Formidável resposta à ‘bacanal narcisista no Louvre’

Sem qualquer dúvida, ‘This Is America’ clipe do americano Childish Gambino colocado no YouTube há pouco mais de um mês, é o melhor e mais extraordinário contraponto ao brega arrogante de Beyoncé e Jay-Z no Museu do Louvre. Clipe inteligente que, com a sua crueza, ao contrário de ‘Apeshit’, denuncia de fato a América atual: o lobby das armas, o racismo, o sistema penal, a violência policial, o hiperconsumo e a própria luxuosa, vulgar e pretensiosa sociedade do espetáculo na era das redes sociais, da qual ‘The Carters’ são os expoentes máximos. ‘This is America’, além da ótima música e atuação, ele sim, faz pensar.

Foto: “This Is America”, formidável videoclipe de Donald Glover (Childish Gambino).

Aos 34 anos, Donald Glover (Childish Gambino) confirma com este clipe os seus múltiplos e prodigiosos talentos. Além de rapper e compositor, ele também é dançarino, ator, cantor, cineasta, roteirista, produtor, humorista e DJ. Glover cresceu em família pobre no subúrbio de Atlanta, em Stone Mountain, onde se refugiou na leitura de peças de teatro e criação de esquetes. Diplomado pela Universidade de Nova York, a sua obra preferida é Huis clos (Entre quatro paredes) de Jean-Paul Sartre, escrita em 1944. No Exit, aliás, é o título de uma de suas canções.

Cada trabalho dele surpreende, seja com o álbum onde mistura funk dos anos 1970 com soul e gospel ou com a série de televisão Atlanta, onde ele revela a realidade americana contemporânea. Não é de admirar que, neste clipe de 4 minutos este artista culto e reflexivo desenhe o retrato de uma América despreocupada que prefere dançar e correr atrás de dinheiro, em vez de enxergar a opressão e a violência em sua volta.

Nos Carters a violência é provocação, em Childish Gambino ela é real.

Childish Gambino é o oposto do talentoso The Carters, casal que, no fundo, acaba como traidor da causa negra já que é vendido ao capitalismo branco. O suposto “orgulho negro” deles é a soberba de dois egos superdimensionados, embriagados pelo poder, enquanto que o orgulho negro em Childish Gambino, muito melhor expresso neste clipe, é modesto, a verdadeira “honra negra” e consciência do próprio valor e cultura nativa. Nos Carters a violência é provocação, é mímica e pose. Vulgaridade pura. Em Childish Gambino ela é real, um grito de desespero. Com classe e dignidade.

O clipe This Is America – que se tornou viral (5,8 milhões de visualizações até agora) – pode ser analisado, inclusive, semiologicamente. Temos vontade de revê-lo várias vezes até conseguir desvendar o significado de cada coreografia, gesto e imagem. Há momentos, por exemplo, que alguns críticos dizem se inspirar simultaneamente em uma dança africana, a Gwara Gwara, no “stanky leg” texano e nos gestos de Jim Crow. Este personagem foi popularizado nos anos 1830 pelo ator (branco) Thomas D. Rice que, fantasiado de negro, zombava dos gestos das populações afro-americanas. No fim do século 19, quando os Estados Unidos aprovaram as leis de segregação racial, elas foram chamadas de “leis de Jim Crow”.

Mas há outras mensagens . No clipe, depois que o cantor negro é assassinado com uma bala na cabeça, ele é arrastado como um animal enquanto alguém recupera delicadamente a arma colocando-a dentro de um tecido vermelho. Este é um sinal claro contra o armamento de civis. A cena do fuzilamento do coro de igreja composto por cantores negros americanos, refere-se explicitamente ao massacre racista na igreja episcopal da comunidade negra em Charleston, em 2015, porque o assassino queria provocar “uma guerra entre raças”.

Nas coreografias, o contraste entre as cenas festivas e o caos é perturbador. Além da denúncia contra o racismo e as armas, é uma crítica severa à sociedade do entretenimento e das redes sociais, o mundo de imbecis do qual falava Umberto Eco, que – entre outras coisas – não sabe interpretar o que lê, agindo por impulso e mimetismo muitas vezes com enorme violência. Uma cena curta mostra jovens filmando as rixas com seus smartphones, o que lembra a série inglesa Black Mirror de Charlie Brooker.

O clipe termina com Childish Gambino perseguido, um final que também pode ser interpretado de diversas maneiras, inclusive em paralelo com o filme Get Out (Corra! de Jordan Peele ) que trata igualmente de racismo.

Até a próxima, que agora é hoje, hora de deixar a agressividade e os preconceitos de lado, aprender a ver obras de maneira inteligente e ler textos exatamente como foram escritos!

Videoclipe “Childish Gambino – This Is America”

 

“Jim Crow” por Jean-Michel Basquiat

 

 

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Bacanal narcisista no Louvre

‘Apeshit’ (fezes de macaco), o título do novo clipe de Jay-Z e Beyoncé já diz tudo: a partir do hábito de macacos raivosos arremessarem suas próprias fezes no que odeiam, este nome significa ‘a raiva que produz nos humanos um comportamento parecido com o do macaco enfurecido.’

Foto: Apeshit’ (fezes de macaco), o novo, pretensioso e arrogante clipe de Jay-Z e Beyoncé.

Pois é exatamente o que o novo videoclipe do casal parece fazer com a arte e a instituição que lhe serve de cenário. Os dois se contorcem diante de quadros que não olham, enquanto outros personagens posam, igualmente de costas para as obras mais importantes do museu: Vênus de Milo, Vitória de Samotrácia, Coroação de Napoleão, Balsa da Medusa, Gioconda. O mau gosto atroz impera.

