Despede-se Ai Weiwei, o artista que põe em xeque a ordem social

Não deixa de ser simbólico que o célebre contestatário chinês, artista crítico que põe em cheque a ordem social, deixe o nosso país praticamente no momento em que se inicia um governo oposto a tudo que representa a sua arte. Um governo conservador, ‘quimicamente puro’ (como afirma a historiadora Armelle Enders), ultranacionalista, antiglobalização, anti-multilateralismo, anti-clima. É possível que Ai Weiwei, depois de passar pelas agruras do regime totalitário de seu país, possa até mesmo achar ‘coerente’ que o ministro brasileiro das Relações Exteriores defenda e corteje o modelo chinês. Hoje, 20, é o último dia de ‘Raiz Weiwei’, exposição de 70 trabalhos na Oca (Parque Ibirapuera).

Imagem: “Straight”, impressionante instalação de Ai Weiwei realizada com restos de escolas destruídas por um terremoto em Sichuan. © Nelson Almeida / AFP

Mas quem é Ai Weiwei realmente?

Em 1980 ele descobriu Nova York. A sua formação artística havia terminado na China, país onde dominava o realismo socialista importado da União Soviética nos anos 50. Evidentemente, tornou-se bulímico de tudo que lhe havia sido proibido. Frequentou o mundo da arte e cultura ocidental e assimilou, com voracidade imensa, obras e artistas americanos e europeus de toda a metade do século 20. Não contente com isso, voltou à China e publicou três livros sobre arte contemporânea para compartilhar com os seus compatriotas tudo o que havia aprendido em 13 anos.

Entre as suas descobertas estava um artista ao qual ele prestou, e presta ainda, homenagens explícitas: Marcel Duchamp (1887-1968). Impossível entender Ai Weiwei sem pensar nos ready-made – aqueles objetos tirados do contexto que viravam arte – nas atitudes provocantes, declarações enigmáticas e satíricas, e também no tom geral de insolência e liberdade do artista francês. Entre Ai Weiwei e Duchamp, a relação é evidente – até mesmo no caso das fotos do artista chinês com as jovens nuas.

Por outro lado, Duchamp sempre afirmou ser indiferente à política. E aí é que eles se distanciam. Ai Weiwei declarou numa entrevista ao jornal Libération: “Não sou mais verdadeiramente eu, mas uma mídia carregada de mensagem”. Diz ele: “Vim para a arte pois quis escapar de outros limites da sociedade. A sociedade inteira é tão política que a ironia é que a minha arte se torna cada vez mais política.”

Não me admiraria se Ai Weiwei se inspirasse em ‘Brasil acima de tudo, Deus acima de todos’

O artista quer que as suas obras sejam compreendidas como alusões ou alegorias. A sua arte é crítica. Põe em xeque a ordem social. Reinventa Duchamp, usando-o de maneira política e, portanto, simbólica. E nisso, aproxima-se de muitos outros artistas e dos cyber ativistas igualmente. Os seus censores sentiram isso muito bem, tanto que ele continuou a ser reprimido por muito tempo, até deixar o seu país.

Há menos de uma década se insurgiu contra a contínua vigilância que lhe era imposta. Com a criatividade que lhe é peculiar e os meios que possuía, este “dissidente” sediado em Pequim, respondeu com 4 webcam em lugares estratégicos, na mais estrita intimidade do seu apartamento. Mas esta “instalação” ligada à Internet – metáfora do poder chinês, mestre da censura do Web e dos internautas – não durou muito. Em poucos dias, as autoridades chinesas o obrigaram a desligar as câmeras.

Dentro de um quadro análogo, no mesmo período, o Twitter chinês (Weibo) também foi censurado pela polícia do Net. Assustado com o espectro da primavera árabe – alimentada pelas redes sociais e Internet – o PCC aumentava a pressão. Os comentários eram triados e o site corria o risco de ser fechado definitivamente. Mil pessoas foram presas, 16 sites Internet eliminados e os dois mais populares entre eles, Sina e Tencent, não podiam mais receber comentários. Aquela nova “violação da liberdade de expressão” provocou a mobilização dos cyber ativistas.

Não dá para não lembrar, por exemplo, da escultura que o artista italiano Maurizio Cattelan colocou na frente da Bolsa em Milão, das suas figuras de Hitler rezando ou de João Paulo II esmagado por um meteorito. Ele, tanto quanto outros, Ai Weiwei inclusive, usam objetos simples para cometer “sacrilégios”. Não me admiraria se ele se inspirar um dia na frase  “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, sabendo que esta é uma referência assumida ao Deutschland über alles (“Alemanha acima de todos”), o hino nazista. É possível também que Ai Weiwei, depois de passar pelas agruras do regime totalitário de seu país, possa até mesmo achar coerente que o ministro brasileiro das Relações Exteriores defenda e corteje o modelo chinês.

