Meu adeus à Marceline Loridan-Ivens

Marceline Loridan-Ivens, cineasta, produtora e escritora, faleceu anteontem, dia 18, em Paris. Nascida em 1928, ela passou a vida a denunciar a injustiça e a violência, marcada para sempre pela sua deportação, com 15 anos, ao campo de Auschwitz-Birkenau, depois a Bergen-Belsen e a Theresienstadt, de onde foi liberada em 1945. Amiga íntima e inseparável da estadista francesa Simone Veil (que hoje repousa no Panteão), Marceline foi casada com o célebre documentarista Joris Ivens (1898-1989).

Imagem: Marceline Loridan-Ivens, em seu apartamento em Paris, no dia 12 de Janeiro, 2018. AGLAÉ BORY (Le Monde)

Quando eu era jovem e reclamava que alguém estava zangado comigo sem razão, a sábia decana da família dizia: “Se você não fez nada, esta pessoa só pode estar mal pelo que ELA fez. Você não tem nada a ver com isso…”

Não entendia muito bem esse raciocínio, mas sempre o acatei. Mesmo porque ele confortava as minhas dúvidas.

No final do livro E Você Não Voltou* da cineasta francesa Marceline Loridan-Ivens, encontrei um novo e verdadeiro sentido para esta explicação, que agora pertence ao inventário de minhas “psicologias pessoais”. No seu relato póstumo ao pai, morto em Auschwitz, a autora – que sobreviveu a três campos de concentração – dá a chave do mal-estar que, a meu ver, reafirmará o antissemitismo para sempre: “Eles não nos perdoarão jamais o mal que nos fizeram.”

A diferença em relação à minha juventude é que, agora, mesmo eu sabendo que “não tenho nada a ver com isso”, a sábia decana Marceline Loridan-Ivens não consegue confortar os meus porquês.

Toda uma vida a denunciar a injustiça e a violência

Esta pequena crônica está contida em meu último livro, lançado há alguns meses. A republico aqui como uma homenagem à cineasta, mas também produtora e escritora, que faleceu anteontem, dia 18, em Paris, aos 90 anos. Marceline Loridan passou a vida a denunciar a injustiça e a violência, marcada para sempre pela sua deportação, com 15 anos. Amiga íntima e inseparável de Simone Veil (hoje no Panteão), Marceline realizou em conjunto com seu marido, o grande documentarista Joris Ivens (1898-1989), filmes sobre a guerra do Vietnã e a China maoísta. Fez também um tocante longa-metragem, La Petite Prairie aux bouleaux, em 2003.

No livro citado*, Et tu n’es pas revenu (E Você Não Voltou, com Judith Perrignon, Grasset, 2015 – ainda sem tradução para o português), ela contava a sua juventude quando foi enviada no mesmo trem que Simone Veil, em 1944, ao campo nazista de Auschwitz-Birkenau, depois a Bergen-Belsen e a Theresienstadt, de onde foi liberada em 1945. Seu último volume, L’Amour après (O Amor depois, igualmente escrito com Judith Perrignon, Grasset, 2018), relata o que veio a seguir: a liberdade recobrada, a descoberta do amor, a lenta reconstrução de uma sobrevivente. Merece igualmente uma tradução no Brasil.

Até a próxima, que agora é hoje e mais uma grande mulher se vai, deixando o seu exemplo e a sua luta. Como dizia Romain Rolland (1866-1944), “mesmo sem esperança, só a luta já é uma esperança.”
 

 

Sartre e Beauvoir ‘calavam-se e continuavam’

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir jamais escreveram alguma coisa contra Franco, Hitler ou Mussolini. Calavam-se e continuavam. Como disse um famoso filósofo e musicólogo francês, ‘foi só depois da Guerra que os dois começaram a se engajar. Isso, para fazer esquecer o próprio esquecimento.’

Foto: Jean-Paul Charles Aymard Sartre e Simone Lucie Ernestine Marie Bertrand de Beauvoir, em Roma, 1978.