Não, não estamos sonhando, não é pesadelo, apenas um mau momento brega que felizmente não vai durar como a Mona Lisa, ao contrário do que disse Jay-Z. Sim, porque na entrevista que o rapper deu à Times Magazine, ele pergunta: “É melhor ser uma tendência ou ser Ralph Lauren? Melhor ser uma tendência ou ser eterno?” E afirma: “Serei como a Mona Lisa, cara! Me identifico com a verdade! Vou ser cool em 40 anos.” Que bom que a Mona Lisa, segundo o insolente rapaz, vai “durar tanto”…

O clipe, esta pequena vingança política afro-americana sobre a grande cultura, é da mesma arrogância sem par. O patriota Peruggia fez melhor quando roubou a Mona Lisa do museu em 1911. Mas se os pretensiosos Jay-Z e Beyoncé podem alugar um estádio inteiro de rúgbi, não surpreende que possuam meios de se oferecer um Louvre voraz de dinheiro e publicidade.

Depois de Niggas in Paris (2011) de Jay-Z e Kanye West – do seu álbum Watch the Throne – onde eles contam as seis noites no hotel de luxo Le Meurice no qual se esbaldam com modelos, álcool e o resto, consumindo 144 mil euros, e citando pelo menos 8 marcas de luxo (por contrato), o Louvre certamente é mais distinto.

No entanto, mesmo em instituição cultural, não são muito elegantes o escárnio, cinismo, oportunismo e atrevimento destes novos filisteus. Os selfies deles, com vestimentas perfeitamente adaptadas a uma visita de museu, de costas para a Mona Lisa, não podem ser mais cafonas. Ego-retratos capazes de fazer Leonardo se revirar em seu túmulo…

Isso, sem dizer que o significado de “Apeshit”, título desse videoclipe, é bastante ambíguo. Dentro do contexto, pode ser considerado racista. E sem dizer também que essa música (letra inclusive) de Beyoncé e Jay-Z é boa para “boi dormir”. Quem quiser curtir clipe viral, sem ficar com sono, é muito melhor assistir ao excelente “Childish Gambino – This Is America” (vídeo abaixo).

Até a próxima, que agora é hoje e eis o preço que a velha Europa deve pagar pela última e verdadeira expressão da América vulgar, ignorante e submissa, de Obama a Trump!

Videoclipe “Apeshit” – The Carters

Videoclipe “Childish Gambino – This Is America”

 

 

Klimt em kitsch puro e duro

Gustav Klimt – Uma Imersão na Arte e na Música é o evento parisiense mais falado do momento com 250 mil visitantes em menos de dois meses. E, no entanto, não é uma exposição. É apenas uma atração, na qual a imitação é bem inferior à arte que substitui.


Imagens: Gustav Klimt © Culturespaces/Eric Spiller

Depois da experiência no Carrières de Lumières, antigo lugar de exploração de rochas calcárias em Baux-de-Provence, Klimt (1862-1918) abre o baile do recém-inaugurado Ateliê de Lumières em Paris, junto de mais dois vienenses: Egon Schiele (1890-1918) e o pintor arquiteto Friedensreich Hundertwasser (1928-2000).

Desta vez são 140 projetores laser de vídeo que varrem o espaço de 1.500 metros quadrados e 10 de altura com 3 mil imagens coloridas, enquanto 50 alto-falantes espacializam a música de Wagner e Beethoven. Nenhum quadro é para ser visto. Não existem obras, apenas imagens a partir delas. Representações dançantes, flutuantes, moventes, em zoom constante. Reproduções que se fundem em transições, com num videoclipe gigante, criando uma experiência sensorial vigorosa. É o que chamam de “exposição imersiva”. “Trata-se da maior instalação multimídia do mundo” vangloriam-se os organizadores. Não é para menos. A sociedade deles (Culturespaces) investiu cerca de 10 milhões de euros para reformar a antiga fundição do século 19 em Paris.

Foi o sucesso da matriz na comuna turística perto de Provença-Alpes-Costa Azul, que levou a instituição a abrir a filial parisiense. Naquele “parque temático kitsch” dedicado a shows também feitos com a técnica AMIEX® (Art & Music Immersive Experience), os espetáculos atraíram mais de 2,1 milhões de pessoas desde 2012.

Obras parecem ser apenas ilustrações para a grandiloquência artificial

No ano passado, o público assistiu à apresentação Bosch, Brueghel, Arcimboldo. Fantástico e Maravilhoso. O nome não era muito original e a exibição tampouco. Como em desfile alegórico de rua ou uma narrativa de narrativas (o que é bastante redundante) 2 mil imagens movimentavam-se pelos muros, no espaço de 7 mil metros quadrados, durante 30 minutos. E tudo isso sob fundo musical de Carmina Burana (Carl Orff), Quatro Estações (Vivaldi), peças de Mussorgski e Led Zeppelin.

Agora, em Paris, é a mesma coisa. No entanto, ver obras de arte transformadas em clipe tridimensional é triste! Pior do que ouvir certos “remix” musicais em que os DJ’s desrespeitam compositores e intérpretes. Ao dar formas e volumes reais às características virtuais dos artistas, e outros artifícios, os virtuoses espertalhões estetizam e esvaziam a linguagem dos mestres, transformando obras-primas em assombrosos e gratuitos exercícios técnicos, vazios de alma.

Fica como se as obras de Klimt, Schiele e Hundertwasser fossem ilustrações ou decorações para a grandiloquência artificial e sensacionalista de um show de cabaré. Certo, pode ser muito bonito e até mesmo “mágico”. Mas será que é preciso vampirizar a verdadeira arte para criar magia? Ou será que se pensa que maravilhas pictóricas reais precisam de “efeitos especiais” para que cheguemos a elas? Até mesmo uma pequena reprodução em cartão-postal pode ser mais fiel à nossa percepção…

Videoclipe de divulgação

Nota: Este artigo foi publicado no Caderno 2/Estadão, sob outra forma, no dia 15 de Junho de 2018.

Sartre e Beauvoir ‘calavam-se e continuavam’

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir jamais escreveram alguma coisa contra Franco, Hitler ou Mussolini. Calavam-se e continuavam. Como disse um famoso filósofo e musicólogo francês, ‘foi só depois da Guerra que os dois começaram a se engajar. Isso, para fazer esquecer o próprio esquecimento.’

