História do meu pai, para o 75º aniversário do Dia D

Nesta quarta-feira, dia 5, início das cerimônias dos setenta e cinco anos do desembarque dos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, uma dezena de chefes de Estado e governo encontram-se em Portsmouth, na Inglaterra (onde começaram as operações, em 1944), na presença da rainha Elizabeth e do príncipe Charles. Amanhã, dia 6, todos são esperados na Normandia, França, onde foram programados mais de 280 eventos comemorativos. Esta data sempre me toca e agora, especialmente. Meu pai, oficial da 4ª Divisão de infantaria, sob as ordens diretas do general Dwight D. Eisenhower, desembarcou na Praia de Utah.

Imagem: Chief Photographer’s Mate (CPHOM) Robert F. Sargent, U.S. Coast Guard

Etapa chave da liberação da Europa do jugo nazista, o desembarque de 6 de junho de 1944 é o mais importante da história tanto pelas qualidades humanas de seus participantes, quanto pelas proezas em matéria de organização logística (apesar dos malogros) e por sua inovação técnica e industrial. A liberação era esperada há mais de um ano por todos os europeus que, no continente, lutavam contra a ocupação. Esta operação foi única também pelo número de embarcações engajadas: 6.939 navios desembarcaram 132.700 homens nas praias da Normandia. Entre eles estava A.L.K., cuja coragem e pertinácia me traz hoje o orgulho de ser a descendente direta de alguém que se comportou como herói, até o final da guerra.

A.L.K. nasceu numa família que, como tantas outras, depois da primeira Grande Guerra imigrou para os Estados Unidos instalando-se em Nova York. Antes ainda de se formar, e com a eclosão da 2ª Grande Guerra, foi chamado, como outros milhares de jovens, para servir no exército americano. Já em janeiro daquele ano fatídico, participava da preparação (Operação Netuno) da chamada operação Overlord – uma das maiores de toda a História militar – e do Dia D que marcou o primeiro dia da batalha da Normandia entre as forças alemães da Wehrmacht que a ocupavam e as forças aliadas do SHAEF (Quartel General Supremo das Forças Expedicionárias Aliadas). Hoje, compreendo cada vez melhor os seus relatos. Contou-nos a ansiedade que sentia quando, no final, o desembarque era adiado por causa do mau tempo. Dois dias antes, o gigantesco navio onde estava, saído do porto inglês, teve que dar meia-volta em mar cada vez mais revolto. Tarde da noite, Eisenhower anunciou finalmente que a decisão seria irrevogável: o desembarque se daria no dia seguinte.

Poucas horas depois, A.L.K. podia ver a armada, a mais extraordinária jamais composta, aproximar-se das costas francesas: 2 727 embarcações variadas carregando ou rebocando mais de 2 500 barcas menores para o desembarque, escoltadas por 590 navios de guerra, entre os quais 23 cruzadores e 5 encouraçados. Ele me poupou dos pormenores daqueles momentos cruciais e sangrentos, mas hoje eles estão em toda parte. Quantos livros, estudos e filmes documentaram a epopeia! Soube apenas que, do navio, ele passou à uma barca e chegou são e salvo às areias normandas, quando foi atingido por estilhaços de granada nas costas, à altura da zona lombar. Acordou em um hospital francês de campanha, onde foi tratado e recusou-se a retornar aos Estados Unidos preferindo atravessar a França, para continuar o que tinha começado. Naquele momento, 3 400 americanos, 3 mil canadenses e igual número de civis tinham sido mortos ou estavam desaparecidos. A.L.K. dirigiu-se, então, à Baviera, na jornada matou vários alemães e, finalmente, tendo feito fuzilar um general, tomou Garmisch-Partenkirchen da qual tornou-se governador militar, aos 23 anos.

Soldados americanos desembarcam na Praia de Utah

No fim da guerra, A.L.K. voltou para Nova York levando o cachorro que, mais tarde, foi o companheiro querido da minha infância. Levou também o quadro e o baú que conheci, tanto quanto testemunhei as cicatrizes em suas costas. O quadro o representava como governador militar: era o seu retrato pintado sobre o do oficial nazi que tinha prendido e mandado fuzilar (no reverso da tela podia-se ver ainda uma cruz gamada). Nessa pintura, que imitava a academia alemã do século XIX, ele vestia o uniforme de major e segurava o fuzil com aquela expressão bonapartiana que nos era familiar.