Assisti a um programa literário de boa audiência na televisão francesa, onde a “expoente da nova literatura francófona” (não é a minha opinião), a franco-marroquina Leïla Slimani, filha de banqueiro que adora o presidente Macron (e confirmou presença na Flip 2018 ) se desmancha completamente falando do novo posfácio que escreveu sobre “O Segundo Sexo” de  Simone de Beauvoir, que todas as feministas – pobres, ricas ou remediadas – adoram… nem sempre sabendo exatamente por que.

Os convidados respondem sem dizer muita coisa e subitamente Dan Franck, verdadeiro escritor que jamais seria convidado à Flip, penso eu, diz: “Simone de Beauvoir? Bem… enquanto ela e Sartre bebiam aperitivos no Café de Flore nos anos 1940, Max Jacob estava morrendo. A ‘guerra’ de Beauvoir em suas memórias é completamente simplória. Sartre e ela jamais escreveram alguma coisa contra Franco, Hitler ou Mussolini. Calavam-se e continuavam. Como afirmou o filósofo e musicólogo francês  Vladimir Jankélévitch(1903-1985), ‘foi só depois da Guerra que os dois começaram a se engajar. Isso, para fazer esquecer o próprio esquecimento.’ ”

Sartre e Beauvoir, bodes expiatórios?

Já se disse tudo e o contrário sobre a atitude de Jean-Paul Charles Aymard Sartre e Simone Lucie Ernestine Marie Bertrand de Beauvoir sob a Ocupação estrangeira. “Collabos”? Resistentes? Expectantes? Ou seja, aqueles que “esperavam em observação”, prática política, sindical ou atitude individual que recusa a inciativa e só toma posição segundo as circunstâncias? De todo modo, a atitude do filósofo e de sua companheira durante a guerra sempre suscitou o debate. Ora, graças a novos documentos descobertos em 2014, Ingrid Galster (1944-2015), grande pesquisadora na Universidade de Paderborn, na Alemanha, coloca tudo em seu lugar. Diz ela: “Sartre ocupou o posto de um professor afastado pelo regime de Vichy. Será que ele não sabia? (…)”

Mas Ingrid Galster se pergunta, sabendo que entra no campo da especulação, se o “super engajamento” de Sartre no livro Reflexões Sobre o Racismo, publicado em 1946, não traduziria também uma espécie de culpabilidade escondida diante de sua indiferença humana durante a guerra. Sobretudo quando se conhece o caso infeliz com Bianca Bienenfeld, a jovem judia com quem Sartre manteve uma relação em 1939.  Na primavera de 1940, quando eles se separam, e que Bianca, desesperada, foi obrigada a se esconder para não ser enviada a um campo de concentração, jamais recebeu um sinal de seu ex-amante.

De modelos, Sartre e Beauvoir tornaram-se bodes expiatórios. Galster explica: “É como se fosse apenas Sartre que tivesse levado toda uma geração ao erro – URSS, Cuba, esquerdismo… Seria injusto. As coisas são mais complexas. Como na Ocupação.”

Mas, voltando ao programa literário, os convidados e o apresentador, depois de ouvir Franck, cuja especialidade é contar magnificamente os bastidores da história e intelectualidade francesa, engoliram em seco. E eu exultei como sempre exulto nas ocasiões em que a verdade histórica destitui o aspecto mítico do qual precisam os tolos para poder fundamentar as suas tolices.

Até a próxima, que agora é hoje e que satisfação quando aparece alguém colocando os pingos nos is!

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir no Café de Flore, em Paris. Fotografias de Brassaï.

 

Site oficial do último livro do autor

 

Céline, Tarsila e o racismo

“Pessoalmente estou pouco ligando para o talento e os fãs do senhor Louis-Ferdinand Céline. Penso que o melhor que possa acontecer à sua memória é ele ser esquecido!” (Pedro Paulo, universitário brasileiro imaginário, residente em Paris). “Há algo de muito forte e constrangedor naquele peito caído da ‘Negra’ de Tarsila do Amaral, pintora da elite paulista. É difícil não pensar em seu caráter ideológico, que tem marcas raciais.” (professora da Unicamp, não imaginária, em comentário no Facebook.).