Escultura de Catellan na frente da Bolsa de Milão – Reuters
Ai Weiwei, “Estudo de perspectiva: tiananmen, 1995-2003”

Pode parecer estranho, mas Ai Weiwei também não está muito longe de Jeff Koons. De forma análoga, alguns ready-made deste último – aspiradores de luxo, joguinhos de praia, etc. – podem igualmente ser vistos como uma crítica à sociedade de consumo. O artista chinês fotografa-se em situações escandalosas da mesma forma como Koons apareceu nu nas fotos e na escultura policromática “Made in Heaven” ao lado da ex-mulher Cicciolina, aliás Ilona Anna Staller atriz de filmes pornô que tive a honra de conhecer no Aperto 90 da Bienal de Veneza, há algumas décadas.

Não acredito que existam “influências” na arte contemporânea. Trata-se mais de fenômenos de geração e de um certo sincronismo. Quem nasceu entre 1955 e 1960, e teve contato com Duchamp como estes artistas, forçosamente apropriou-se dele, reativando-o segundo as próprias necessidades. Se hoje eles são ouvidos e discutidos não é porque têm em comum apenas a vontade de escandalizar. É porque desejam ser compreendidos pelo maior número de pessoas, fazendo-as pensar. Para os artistas ocidentais, praticamente não há risco. Na China, não é a mesma coisa.

Um documentarista obsessivo e fecundo

Esta, talvez, é uma das razões pelas quais um trabalho “ativista” (e heroico) desta ordem não combina com um espaço institucional. Certamente “respirou” e se adaptou perfeitamente ao Parque Ibirapuera. A sua última exposição no Jeu de Paume, em Paris, há sete anos, ficou pior do que a de Hélio Oiticica, quando foi pasteurizado por Catherine David no mesmo Jeu de Paume, bem antes de ele se tornar um espaço para a fotografia. O trabalho de documentação fotográfica de Ai Weiwei exibido ali naquele momento, apesar do esforço da montagem fica bom apenas onde ele acontece: Internet, blog, twitter, performance, etc. Ai Weiwei não é essencialmente fotógrafo, no sentido estético da fotografia. É mais um documentarista obsessivo e fecundo, escultor, “instalador”, arquiteto, curador, cineasta, crítico da cultura e da política, uma espécie de antropólogo ou sociólogo selvagem, cujas obras plásticas não se encontravam na exposição, mas felizmente estão em São Paulo.

Até a próxima, que agora é hoje e se ainda existisse o Museu do Homem em Paris (e não esse monumento da promiscuidade exótica que é o Museu do Quai Branly, chamado de Museu do Outro, para onde o antigo Museu do Homem foi deslocado) é lá que Ai Weiwei devia ser exposto!

90 anos, e Tintim sempre o mesmo ídolo

Tintim é Hergé, seu criador, claro! O positivo e modelar herói loiro de topete da nossa infância e juventude, repórter no qual nos projetávamos, e seu cachorro Milu – com mais de 250 milhões de álbuns vendidos no mundo, traduzidos em 110 línguas e dialetos – mesmo quando não podemos dizer que fomos ou somos verdadeiros “tintinófilos”. Isto, embora o personagem tenha sido criado em 1929 e constitua apenas a parte mais visível de uma obra com outras figuras e uma grande invenção, a famosa “linha clara”: o estilo de desenho que utiliza um só traço negro em torno das imagens e que influenciou até mesmo a Pop art.

Imagem: Tintim e Milu • Créditos : © Hergé-Moulinsart 2018

Além da centena de personagens – entre as quais estão o Professor Girassol, Dupond e Dupont, Bianca Castafiore, Nestor, Rastapopoulos, Dr. Müller -, quem pode esquecer da residência do Capitão Haddock, calcada no castelo de Cheverny? E por falar neste marinheiro, os curadores da grande exposição no Grand Palais em Paris dedicada a Hergé, há três anos, foram felizes na criação da sua página Twitter com um “gerador de insultos”. Assim, se as pessoas tivessem uma veia um pouco masoquista e quisessem ser injuriados(as) em francês de “Bachi-bouzouk!”, “Bugre falso ao molho tártaro”, “Espécie de cabra mal penteada”, “Coloquíntida com gordura de porco-espinho” ou “Ectoplasma de rodinhas”, bastava seguir o vociferador e dialogar com ele. Eu fui insultada de “Sombra oricterope”!

Muito se fala da “questão colonialista” nas histórias de Tintim. Mas entre os 600 livros que foram consagrados a ele, Albert Algoud, autor do volume integral dos xingamentos do Capitão (Ed. Casterman, 2014),  que lançou também o Dicionário amoroso de Tintim (Ed.Plon), esclareceu um aspecto menos conhecido. O da batalha entre célinianos e tintinófilos, sobre a paternidade dos palavrões. Teria Hergé se inspirado em Louis-Ferdinand Céline para criá-los? Ora, parece que o barbudo de bom coração – fumador de cachimbo e colérico, também nascido do célebre Pencroff, personagem de Júlio Verne em “A Ilha Misteriosa” – sim, ele proferia horrores inspirados pela pluma (antissemita) do escritor e médico francês. Que honra e… decepção.

