A praga e seus aproveitadores

A diferença entre as pragas anteriores, deste e de outros séculos, e a calamidade com o novo Coronavírus, é que as precedentes não foram instrumentalizadas e não beneficiaram ninguém. No plano geopolítico, certamente nunca houve na história igual cinismo e sucesso nos negócios de um país onde tudo começou.

Imagem: Detalhe do “Morcego”, personagem do “Romance dos Três Reinos”, obra chinesa escrita no século XIV. Esta ilustração pertence à coleção do Museu do Quai Branly, em Paris.

Não que a China tivesse previsto ou causado a pandemia, no entanto os seus dirigentes compreenderam perfeitamente todos os benefícios que ela obtém e ainda obterá por ter mergulhado tantos países nessa situação.

É preciso lembrar que o vírus vem de uma grande e crescente potência autoritária, onde as virtudes da democracia, para não falar da conviviabilidade, estão longe de terem sido assimiladas. Ali, depois que a tempestade passar, o slogan “primeiro os negócios” certamente será “negócios, como de costume”.

Ganância e falta de gratidão

Bastou assistir a uma reportagem mostrando o seu comércio de máscaras e respiradores, divulgada em horário nobre por France 2, o canal de televisão de maior audiência deste país, para testemunhar a ganância e a falta de gratidão chinesa. Depois de a França ter oferecido grande quantidade de equipamentos de proteção e respiradores de forma gratuita, e de ter enviado também dezenas de médicos, cientistas e enfermeiros para ajudar durante a calamidade de Wuhan, a retribuição da China a este gesto foi ignóbil.

Este país depende tragicamente da China, inclusive para a segurança sanitária. Pequim arbitra, envia seus aviões carregados de máscaras aos que pagam mais… ou aos países mais próximos do seu regime. A reportagem mostrou, enquanto a epidemia atingia os franceses em cheio, os exportadores oficiais chineses como pequenos camelôs de esquina, tentando vender tudo isso ao sistema de saúde francês, de maneira cínica, pelo preço mais alto, tão alto que este país precisou produzir com urgência os seus próprios equipamentos, e pior: os hospitais passaram por tal penúria, que a França foi obrigada a enviar os seus doentes para outros países da Europa.

Esta reportagem repugnante mostrou também os exportadores negociando respiradores de uma maneira abjeta, como se fossem apetrechos de cozinha e não equipamentos para salvar vidas. Quando os compradores do ministério da Saúde pediam um tempo para calcular e refletir, os chineses respondiam: “É bom aceitar e resolver já, pois daqui a uma hora o preço estará ainda mais alto.” Que asco!

Novo coronavírus: um excelente negócio

Creio que a França aprendeu a matéria. Países como a China, infelizmente para seus povos, não devem receber ajuda humanitária. Não têm o menor senso de “bem comum”, jamais colaborarão benevolamente com o bem-estar da humanidade.

Mesmo se o coronavírus atingiu e continua a atingir gravemente a população chinesa, bem além do que revelam as estatísticas oficiais, ele é para os dirigentes chineses um excelente negócio. Pouco importa àqueles que tratam o seu povo como gado, que 100 mil morram ou mais; e que o começo da epidemia em Wuhan fosse objeto de negações enérgicas, e medidas de sufocamento. Os infelizes que alertaram foram obrigados a silenciar, e todo rumor foi reprimido.

A China minimizou a epidemia, demorou para alertar a opinião, mentiu sobre os números, escondeu o número de mortos que foram amplamente subestimados. Beneficiou do amparo sem falha da OMS, cujo presidente está lá justamente por causa do seu apoio. Homem que é um verdadeiro demônio, cúmplice dos piores violadores dos direitos do homem e genocidas, como aponta este artigo de Julio Ariza (em espanhol), que precisa ser traduzido urgentemente e publicado em algum jornal brasileiro.