Foto: Jean-Paul Charles Aymard Sartre e Simone Lucie Ernestine Marie Bertrand de Beauvoir, em Roma, 1978.

Assisti a um programa literário de boa audiência na televisão francesa, onde a “expoente da nova literatura francófona” (não é a minha opinião), a franco-marroquina Leïla Slimani, filha de banqueiro que adora o presidente Macron (e confirmou presença na Flip 2018 ) se desmancha completamente falando do novo posfácio que escreveu sobre “O Segundo Sexo” de  Simone de Beauvoir, que todas as feministas – pobres, ricas ou remediadas – adoram… nem sempre sabendo exatamente por que.

Os convidados respondem sem dizer muita coisa e subitamente Dan Franck, verdadeiro escritor que jamais seria convidado à Flip, penso eu, diz: “Simone de Beauvoir? Bem… enquanto ela e Sartre bebiam aperitivos no Café de Flore nos anos 1940, Max Jacob estava morrendo. A ‘guerra’ de Beauvoir em suas memórias é completamente simplória. Sartre e ela jamais escreveram alguma coisa contra Franco, Hitler ou Mussolini. Calavam-se e continuavam. Como afirmou o filósofo e musicólogo francês  Vladimir Jankélévitch(1903-1985), ‘foi só depois da Guerra que os dois começaram a se engajar. Isso, para fazer esquecer o próprio esquecimento.’ ”

Sartre e Beauvoir, bodes expiatórios?

Já se disse tudo e o contrário sobre a atitude de Jean-Paul Charles Aymard Sartre e Simone Lucie Ernestine Marie Bertrand de Beauvoir sob a Ocupação estrangeira. “Collabos”? Resistentes? Expectantes? Ou seja, aqueles que “esperavam em observação”, prática política, sindical ou atitude individual que recusa a inciativa e só toma posição segundo as circunstâncias? De todo modo, a atitude do filósofo e de sua companheira durante a guerra sempre suscitou o debate. Ora, graças a novos documentos descobertos em 2014, Ingrid Galster (1944-2015), grande pesquisadora na Universidade de Paderborn, na Alemanha, coloca tudo em seu lugar. Diz ela: “Sartre ocupou o posto de um professor afastado pelo regime de Vichy. Será que ele não sabia? (…)”

Mas Ingrid Galster se pergunta, sabendo que entra no campo da especulação, se o “super engajamento” de Sartre no livro Reflexões Sobre o Racismo, publicado em 1946, não traduziria também uma espécie de culpabilidade escondida diante de sua indiferença humana durante a guerra. Sobretudo quando se conhece o caso infeliz com Bianca Bienenfeld, a jovem judia com quem Sartre manteve uma relação em 1939.  Na primavera de 1940, quando eles se separam, e que Bianca, desesperada, foi obrigada a se esconder para não ser enviada a um campo de concentração, jamais recebeu um sinal de seu ex-amante.

De modelos, Sartre e Beauvoir tornaram-se bodes expiatórios. Galster explica: “É como se fosse apenas Sartre que tivesse levado toda uma geração ao erro – URSS, Cuba, esquerdismo… Seria injusto. As coisas são mais complexas. Como na Ocupação.”

Mas, voltando ao programa literário, os convidados e o apresentador, depois de ouvir Franck, cuja especialidade é contar magnificamente os bastidores da história e intelectualidade francesa, engoliram em seco. E eu exultei como sempre exulto nas ocasiões em que a verdade histórica destitui o aspecto mítico do qual precisam os tolos para poder fundamentar as suas tolices.

Até a próxima, que agora é hoje e que satisfação quando aparece alguém colocando os pingos nos is!

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir no Café de Flore, em Paris. Fotografias de Brassaï.

 

Site oficial do último livro do autor

 

Picasso, sua mãe e a tela cubista

Quando terminou a ‘Guernica’, o gênio chamou a mãe que estava de visita em Paris. Queria a opinião da ‘madrecita’, cujo ‘Dia’, o 1° domingo de Maio, só seria oficializado na Espanha duas décadas depois. Aos 82 anos, María Picasso y López chegou esbaforida depois de subir os cinco lances de escada do ateliê…

 

Imagem: Pablo Picasso, “Maria Picasso y Lopez”, 1916.

Para mi madre

No dia 28 de abril de 1937, Picasso abriu o jornal L’Humanité e descobriu, horrorizado, as fotos de Guernica reduzida a cinzas. A cidade basca tinha sido bombardeada, dois dias antes, por 44 aviões da Legião nazista alemã, 13 aviões da aviação fascista italiana, como apoio ao golpe de Estado nacionalista espanhol.

O mestre havia recebido o pedido de um trabalho do governo republicano de Francisco Largo Caballero, para o pavilhão espanhol da Exposição universal de Paris daquele ano. Portanto, encomendou rapidamente uma tela gigante a Antonio Castelucho, artesão catalão que possuía, perto do bairro de Montparnasse, uma loja muito apreciada pelos pintores espanhóis exilados em Paris.

Em três dias, do dia 1 a 4 de Maio, ele cobriu a superfície do quadro febrilmente, sem descanso. Sofreu muito pensando e desenvolvendo o tema e as formas cubistas que pudessem relatar e, ao mesmo tempo, expressar – em claro-escuro – a dor dos habitantes de uma cidade destruída pela barbárie. Em seu cubismo, Picasso desconstruiu as formas, misturou-as, as associou e dissociou da mesma maneira que as bombas e os estilhaços. Ainda na força dos seus 56 anos, executou a pintura em preto e branco, com várias nuances de cinza, não se sabe se à óleo ou tinta industrial de parede, também fornecida por Castelucho. Queria um resultado sem brilho, que se aproximasse do aspecto das casas destruídas.