Um grande artista contemporâneo

A origem do seu pseudônimo deve-se às iniciais invertidas “RG” (de Georges Rémi), cuja pronúncia é “Hergé”. Hergé (1907-1983) foi um desenhista que esgotou todas as suas possibilidades de criação, inspirando-se inclusive em outros cartunistas, países, regimes, civilizações antigas e primitivas. No processo criativo do mestre, fica evidente a influência que tiveram sobre ele diferentes formas de arte como o cinema, a fotografia e também as ilustrações de Benjamin Rabier (autor da famosa “vaca que ri”).

Fora da obra do gênio, quanto ao indivíduo, ainda resta a sombra de um grande mistério. Ele foi de fato um grande artista contemporâneo, uma das figuras mais conhecidas do planeta, porém também uma das mais elusivas. Por esta razão talvez, não apreciei a cronologia invertida naquela exposição retrospectiva no Grand Palais. Começava por mostrar um sofisticado homem de cultura, para terminar com a infância dele em Bruxelas, sua cidade natal, a admiração pelo escotismo e as imagens do primeiro amor Milu, apelido da namorada. Este “percurso ao contrário” perturbava, e muito. Opunha-se à ambição e à luta formidável de um artista sobre o qual uma das únicas coisas que sabemos de seu íntimo é que, inversamente, desejou sair da “cinza e medíocre juventude” e ganhar o vasto mundo.

Até a próxima, que agora é hoje e como diria Hergé, “as maiores aventuras são as interiores”! Mas como diria também o Capitão em “O Caranguejo das pinças de ouro” (e, no momento político presente, você pode interpretar como quiser) “VINGANÇA! VINGANÇA! VINGANÇA! VINGANÇA! Canalhas!… Emplastros!… Pés-descalços!… Trogloditas!… Caramelos-Tchuk-tchuk!”

O novo souvenir de Paris

O Centro Pompidou em Paris abriga o Museu Nacional de Arte Moderna, com uma coleção à altura do MoMA em Nova York ou da Tate em Londres. Suas exposições extraordinárias me inspiram sempre. E, no entanto, acabo de receber um press release propondo o hashtag #SOUVENIRSDEPARIS para “descobrir uma ação surpreendente que atrairá os turistas estrangeiros”. Com isso, a instituição quer alçar-se – segundo ela – à altura da Torre Eiffel, Basílica de Sacré Cœur, Catedral de Notre-Dame e do Arco do Triunfo. Pobres de nós e do que resta de nossa vida espiritual. Pobres artistas como Ad Reinhardt (1913-1967) para quem um museu devia ser “a tumba do silêncio”…

Quando um museu torna-se ponto turístico, pode a arte manter para o público, a sua função e seus objetivos? Podem os artistas e a sua arte transmitir mais do que se fossem uma publicidade de si próprios?

A glória era de Deus e não dos homens

No Ocidente, exceto durante um curto lapso de notoriedade individual na Grécia do século V a.C., os artistas foram fundamentalmente incógnitos até o fim da Idade Média. E nesses períodos – quando a arte era usada originalmente para a mágica e o ritual- a posição social do artista era a de artesão. A arte medieval não precisava de artistas individuais que almejassem a fama: a glória do que se conquistava era de Deus e não dos homens.

Em certas cidades italianas do século XIV já se pensava, no entanto, de forma diferente. Ali, juntar fortunas pessoais poderia representar uma glória muito maior, e o desejo de identificar e discutir o artista era, então, uma consequência natural. Grosso modo, foi essa a postura adotada pelos intelectuais do Renascimento, que estavam justamente providenciando os tijolos para a construção da ideologia do capitalismo.

Em vez de liberação, o anonimato tornou-se alienação

A progressão constante do artista meio-divino-meio-gênio culminou com o expressionismo na primeira metade do século XX e adquiriu uma feição de reprise tragicômica no neoexpressionismo dos anos 1980. Entre os dois expressionismos, o século passado viu a ascensão do intelectualismo na prática da arte. As primeiras manifestações podiam ser relacionadas à política de massa e as seguintes à cultura de massa. A diferença foi imensa.

Sabemos que o sistema capitalista sempre encontrou meios para impor a cultura “da conveniência e do espetáculo”, de cima. De lá para cá, passando pela especulação no mundo financeiro, infelizmente, o anonimato, entre outras coisas, é mais um fator de alienação do que de liberação. No presente, o sistema da arte não funciona sem estrelas e o turismo também não.

Até a próxima que agora é hoje e se as instituições se derem a concessões perigosas como essa, será difícil continuarmos a repensar os objetivos da arte, seus valores em termos mais profundos e imateriais; ou, pelo menos, compreendê-la como uma resposta mais plausível à nossa nova época! Não basta trazer o público à arte, para efeito de bilheteria. É preciso primeiro, por meio da educação, levar a arte às pessoas, o que não ocorre automaticamente, por captação e bugigangas “atraindo turistas”. Transmitir sem angariar: penso que é este o papel e o dever da instituição.