Imagem: “O Postal”, 1928, Tarsila do Amaral. Esta tela pertenceu aos meus avós e à minha infância e adolescência, até 1963. Jamais imaginei que alguém, um dia, pudesse dizer que alguma pintura de Tarsila do Amaral tivesse “caráter ideológico, com marcas de racismo”. Mas esta é a patrulha estética que grassa hoje, pensando que, assim, possui a chave de compreensão da arte brasileira.

Marido e mulher, ambos profissionais na área da cultura em Paris, se encontram, em sua própria cozinha, na hora do chá. Catherine, francesa, livro embaixo do braço, coloca o bule sobre a mesa; Pedro Paulo, brasileiro, belisca um biscoito pensando que teria preferido um café. Ela diz:

“Ontem reli algumas páginas de Louis-Ferdinand Céline, o começo de Morte a crédito, onde ele conta a sua experiência de médico com as pessoas pobres. Ah grandioso! Hilário! O suprassumo da literatura francesa! Você não leu, leia pelo menos esse trechinho.”

Catherine abre o livro que trazia debaixo do braço e o estende ao marido:

“É preciso ler em voz alta, se possível imitando o sotaque ‘parigot’ (parisiense) tipo Louis Jouvet! Dá pra entender porque Fabrice Luchini, grande ator, recitou essa passagem no palco, ha ha!”

Pedro Paulo lê rapidamente, em voz baixa, e faz uma careta: “É provocação?”

“Como assim?”, ela se surpreende.

“Imagino o Luchini recitando Céline, responde Pedro Paulo, mas não vejo nada de hilário. Isso é um ‘pedaço de horror’ em sua falta de humanidade, bondade, compaixão – o contrário da medicina! Hipócrates ficaria de cabelo em pé!”

“Sinto muito, Pedro Paulo, mas a sua incompreensão de Céline é consternadora. Ou você não leu direito ou, o mais grave, é incapaz de compreender um texto de literatura escrito numa língua que não é a do código civil ou do francês que emprega o apresentador do jornal das 8 na televisão. Estou com a impressão de ouvir o que o nosso peixeiro poderia proferir de Céline!”

O homem, no sublime do seu horror e de sua grandeza

Pedro Paulo joga o resto do biscoito dentro da xícara vazia e retruca:

“A literatura não justifica tudo. Que nojento esse Céline! Que pessoa desumana. A gente se pergunta porque ele escolheu ser médico. Talvez para poder cuspir o seu ódio ‘maravilhosamente literário’ sobre os humanos. Irra!”

Catherine, à beira de um ataque de nervos, tenta maneirar:

“É porque ele era médico justamente, que Céline pôde se aproximar da condição humana e escrever duas ou três obras-primas onde o homem, ou melhor, o fundo da condição humana é apresentado no sublime do seu horror e de sua grandeza.”

“Consternador é o seu autoritarismo e arrogância! Segundo você, só porque é conferencista e professora catedrática na Sorbonne, eu não tenho o direito de falar e sentir de maneira diferente? Inacreditável!”

“Mas Pedro Paulo, é mais forte que Pascal! Simplesmente trata-se de uma imagem paradoxal que não agrada, perturba, decepciona os discursos submissos que embelezam e escondem o fundo de egoísmo, mesquinharia, covardia que os carregam e agitam!”

“Vai comparar com Proust…”, resmunga Pedro Paulo.

“Proust demoliu os esnobes burgueses e a classe decadente da aristocracia do faubourg Saint-Germain e isso dá prazer, não é? Todo mundo perdoa a maldade dele. Céline demoliu os pobres, os pequenos, o ‘povinho’, isso não dá prazer e o consideram um canalha. É a reação dos imbecis que são os cães de guarda do ‘politicamente correto’ que, aliás, não mudou nada desde 1936.”