Quando terminou, o gênio que, na verdade, chamava-se Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Mártir Patricio Ruiz y Picasso, chamou a mãe que estava de visita na cidade. Queria a opinião da “mamacita de su corazón” cujo “Dia”, o 1° domingo de Maio, só seria oficializado, na Espanha, duas décadas depois.

Aí está a ‘Guernica’, mamãe! O que acha?

María Picasso y López, que estava para completar 82 primaveras no mês seguinte, chegou esbaforida depois de subir os cinco lances de escada do ateliê, enquanto gemia “¡Ay! Sólo una madrecita para hacer esos sacrificios a un hijito…”. Beijaram-se e Pablo apontou a tela encostada na parede do fundo:

“¡Ahí está “Guernica”, mamá! ¿Que crees?”

María aproximou-se do quadro e ficou em silêncio alguns minutos: a figura central, iluminada por uma lâmpada, era uma égua aterrorizada cujo corpo, recoberto de linhas verticais, havia sido transpassado por uma lança. À esquerda, uma mulher carregava a sua criança morta e gritava de dor. Atrás dela, estava um touro. Embaixo à esquerda, um homem deitado com os braços esticados segurava uma espada quebrada. Uma pequena flor aparecia tímida, quase esmagada entre as patas do jumento e a espada quebrada. À direita do quadro, três mulheres desconjuntadas, uma delas ferida, choravam e gritavam; a do alto estendia uma lâmpada a óleo em direção ao centro da tela. No fundo, formas geométricas evocavam casas incendiadas, sendo que as chamas eram representadas por triângulos claros.

Pensou em voz baixa:

“¡Oh, là! ¡Estoy para ver una pantalla más fea y triste en el planeta!” (Ai! Estou para ver uma tela mais feia e triste no planeta!)

Em seguida virou-se para o filho e perguntou:

“Já que é uma encomenda para o pavilhão espanhol da Exposição universal de Paris, porque você não pintou uma coisa mais bonita e alegre, Pablito? Nada de cubismo! Uma natureza morta como as do nosso conterrâneo Juan Sánchez Cotán, à maneira dos flamengos, que tal?”

“Flamengos… como assim?”, respondeu Picasso.

“Ou mais moderninha”, replicou María. “Como a Natureza espanhola do seu ‘rival’. Afinal, não foi você que disse que ‘se não fizesse o que faz, gostaria de pintar como Matisse’?”

E acrescentou abanando a cabeça, diante do filho mudo e aturdido:

“Pablito, Pablito, você não toma jeito!”

Até a próxima que agora é hoje, uma semana depois do Dia das Mães, e mesmo que a “parte maternal” (nem toda) desta historinha seja inventada, bem que ela poderia ser verdadeira!

Maio 68 já está bem longe. Que bom!

Manifestações, greves gerais e selvagens, encontros e namoros. Os eventos parisienses de Maio e Junho – que haviam começado conosco em Paris, ganharam o mundo operário, depois a totalidade do país, atravessando fronteiras – festejam agora o seu aniversário de meio século. E nós, comemoramos que tudo aquilo já esteja bem longe!

 

“Quando não dá para mudar o mundo, é preciso mudar de cenário.”
Daniel Pennac (1944), escritor premiado e meu vizinho de bairro, em seu livro La Petite Marchande de prose

Que alívio não querer mais colocar em xeque as instituições tradicionais, não mais sentir revolta contra o “capitalismo”, “consumismo”, “autoritarismo cultural, social e político”, “imperialismo americano”, “poder instituído”, etc. Que tranquilidade ver que estas palavras, de tanto serem repetidas, não explicam e significam mais nada no mundo de hoje que, para nós, acredito, já não é uma invenção. O que são os velhos “capitalismo” e “imperialismo” daqueles discursos engajados, militantes e obsoletos, diante da onipotência do presente “policiamento econômico mundial” que representa a saída dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã?

Quem sabe daqui a meio século os (agora) jovens brasileiros sentirão, igualmente, que o tempo e a história liberam, desdramatizam e tiram o peso das situações e fatos conjunturais de uma época, restituindo os seus verdadeiros significados?

Até a próxima, que agora é hoje e que sossego não odiar mais de Gaulle (bem ao contrário), sabendo que nunca mais teremos aquela sensação penosa de responsabilidade de que “devemos e somos capazes de mudar o mundo”. Viva! Ufa!

 

Peça de museu: paralelepípedo de rua, arrancado no dia 25 de Maio de 1968.
Meus guardados preciosos
Cartazes da mostra comemorativa na Escola de Belas Artes, em Paris

 

Céline, Tarsila e o racismo

“Pessoalmente estou pouco ligando para o talento e os fãs do senhor Louis-Ferdinand Céline. Penso que o melhor que possa acontecer à sua memória é ele ser esquecido!” (Pedro Paulo, universitário brasileiro imaginário, residente em Paris). “Há algo de muito forte e constrangedor naquele peito caído da ‘Negra’ de Tarsila do Amaral, pintora da elite paulista. É difícil não pensar em seu caráter ideológico, que tem marcas raciais.” (professora da Unicamp, não imaginária, em comentário no Facebook.).

Imagem: “O Postal”, 1928, Tarsila do Amaral. Esta tela pertenceu aos meus avós e à minha infância e adolescência, até 1963. Jamais imaginei que alguém, um dia, pudesse dizer que alguma pintura de Tarsila do Amaral tivesse “caráter ideológico, com marcas de racismo”. Mas esta é a patrulha estética que grassa hoje, pensando que, assim, possui a chave de compreensão da arte brasileira.

Marido e mulher, ambos profissionais na área da cultura em Paris, se encontram, em sua própria cozinha, na hora do chá. Catherine, francesa, livro embaixo do braço, coloca o bule sobre a mesa; Pedro Paulo, brasileiro, belisca um biscoito pensando que teria preferido um café. Ela diz:

“Ontem reli algumas páginas de Louis-Ferdinand Céline, o começo de Morte a crédito, onde ele conta a sua experiência de médico com as pessoas pobres. Ah grandioso! Hilário! O suprassumo da literatura francesa! Você não leu, leia pelo menos esse trechinho.”