Meu adeus à Marceline Loridan-Ivens

Marceline Loridan-Ivens, cineasta, produtora e escritora, faleceu anteontem, dia 18, em Paris. Nascida em 1928, ela passou a vida a denunciar a injustiça e a violência, marcada para sempre pela sua deportação, com 15 anos, ao campo de Auschwitz-Birkenau, depois a Bergen-Belsen e a Theresienstadt, de onde foi liberada em 1945. Amiga íntima e inseparável da estadista francesa Simone Veil (que hoje repousa no Panteão), Marceline foi casada com o célebre documentarista Joris Ivens (1898-1989).

Imagem: Marceline Loridan-Ivens, em seu apartamento em Paris, no dia 12 de Janeiro, 2018. AGLAÉ BORY (Le Monde)

Quando eu era jovem e reclamava que alguém estava zangado comigo sem razão, a sábia decana da família dizia: “Se você não fez nada, esta pessoa só pode estar mal pelo que ELA fez. Você não tem nada a ver com isso…”

Não entendia muito bem esse raciocínio, mas sempre o acatei. Mesmo porque ele confortava as minhas dúvidas.

No final do livro E Você Não Voltou* da cineasta francesa Marceline Loridan-Ivens, encontrei um novo e verdadeiro sentido para esta explicação, que agora pertence ao inventário de minhas “psicologias pessoais”. No seu relato póstumo ao pai, morto em Auschwitz, a autora – que sobreviveu a três campos de concentração – dá a chave do mal-estar que, a meu ver, reafirmará o antissemitismo para sempre: “Eles não nos perdoarão jamais o mal que nos fizeram.”

A diferença em relação à minha juventude é que, agora, mesmo eu sabendo que “não tenho nada a ver com isso”, a sábia decana Marceline Loridan-Ivens não consegue confortar os meus porquês.

Toda uma vida a denunciar a injustiça e a violência

Esta pequena crônica está contida em meu último livro, lançado há alguns meses. A republico aqui como uma homenagem à cineasta, mas também produtora e escritora, que faleceu anteontem, dia 18, em Paris, aos 90 anos. Marceline Loridan passou a vida a denunciar a injustiça e a violência, marcada para sempre pela sua deportação, com 15 anos. Amiga íntima e inseparável de Simone Veil (hoje no Panteão), Marceline realizou em conjunto com seu marido, o grande documentarista Joris Ivens (1898-1989), filmes sobre a guerra do Vietnã e a China maoísta. Fez também um tocante longa-metragem, La Petite Prairie aux bouleaux, em 2003.

No livro citado*, Et tu n’es pas revenu (E Você Não Voltou, com Judith Perrignon, Grasset, 2015 – ainda sem tradução para o português), ela contava a sua juventude quando foi enviada no mesmo trem que Simone Veil, em 1944, ao campo nazista de Auschwitz-Birkenau, depois a Bergen-Belsen e a Theresienstadt, de onde foi liberada em 1945. Seu último volume, L’Amour après (O Amor depois, igualmente escrito com Judith Perrignon, Grasset, 2018), relata o que veio a seguir: a liberdade recobrada, a descoberta do amor, a lenta reconstrução de uma sobrevivente. Merece igualmente uma tradução no Brasil.

Até a próxima, que agora é hoje e mais uma grande mulher se vai, deixando o seu exemplo e a sua luta. Como dizia Romain Rolland (1866-1944), “mesmo sem esperança, só a luta já é uma esperança.”
 

 

Formidável resposta à ‘bacanal narcisista no Louvre’

Sem qualquer dúvida, ‘This Is America’ clipe do americano Childish Gambino colocado no YouTube há pouco mais de um mês, é o melhor e mais extraordinário contraponto ao brega arrogante de Beyoncé e Jay-Z no Museu do Louvre. Clipe inteligente que, com a sua crueza, ao contrário de ‘Apeshit’, denuncia de fato a América atual: o lobby das armas, o racismo, o sistema penal, a violência policial, o hiperconsumo e a própria luxuosa, vulgar e pretensiosa sociedade do espetáculo na era das redes sociais, da qual ‘The Carters’ são os expoentes máximos. ‘This is America’, além da ótima música e atuação, ele sim, faz pensar.

Foto: “This Is America”, formidável videoclipe de Donald Glover (Childish Gambino).

Aos 34 anos, Donald Glover (Childish Gambino) confirma com este clipe os seus múltiplos e prodigiosos talentos. Além de rapper e compositor, ele também é dançarino, ator, cantor, cineasta, roteirista, produtor, humorista e DJ. Glover cresceu em família pobre no subúrbio de Atlanta, em Stone Mountain, onde se refugiou na leitura de peças de teatro e criação de esquetes. Diplomado pela Universidade de Nova York, a sua obra preferida é Huis clos (Entre quatro paredes) de Jean-Paul Sartre, escrita em 1944. No Exit, aliás, é o título de uma de suas canções.

Cada trabalho dele surpreende, seja com o álbum onde mistura funk dos anos 1970 com soul e gospel ou com a série de televisão Atlanta, onde ele revela a realidade americana contemporânea. Não é de admirar que, neste clipe de 4 minutos este artista culto e reflexivo desenhe o retrato de uma América despreocupada que prefere dançar e correr atrás de dinheiro, em vez de enxergar a opressão e a violência em sua volta.

Nos Carters a violência é provocação, em Childish Gambino ela é real.