Tarsila, Cioran, Céline, processos parecidos por razões execráveis

“Catherine, você está me chamando de imbecil? Justo eu que nunca gostei dos ‘bem pensantes’, saí correndo da USP e vim trabalhar em Paris porque pressenti que um dia teria de presenciar a destruição ética e mental que um partido político faria com os meus colegas? Justo eu que vejo com horror, no Facebook e na mídia, esses  pseudo artistas e professorinhas da Unicamp pertencentes à doxa atual, cães de guarda criticando Tarsila do Amaral e a Antropofagia por causa de uma suposta ‘desigualdade racial’?

“Entenda como quiser, Pedro Paulo. Arte não é a minha especialidade, mas em todos os campos a turma de idiotas é igual: sempre prefere falar do que é externo às obras artísticas ou literárias. É mais fácil. Fizeram o mesmo processo a Cioran que a Céline, pelas mesmas e execráveis razões. Para compreender o século 20 é preciso ler Proust, sim, e TAMBÉM Céline. Junto com Kafka, é o tríptico essencial. Todo o resto é tagarelice insignificante.”

“Catherine, eu sempre defendi que o entendimento de qualquer movimento de arte deve se dar longe dos processos rasteiros de cunho ideológico, você sabe. Os mesquinhos não fazem outra coisa do que descrever a si mesmos através de suas acusações. Quando falam que Tarsila tinha uma “ideologia” é da própria ideologia que estão falando, e quando falam de “cegueira ideológica” é a cegueira deles mesmos que descrevem. Reconheço a maestria de um autor, mas Céline me dá engulhos viscerais! Só de olhar o retrato dele… É quase o mesmo sentimento de repugnância que experimento ao ver a expressão e o topete de Trump, ha ha!”

“Pedro Paulo! Que comparação!!! E que incoerência! Você defende a Antropofagia e ataca Céline!!! O seu pai, que era um dos homens mais cultos do Brasil e te fez prometer que você leria certos autores nacionais e estrangeiros, coisa que você não cumpriu, teria tido vergonha da sua reação.”

“Ele teria tido vergonha de ouvir o tom e a falta de humor com o qual a minha mulher me fala! Eu li, sim, uma parte do que ele me fez prometer. Um volume de Proust, dois de Dostoievski… Também nunca ouvi muita música de Schoenberg, Alban Berg, Messiaen, Stockhausen ou Webern. Não preciso entender de tudo. Mas isso não me impede de julgar.”

Leitores e espectadores inteligentes não julgam.

“Julgar? Livros, antes de julgar sem conhecer ou compreender, é preciso LER. Mas os leitores inteligentes não julgam, eles estão além do julgamento. Diante de obras-primas, eles ficam silenciosos. Claro, eles se veem e se reconhecem no espelho que autores como Proust, Céline e Kafka lhes oferecem. É a força e a grandeza da literatura. Mas é a força e a grandeza da arte igualmente. Tão ridículos e tolos quanto os que dizem ficar ‘constrangidos diante do que existe de racial’ em Tarsila, são aqueles que dizem  ‘gostar dela” ou, pior, os que exclamam ADOOORO TARSILA!!! Não dá para aguentar… ”

“A força e a grandeza da literatura às vezes dá de cara com uma realidade que não é tão grandiosa assim. Li bastante sobre essa polêmica de publicar ou não os textos antissemitas de Céline. Pierre-André Taguieff, autor do livro “Céline contre les Juifs ou L’École de la haine” (“Céline contra os Judeus ou a Escola do Ódio”), lançado este ano aqui em Paris, disse numa entrevista que entre os esnobes e conformistas acadêmicos de esquerda e direita é de bom tom se declarar ‘céliniano’. O que significa se identificar com um pretenso ‘rebelde, vítima da inveja e do ódio dos medíocres e dos maldosos’. Essa é a imagem que o paranoico do Céline conseguiu impor à posteridade. Acho estranho você não perceber isso igualmente, Catherine.”