Catherine abre o livro que trazia debaixo do braço e o estende ao marido:

“É preciso ler em voz alta, se possível imitando o sotaque ‘parigot’ (parisiense) tipo Louis Jouvet! Dá pra entender porque Fabrice Luchini, grande ator, recitou essa passagem no palco, ha ha!”

Pedro Paulo lê rapidamente, em voz baixa, e faz uma careta: “É provocação?”

“Como assim?”, ela se surpreende.

“Imagino o Luchini recitando Céline, responde Pedro Paulo, mas não vejo nada de hilário. Isso é um ‘pedaço de horror’ em sua falta de humanidade, bondade, compaixão – o contrário da medicina! Hipócrates ficaria de cabelo em pé!”

“Sinto muito, Pedro Paulo, mas a sua incompreensão de Céline é consternadora. Ou você não leu direito ou, o mais grave, é incapaz de compreender um texto de literatura escrito numa língua que não é a do código civil ou do francês que emprega o apresentador do jornal das 8 na televisão. Estou com a impressão de ouvir o que o nosso peixeiro poderia proferir de Céline!”

O homem, no sublime do seu horror e de sua grandeza

Pedro Paulo joga o resto do biscoito dentro da xícara vazia e retruca:

“A literatura não justifica tudo. Que nojento esse Céline! Que pessoa desumana. A gente se pergunta porque ele escolheu ser médico. Talvez para poder cuspir o seu ódio ‘maravilhosamente literário’ sobre os humanos. Irra!”

Catherine, à beira de um ataque de nervos, tenta maneirar:

“É porque ele era médico justamente, que Céline pôde se aproximar da condição humana e escrever duas ou três obras-primas onde o homem, ou melhor, o fundo da condição humana é apresentado no sublime do seu horror e de sua grandeza.”

“Consternador é o seu autoritarismo e arrogância! Segundo você, só porque é conferencista e professora catedrática na Sorbonne, eu não tenho o direito de falar e sentir de maneira diferente? Inacreditável!”

“Mas Pedro Paulo, é mais forte que Pascal! Simplesmente trata-se de uma imagem paradoxal que não agrada, perturba, decepciona os discursos submissos que embelezam e escondem o fundo de egoísmo, mesquinharia, covardia que os carregam e agitam!”

“Vai comparar com Proust…”, resmunga Pedro Paulo.

“Proust demoliu os esnobes burgueses e a classe decadente da aristocracia do faubourg Saint-Germain e isso dá prazer, não é? Todo mundo perdoa a maldade dele. Céline demoliu os pobres, os pequenos, o ‘povinho’, isso não dá prazer e o consideram um canalha. É a reação dos imbecis que são os cães de guarda do ‘politicamente correto’ que, aliás, não mudou nada desde 1936.”

Tarsila, Cioran, Céline, processos parecidos por razões execráveis

“Catherine, você está me chamando de imbecil? Justo eu que nunca gostei dos ‘bem pensantes’, saí correndo da USP e vim trabalhar em Paris porque pressenti que um dia teria de presenciar a destruição ética e mental que um partido político faria com os meus colegas? Justo eu que vejo com horror, no Facebook e na mídia, esses  pseudo artistas e professorinhas da Unicamp pertencentes à doxa atual, cães de guarda criticando Tarsila do Amaral e a Antropofagia por causa de uma suposta ‘desigualdade racial’?

“Entenda como quiser, Pedro Paulo. Arte não é a minha especialidade, mas em todos os campos a turma de idiotas é igual: sempre prefere falar do que é externo às obras artísticas ou literárias. É mais fácil. Fizeram o mesmo processo a Cioran que a Céline, pelas mesmas e execráveis razões. Para compreender o século 20 é preciso ler Proust, sim, e TAMBÉM Céline. Junto com Kafka, é o tríptico essencial. Todo o resto é tagarelice insignificante.”

“Catherine, eu sempre defendi que o entendimento de qualquer movimento de arte deve se dar longe dos processos rasteiros de cunho ideológico, você sabe. Os mesquinhos não fazem outra coisa do que descrever a si mesmos através de suas acusações. Quando falam que Tarsila tinha uma “ideologia” é da própria ideologia que estão falando, e quando falam de “cegueira ideológica” é a cegueira deles mesmos que descrevem. Reconheço a maestria de um autor, mas Céline me dá engulhos viscerais! Só de olhar o retrato dele… É quase o mesmo sentimento de repugnância que experimento ao ver a expressão e o topete de Trump, ha ha!”

“Pedro Paulo! Que comparação!!! E que incoerência! Você defende a Antropofagia e ataca Céline!!! O seu pai, que era um dos homens mais cultos do Brasil e te fez prometer que você leria certos autores nacionais e estrangeiros, coisa que você não cumpriu, teria tido vergonha da sua reação.”

“Ele teria tido vergonha de ouvir o tom e a falta de humor com o qual a minha mulher me fala! Eu li, sim, uma parte do que ele me fez prometer. Um volume de Proust, dois de Dostoievski… Também nunca ouvi muita música de Schoenberg, Alban Berg, Messiaen, Stockhausen ou Webern. Não preciso entender de tudo. Mas isso não me impede de julgar.”

Leitores e espectadores inteligentes não julgam.