Childish Gambino é o oposto do talentoso The Carters, casal que, no fundo, acaba como traidor da causa negra já que é vendido ao capitalismo branco. O suposto “orgulho negro” deles é a soberba de dois egos superdimensionados, embriagados pelo poder, enquanto que o orgulho negro em Childish Gambino, muito melhor expresso neste clipe, é modesto, a verdadeira “honra negra” e consciência do próprio valor e cultura nativa. Nos Carters a violência é provocação, é mímica e pose. Vulgaridade pura. Em Childish Gambino ela é real, um grito de desespero. Com classe e dignidade.

O clipe This Is America – que se tornou viral (5,8 milhões de visualizações até agora) – pode ser analisado, inclusive, semiologicamente. Temos vontade de revê-lo várias vezes até conseguir desvendar o significado de cada coreografia, gesto e imagem. Há momentos, por exemplo, que alguns críticos dizem se inspirar simultaneamente em uma dança africana, a Gwara Gwara, no “stanky leg” texano e nos gestos de Jim Crow. Este personagem foi popularizado nos anos 1830 pelo ator (branco) Thomas D. Rice que, fantasiado de negro, zombava dos gestos das populações afro-americanas. No fim do século 19, quando os Estados Unidos aprovaram as leis de segregação racial, elas foram chamadas de “leis de Jim Crow”.

Mas há outras mensagens . No clipe, depois que o cantor negro é assassinado com uma bala na cabeça, ele é arrastado como um animal enquanto alguém recupera delicadamente a arma colocando-a dentro de um tecido vermelho. Este é um sinal claro contra o armamento de civis. A cena do fuzilamento do coro de igreja composto por cantores negros americanos, refere-se explicitamente ao massacre racista na igreja episcopal da comunidade negra em Charleston, em 2015, porque o assassino queria provocar “uma guerra entre raças”.

Nas coreografias, o contraste entre as cenas festivas e o caos é perturbador. Além da denúncia contra o racismo e as armas, é uma crítica severa à sociedade do entretenimento e das redes sociais, o mundo de imbecis do qual falava Umberto Eco, que – entre outras coisas – não sabe interpretar o que lê, agindo por impulso e mimetismo muitas vezes com enorme violência. Uma cena curta mostra jovens filmando as rixas com seus smartphones, o que lembra a série inglesa Black Mirror de Charlie Brooker.

O clipe termina com Childish Gambino perseguido, um final que também pode ser interpretado de diversas maneiras, inclusive em paralelo com o filme Get Out (Corra! de Jordan Peele ) que trata igualmente de racismo.

Até a próxima, que agora é hoje, hora de deixar a agressividade e os preconceitos de lado, aprender a ver obras de maneira inteligente e ler textos exatamente como foram escritos!

Videoclipe “Childish Gambino – This Is America”

 

“Jim Crow” por Jean-Michel Basquiat

 

 

Bacanal narcisista no Louvre

‘Apeshit’ (fezes de macaco), o título do novo clipe de Jay-Z e Beyoncé já diz tudo: a partir do hábito de macacos raivosos arremessarem suas próprias fezes no que odeiam, este nome significa ‘a raiva que produz nos humanos um comportamento parecido com o do macaco enfurecido.’

Foto: Apeshit’ (fezes de macaco), o novo, pretensioso e arrogante clipe de Jay-Z e Beyoncé.

Pois é exatamente o que o novo videoclipe do casal parece fazer com a arte e a instituição que lhe serve de cenário. Os dois se contorcem diante de quadros que não olham, enquanto outros personagens posam, igualmente de costas para as obras mais importantes do museu: Vênus de Milo, Vitória de Samotrácia, Coroação de Napoleão, Balsa da Medusa, Gioconda. O mau gosto atroz impera.

Não, não estamos sonhando, não é pesadelo, apenas um mau momento brega que felizmente não vai durar como a Mona Lisa, ao contrário do que disse Jay-Z. Sim, porque na entrevista que o rapper deu à Times Magazine, ele pergunta: “É melhor ser uma tendência ou ser Ralph Lauren? Melhor ser uma tendência ou ser eterno?” E afirma: “Serei como a Mona Lisa, cara! Me identifico com a verdade! Vou ser cool em 40 anos.” Que bom que a Mona Lisa, segundo o insolente rapaz, vai “durar tanto”…

O clipe, esta pequena vingança política afro-americana sobre a grande cultura, é da mesma arrogância sem par. O patriota Peruggia fez melhor quando roubou a Mona Lisa do museu em 1911. Mas se os pretensiosos Jay-Z e Beyoncé podem alugar um estádio inteiro de rúgbi, não surpreende que possuam meios de se oferecer um Louvre voraz de dinheiro e publicidade.

Depois de Niggas in Paris (2011) de Jay-Z e Kanye West – do seu álbum Watch the Throne – onde eles contam as seis noites no hotel de luxo Le Meurice no qual se esbaldam com modelos, álcool e o resto, consumindo 144 mil euros, e citando pelo menos 8 marcas de luxo (por contrato), o Louvre certamente é mais distinto.