“Esse Pierre-André Taguieff é um asno. Ele faz parte desses pseudo-intelectuais provocadores e venenosos chamados ‘novos reacionários’ que procuram um lugar ao sol. Fica ao lado do Éric Zemmour.”

“Mas Taguieff tem um pouco de razão, não? O ‘estilo’ lava tudo: o pro nazi, o propagandista anti-judeu, o colaboracionista. Quando se possui a sorte de ter ao seu lado a Sorbonne, Gallimard, a imprensa cultural e tantos personagens mediáticos como Michel Audiard, Nicolas Sarkozy e Fabrice Luchini, tudo é possível. Uma certa França adora amar os ‘párias’ ou os ‘malditos’. É o oposto do que acontece em um certo Brasil.”

Catherine fica em silêncio. Arruma a louça no lava-pratos enquanto suspira dando de ombros como se o marido fosse um “caso perdido”. Ou talvez essa discussão fosse importante, para que os dois descobrissem no final onde é que as suas ideias, aparentemente divergentes, convergiam.

“Claro, continua Pedro Paulo, cada um tem o seu Céline: o autor da Viagem não é o mesmo da Féerie e dos panfletos. O suposto pacifista agrada alguns, o “médico dos pobres” agrada outros. Viagem ao fim da noite ou Morte a crédito têm, com razão, muitos fãs. Mas, quer saber? Pessoalmente estou pouco ligando para o talento e os fãs do senhor Louis-Ferdinand Céline. Penso que o melhor que possa acontecer à sua memória é ele ser esquecido!”

Catherine dirige-se à porta, porém antes de sair da cozinha, dispara:

“OK, Pedro Paulo, mas posso te pedir um favor? Dá para você parar de ser brasileiro – ou, pelo menos, parar de ser brasileiro pelo pior lado? Merci!


Até a próxima, que agora é hoje e é uma ironia muito grande que, no mesmo momento em que alguns “tagarelam” querendo encontrar racismo na arte, outros que lutam de verdade contra o racismo morram assassinados como a vereadora carioca Marielle Franco!

“A Negra”, Tarsila do Amaral, 1923

 

Primeiras páginas de “Morte a crédito”, de Louis-Ferdinand Céline.

 

LEIA TAMBÉM AS ANÁLISES:

 

 

“Se o potencial erótico de corpos modelados não deixa as pessoas indiferentes, isto quer dizer que elas talvez sofram de “agalmatofilia”, que é um desvio sexual bastante estranho…”; análise de Sheila Leirner

 

 

“No século 19 “arte total” era a ópera, no século 21 é o cinema. Não existem mais cineastas de gênio que não saibam se movimentar simultânea e confortavelmente em todos os campos do conhecimento e da cultura”; análise de Sheila Leirner

 

 

Digamos que este artista possui a rara capacidade de provocar suspense, fascínio e curiosidade; análise de Sheila Leirner

 

 

“Todos os pais têm defeitos. Uns mais, outros menos. Porém, quando as imperfeições tornam-se destrutivas, podemos defini-las como “tóxicas.”; análise de Sheila Leirner

 

 

“Racionais e rigorosos – jamais fortuitos, aleatórios ou arbitrários – seus trabalhos são como fórmulas matemáticas com as suas soluções já embutidas nas imagens.”; análise de Sheila Leirner

 

 

‘Mãe tóxica’, o assunto que ainda é tabu

Todos os pais têm defeitos. Uns mais, outros menos. Porém, quando as imperfeições tornam-se destrutivas, podemos defini-las como “tóxicas” mesmo que assumam formas diferentes. Em alguns, a toxicidade é óbvia, em outros é tão sutil que seus familiares quase não percebem. O fato é que todos vivem sob suas próprias regras, sem se colocar de fato no lugar dos filhos, e o sofrimento que provocam, sobretudo as mães, é algo de que raramente se fala. “Mãe tóxica” é tabu, porque na nossa civilização e cultura, a figura materna ainda é “sagrada”.