Quando iam para a guerra, os simples soldados levavam uma mochila. Já os oficiais tinham o direito de portar um baú de metal. O baú, que A.L.K. trouxe de volta consigo, continha as armas de fogo, espadas e uniformes de todos os soldados e oficiais de quem tirou a vida. E o cachorro, um pastor alemão que se chamava Wotan, o deus-personagem do Anel dos Nibelungos de Wagner – tendo perdido o seu mestre, o general nazista – foi recolhido por meu pai que ficou penalizado ao vê-lo seguir o trem no qual partia da Baviera.

A.L.K. faleceu em dezembro de 1990 e está enterrado em um dos cemitérios nacionais militares do Estado de Nova York, na parte reservada aos heróis de guerra. Tudo que sei, além do que vi e ouvi dele foi confirmado por minha família americana, brasileira e amigos. Até a próxima, que agora é hoje, dia em que esta lembrança sai do âmbito pessoal para se inscrever numa experiência histórica. Razão para contá-la no 75º aniversário do Dia D!

Trump e Bolsonaro, os coveiros da cultura

Esta é uma entrevista imaginária com um escritor verdadeiro e tudo que ele afirma aqui foi, de fato, publicado recentemente em forma de artigo, numa importante revista semanal francesa de centro-direita, cuja linha editorial é comumente admitida como social-liberal. Ninguém pode afirmar que o meu entrevistado é ‘comunista’.

Imagem: Donald Trump e Jair Bolsonaro multiplicam os ataques contra a vida intelectual © JIM WATSON / AFP

S.L. – Arthur Chevallier, você não é de esquerda nem de direita, é editor da série “História” na editora Cerf, escreveu vários livros (o último sobre Napoleão) e é também crítico literário nas prestigiadas revistas “Magazine Littéraire” e “Transfuge”, além de dirigir a “Revue du Stendhal Club”, que fundou junto com os escritores Charles Dantzig, Dominique Fernandez da Academia francesa, e Benoît Fuchs. O seu artigo na Le Point desta semana me agradou tanto, que decidi lhe entrevistar.

A.C. –  Você se refere à minha crônica sobre Trump e Bolsonaro?

S.L. – Sim. Em síntese, você afirma que o desprezo pela cultura dos presidentes americano e brasileiro é uma “declaração de guerra à civilização do livro”.

A.C. – É verdade. Estes dois imbecis pregam a vulgaridade antes de impor a barbárie. Eles ridicularizam o que estão prestes a destruir e zombam dos que estão prestes a matar. Face à inteligência, a brutalidade não é uma escolha, é um meio.

S.L. – Estamos de acordo. Mas, na sua opinião, como isto se dá?

A.C. – Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, multiplica os ataques contra a vida intelectual. Sua decisão, confirmada no dia 26 de abril, de reduzir o orçamento destinado às ciências sociais e humanas na Educação é o cúmulo, o resultado de uma paixão pela destruição que ele tinha revelado, desde a sua campanha. Essa atitude lembra a de Donald Trump que, a partir do final de 2017, anunciava a supressão de subsídios para teatros, cursos de música, dança, oficinas de leitura, etc., que o Estado financiava para que as pessoas desfavorecidas tivessem acesso.

S.L. – Mas estes políticos justificam os seus atos… O presidente brasileiro afirmou que “o contingenciamento foi em um pequeno porcentual das despesas discricionárias e que o corte de verbas não é maldade de ninguém, é uma medida necessária porque não tem dinheiro”.

A.C.- Bolsonaro e Trump apresentam essas medidas como “racionais”. Elas são, na verdade, o único remédio para a ignorância deles. Como os dois não entendem nada da vida do espírito, da cultura, eles querem a sua morte. “Auto de fé do espírito” foi uma expressão usada por Joseph Roth em um artigo publicado em 1933, onde o autor de “A Marcha de Radetzky” mostra como o Reich atacava escritores, especialmente judeus, porque eles encarnavam a liberdade. “Não havia senão os verdadeiros escritores que eram pessoas livres e independentes, e, portanto, revolucionários no verdadeiro sentido da palavra”, escreveu. A editora Allia acaba de publicar este texto chocante e combativo, escrito por um dos maiores autores do século 20!