No entanto, mesmo em instituição cultural, não são muito elegantes o escárnio, cinismo, oportunismo e atrevimento destes novos filisteus. Os selfies deles, com vestimentas perfeitamente adaptadas a uma visita de museu, de costas para a Mona Lisa, não podem ser mais cafonas. Ego-retratos capazes de fazer Leonardo se revirar em seu túmulo…

Isso, sem dizer que o significado de “Apeshit”, título desse videoclipe, é bastante ambíguo. Dentro do contexto, pode ser considerado racista. E sem dizer também que essa música (letra inclusive) de Beyoncé e Jay-Z é boa para “boi dormir”. Quem quiser curtir clipe viral, sem ficar com sono, é muito melhor assistir ao excelente “Childish Gambino – This Is America” (vídeo abaixo).

Até a próxima, que agora é hoje e eis o preço que a velha Europa deve pagar pela última e verdadeira expressão da América vulgar, ignorante e submissa, de Obama a Trump!

Videoclipe “Apeshit” – The Carters

Videoclipe “Childish Gambino – This Is America”

 

 

Klimt em kitsch puro e duro

Gustav Klimt – Uma Imersão na Arte e na Música é o evento parisiense mais falado do momento com 250 mil visitantes em menos de dois meses. E, no entanto, não é uma exposição. É apenas uma atração, na qual a imitação é bem inferior à arte que substitui.


Imagens: Gustav Klimt © Culturespaces/Eric Spiller

Depois da experiência no Carrières de Lumières, antigo lugar de exploração de rochas calcárias em Baux-de-Provence, Klimt (1862-1918) abre o baile do recém-inaugurado Ateliê de Lumières em Paris, junto de mais dois vienenses: Egon Schiele (1890-1918) e o pintor arquiteto Friedensreich Hundertwasser (1928-2000).

Desta vez são 140 projetores laser de vídeo que varrem o espaço de 1.500 metros quadrados e 10 de altura com 3 mil imagens coloridas, enquanto 50 alto-falantes espacializam a música de Wagner e Beethoven. Nenhum quadro é para ser visto. Não existem obras, apenas imagens a partir delas. Representações dançantes, flutuantes, moventes, em zoom constante. Reproduções que se fundem em transições, com num videoclipe gigante, criando uma experiência sensorial vigorosa. É o que chamam de “exposição imersiva”. “Trata-se da maior instalação multimídia do mundo” vangloriam-se os organizadores. Não é para menos. A sociedade deles (Culturespaces) investiu cerca de 10 milhões de euros para reformar a antiga fundição do século 19 em Paris.

Foi o sucesso da matriz na comuna turística perto de Provença-Alpes-Costa Azul, que levou a instituição a abrir a filial parisiense. Naquele “parque temático kitsch” dedicado a shows também feitos com a técnica AMIEX® (Art & Music Immersive Experience), os espetáculos atraíram mais de 2,1 milhões de pessoas desde 2012.

Obras parecem ser apenas ilustrações para a grandiloquência artificial

No ano passado, o público assistiu à apresentação Bosch, Brueghel, Arcimboldo. Fantástico e Maravilhoso. O nome não era muito original e a exibição tampouco. Como em desfile alegórico de rua ou uma narrativa de narrativas (o que é bastante redundante) 2 mil imagens movimentavam-se pelos muros, no espaço de 7 mil metros quadrados, durante 30 minutos. E tudo isso sob fundo musical de Carmina Burana (Carl Orff), Quatro Estações (Vivaldi), peças de Mussorgski e Led Zeppelin.

Agora, em Paris, é a mesma coisa. No entanto, ver obras de arte transformadas em clipe tridimensional é triste! Pior do que ouvir certos “remix” musicais em que os DJ’s desrespeitam compositores e intérpretes. Ao dar formas e volumes reais às características virtuais dos artistas, e outros artifícios, os virtuoses espertalhões estetizam e esvaziam a linguagem dos mestres, transformando obras-primas em assombrosos e gratuitos exercícios técnicos, vazios de alma.

Fica como se as obras de Klimt, Schiele e Hundertwasser fossem ilustrações ou decorações para a grandiloquência artificial e sensacionalista de um show de cabaré. Certo, pode ser muito bonito e até mesmo “mágico”. Mas será que é preciso vampirizar a verdadeira arte para criar magia? Ou será que se pensa que maravilhas pictóricas reais precisam de “efeitos especiais” para que cheguemos a elas? Até mesmo uma pequena reprodução em cartão-postal pode ser mais fiel à nossa percepção…

Videoclipe de divulgação

Nota: Este artigo foi publicado no Caderno 2/Estadão, sob outra forma, no dia 15 de Junho de 2018.

Sartre e Beauvoir ‘calavam-se e continuavam’

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir jamais escreveram alguma coisa contra Franco, Hitler ou Mussolini. Calavam-se e continuavam. Como disse um famoso filósofo e musicólogo francês, ‘foi só depois da Guerra que os dois começaram a se engajar. Isso, para fazer esquecer o próprio esquecimento.’

Foto: Jean-Paul Charles Aymard Sartre e Simone Lucie Ernestine Marie Bertrand de Beauvoir, em Roma, 1978.