 

Imagem: Frederick Sandys (1829–1904), “Medéia”,  Birmingham Museum and Art Gallery.

“Sinto muito, senhor Newton, o centro de gravitação universal é a minha mãe.” (Anônimo)

 

Imagens e anedotas literárias não faltam. Até mesmo o narrador sofre, na Procura de Proust, quando a sua mãe vem dizer boa noite ao pé do leito, vestida para sair… A mãe Thénardier que humilha e brutaliza Cosette, abandonada pela mãe Fantine, em Os Miseráveis de Victor Hugo, é terrível. Mas a pior de todas, a mais maldosa, talvez, é a famosa Madame Lepic, mãe que detesta e maltrata o pequeno ruivo Cabeça de Cenoura, nome do magnífico romance autobiográfico de Jules Renard publicado em 1894.

Félix Vallotton (1865 – 1925), “Cabeça de Cenoura”, romance autobiográfico de Jules Renard, 1894.

A mãe de Marguerite Duras, em O Amante, é uma mulher monstruosa: prostitui a sua filha caçula. Já a célebre e perversa “Folcoche” que martiriza as crianças em De víbora na mão, o romance igualmente autobiográfico de Hervé Bazin, continua uma referência quando se trata de mães abusivas. Assim como a “Medéia” de Corneille que, apesar de ser personagem de ficção, não é menos abominável, matando os três filhos por vingança.

Folcoche, a mãe que martiriza as crianças em De víbora na mão, romance autobiográfico de Hervé Bazin.

Do mesmo modo, Thérèse Delombre em A Dor, de André de Richaud, se suicida, grávida, deixando o filho único, também sem pai, condenando-o a um destino inviável… E há Patrick Modiano, prêmio Nobel de literatura, em cujos livros a ausência da mãe é uma questão constante. De todas as mães indignas, porém, a que me marcou especialmente foi Emma Bovary, heroína de Flaubert, mãe psicologicamente ausente, eterna insatisfeita que quer ter um filho e é frustrada pelo nascimento da filha. Pouco preocupada com a felicidade da menina ela se mostra às vezes até mesmo cruel chamando-a de “feia” e, no final, com o suicídio, abandona-a egoisticamente à própria sorte.

Minha mãe jamais me deu uma alegria na vida

Ontem, segunda-feira, uma amiga que se encontra hospitalizada me ligou dizendo que descobriu, “apenas na maturidade e em ‘estado de suspensão psíquica’, que a sua mãe jamais lhe deu uma alegria na vida”. Disse que forçou a memória para encontrar algum momento de felicidade e … nada! Queixas, cobranças, chantagens, más notícias, mau humor, ressentimentos, até mesmo ameaças de suicídio. Tudo isto, e pouco de bom, ela foi obrigada a ouvir durante a sua existência. Ou, pelo menos, se houve alguma coisa positiva, deve ter perdido a sua importância. Foi esquecida diante de tanta “tragédia”.

A minha questão veio tão naturalmente quanto a das pessoas que conhecem as piadas e o assunto milenar: “A sua mãe é judia?”

“Não”, respondeu. “Ela é católica e bretã. Não possuo nenhum ascendente de origem judaica”.

“Je souffre” (“Eu sofro”), pintura de Ben Vautier (1935), artista do grupo Fluxus.

No momento fiquei sem resposta. E de todo modo não achei que era hora de lhe dar a explicação, a partir da reportagem que eu tinha assistido em horário nobre na televisão francesa e que foi de grande esclarecimento público. Vi, por exemplo, que a expressão “mãe tóxica” hoje, felizmente, ficou popular. Entrou no vocabulário científico (de psiquiatria, psicologia, sociologia, etc.). À medida que uma expressão entra em vigor, ela se torna consciente e quando envolve percepção e raciocínio, este é o primeiro passo para que todos se armem e defendam. Quem tem esse problema em casa, deve pedir ajuda.

Também não podia entrar em pormenores, dizendo que nenhum de nós é perfeito, pais inclusive, mas que existe o ponto em que esta imperfeição torna-se destrutiva, substituindo o amor, calor e afeição que as crianças merecem, por algo horrível.