“Julgar? Livros, antes de julgar sem conhecer ou compreender, é preciso LER. Mas os leitores inteligentes não julgam, eles estão além do julgamento. Diante de obras-primas, eles ficam silenciosos. Claro, eles se veem e se reconhecem no espelho que autores como Proust, Céline e Kafka lhes oferecem. É a força e a grandeza da literatura. Mas é a força e a grandeza da arte igualmente. Tão ridículos e tolos quanto os que dizem ficar ‘constrangidos diante do que existe de racial’ em Tarsila, são aqueles que dizem  ‘gostar dela” ou, pior, os que exclamam ADOOORO TARSILA!!! Não dá para aguentar… ”

“A força e a grandeza da literatura às vezes dá de cara com uma realidade que não é tão grandiosa assim. Li bastante sobre essa polêmica de publicar ou não os textos antissemitas de Céline. Pierre-André Taguieff, autor do livro “Céline contre les Juifs ou L’École de la haine” (“Céline contra os Judeus ou a Escola do Ódio”), lançado este ano aqui em Paris, disse numa entrevista que entre os esnobes e conformistas acadêmicos de esquerda e direita é de bom tom se declarar ‘céliniano’. O que significa se identificar com um pretenso ‘rebelde, vítima da inveja e do ódio dos medíocres e dos maldosos’. Essa é a imagem que o paranoico do Céline conseguiu impor à posteridade. Acho estranho você não perceber isso igualmente, Catherine.”

“Esse Pierre-André Taguieff é um asno. Ele faz parte desses pseudo-intelectuais provocadores e venenosos chamados ‘novos reacionários’ que procuram um lugar ao sol. Fica ao lado do Éric Zemmour.”

“Mas Taguieff tem um pouco de razão, não? O ‘estilo’ lava tudo: o pro nazi, o propagandista anti-judeu, o colaboracionista. Quando se possui a sorte de ter ao seu lado a Sorbonne, Gallimard, a imprensa cultural e tantos personagens mediáticos como Michel Audiard, Nicolas Sarkozy e Fabrice Luchini, tudo é possível. Uma certa França adora amar os ‘párias’ ou os ‘malditos’. É o oposto do que acontece em um certo Brasil.”

Catherine fica em silêncio. Arruma a louça no lava-pratos enquanto suspira dando de ombros como se o marido fosse um “caso perdido”. Ou talvez essa discussão fosse importante, para que os dois descobrissem no final onde é que as suas ideias, aparentemente divergentes, convergiam.

“Claro, continua Pedro Paulo, cada um tem o seu Céline: o autor da Viagem não é o mesmo da Féerie e dos panfletos. O suposto pacifista agrada alguns, o “médico dos pobres” agrada outros. Viagem ao fim da noite ou Morte a crédito têm, com razão, muitos fãs. Mas, quer saber? Pessoalmente estou pouco ligando para o talento e os fãs do senhor Louis-Ferdinand Céline. Penso que o melhor que possa acontecer à sua memória é ele ser esquecido!”

Catherine dirige-se à porta, porém antes de sair da cozinha, dispara:

“OK, Pedro Paulo, mas posso te pedir um favor? Dá para você parar de ser brasileiro – ou, pelo menos, parar de ser brasileiro pelo pior lado? Merci!


Até a próxima, que agora é hoje e é uma ironia muito grande que, no mesmo momento em que alguns “tagarelam” querendo encontrar racismo na arte, outros que lutam de verdade contra o racismo morram assassinados como a vereadora carioca Marielle Franco!

“A Negra”, Tarsila do Amaral, 1923

 

Primeiras páginas de “Morte a crédito”, de Louis-Ferdinand Céline.

 

LEIA TAMBÉM AS ANÁLISES:

 

 

“Se o potencial erótico de corpos modelados não deixa as pessoas indiferentes, isto quer dizer que elas talvez sofram de “agalmatofilia”, que é um desvio sexual bastante estranho…”; análise de Sheila Leirner

 

 

“No século 19 “arte total” era a ópera, no século 21 é o cinema. Não existem mais cineastas de gênio que não saibam se movimentar simultânea e confortavelmente em todos os campos do conhecimento e da cultura”; análise de Sheila Leirner

 

 

Digamos que este artista possui a rara capacidade de provocar suspense, fascínio e curiosidade; análise de Sheila Leirner

 

 

“Todos os pais têm defeitos. Uns mais, outros menos. Porém, quando as imperfeições tornam-se destrutivas, podemos defini-las como “tóxicas.”; análise de Sheila Leirner

 

 

“Racionais e rigorosos – jamais fortuitos, aleatórios ou arbitrários – seus trabalhos são como fórmulas matemáticas com as suas soluções já embutidas nas imagens.”; análise de Sheila Leirner

 

 

A vida sexual das estátuas

Acabo de descobrir que bonecas infláveis têm a ver com arte. Ou, mais especificamente com esculturas. Sim, porque se o potencial erótico de corpos modelados não deixa as pessoas indiferentes, isto quer dizer que elas talvez sofram de “agalmatofilia”, que é um desvio sexual bastante estranho.

Imagem: “Estátua de jovem mulher com o rosto coberto por uma colméia de abelhas”, obra do artista francês Pierre Huyghe na documenta 13 de Kassel, na Alemanha, 2012.

“Agalma” em grego significa “escultura” e “filia”, no caso, o amor e atração sexual por estátuas. Agalmatofilia, portanto, é uma perversão que existe, mas é pouco estudada e conhecida, provavelmente porque não perturba a ordem pública e não faz mal a ninguém, exceto à própria pessoa que às vezes pode ficar um pouco traumatizada.

Pelo menos é o que conta em seu livro Sobre Agalmatofilia (Editora L’Échoppe, 2012), a formidável historiadora das ideias, de arte e da filosofia da ciência, Laura Bossi, também neurologista, especialista em epilepsia e doenças neurodegenerativas, curadora de arte e mulher de Jean Clair – pseudônimo de Gérard Régnier, igualmente curador e historiador, hoje membro da Academia francesa.

Sabemos que além da perfeição de suas formas, as estátuas dividem com amor o seu sonho de eternidade. O que não sabíamos é que há casos célebres na Antiguidade, de trocas íntimas entre elas e seres humanos, sobretudo homens. O que não deixa de ser uma boa solução, já que estátuas não têm como usar #metoo nem caçar os que as assediam.

 

Francisco Brennand, Oficina Cerâmica, Recife.

