A história não é bem essa

OK. Assisti ao concorrente ao Oscar. Experimentei tirar o som, mas não deu certo. Tive que aguentar até o fim a voz enjoada da moça, recitando clichês, exercitando narcisismo na cadência da sua vidinha, mostrando a história de maneira bastante parcial, sem rigor, sempre do mesmo ponto de vista.

Imagem: documentário realizado por Petra Costa, que concorre ao Oscar de 2020.

Isso quando não usa de expedientes melodramáticos para mascarar certos fatos, descambando na grandiloquência de imagens, no sensacionalismo e em personagens estereotipados. Até O Triunfo da Vontade de Leni Riefenstahl que fazia propaganda dos nazistas em 1935, foi mais discreto. Até mesmo La hora de los hornos de Fernando Solanas que tive a paciência de assistir em Paris, em 1969, foi mais honesto. E eram três partes de 95, 120 e 45 minutos defendendo ideologia revolucionária… com uma parte preta proposital no meio do documentário, que durava uma eternidade.

Sintomático: a cineasta declarou à Folha que é preciso “resgatar o estado de direito”. Deve estar sofrendo de alucinações e pensa que está em 1967 sob o AI-5. Alguém precisa dizer a ela que felizmente ainda não chegamos lá e que, mesmo estando numa democracia imperfeita e com perigos à espreita, a nossa Constituição nos garante. Estamos vigilantes!

Além disso, ela photoshopou uma imagem do filme, tirando as armas de dois militantes mortos. Mesmo se as armas tivessem sido plantadas por militares, existe prova maior de desonestidade? Bastava narrar o fato, já que ela narra tudo o tempo todo. E disse também que “a arte não tem compromisso com a imparcialidade”. A arte não tem. Mas um documentário histórico, tem SIM SENHORA!

A Petra deveria assistir mais Jean Rouch e menos Michael Moore. Assistir mais Chris Marker, Marceline Loridan-Ivens, Alain Resnais, Agnès Varda, Marcel Ophüls, Werner Herzog, Luis Bunuel, Orson Welles, Claude Lanzmann, Patricio Guzman e tantos outros. Pena. O talento da cineasta fica asfixiado num documentário enviesado, totalmente orientado, sem dúvidas e sem crítica. “Sem dúvidas e sem crítica”… isso também faz lembrar certo partido político, não?

Uma Petra inversa teria feito um documentário inverso, igualmente tendencioso. Não existe história una. A história é sempre multifacetada e a sua versão, se for honesta, também deve ser. Se Democracia em Vertigem fosse ficção, a exigência não seria a mesma. O problema justamente é que não é ficção. Então, na minha opinião (posso estar errada), não deveria estar concorrendo em geral. Mas Hollywood tem razões que a própria razão desconhece.

Até a próxima, que agora é hoje e que meios os americanos responsáveis pela indicação ao Oscar possuem, para saber que a documentarista só mostrou o que quis mostrar, usou de artifícios e a história não é bem essa?

 

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A virtude e a verdade

O grave problema dos que falam e fazem política hoje, tanto na esquerda quanto na direita, é exatamente o mesmo.

Imagem:  “A Verdade saindo do poço” (“La Vérité sortant du puits”), Jean-Léon Gérôme, 1896. Museu Anne de Beaujeu, Moulins.

O grave problema dos que falam e fazem política hoje, tanto na esquerda quanto na direita, é exatamente o mesmo: preferem a virtude à verdade, ou melhor, submetem a verdade à ideia que eles têm da virtude e, portanto, são capazes de mentir para que a verdade coincida com a sua ideia de virtude.

Ora, quem é capaz de mentir não é o virtuoso que pretende ser. Não possui objetividade e humildade para reconhecer fatos reais. Enquanto votante escolherá mal o seu dirigente, enquanto político dirigirá mal o nosso país. E os dois juntos, acometidos por esta aberração mental e ideológica, manterão o caos no qual nos encontramos.

Até a próxima que agora é hoje, hora de fugir da disputa polarizada que é mortífera!

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“A Verdade saindo do poço”, Édouard Debat-Ponsan, 1898. Museu do Hôtel de ville (Prefeitura), Amboise.

7 cuidados que devemos tomar

Como dizia o escritor, poeta e filósofo francês Paul Valéry (1871-1945)1, precisamos tomar muito cuidado com os que:

1) gritam em alto-falantes, insultam, apostrofam.

2) fazem discurso de poder maior do que um homem.

3) fazem falar coisas fictícias (e inverificáveis) como Povo, História, deuses e ídolos.

4) tratam os outros e os entendem como matéria de seus próprios julgamentos e desejos.

5) levam as pessoas a agir, pagar e lutar.

6) estipulam no lugar dos outros.

7) pretendem conhecer melhor os nossos interesses do que nós mesmos.

O espírito livre

Se anarquia – segundo Valéry – é “quando cada um de nós tenta recusar qualquer submissão à injunção do inverificável”; se, ainda segundo ele, um “espírito livre não se apega às suas próprias opiniões e é inalienável”2; e se eu mesma penso que devemos sempre recusar as ideias feitas, os discursos ideológicos de direita e esquerda – colocando em causa os valores estabelecidos – então… até a próxima que agora é hoje e acabo de descobrir:

devo ser anarquista!

 

1 em “Principes d’anarchie”, Ed. Espaces & Signes
2 em “Regards sur le monde actuel”, Ed. Gallimard

 

Ilustração – “Cristo abençoando”, Rafael Sanzio (1483 – 1520), cerca de 1506.