Não tinha ainda como explicar que todas as “mães tóxicas” se acham especiais, mais inteligentes, criativas e importantes do que as pessoas comuns. Que jamais se enganam ou reconhecem erros, que são sempre “vítimas queixosas, incompreendidas e maltratadas”. Eu não podia contar que vi (e li) que essas mães geralmente adotam comportamentos desagradáveis, são dominadoras, controladoras e manipuladoras, mostrando-se narcisistas, egocêntricas e vaidosas.

Émile Bayard (1886). Cosette na casa dos Thénardier, em “Os Miseráveis” de Victor Hugo.

Além disso, não podia relatar, por exemplo, que essas progenitoras vivem sob suas próprias regras, sem se incomodar com o bem-estar dos filhos, e o sofrimento que provocam é algo de que raramente se fala. Sim, porque “mãe tóxica”, apesar de ter se tornado expressão popular, ainda é tabu. A figura materna é sagrada em qualquer cultura e civilização do planeta.

Assim, disse à minha amiga apenas que ela não deveria mais levar isso em conta, pois a sua mãe certamente tinha feito o melhor que pôde, e o problema – por mais que a tivesse afetado – não lhe dizia mais respeito. Era neurose exclusiva da mãe dela. Penso que ficou contente. Quando nos despedimos estava com a voz mais alegre.

O melhor presente que uma mãe pode dar aos seus filhos é estar bem

Quem não ficou contente fui eu. Lembrei imediatamente de François Roustang, o novo Sócrates que nos deixou no ano retrasado. Ele dizia que “o melhor presente que uma mãe pode dar aos seus filhos é estar bem”. Ora, a mãe da minha amiga, lhe dava somente presentes envenenados. No fundo, cruel como é, considera-se o centro do mundo e pensa, é claro, como é típico de mães nocivas, que os filhos são responsáveis por sua felicidade. Pena que a minha amiga não fez uma terapia como é necessário nesses casos, por isso, amanhã, quando eu falar de novo com ela, que é inteligente e sensível, certamente lhe direi:

“Querida, já que você está no hospital para se curar e descobriu que, além de tudo, está intoxicada por alguém que jamais lhe deu alguma alegria na vida, aproveite para fazer a cura total. Invente um cemitério virtual e cometa um ASSASSINATO (HIGIENICAMENTE) SIMBÓLICO! Mesmo que a sua mãe tenha lhe dado a vida, mate esta pessoa tóxica dentro de você e ganhe uma nova, totalmente recomposta, em 2018! Só assim conseguirá ter uma excelente relação com ela, antes que desapareça de verdade. Até a próxima que agora é hoje e lembre-se: jamais repita a toxicidade com os seus próprios filhos. Boa sorte!”

Charles-André van Loo (1705–1765), “Senhorita Clairon em Medéia”. Neues Palais in Potsdam.

LEIA TAMBÉM AS ANÁLISES:

 

François Roustang, o novo Sócrates que nos deixou

“Antigo jesuíta e psicanalista, François Roustang (1923-2016), também filósofo, dedicava-se à hipnoterapia e nos deixou com dados fundamentais sobre a cura. Por meio de sua transmissão, à qual provávelmente se dará ainda mais valor no futuro, conhecemos os efeitos nefastos da ‘transferência’ em psicanálise, as palavras desnecessárias em terapia, e também as particularidades do tempo de análise que, segundo ele, ‘não deve se eternizar’.”; análise de Sheila Leirner

Feminismo e machismo: lados da mesma moeda

“Vai demorar bastante ainda para que certas brasileirinhas, francesinhas e americaninhas que se julgam melhores do que as outras e querem impor sua vontade compreendam que o que elas acham e sentem não é necessariamente o que outras mulheres acham e sentem.”; análise de Sheila Leirner

Com nova exposição em Paris, René Magritte se consolida como filósofo da arte moderna

“Racionais e rigorosos – jamais fortuitos, aleatórios ou arbitrários – seus trabalhos são como fórmulas matemáticas com as suas soluções já embutidas nas imagens.”; análise de Sheila Leirner

 

Meu encontro com Umberto Eco

No elevador do prédio onde também morava o especialista em arte russa, Eco olhava o meu embrulho, creio que tentando adivinhar o que ele continha. Eu olhava o seu pacote de livros, também me esforçando em desvendar o nome da livraria.

