse a noção de que um verdadeiro crítico pode (e deve) ser também um artista e de que uma Bienal não é um museu. De que uma Bienal é a plataforma da mais absoluta liberdade crítica e do mais íntegro e categórico compromisso com o público.

Eu conduzia o meu carro, como todos os dias, pela avenida 23 de maio que leva ao Parque Ibirapuera, porém dominada pelas sensações que me causava aquela invasão pictórica plena de luz e de sombras. Como um desfilar de almas, dela emanavam energias mescladas, antagônicas, irredutíveis. Todas as problemáticas do mundo pareciam se espelhar naquela produção feérica. Não se podia compreendê-la ou exprimi-la espacialmente senão pela figura de um grande e único conjunto.

Olhei a avenida que percorria e imaginei o grande tecido esticado em chassi cujas imagens vistas em alta velocidade animavam-se em sua extensão. Esta “instalação” imaginária praticamente nomeou-se por si mesma: A Grande Tela. Em seguida, veio a visão do anel de Moebius que Lacan chamava de “Oito interior” e que nos mostra uma superfície para a qual as noções de lado direito e avesso não existem. Um anel infinito… A Grande Tela seria um anel infinito!

No início, as reações foram de entusiasmo e empatia. A Comissão de Arte e Cultura (CAC), para minha supresa, exultou! Creio que todos passávamos pelo mesmo processo sensorial correlacionado com aquele fenômeno do “renascimento da pintura”, o que nos permitia ir além do mero conhecimento e dos procedimentos tradicionais.

Mesmo quando houve choques externos, a CAC e o presidente Roberto Muylaert  demonstraram enorme firmeza e deram apoio absoluto ao trabalho da curadoria. Talvez eu tivesse desistido de lutar por minha ideia, se não fosse aquele apoio. Lembro-me até hoje das palavras de encorajamento de Renina Katz. Foi ela quem me aconselhou, mais tarde, a guardar a cópia de todos os arquivos de nossas bienais. Grande e querida Renina!

O arquiteto responsável pela organização espacial da 18ª Bienal, Haron Cohen, perguntou-me por que, ao invés do anel de Moebius que era de difícil execução, não poderíamos realizar um espaço contínuo, reto e horizontal – uma instalação que representasse uma grande tela real, na qual os trabalhos ficariam separados por alguns centímetros. Apenas o necessário para demarcar os limites de cada um.

Estava de volta a minha primeira quimera da avenida 23 de maio, desta vez porém em escala e velocidade mais humanas. Uma avenida que poderia ser transposta à pé e à qual o nosso formidável arquiteto finalmente dava forma.

Não me ocorreu que o binômio espaço/conteúdo levaria o espectador a atravessá-la mais rapidamente e talvez com menos atenção do que numa exposição labiríntica. Foi o que aconteceu e não posso julgar o resultado. Posso dizer apenas que este binômio foi engendrado e ditado indiretamente pelos próprios artistas, mesmo e talvez sobretudo pelos que o rejeitaram. E que não funcionamos – curador, equipe e arquitetos – senão como os intermediários que criam por sugestão, os médiuns psicógrafos de sua ação artística.

De todo modo, a idéia crescia junto com as concepções cenográficas de Felippe Crescenti. Foi ele quem sugeriu a dramaticidade das esculturas do artista inglês John Davies, da Grã-Bretanha, para representar “O Homem e a Vida”, título da 18a edição, arrematando A Grande Tela nos finais de seu corredor central.

Todos naquela Fundação estavam de acordo. E mais do que isto, empenhados na defesa de um conceito que eles consideravam revolucionário e incomum. Porém, feitos os cálculos, um só corredor não bastava. Eram necessários três. Idênticos! Era o começo de uma luta que não imaginávamos afrontar.

Durante a montagem o presidente da Bienal foi obrigado a pedir o fechamento circunstancial da área, para que pudéssemos trabalhar, e a colocar policiais e seguranças para impedir a desordem e os excessos. Não me lembro de ter sofrido em minha vida tantas pressões, agressões e tamanho estresse. Vi com muito espanto o quanto esta polêmica totalmente involuntária serviu também para atiçar o interesse do público e da mídia.

Com sinceridade, não sei de que forma ou se efetivamente o tumulto contribuiu para uma reflexão. Sei apenas que este espaço perturbador – esta zona de turbulência que, como escrevi na época, era análoga àquela que encontramos na arte contemporânea – marcou um retorno utópico ao Homem e à Vida. Noções que se haviam perdido nas décadas anteriores e que decidimos emblemar peremptóriamente por meio daquelas esculturas antropomórficas que remataram as passagens.

Hoje, século 21, o Homem e a Vida continuam, sob outras formas e em outros cenários. O que ficou da Grande Tela ? Ficou a imagem de uma réplica do universo das intervenções, ou melhor, um desdobramento completamente prospectivo e quase divinatório da grande teia em que ele acabou por se transformar com a mundialização e o verdadeiro emaranhado do Web. Se os artistas (e a sua arte) são os únicos a possuir a capacidade de prospecção, uma exposição que os tem como medida só poderia nos fazer ver adiante. E, ao longe, no futuro, hoje, graças à emoção que nos permitiu observar esta aptidão, A Grande Tela finalmente se materializa.

Sim, a maturidade começa quando nos contentamos em ter razão sem precisar provar que os outros estavam errados. Até a próxima, que agora é hoje, A Grande Tela faz 36 anos e são as demais experiências na crítica e na arte que a deixam sem idade e nenhuma ruga!

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