Antes de ser uma derrota política, o colapso da socialdemocracia na Alemanha foi uma derrota do pensamento

S.L. – Costuma-se fazer muitas comparações com a Alemanha dos anos 1920 e 1930. Não há o perigo de uma banalização das análises?

A.C. – Ao contrário. Segundo Joseph Roth, o reinado da estupidez realizado pelo Terceiro Reich não pode ser atribuído a Adolf Hitler, um idiota, certamente, mas antes de tudo um oportunista cujas palavras não teriam tido eco semelhante em um país civilizado. A Alemanha nas décadas de 1920 e 1930 continha em si um monstro concebido por um estado perverso, traiçoeiro e hostil à França: a Prússia. Enganados pelo encanto da República de Weimar (1918-1933), os analistas europeus não perceberam que um regime humanista e culto não poderia, em quinze anos, conjurar meio século de militarismo. Hitler só assustou o mundo europeu porque teve a audácia de realizar o que a Prússia sempre planejou, ou seja, queimar livros, expulsar judeus, distorcer o cristianismo. O que assustou também também é que Hindenburg, admirado pelos alemães por sua integridade e coragem durante a Primeira Guerra Mundial, responsável pela nomeação de Hitler para a Chancelaria, tinha orgulho de reconhecer publicamente que jamais em sua vida havia lido um livro. As comparações com a atualidade são totalmente pertinentes.

S.L. – Sabemos que as pessoas ignorantes e pobres de espírito possuem um complexo de inferioridade, uma espécie de inveja que as leva às vezes ao desejo de destruir a cultura que não podem alcançar. Basta lembrar a famosa frase do oficial nazista: “quando ouço a palavra cultura, saco o meu revólver”.

A.C. – Um outro escritor, Curzio Malaparte, também identificou a inveja e esse complexo de inferioridade como traço comum dos tiranos. Antes de ser uma derrota política, o colapso da socialdemocracia na Alemanha foi uma derrota do pensamento. Com aplicação e meticulosidade, os nazistas acusaram a literatura, a psicanálise, a filosofia e a história de estarem na origem de uma “decadência moral”. Sigmund Freud, Thomas Mann, Klaus Mann, Rainer Maria Rilke, Hugo von Hofmannsthal e Stefan Zweig, alemães e austríacos, foram acusados.

S.L. – Isso sem falar nas artes plásticas “modernas” que, para os nazistas, eram “degeneradas”. Quantos artistas extraordinários tiveram que fugir da Alemanha! É o conservadorismo, portanto, que se repete, desta vez como farsa. No Brasil e nos Estados Unidos, encontram-se vários bodes expiatórios para exorcizar o pavor de um suposto “marxismo cultural”, por exemplo…

A.C. – (risos) Imaginar Donald Trump e Jair Bolsonaro discutindo cultura é como imaginar dois analfabetos ensinando o alfabeto. O desprezo deles pela arte e pelo intelecto não é apenas uma simples anedota, mas uma declaração de guerra à civilização do livro, da qual a Europa é guardiã e depositária.

S.L. – Por falar em Europa, e não só do ponto de vista cultural, depois das revelações divulgadas há alguns dias em horário nobre por France 2, o canal de televisão mais popular deste país, a ligação do partido de extrema-direita de Marine Le Pen com russos e americanos, sobretudo na figura de Steve Bannon, ficou clara e nítida. Le Pen está no alto da lista para as eleições europeias, mas estes nacional-populistas são os inimigos dos países europeus, querem a sua divisão para enfraquecê-los, exatamente como ocorreu com o Brexit. O diabólico Bannon (seu orquestrador) afirmou querer “cravar um punhal no coração da Europa”. Nada mais, nada menos. Está tudo nessa reportagem que, aliás, é bastante objetiva. A competente e controvertida Nathalie Loiseau, candidata LRM adversária de Le Pen, tem medo de uma volta aos anos 1930…

A.C. – Não há dúvida que, para essa gente, a Europa é o pior inimigo. Como deixei subentendido, o perigo dos anos 1920 e 1930 continua a pairar.