Quando a verdade veio à tona, o governo chinês posou como “salvador da pátria, herói e grande capaz em face das democracias ocidentais desorganizadas, negligentes e mal preparadas”. Pura propaganda. Até hoje ninguém sabe o que se passa ou passou por lá, sendo que é da China a responsabilidade da eclosão e propagação de mais este vírus, novamente por causa da sujeira e promiscuidade de seus mercados. Mesmo depois do SRAS (2002) et do H1N1 (2009) aquele país ainda não aprendeu a lição.

Os chineses esfregam as mãos

Não que o presidente Xi Jinping tenha querido este vírus. Claro que não. Mas dá para desconfiar que os dirigentes chineses compreenderam rapidamente o enorme benefício que poderiam tirar de uma pandemia em escala planetária: uma Europa com a economia duramente afetada e enfraquecida pelas falências em cascata de empresas, bancos, governos e talvez instituições; os Estados Unidos igualmente em grave recessão, a Índia, os países da África e o Brasil (onde o desastre ainda está por vir), todos incapazes de circunscrever a praga e confinar suas populações … Quantos milhões de mortos, no final, o planeta contará?

Como sempre, serão afetados sobretudo os mais pobres. Está errado dizer que o vírus é igual para todos. Obviamente ele tem uma forte preferência pelos habitantes das favelas e de áreas que já sofrem. Quantas perdas a Índia, África e a América do Sul registrarão? Nos Estados Unidos, são os negros, como sabemos, que hoje detêm o triste recorde de infecção. No Brasil, um presidente psicopata profetiza mais danos à economia do país do que à sua população. Ele e Trump poderão se felicitar por este eugenismo soft. Afinal, o novo Coronavírus os livrará de bocas inúteis e dos esfarrapados.

Até a próxima, que agora é hoje e enquanto isso, os chineses esfregam as mãos… mesmo sem gel. Especialmente quando sonham com as compras que poderão fazer em uma Europa ferida, e em uma África à beira da falência!

Médico da peste em Marselha, em 1720

Trump e Bolsonaro, os coveiros da cultura

Esta é uma entrevista imaginária com um escritor verdadeiro e tudo que ele afirma aqui foi, de fato, publicado recentemente em forma de artigo, numa importante revista semanal francesa de centro-direita, cuja linha editorial é comumente admitida como social-liberal. Ninguém pode afirmar que o meu entrevistado é ‘comunista’.

Imagem: Donald Trump e Jair Bolsonaro multiplicam os ataques contra a vida intelectual © JIM WATSON / AFP

S.L. – Arthur Chevallier, você não é de esquerda nem de direita, é editor da série “História” na editora Cerf, escreveu vários livros (o último sobre Napoleão) e é também crítico literário nas prestigiadas revistas “Magazine Littéraire” e “Transfuge”, além de dirigir a “Revue du Stendhal Club”, que fundou junto com os escritores Charles Dantzig, Dominique Fernandez da Academia francesa, e Benoît Fuchs. O seu artigo na Le Point desta semana me agradou tanto, que decidi lhe entrevistar.

A.C. –  Você se refere à minha crônica sobre Trump e Bolsonaro?

S.L. – Sim. Em síntese, você afirma que o desprezo pela cultura dos presidentes americano e brasileiro é uma “declaração de guerra à civilização do livro”.

A.C. – É verdade. Estes dois imbecis pregam a vulgaridade antes de impor a barbárie. Eles ridicularizam o que estão prestes a destruir e zombam dos que estão prestes a matar. Face à inteligência, a brutalidade não é uma escolha, é um meio.

S.L. – Estamos de acordo. Mas, na sua opinião, como isto se dá?

A.C. – Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, multiplica os ataques contra a vida intelectual. Sua decisão, confirmada no dia 26 de abril, de reduzir o orçamento destinado às ciências sociais e humanas na Educação é o cúmulo, o resultado de uma paixão pela destruição que ele tinha revelado, desde a sua campanha. Essa atitude lembra a de Donald Trump que, a partir do final de 2017, anunciava a supressão de subsídios para teatros, cursos de música, dança, oficinas de leitura, etc., que o Estado financiava para que as pessoas desfavorecidas tivessem acesso.

