‘Três regras para fracassar’ ou ‘A tragédia brasileira’

2’26” de leitura

Sempre Pode Piorar ou A Arte De Ser (In)Feliz é o título de um livro genial, de 1988, que pode explicar de maneira psicológica, tim-tim por tim-tim, porque o Brasil ficou bloqueado, possivelmente para todo o sempre, entre a esquerda e a extrema direita. Ou seja, porque, a cada 4 anos, a partir de 2018, o país entrou no círculo vicioso da vitória de uma contra a outra.

Em 2022, ganhará a esquerda para barrar a extrema direita; em 2026, ganhará a extrema direita para barrar a esquerda e, assim por diante, eternamente. Ou, até que, por uma grande sorte do destino, um democrata – nem de esquerda, nem de direita – consiga desconstruir o beco político sem saída, na cabeça do povo brasileiro.

Paul Watzlawick (1921 – 2007), autor de Ultra Soluções, ou, Como Ter Sucesso em Fracassar (a tradução do original em inglês é bem melhor do que o título infeliz em língua portuguesa), foi um terapeuta austríaco-americano, discípulo de Jung, psicólogo, filósofo e uma das figuras mais influentes do famoso Instituto de Pesquisas Mentais de Palo Alto, na Califórnia. Grande teórico da comunicação, ele acreditava que as pessoas criam o seu próprio sofrimento no ato mesmo de tentar resolver os seus problemas.

De maneira irônica e cheia de humor, Watzlawick explica neste livro como conseguir fracassar, usando o que chama de “ultra solução”. Com esta saída, segundo ele, basta negar o problema e, junto, tudo que ele contém. Tipo aquela famosa frase anedótica que diz: “O paciente morreu, mas a cirurgia foi um sucesso”.

Dito de outra maneira, é muito simples: trata-se de um jogo de resultado nulo. Ou seja, ninguém ganha e, portanto, na maioria das vezes os dois protagonistas perdem.  Watzlawick escreve: “há algo de fundamentalmente falso no fato de crer que o contrário do ruim é necessariamente bom”.

Há, portanto, múltiplas soluções que se oferecem aos que, no fundo, querem (sem querer) que o Brasil e o seu povo fracassem. Mas, para estarem certos de conseguir o malogro, é preciso, absolutamente, segundo Watzlawick, respeitar estas três regras:

1) Exprimir o seu desejo de maneira negativa, como, por exemplo, “não quero nunca mais que Lula seja presidente do Brasil” ou “não quero nunca mais que Jair Bolsonaro seja presidente do Brasil”.

2) Visualizar o seu propósito sem enxergar os seus defeitos e experimentar, ao mesmo tempo, vagas e negativas sensações de nojo. Exemplos:

  • Desejar que Lula ganhe não enxergando o passado de mensalão, petrolão, mentiras, corrupção e outras indecências. Sentindo, ao mesmo tempo, repulsão por pessoas ricas, patrões, capitalistas em geral etc. Não é um bom sinal.

  • Desejar que Jair Bolsonaro ganhe, não enxergando o passado de apoio à ditadura e torturadores, misoginia, homofobia, autoritarismo, ausência de compaixão, desrespeito à democracia e outras indecências. Sentindo, ao mesmo tempo, repulsão por comunistas, pessoas pobres, gente que se revolta com desigualdade social etc. Não é um bom sinal.

3) A terceira e última “ultra-solução” para ter sucesso em fracassar, segundo Paul Watzlawick, é querer realizar um desejo sem pensar se ele causará mais dificuldade do que gratificação, se os efeitos colaterais serão maiores do que o bem-estar esperado. Ora, todos sabemos que se um ou outro for presidente do Brasil, haverá mais dificuldade do que contentamento, e os “efeitos colaterais” serão terríveis, muito maiores do que o bem-estar esperado.

É claro que para evitar a criação do seu próprio sofrimento no ato mesmo de votar, tentando resolver os problemas do Brasil e “alcançar sucesso em ajudar o país a alcançar sucesso”, basta fazer exatamente o contrário das três regras que acabo de citar.

Mas, para mim, a mais extraordinária das “ultra soluções para o fracasso” de Watzlawick, é a primeira. Porque se as pessoas fizessem o oposto disso, ou seja, se não exprimissem o seu desejo de maneira negativa, dizendo “não quero nunca mais que Lula seja presidente do Brasil” ou “não quero nunca mais que o atroz seja presidente do Brasil”. Se elas afirmassem positivamente “eu quero que fulano ou fulana seja presidente porque ele ou ela é o melhor para o Brasil”, o povo não teria que ficar eternamente votando contra um candidato e essa polarização paralizante acabaria de vez.

Até a próxima, que agora é hoje e, obrigada, enorme Watzlawick!

A erudição perto de nós

Maravilha! Nada mais inteligente do que publicar obras-primas clássicas, admiradas por escritores como Boccaccio, Diderot, Machado de Assis, mas que têm relação direta com o tempo presente. Se você tem medo da erudição, perca-o. Ela pode estar mais perto de nós do que a novela da Globo.


A Abobrificação do divo Cláudio é uma sátira que acaba com este imperador romano, morto em 54 d.C. Não só o autor se vinga do exílio e das crueldades que sofreu nas mãos de Cláudio, como ainda por cima enaltece Nero, seu sucessor, de quem foi preceptor.

Como César Augusto, o primeiro imperador romano, tinha inventado a ideia de se atribuir natureza divina, os vindouros, entre eles, Cláudio, acharam que podiam fazer a mesma coisa. Assim, na ficção do genial filósofo e dramaturgo Lúcio Aneu Sêneca, este governante – que era um tirano boçal e incompetente – vai ao céu mas, depois de muitas perpécias e sendo rejeitado pelos deuses, é enviado ao inferno para receber o juízo final. E que juízo final!

O texto e as ideias em prosa e verso, ficção e realidade, são saborosas, claro, dentro da tradição paródica criada pelo “cínico” da filosofia helenística, Menipo de Gadara (cerca de 275 a.C.). Em vez de se transformar em deus, o atroz vira uma abóbora, ou uma abobrinha se o leitor assim preferir, pois as duas frutas pertencem à mesma família das cucurbitáceas e, de todo modo, ele só falava abobrinhas.

Não é coincidência que o estudo, as traduções e o interesse por esse livro cresceram nos últimos anos em todo mundo. Afinal, déspotas proliferam bastante, da Coreia do Norte de Kim Jong-un à Síria de Assad; dos Estados Unidos de Trump ou da Rússia de Putin ao Brasil do Atroz.

Até a próxima que agora é hoje, e nem é preciso ser um Sêneca! Quem não gostaria de ver o Brasil acima de tudo, o Atroz abaixo de tudo e Deus abobrificando-o para todo o sempre?
ABOBRIFICAÇÃO DO DIVO CLÁUDIO
LÚCIO ANEU SÊNECA
TRADUÇÃO
Luiz H. M. Queriquelli, Maria H. F. Adriano, Miguel Â. A. Mangini, Pedro F. Heise
Editora Iluminuras