S.L. – E são estes os amigos do governo brasileiro. Partidos, pessoas de poder e regimes abertamente anti-democráticos, anti-republicanos, financiados anônimamente por interesse de enormes fortunas mundiais. O braço armado do niilismo, animado pela pulsão de morte, neste planeta. Precisamos ficar conscientes do perigo que se alastra no mundo, Brasil inclusive. Marine Le Pen e o RN (Rassemblement National), estes bárbaros têm que ser barrados nas eleições do dia 26. Não é uma questão restrita apenas à França ou à Europa. É um perigo planetário. Toca igualmente os brasileiros e os americanos.

A.C. – Com relação à cultura, a menor complacência com os coveiros do espírito (e seus aliados) permitiria acreditar aos bárbaros que eles podem agir impunemente. Se a União Europeia está pronta a responder, em menos de vinte e quatro horas, às provocações alfandegárias dos americanos, ela pode perfeitamente defender a civilização na qual alega estar fundada.

S.L. – Neste aspecto não sei se você está certo, assim espero sinceramente, mas obrigada por esta entrevista imaginária-verdadeira e até a próxima, que agora é hoje!

 

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Rosenberg, teórico e “guru” de Hitler. Lembra alguém?

Uma brasileira que diz morar nos Bálcãs e transita por Facebook, rede agora mais antissocial do que social, viu o último talk show do ex-BBB em Virgínia e “gostou”. Imagino que não foi a única. Enquanto isso, Alain Soral, teórico franco-suíço, ideólogo da extrema-direita (também vindo da esquerda e perturbado mentalmente) foi condenado na segunda-feira, dia 15, em Paris, a um ano de prisão fechada por ter negado o Holocausto.

Imagem: Na comédia ou tragédia greco-latinas, Histrião era o nome que se dava ao ator que representava as farsas populares da época. Os primeiros apareceram cerca de 363 a. C. Não podiam adquirir os direitos de cidadãos romanos, portanto eram considerados “infames”. No dicionário, a palavra significa bufão, palhaço, farsista e, pejorativamente, “pessoa vil, pela abjeção dos atos que pratica”.

O programa gravado em Virgínia teve pouca audiência. Foi dedicado àquela espécie de Dietrich Eckart, ou melhor, Alfred Rosenberg da cúpula bolsonarista. Para quem não sabe, Eckart foi o influenciador de Hitler; e Rosenberg, o seu teórico e mentor, que também podemos chamar de “guru” uma vez que o nazismo constituiu igualmente uma espécie de seita, baseada na paranoia de teorias conspirativas como “Os Protocolos dos Sábios de Sião” que agora, no Brasil, pelo jeito pode tomar a forma inversa.

Sim, porque é como se o “guru” de Virgínia, junto com Bannon, servisse a um plano ideológico maquiavélico, uma espécie de versão (inversão) tupiniquim: em vez de perseguir os “judeus-bolcheviques” e o povo israelita em geral, trava-se amizade com eles para o uso de seus bens e suas conquistas, e rouba-se a sua história e cultura, tanto com “distorção” dos fatos que é uma forma de “negacionismo”, quanto com a “absolvição” do Holocausto.

Apesar de algumas ideias divergentes, encontramos vários pontos comuns em Alain Soral, think tank “intelectual” de Marine Le Pen. Ele também veio do Partido comunista, ficou durante um tempo em hospital psiquiátrico, foi igualmente acusado de “incitação ao ódio extremo”, odeia feministas, homossexuais e ideias comunitárias. Hoje, foi condenado a um ano de prisão por negacionismo. A França democrática dos direitos humanos está satisfeita com a decisão, os simpatizantes de Soral pensam que é injustiça. Estes aplaudem o seu populismo e sobretudo o seu combate ao pensamento politicamente correto, considerando-o “insubmisso e revolucionário”. Lembra alguém?