 

Lembro muito bem de Jack Lang em pessoa, o ministro da cultura de Mittterrand, que vi na Bienal de São Paulo, acariciando o traseiro de uma escultura de Francisco Brennand. Foto, aliás, que saiu em todos os jornais da época. Na Folha, se não me falha a memória (“na Folha se não me falha”, me perdoe, saiu sem querer), com o título: “A mão-boba do ministro francês em visita à Bienal”.

No livro, descobrimos com surpresa o quanto de emoção, paixão e comportamentos sexuais estranhos certas pinturas e esculturas podem suscitar. Pensando bem, quem não fica embasbacado com o charme de Lady Hamilton pintada por George Romney, uma das jóias da Frick Collection que pode ser contemplada em Nova York? Até o cachorro do quadro parece magnetizado.

 

Lady Hamilton por George Romney(1734–1802), uma das jóias da Frick Collection, Nova York.

 

O importante escritor Julian Green, cuja obra foi marcada pelo homossexualismo e a fé católica, por exemplo, não pára de contar os enfeitiçamentos que sofreu olhando certos corpos masculinos em vários museus. A sensualidade e o erotismo que brotam de obras de arte, quadros e sobretudo esculturas percorrem toda a sua obra. Vale a pena reproduzir uma de suas narrativas autobiográficas, onde ele conta a sua visita ao Museu nacional de Nápoles. Mesmo porque, quando estive lá, na mesma sala, não senti nada disso. Diz ele:

“Quando eu me encontrava na sala dos bronzes pompeanos, o sangue começou a pulsar no meu corpo com uma força que me obrigou a parar (…) compreendi que eu estava no coração de uma zona proibida. Tudo que eu possuía em mim de religião batalhava para me fazer deixar aquele lugar perigoso, mas eu não me mexia. Dizer que a nudez se espalhava entre aquelas paredes é pouco: a volúpia triunfava sob todas as suas formas.”

Fascinado por uma estátua de Narciso, ele acrescenta: “Com uma felicidade misturada a horror, andei em volta desta estátua verdadeiramente infernal. Eu estava enfeitiçado como nenhum homem neste mundo. Quanto tempo fiquei lá? Não sei. O tempo não existia mais, eu me sentia lentamente transformar em outra pessoa, despertada, avisada”. E em um de seus livros, Green relata ainda um sonho no qual ele abraça uma escultura.

Estátua de Narciso, Museu de Nápoles. (se não estiver vendo esta imagem, clique no LINK) 

 

Fonte Marco Polo, Praça Ernest Denis, Paris. Construída entre 1867 e 1874, na entrada do Jardim Marco Polo, avenida do Observatório em direção ao Jardin do Luxemburgo, suas 4 mulheres desnudadas foram realizadas por Jean-Baptiste Carpeaux.

 

Penso que qualquer pessoa, mesmo sem sofrer de agalmatofilia, pode enumerar algumas obras que fazem nascer em seu coração uma emoção estética ou um sentimento erótico. Dá para imaginar o que devem sentir certos homens ou mulheres ao passearem nos Jardins do Observatório em Paris, onde está a fonte das “quatro partes do mundo”, representadas por mulheres desnudadas e formosas! Até os cavalos fazem parte do erotismo.

Para nossa felicidade existe também o oposto desta “parafilia” artística, este distúrbio psíquico igualmente chamado “pigmalionismo” em francês e espanhol (por causa do mito de Pigmalião), que é caracterizado por práticas sexuais não muito recomendáveis do ponto de vista social e estético. Até a próxima que agora é hoje, e “agalmatofilia ao contrário” é Grace Kelly, deslumbrante em Alta Sociedade (1956), filme de Charles Walters, tentando demonstrar que “não é fria como uma estátua de bronze”!

Réplica da estátua de Narciso que está no Museu de Nápoles (se não estiver vendo esta imagem, clique no LINK)

 

O artista Joseph Erhardy, em seu ateliê. Foto de Henri Cartier-Bresson.

 

“Pigmalião e Galatea” de Jean-Léon Gérôme (cerca de 1890), representa o mito de “Pigmalião” que se apaixona por sua própria escultura. Metropolitan Museum of Art, Nova York.

 

“Pigmalião apaixonado por sua estátua”, Jean-Baptiste Regnault (1785).

 

“Pigmalião e Galatea” (1886), por Ernest Normand. Atkinson Art Gallery and Library.

 

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Feminismo e machismo: lados da mesma moeda

Por coincidência, no dia 9 de Janeiro, data em que foi publicado na França o controvertido manifesto que pede a “liberdade de importunar para preservar a liberdade sexual”, comemorava-se os 110 anos do nascimento de Simone de Beauvoir. A mesma que escreveu e assinou outro manifesto chamado “Eu abortei”, em 1971, junto com Catherine Deneuve, Marguerite Duras, Françoise Sagan e mais 340 mulheres, quando esta ação ainda era passível de julgamento penal e prisão. Beauvoir, aliás, em uma das cartas apaixonadas que enviou ao amante, o escritor americano Nelson Algreen, entre 1947 e 1964, afirmou que “adoraria lavar as cuecas dele”. Eis uma grande, desprendida e exemplar feminista. Talvez não conseguisse salvar da dissensão a futura relação homem-mulher, mas certamente teria assinado o manifesto.

 

Imagem: Cartas de Simone de Beauvoir a Nelson Algreen, um amor transatlântico (1947-1964)

 

A presente declaração não foi escrita nem pensada por Catherine Deneuve, mas conceituada e redigida por 5 intelectuais, apoiada por algumas celebridades, entre as quais a atriz, e assinada por mais de cem mulheres respeitáveis de todas as áreas da cultura. Em resumo, ela começa dizendo que “o estupro é um crime” e em nenhum momento defende ou relativiza o assédio. Deixa claro que “a paquera insistente ou desajeitada não é um delito” e que a “galanteria, de forma alguma, pode ser considerada uma agressão machista”. O texto também não denigre a “palavra liberada” depois do caso Weinstein, embora deplore (com toda razão) o “risco de puritanismo”, moralização e  estandardização, aqueles “modelos únicos de comportamento” que caracterizam a “americanização” de certas sociedades.