Assisti a um programa literário de boa audiência na televisão francesa, onde a “expoente da nova literatura francófona” (não é a minha opinião), a franco-marroquina Leïla Slimani, filha de banqueiro que adora o presidente Macron (e confirmou presença na Flip 2018 ) se desmancha completamente falando do novo posfácio que escreveu sobre “O Segundo Sexo” de  Simone de Beauvoir, que todas as feministas – pobres, ricas ou remediadas – adoram… nem sempre sabendo exatamente por que.

Os convidados respondem sem dizer muita coisa e subitamente Dan Franck, verdadeiro escritor que jamais seria convidado à Flip, penso eu, diz: “Simone de Beauvoir? Bem… enquanto ela e Sartre bebiam aperitivos no Café de Flore nos anos 1940, Max Jacob estava morrendo. A ‘guerra’ de Beauvoir em suas memórias é completamente simplória. Sartre e ela jamais escreveram alguma coisa contra Franco, Hitler ou Mussolini. Calavam-se e continuavam. Como afirmou o filósofo e musicólogo francês  Vladimir Jankélévitch(1903-1985), ‘foi só depois da Guerra que os dois começaram a se engajar. Isso, para fazer esquecer o próprio esquecimento.’ ”

Sartre e Beauvoir, bodes expiatórios?

Já se disse tudo e o contrário sobre a atitude de Jean-Paul Charles Aymard Sartre e Simone Lucie Ernestine Marie Bertrand de Beauvoir sob a Ocupação estrangeira. “Collabos”? Resistentes? Expectantes? Ou seja, aqueles que “esperavam em observação”, prática política, sindical ou atitude individual que recusa a inciativa e só toma posição segundo as circunstâncias? De todo modo, a atitude do filósofo e de sua companheira durante a guerra sempre suscitou o debate. Ora, graças a novos documentos descobertos em 2014, Ingrid Galster (1944-2015), grande pesquisadora na Universidade de Paderborn, na Alemanha, coloca tudo em seu lugar. Diz ela: “Sartre ocupou o posto de um professor afastado pelo regime de Vichy. Será que ele não sabia? (…)”

Mas Ingrid Galster se pergunta, sabendo que entra no campo da especulação, se o “super engajamento” de Sartre no livro Reflexões Sobre o Racismo, publicado em 1946, não traduziria também uma espécie de culpabilidade escondida diante de sua indiferença humana durante a guerra. Sobretudo quando se conhece o caso infeliz com Bianca Bienenfeld, a jovem judia com quem Sartre manteve uma relação em 1939.  Na primavera de 1940, quando eles se separam, e que Bianca, desesperada, foi obrigada a se esconder para não ser enviada a um campo de concentração, jamais recebeu um sinal de seu ex-amante.

De modelos, Sartre e Beauvoir tornaram-se bodes expiatórios. Galster explica: “É como se fosse apenas Sartre que tivesse levado toda uma geração ao erro – URSS, Cuba, esquerdismo… Seria injusto. As coisas são mais complexas. Como na Ocupação.”

Mas, voltando ao programa literário, os convidados e o apresentador, depois de ouvir Franck, cuja especialidade é contar magnificamente os bastidores da história e intelectualidade francesa, engoliram em seco. E eu exultei como sempre exulto nas ocasiões em que a verdade histórica destitui o aspecto mítico do qual precisam os tolos para poder fundamentar as suas tolices.

Até a próxima, que agora é hoje e que satisfação quando aparece alguém colocando os pingos nos is!

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir no Café de Flore, em Paris. Fotografias de Brassaï.

 

Site oficial do último livro do autor

 

Picasso, sua mãe e a tela cubista

Quando terminou a ‘Guernica’, o gênio chamou a mãe que estava de visita em Paris. Queria a opinião da ‘madrecita’, cujo ‘Dia’, o 1° domingo de Maio, só seria oficializado na Espanha duas décadas depois. Aos 82 anos, María Picasso y López chegou esbaforida depois de subir os cinco lances de escada do ateliê…

 

Imagem: Pablo Picasso, “Maria Picasso y Lopez”, 1916.

Para mi madre

No dia 28 de abril de 1937, Picasso abriu o jornal L’Humanité e descobriu, horrorizado, as fotos de Guernica reduzida a cinzas. A cidade basca tinha sido bombardeada, dois dias antes, por 44 aviões da Legião nazista alemã, 13 aviões da aviação fascista italiana, como apoio ao golpe de Estado nacionalista espanhol.

O mestre havia recebido o pedido de um trabalho do governo republicano de Francisco Largo Caballero, para o pavilhão espanhol da Exposição universal de Paris daquele ano. Portanto, encomendou rapidamente uma tela gigante a Antonio Castelucho, artesão catalão que possuía, perto do bairro de Montparnasse, uma loja muito apreciada pelos pintores espanhóis exilados em Paris.

