Armadilha de mosquinhas

Em Paris, esta é a época da invasão de “moucherons”, aquelas mosquinhas de frutas e vinagre. Elas caem na sua bebida, passam pelo seu nariz, voam na frente do computador e às vezes dão até mesmo a impressão de que você está com novos corpos flutuantes na vista. Só que as alterações não são no vítreo e sim no seu humor. Poucos seres são mais irritantes do que essas drosófilas de vida curta e encheção longa!

 

Para não me acontecer o mesmo que com o rei leão na fábula de La Fontaine – ele que insultou a mosquinha e se estrepou antes de ela mesma se estrepar dando de cara com a aranha -, há anos uso a mesma armadilha. Aprendi com o tolosano Micoulou (lê-se Miculú) que passa a vida ensinando astúcias no YouTube. Ninguém vê o rosto de Micoulou nem presta atenção nas suas astúcias, mas todo mundo o segue só por causa do delicioso sotaque de Toulouse.

A armadilha em questão é qualquer recipiente com uma tampa furadinha onde se coloca vinagre e algumas gotas de detergente de lavar louça. Quando a mosquinha resolve entrar não sai mais e, quando aterrissa, fica presa na textura gosmenta do líquido. Repeti o feito neste verão com o meu velho polvilhador de açucar que agora só serve para isso, com a diferença que – como eu e as mosquinhas estamos confinadas – sentei-me em frente delas e fiquei observando.

Vieram 9 de uma só vez. Todas paralisadas na tampa, acho que se perguntando por que tantos furos. Em alguns segundos, já acostumadas, passeavam pela superfície com cuidado evitando os buracos. No fundo, estavam tão encantadas com o que poderiam encontrar na aventura, “tão diferente do que haviam vivido antes” que, de vez em quando, alguma tropeçava de euforia e quase caía lá dentro.

A n° 3 foi a mais intrépida: ajoelhou-se e enfiou a cabecinha no orifício para observar. Logo se afastou, temerosa. A n° 1 a imitou. Só que como demorou demais, veio a n° 9 malvada e lhe deu um empurrão. A coitada n° 1 fez jus ao seu número: foi a primeira a cair. Enquanto ainda voava dentro do vidro e todas divertiam-se apostando se a colega conseguiria sair, a n° 5 deu uma de camicase e se atirou. Só que não teve tempo de voar e foi imediatamente fisgada pela gosma avinagrada.

Tragédia! A n° 1, que era bom caráter e ainda sobrevoava a mistura, deu uma patinha para salvar a amiga e acabou mergulhando junto. O fuzuê foi total. Não sei se por ignorância, irresponsabilidade, solidariedade ou se por burrice, em poucos segundos todas as 9 já se encontravam naufragadas.

Foi quando me afastei. Alguns têm dificuldade de lidar com frustração. Eu, de lidar com culpa. Mesmo que não acredite em metempsicose, essa crença difundida pelo misticismo do orfismo e do pitagorismo e adotada pelo platonismo, entre outras correntes filosóficas, e também por religiões como o budismo e o hinduísmo. Não acho de jeito nenhum que afogando ela, posso reencarnar numa mosquinha!

A minha culpa é simplesmente bíblica. Não matarás… e ponto final. Mas, quando vi que, em apenas algumas horas, o vinagre ficou preto de gente, quero dizer, de mosquinhas, perdi a minha culpa judaico-cristã e pensei: “Afinal, cada povo resolve se deve ou não cair numa armadilha.”

Não é mesmo? Até a próxima, que agora é hoje!

História contra desordem e destruição

O governo de Jair Bolsonaro, sobretudo sua grande ala ideológica, é negacionista. Falseia e distorce a verdade histórica, como parte de um projeto separatista de desordem e destruição.

Não custa relembrar: o estado de direito é um sistema onde todos, mesmo os mandatários políticos, são submissos à legislação (carta constitucional). A separação dos poderes (Montesquieu), distingue executivo, legislativo e judiciário que se limitam e controlam mutuamente.

O estado de direito se opõe ao uso arbitrário do poder, às monarquias absolutas (tipo “O Estado, sou eu” de Luís XIV), aos totalitarismos e às ditaduras.

O Estado de direito só existe quando a ordem republicana e o respeito às instituições são assegurados.

A ausência deste sistema institucional leva, a história já provou, à decadência social, econômica e cultural.

Em nome de Jesus

Manifestações por causas são legítimas, fundamento da democracia. No entanto, o que vemos agora, e é intolerável, é a manipulação de causas pretensamente democráticas como projeto separatista de desordem e destruição.

O governo brasileiro de extrema-direita desune a nação, usa o ódio e a violência como instrumentos só que, ao contrário de seus iguais da extrema-esquerda… “em nome de Jesus”.

O governo brasileiro de extrema-direita, tanto quanto seus similares da esquerda extrema em outros países, é revisionista no pior sentido: o negacionista. Falseia e distorce a verdade histórica, com o mesmo projeto separatista de desordem e destruição.