S.L. – Mas estes políticos justificam os seus atos… O presidente brasileiro afirmou que “o contingenciamento foi em um pequeno porcentual das despesas discricionárias e que o corte de verbas não é maldade de ninguém, é uma medida necessária porque não tem dinheiro”.

A.C.- Bolsonaro e Trump apresentam essas medidas como “racionais”. Elas são, na verdade, o único remédio para a ignorância deles. Como os dois não entendem nada da vida do espírito, da cultura, eles querem a sua morte. “Auto de fé do espírito” foi uma expressão usada por Joseph Roth em um artigo publicado em 1933, onde o autor de “A Marcha de Radetzky” mostra como o Reich atacava escritores, especialmente judeus, porque eles encarnavam a liberdade. “Não havia senão os verdadeiros escritores que eram pessoas livres e independentes, e, portanto, revolucionários no verdadeiro sentido da palavra”, escreveu. A editora Allia acaba de publicar este texto chocante e combativo, escrito por um dos maiores autores do século 20!

Antes de ser uma derrota política, o colapso da socialdemocracia na Alemanha foi uma derrota do pensamento

S.L. – Costuma-se fazer muitas comparações com a Alemanha dos anos 1920 e 1930. Não há o perigo de uma banalização das análises?

A.C. – Ao contrário. Segundo Joseph Roth, o reinado da estupidez realizado pelo Terceiro Reich não pode ser atribuído a Adolf Hitler, um idiota, certamente, mas antes de tudo um oportunista cujas palavras não teriam tido eco semelhante em um país civilizado. A Alemanha nas décadas de 1920 e 1930 continha em si um monstro concebido por um estado perverso, traiçoeiro e hostil à França: a Prússia. Enganados pelo encanto da República de Weimar (1918-1933), os analistas europeus não perceberam que um regime humanista e culto não poderia, em quinze anos, conjurar meio século de militarismo. Hitler só assustou o mundo europeu porque teve a audácia de realizar o que a Prússia sempre planejou, ou seja, queimar livros, expulsar judeus, distorcer o cristianismo. O que assustou também também é que Hindenburg, admirado pelos alemães por sua integridade e coragem durante a Primeira Guerra Mundial, responsável pela nomeação de Hitler para a Chancelaria, tinha orgulho de reconhecer publicamente que jamais em sua vida havia lido um livro. As comparações com a atualidade são totalmente pertinentes.

S.L. – Sabemos que as pessoas ignorantes e pobres de espírito possuem um complexo de inferioridade, uma espécie de inveja que as leva às vezes ao desejo de destruir a cultura que não podem alcançar. Basta lembrar a famosa frase do oficial nazista: “quando ouço a palavra cultura, saco o meu revólver”.

A.C. – Um outro escritor, Curzio Malaparte, também identificou a inveja e esse complexo de inferioridade como traço comum dos tiranos. Antes de ser uma derrota política, o colapso da socialdemocracia na Alemanha foi uma derrota do pensamento. Com aplicação e meticulosidade, os nazistas acusaram a literatura, a psicanálise, a filosofia e a história de estarem na origem de uma “decadência moral”. Sigmund Freud, Thomas Mann, Klaus Mann, Rainer Maria Rilke, Hugo von Hofmannsthal e Stefan Zweig, alemães e austríacos, foram acusados.

S.L. – Isso sem falar nas artes plásticas “modernas” que, para os nazistas, eram “degeneradas”. Quantos artistas extraordinários tiveram que fugir da Alemanha! É o conservadorismo, portanto, que se repete, desta vez como farsa. No Brasil e nos Estados Unidos, encontram-se vários bodes expiatórios para exorcizar o pavor de um suposto “marxismo cultural”, por exemplo…

A.C. – (risos) Imaginar Donald Trump e Jair Bolsonaro discutindo cultura é como imaginar dois analfabetos ensinando o alfabeto. O desprezo deles pela arte e pelo intelecto não é apenas uma simples anedota, mas uma declaração de guerra à civilização do livro, da qual a Europa é guardiã e depositária.

