7 cuidados que devemos tomar

Como dizia o escritor, poeta e filósofo francês Paul Valéry (1871-1945)1, precisamos tomar muito cuidado com os que:

1) gritam em alto-falantes, insultam, apostrofam.

2) fazem discurso de poder maior do que um homem.

3) fazem falar coisas fictícias (e inverificáveis) como Povo, História, deuses e ídolos.

4) tratam os outros e os entendem como matéria de seus próprios julgamentos e desejos.

5) levam as pessoas a agir, pagar e lutar.

6) estipulam no lugar dos outros.

7) pretendem conhecer melhor os nossos interesses do que nós mesmos.

O espírito livre

Se anarquia – segundo Valéry – é “quando cada um de nós tenta recusar qualquer submissão à injunção do inverificável”; se, ainda segundo ele, um “espírito livre não se apega às suas próprias opiniões e é inalienável”2; e se eu mesma penso que devemos sempre recusar as ideias feitas, os discursos ideológicos de direita e esquerda – colocando em causa os valores estabelecidos – então… até a próxima que agora é hoje e acabo de descobrir:

devo ser anarquista!

 

1 em “Principes d’anarchie”, Ed. Espaces & Signes
2 em “Regards sur le monde actuel”, Ed. Gallimard

 

Ilustração – “Cristo abençoando”, Rafael Sanzio (1483 – 1520), cerca de 1506.

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14 de Julho: o preço da liberdade

É a 26ª vez que assisto in loco a comemoração da queda da Bastilha e hoje particularmente também do centenário da entrada do Tio Sam na 1ª Guerra. E é a 1ª vez que vejo o Brasil, minha pátria original, nesse estado.

Vendo os presidentes francês e americano lado a lado, tão diferentes e depois de o segundo ter se mostrado ferino com o primeiro, a palavra “magnanimidade” pairou nos meus pensamentos. Apesar de a França acordar a diplomacia que dormia até agora, e de precisar dos Estados Unidos para inúmeras questões, como a luta contra o terrorismo, os conflitos no Oriente médio, Síria e Iraque, a oposição foi contra o convite de Emmanuel Macron a Donald Trump, evidentemente. Assim como se opôs à visita de Vladimir Putin, já que este havia tentado desestabilizar as eleições, aprovando de certa maneira a candidata do FN (Frente Nacional), partido da extrema direita. Mas a oposição hoje, na França, representa a velharia intolerante e dogmática que ainda resta e este país não quer mais. Não têm estatura para saber que não leva a nada recusar o diálogo, e que a história é sempre maior do que qualquer governo.

Precisamos de indivíduos magnânimos e livres que saibam virar a página e esquecer o que deve ser esquecido. Uma pessoa assim é a generosa, aquela que perdoa com facilidade, mostra-se indulgente com o próximo. Alguém que, a despeito de todos os riscos e perigos, age ou pensa desinteressadamente, com vistas a servir os outros, um país ou a encarnar um ideal. Afinal, o mundo é uma passagem. Ele muda, os humanos se transformam e, com tal rapidez que, mesmo as coisas que foram ditas ou as ideias que tivemos na semana passada, hoje podem não valer mais nada.

Mesmo certos jovens brasileiros parecem pequenos velhos

Isto me fez concluir que a grande tragédia (e atraso) da minha primeira pátria hoje se deve, talvez, justamente, à falta deste olhar e desta grandeza. Vemos no Brasil engajamentos congelados em tempos que não existem mais, ideologias de direita e esquerda nas quais apenas os cegos ou os idiotas persistem.

O drama que os brasileiros vivem hoje não está apenas na corrupção e podridão de certas instituições. Ele se deve sobretudo ao espírito de ortodoxia e à mesquinhez ideológica de todos os tipos, fantasiados de uma artificial generosidade, ainda que em direção dos menos favorecidos. Mesmo muitos jovens brasileiros, tanto de esquerda quanto de direita, parecem pequenos velhos imutáveis dentro dessa conformidade absoluta com as normas ou padrões doutrinários.

Os menos favorecidos não carecem de ideologias. Os mais favorecidos, tampouco. Todos necessitam apenas de países fortes. E países fortes precisam apenas de ética, determinação, educação, cultura, eficiência, inteligência e… magnanimidade.

Até a próxima que agora é hoje e viva o 14 de julho!

Rasto deixado pela Patrulha Francesa, na comemoração da festa nacional, dia 14 de julho de 2017. Foto (zoom 10x) tirada de minha janela, às 10h40.

 

Claude Monet, “Festa Nacional na Rua Montorgueil” (1878)