O próprio presidente Emmanuel Macron, no dia 25 de Novembro do ano passado, por ocasião do “Dia Internacional da eliminação da violência contra as mulheres”, chamou a atenção para o perigo de se cair num “cotidiano de delações”, e de que “cada relação homem-mulher ficasse sob a suspeita de ‘dominação’, como uma proibição”. O manifesto deste mês, portanto, pareceu límpido, ponderado, digno, respeitoso e cheio de bom senso. Além de ter sido corroborado pela tribuna do New York Times, de Daphne Merkins, uma antifeminista brilhante que manifestou praticamente as mesmas ideias.

Quanto à preocupação das signatárias francesas com a moralização que também codifica cada vez mais a criação artística e literária, em nome do que é ou não conveniente, ela é igualmente legítima para todos nós – críticos, artistas, atores, jornalistas, escritores etc., em toda parte. Quando se trata de “normalizar” a arte, isto não tem outro nome: chama-se censura. Reescrever a ópera Carmem, que transforma a heroína em assassina de Don José, em nome da luta contra as violências sofridas pelas mulheres, não seria igualmente uma violação do artista e de sua obra, em nome do “bem”?

Nem tudo é luta o tempo todo…

Na carta do jornal Le Monde, contudo, o que provocou tal bafafá foi apenas uma frase mal explicada e mais alguns mal-entendidos em desastradas declarações públicas. A tribuna foi acusada, injustamente, de promover a “banalização das violências sexuais” e o desprezo pelas mulheres. Os detratores foram incapazes de assimilar um “outro olhar” sobre a questão. E o linchamento público de uma atriz e mulher da envergadura de Catherine Deneuve, com posições irrepreensíveis, e cuja experiência dramática e literária atravessou um século pelas mãos dos maiores cineastas do mundo, não pode ter sido mais injusto e ignóbil.

Ora, a frase ultrajante estava simplesmente no pedido da “liberté d’importuner” (liberdade de importunar), que deve ser traduzida segundo o seu sentido em francês e não foi. Nesta língua, ela significa “liberdade de galantear e seduzir, inclusive por contato”. Nada a ver com assédio e importunação tal como conhecemos, que é crime. Trata-se da famosa “sedução à la française”. Além da incompreensão semântica, talvez fosse uma certa histeria, misturada com provincianismo e moralismo, que impediu o entendimento de algo que, afinal, é bastante simples. Nem tudo é luta o tempo todo…

Não representou uma surpresa, portanto, o fato de que o manifesto tivesse chocado algumas feministas radicais, assim como certas hipócritas do #MeToo (que denunciaram Weinstein depois que conseguiram o que queriam) ou do #BalanceTonPorc, as “donas da doxa”, as ideólogas e “bem-pensantes” e sobretudo as arrogantes egocêntricas que pensam que falam em nome da humanidade enquanto que só sabem olhar o próprio umbigo.

Atenção amorosa não mata

Pelo jeito, vai demorar bastante ainda para que certas brasileirinhas, francesinhas e americaninhas que se julgam melhores do que as outras e querem impor sua vontade compreendam que o que elas acham e sentem não é necessariamente o que outras mulheres acham e sentem. Umas gostam de mão no joelho e beijo roubado, outras não. E nem sempre isso é crime! Galantear (com maior ou menor delicadeza, com ou sem insistência) ou passar uma cantada não é o mesmo que assediar e menos ainda do que estuprar. “Importunar” de verdade também é outra coisa (e dá prisão!).

Atenção amorosa não mata e não machuca mulheres fortes. Homens sendo livres para cortejar, as mulheres serão livres para gostar ou não, e mesmo se defender, de seus métodos de sedução. Existem diferentes formas de sexualidade, erotismo e relação. Seria preciso que as puritanas com mais neurônios lessem urgentemente L’érotisme (o título do volume, em português, é em francês) de Georges Bataille. Já para as que gostam de Cinquenta Tons de Cinza, a recomendação é André Pieyre de Mandiargues (Narrativas eróticas). Para as demais, fica o delicioso filme Beijos roubados de Truffaut, baseado em O Lírio do Vale, romance de Balzac. Não é porque uma mulher prefira dar um tapa na cara de quem lhe rouba um beijo, que ela tem o direito de proibir os homens em geral de fazerem isso e certas mulheres de gostarem. O direito de amolar existe, sim.

Claro que há casos horripilantes. Com as mulheres que sofreram reais violências só podemos ser solidários. E com os criminosos que as brutalizaram, não podemos pedir outra coisa do que “tolerância zero”. Porém, existem mulheres que têm o direito de não sentirem que uma sedução mais pesada seja um traumatismo eterno. De não sentirem que são necessariamente uma isca, uma vítima, pois sabem que o aprisionamento neste “estatuto de fragilidade” pode ser uma armadilha.

Não restará pedra sobre pedra na relação homem-mulher

Feminismo e machismo tornaram-se lados da mesma moeda. Nada de novo sobre a Terra. Trata-se de mais um círculo vicioso. Desde o fim do século 19, com raízes no Iluminismo do século 18 e mesmo antes, em outros contextos históricos, o machismo engendra o feminismo que, por sua vez, paradoxalmente, gera mais virilidade agressiva e vice-versa. Com o passar do tempo, é uma subida aos extremos da violência. Uma dinâmica divergente onde os argumentos de um lado afastam o outro, provocando ações cada vez mais hostis e/ou coercivas nos dois campos, em direção à total dissensão.

Até a próxima, que agora é hoje – felizmente ainda não chegamos lá – e devemos fazer tudo para que isto não aconteça pois, o final será a fratura. Não restará pedra sobre pedra na relação homem-mulher, apenas a indiferença, o silêncio glacial da entropia!

“O Estupro de Hilas pelas Ninfas” Arte românica da primeira metade do século IV. Museu Nacional Romano, Palácio.
“Hilas e as Ninfas”(1896), John William Waterhouse (1849–1917), Manchester Art Gallery