Em três dias, do dia 1 a 4 de Maio, ele cobriu a superfície do quadro febrilmente, sem descanso. Sofreu muito pensando e desenvolvendo o tema e as formas cubistas que pudessem relatar e, ao mesmo tempo, expressar – em claro-escuro – a dor dos habitantes de uma cidade destruída pela barbárie. Em seu cubismo, Picasso desconstruiu as formas, misturou-as, as associou e dissociou da mesma maneira que as bombas e os estilhaços. Ainda na força dos seus 56 anos, executou a pintura em preto e branco, com várias nuances de cinza, não se sabe se à óleo ou tinta industrial de parede, também fornecida por Castelucho. Queria um resultado sem brilho, que se aproximasse do aspecto das casas destruídas.

Quando terminou, o gênio que, na verdade, chamava-se Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Mártir Patricio Ruiz y Picasso, chamou a mãe que estava de visita na cidade. Queria a opinião da “mamacita de su corazón” cujo “Dia”, o 1° domingo de Maio, só seria oficializado, na Espanha, duas décadas depois.

Aí está a ‘Guernica’, mamãe! O que acha?

María Picasso y López, que estava para completar 82 primaveras no mês seguinte, chegou esbaforida depois de subir os cinco lances de escada do ateliê, enquanto gemia “¡Ay! Sólo una madrecita para hacer esos sacrificios a un hijito…”. Beijaram-se e Pablo apontou a tela encostada na parede do fundo:

“¡Ahí está “Guernica”, mamá! ¿Que crees?”

María aproximou-se do quadro e ficou em silêncio alguns minutos: a figura central, iluminada por uma lâmpada, era uma égua aterrorizada cujo corpo, recoberto de linhas verticais, havia sido transpassado por uma lança. À esquerda, uma mulher carregava a sua criança morta e gritava de dor. Atrás dela, estava um touro. Embaixo à esquerda, um homem deitado com os braços esticados segurava uma espada quebrada. Uma pequena flor aparecia tímida, quase esmagada entre as patas do jumento e a espada quebrada. À direita do quadro, três mulheres desconjuntadas, uma delas ferida, choravam e gritavam; a do alto estendia uma lâmpada a óleo em direção ao centro da tela. No fundo, formas geométricas evocavam casas incendiadas, sendo que as chamas eram representadas por triângulos claros.

Pensou em voz baixa:

“¡Oh, là! ¡Estoy para ver una pantalla más fea y triste en el planeta!” (Ai! Estou para ver uma tela mais feia e triste no planeta!)

Em seguida virou-se para o filho e perguntou:

“Já que é uma encomenda para o pavilhão espanhol da Exposição universal de Paris, porque você não pintou uma coisa mais bonita e alegre, Pablito? Nada de cubismo! Uma natureza morta como as do nosso conterrâneo Juan Sánchez Cotán, à maneira dos flamengos, que tal?”

“Flamengos… como assim?”, respondeu Picasso.

“Ou mais moderninha”, replicou María. “Como a Natureza espanhola do seu ‘rival’. Afinal, não foi você que disse que ‘se não fizesse o que faz, gostaria de pintar como Matisse’?”

E acrescentou abanando a cabeça, diante do filho mudo e aturdido:

“Pablito, Pablito, você não toma jeito!”

Até a próxima que agora é hoje, uma semana depois do Dia das Mães, e mesmo que a “parte maternal” (nem toda) desta historinha seja inventada, bem que ela poderia ser verdadeira!

Maio 68 já está bem longe. Que bom!

Manifestações, greves gerais e selvagens, encontros e namoros. Os eventos parisienses de Maio e Junho – que haviam começado conosco em Paris, ganharam o mundo operário, depois a totalidade do país, atravessando fronteiras – festejam agora o seu aniversário de meio século. E nós, comemoramos que tudo aquilo já esteja bem longe!

 

“Quando não dá para mudar o mundo, é preciso mudar de cenário.”
Daniel Pennac (1944), escritor premiado e meu vizinho de bairro, em seu livro La Petite Marchande de prose

Que alívio não querer mais colocar em xeque as instituições tradicionais, não mais sentir revolta contra o “capitalismo”, “consumismo”, “autoritarismo cultural, social e político”, “imperialismo americano”, “poder instituído”, etc. Que tranquilidade ver que estas palavras, de tanto serem repetidas, não explicam e significam mais nada no mundo de hoje que, para nós, acredito, já não é uma invenção. O que são os velhos “capitalismo” e “imperialismo” daqueles discursos engajados, militantes e obsoletos, diante da onipotência do presente “policiamento econômico mundial” que representa a saída dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã?

Quem sabe daqui a meio século os (agora) jovens brasileiros sentirão, igualmente, que o tempo e a história liberam, desdramatizam e tiram o peso das situações e fatos conjunturais de uma época, restituindo os seus verdadeiros significados?

Até a próxima, que agora é hoje e que sossego não odiar mais de Gaulle (bem ao contrário), sabendo que nunca mais teremos aquela sensação penosa de responsabilidade de que “devemos e somos capazes de mudar o mundo”. Viva! Ufa!

 

Peça de museu: paralelepípedo de rua, arrancado no dia 25 de Maio de 1968.
Meus guardados preciosos
Cartazes da mostra comemorativa na Escola de Belas Artes, em Paris