Foi nos anos 1990¹, no elevador do prédio onde ele morava ocasionalmente, cujas janelas de frente davam para uma rosácea da Igreja de São Sulpício em Paris. Eu carregava um pequeno embrulho para presentear o proprietário do 4° andar, querido amigo especialista em Malevitch², que festejava o seu aniversário. Ele, um saco de livraria, o que, para mim, tinha algo de profano. Transportar livros em saco plástico não combinava com um escritor sagrado que já portava tantos volumes no currículo.

No cubículo usual destes antigos compartimentos de deslocação vertical que os franceses ainda chamam de elevador, Eco olhava o meu embrulho, creio que tentando adivinhar o que ele continha. Eu olhava o seu sachê de livros, também me esforçando em desvendar o nome da livraria. O meu andar chegou antes. Gentilmente ele avançou, abriu a porta para que eu saísse e disse:

 

– “Eu trocaria com prazer esse meu pacote pelo seu embrulho.”

– “Também trocaria com prazer se o meu embrulho não fosse um presente de aniversário para o seu vizinho”, respondi com um sorriso, apontando o apartamento da direita.

– “Ah o vizinho simpático, conhecedor de arte russa? Ele entenderia.”

– “Entenderia e certamente gostaria, porém não acreditaria.”

– “Os livros não são feitos para serem acreditados. Boa noite!”³, replicou Umberto Eco, também sorrindo, antes de entrar no elevador.

Até a próxima, que agora é hoje e sem que esse encontro tenha provocado alguma alteração em minha vida, não sei por que razão o destino me fez prisioneira em elevador por alguns minutos, com o também “prisioneiro de O Nome da Rosa“⁴. Talvez para entender, apenas na maturidade, a profundidade daquelas palavras.

 

⒈Este encontro é absolutamente verídico.
⒉Kasimir Malevitch – artista russo, inventor do “suprematismo”, o grau zero da pintura, onde a supremacia do sentimento puro encontra um equivalente na forma pura, destituída de toda significação simbólica ou racional.
⒊”Os livros não são feitos para serem acreditados, mas submetidos a exame. Diante de um livro não devemos nos perguntar o que ele diz, mas o que quer dizer.” (Umberto Eco, em O Nome da Rosa)
⒋”Eu sou prisioneiro de O Nome da Rosa, assim como García Márquez o foi de Cem Anos de Solidão.” (Umberto Eco, “Le Figaro littéraire”,  21 de maio de 2015)

 

Homenagem a Kasimir Malevitch e à vanguarda russa no Stedelijk Museum, em Amsterdam, 2014.
O “Suprematismo” de Kasimir Malevitch

 

 

E de repente aparece… Marcel Proust!

Foi encontrado um filme inédito de 1904, conservado nos arquivos do Centro Nacional da Cinematografia em Paris, onde aparecem rápidas (e prováveis) imagens de Marcel Proust. 

O vídeo, transformado por mim, está em “câmara lenta” na parte em que o escritor desce as escadas da Igreja no cortejo nupcial do casamento de Elaine Greffulhe, filha da condessa Greffulhe – principal modelo para Oriane de Guermantes na obra romanesca “Em Busca do Tempo Perdido” – com Armand de Guiche, amigo de Proust. No documento, feito por encomenda dos Greffulhe, a única imagem em movimento que se conhece de Proust, aparece aos 37 segundos.

Até a próxima, que agora é hoje e a comunidade proustiana está emocionada… e eu também!

 

Leia também ‘Cura de desintoxicação com Proust, em Balbec’