O ator Saïd Taghmaoui, no único longa-metragem realizado por Alain Soral.
“Confissões de um paquerador” (2001), o único longa-metragem realizado por Alain Soral. Na foto, um dos atores, Saïd Taghmaoui. Lembra alguém?

Quanto à grande semelhança dos dois guias alemães, Eckart e Rosenberg, com o “guru” tropical entrevistado pelo ex-BBB, é que eles também queriam perseguir os comunistas. E as pequenas diferenças são que os mentores de Hitler tinham diploma, não conheciam astrologia, não possuiam coleção de armas e não inventavam que o seu objetivo estava “além da política do dia”.

A respeito de Soral, há mais de uma década que ele vem sendo condenado por difamação, injúrias raciais, provocação de violência, discriminação, apologia de crimes de guerra e contra a humanidade, e nostalgia do passado um pouco no gênero “apologia da tortura e do golpe de militar de 1964”. Lembra alguém?

Sobre o programa da Globo, a brasileira dos Bálcãs escreveu: “acho ótimo conhecer o pensamento de pessoas que pensam diferente de mim.” E acrescentou: “Agora podem me apedrejar”. Como sou contra apedrejamento, penso que ela só mereceria o castigo de muitos anos de estudo e reflexão forçada, coisa que para certas pessoas é suplício pior do que apedrejamento. Apesar de todas as dúvidas que tenho sobre o poder da educação contra a burrice…

Patchwork de baboseiras

Também assisti à tal entrevista, percebi a enrolação, o desarrazoado dos argumentos com base em supostos “estudos sobre fenomenologia do poder”. Também tive a paciência e o cuidado de me debruçar sobre alguns livros, publicações e assistir aos vídeos. Não encontrei NENHUM “pensamento”, nenhuma ideia original, nada, zero, absolut nichts. Nem para hoje, nem para “os próximos séculos” como ele afirma. Apenas repetições. Um patchwork de baboseiras.

É bom não confundir “pequenas opiniões” dentro da construção de um delírio paranoico, com dedução lógica e menos ainda com “pensamento”. Dá para entender perfeitamente porque tantos adoecidos – depois do trauma com os últimos governos – se identificaram e continuam engolindo qualquer pílula que o “professor” receita.

No entanto, mesmo se eu estivesse de acordo com as pequenas opiniões deste Rosenberg de Virgínia, não conseguiria, como a brasileira dos Bálcãs, me cegar quanto ao personagem que é tão escancaradamente evidente. Quando se tem alguma familiaridade com os grandes pensadores da modernidade– não falo dos garotinhos midiáticos do século 21 – é impossível não rir do insultuoso comediante, orgulhoso desmedido, histrião majestático, megalômano burlesco, ambicioso arrogante, cabotino que acredita que vai mudar a história e se autodenomina “maior escritor vivo do país”. Jamais se viu um verdadeiro “grande” dizer isto de si mesmo, sim?

Walter Benjamin, Theodor W. Adorno, Henri Bergson, Jürgen Habermas, Pierre Bourdieu, Max Weber, Jacques Lacan, Emmanuel Kant, Roland Barthes, Zygmunt Bauman, Gaston Bachelard, Sigmund Freud, G. W. Friedrich Hegel, Martin Heidegger, Karl Marx, Hannah Arendt, Claude Lévi-Strauss, Jean Baudrillard, Peter Sloterdijk, Slavoj Žižek, Karl Popper, Félix Guattari, Jacques Derrida, Gilles Deleuze, Jean‑François Lyotard, Alain Badiou, Michel Foucault, Judith Butler, Umberto Eco, Giorgio Agamben, Jean-Paul Sartre, Louis Althusser, Maurice Merleau-Ponty, Friedrich Nietzsche, Mircea Eliade, Arthur Schopenhauer, tantos outros…

O mundo ganhou verdadeiros pensadores, a República francesa quer ver intelectuais canalhas na cadeia e a cúpula bolsonarista ganhou, muito devidamente, um Napoleão de hospício. Até a próxima, que agora é hoje, o povo e a cultura brasileira não merecem isso mas, por sorte, ele não ficará!