S.L. – Por falar em Europa, e não só do ponto de vista cultural, depois das revelações divulgadas há alguns dias em horário nobre por France 2, o canal de televisão mais popular deste país, a ligação do partido de extrema-direita de Marine Le Pen com russos e americanos, sobretudo na figura de Steve Bannon, ficou clara e nítida. Le Pen está no alto da lista para as eleições europeias, mas estes nacional-populistas são os inimigos dos países europeus, querem a sua divisão para enfraquecê-los, exatamente como ocorreu com o Brexit. O diabólico Bannon (seu orquestrador) afirmou querer “cravar um punhal no coração da Europa”. Nada mais, nada menos. Está tudo nessa reportagem que, aliás, é bastante objetiva. A competente e controvertida Nathalie Loiseau, candidata LRM adversária de Le Pen, tem medo de uma volta aos anos 1930…

A.C. – Não há dúvida que, para essa gente, a Europa é o pior inimigo. Como deixei subentendido, o perigo dos anos 1920 e 1930 continua a pairar.

S.L. – E são estes os amigos do governo brasileiro. Partidos, pessoas de poder e regimes abertamente anti-democráticos, anti-republicanos, financiados anônimamente por interesse de enormes fortunas mundiais. O braço armado do niilismo, animado pela pulsão de morte, neste planeta. Precisamos ficar conscientes do perigo que se alastra no mundo, Brasil inclusive. Marine Le Pen e o RN (Rassemblement National), estes bárbaros têm que ser barrados nas eleições do dia 26. Não é uma questão restrita apenas à França ou à Europa. É um perigo planetário. Toca igualmente os brasileiros e os americanos.

A.C. – Com relação à cultura, a menor complacência com os coveiros do espírito (e seus aliados) permitiria acreditar aos bárbaros que eles podem agir impunemente. Se a União Europeia está pronta a responder, em menos de vinte e quatro horas, às provocações alfandegárias dos americanos, ela pode perfeitamente defender a civilização na qual alega estar fundada.

S.L. – Neste aspecto não sei se você está certo, assim espero sinceramente, mas obrigada por esta entrevista imaginária-verdadeira e até a próxima, que agora é hoje!

 

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Educação, cultura, humanismo em perigo

Por que ninguém reclamou do corte de 1 bilhão de reais na Educação em 2015 e nesta quarta-feira, 15, houve paralisação em pelo menos 75 das 102 universidades e institutos federais do País, os manifestantes estiveram nas ruas e o ministro Abraham Weintraub foi convocado para dar explicações sobre suas decisões orçamentárias no plenário da Câmara?

Imagem: O teólogo e humanista Erasmo de Roterdão (1466-1536), na pintura de Hans Holbein, o Jovem.

Porque não é o mesmo corte. Ou melhor, o de 2015 não teve o mesmo caráter. Não foi ideológico. Não foi um ato de ressentimento com relação a governos passados. Não representou uma ação rancorosa de negação dos valores humanos.

O corte de hoje está dentro da “lógica Bannon”. A lógica da desconstrução: a mesma que Trump usou e continua a usar para demolir o que fez Obama.

O Brasil está tomando a feição de uma democracia iliberal em todos os campos. Favorecendo o “ultra liberalismo” que, com a mundialização, tornou-se o inimigo número um da democracia, o novo regime arruinará a educação e a cultura. Não é à toa que a data está sendo chamada de “dia do basta” por estudantes, professores e servidores da educação. Mas é o “dia do basta” também para os demais.

Forma de negacionismo

Um sistema educacional deve constituir um equilíbrio perfeito entre ciências exatas e humanas. Sem as humanas para temperar os exageros (e às vezes a megalomania) das ciências duras e/ou puras que são abstratas, este sistema afastará o homem da sua essência.

No governo presente, o corte no orçamento da Educação tem um significado diferente. É uma forma de negacionismo. Trata-se de censura aos valores humanistas; o mesmo que negar as qualidades que fundam a especificidade do homem enquanto espécie. Diferente da animal.

Até a próxima que agora é hoje e, se ninguém reclamou do corte de 1 bilhão de reais em 2015, esperemos que, desta vez, os protestos sejam estrondosos!