História já!

A única coisa que reconcilia os brasileiros é o seu passado, tantas vezes glorioso. O único tesouro de união do nosso país é a sua história com tudo que ela tem de sombrio e diverso.

Precisamos de perspectiva e visão de totalidade. Precisamos de mais conhecimento histórico para estabelecer paralelos, tecer analogias no tempo, e divisar o futuro.

A História do Brasil é maior do que nós. Torna inútil a vicissitude da atualidade política. É a melhor arma contra o fascismo. Tira o sentido de qualquer divisão ideológica. História já!

#EstudemosHistória #HistóriaContraFascismo #ForaGovernoBolsonaro

Eugenismo soft

Estou há tempo demais sem escrever, peço desculpas aos queridos leitores e seguidores, agradeço a sua compreensão. Quando a nossa energia é gasta para viver, entender e dominar uma situação que é totalmente nova, como esta de pandemia e confinamento, às vezes resta pouco dela para a reflexão e a escrita. Mesmo assim, no dia 27 de março, publiquei um texto em rede social onde afirmava que, para o governo brasileiro, o novo coronavírus é muito conveniente. Apesar de tocar na economia, matará – mesmo sem revólver  – todos aqueles que a elite bolsonarista odeia e “pesam” ao país. Seria uma espécie de depuração da espécie brasiliana, “aperfeiçoamento” via Covid-19, eugenismo soft.

Foto: ministro da Saúde Nelson Reich, quero dizer, Teich. 

No dia 24 de março, quando assisti à “live” do psicopata que nos governa, pensei que, de fato, para Hitler (o eugenista duro), só lhe faltava o bigode. As declarações do presidente brasileiro, recebidas na Europa com horror e escárnio, traziam de volta a lembrança do verdadeiro satanás. Não o demônio que, segundo os pobres ignorantes, é responsável pelo vírus. Mas aquele que orienta a extrema-direita global, cujo nome é Steve Bannon.

Quem é que pode garantir que os discursos, escritos pelo chamado “gabinete do ódio”, com o apoio do pornô filósofo de Virgínia, de alguns ministros, responsáveis por entidades públicas e Bannon – além da questão política e econômica – não contenham intenção eugenista por trás? Se não, por que querer circulação livre, abertura de comércios, escolas e o resto, transformando pessoas em armas de destruição em massa?

Punido pela História

Só para informação, na França, a multa para quem desobedece ao confinamento é de 135€ (cerca de R$ 750) ou 200€ (R$ 1.200) em caso de recidiva em duas semanas, mas pode chegar até 3.750€ (R$ 20.900) e 6 meses de prisão para recidivas sucessivas. Além de policiais e gendarmes, outros funcionários podem agora multar as pessoas. Depois de mais de um mês fechados em casa, há cinco dias, começou a cair consideravelmente o número de pessoas hospitalizadas. Era o esperado, e desejado.

Para salvar vidas, o governo francês preferiu adiar as reformas, contrair dívidas, pagar bônus aos heróis da saúde, do nosso dia a dia, ajudar os trabalhadores e todos os necessitados. Segundo o estudo publicado no dia 22 de abril pelos epidemiologistas da prestigiosa “Ecole des hautes Etudes en Santé publique” (EHESP), o confinamento na França evitou pelo menos 62.000 mortes e 105.000 leitos de UTI em apenas um mês. Em seu último pronunciamento, no qual o citou, o primeiro ministro Eduard Philippe declarou: “Não acredito que o nosso país teria suportado isto.”

Sem confinamento, 23% da população francesa teria sido infectada, com um resultado catastrófico: a saturação dos hospitais. Assim, com quase 1 contaminado em cada 4 franceses, 670.000 pacientes teriam precisado de hospitalização e, pelo menos 140.000 casos graves deveriam ter sido custeados pela França. Hoje, a esperança renasce. Já podemos falar em futuro.

Enquanto isso, no Brasil – onde a calamidade está só no começo e mesmo assim os hospitais públicos têm praticamente todos os leitos de UTI ocupados pelo Covid-19, registrando a cada dia centenas de novas mortes – o seu presidente confunde a população, divide o país, fomenta a discórdia e a desordem. Não precisará ser julgado por um Tribunal internacional. Será julgado e punido por seu próprio povo e pela História.

Escolha de Sofia

Ontem, assistindo à posse do schmock³ que é o novo ministro da Saúde⁴ e também revendo o vídeo onde ele reafirma que “na saúde, o dinheiro é limitado e escolhas (como entre um adolescente e um idoso) são inevitáveis”, tive a confirmação da minha hipótese inicial. De fato, parece ser mesmo depuração da espécie brasiliana, “aperfeiçoamento” via Covid-19, eugenismo soft. Lembrando que “Escolha de Sofia” também foi uma invenção nazista.

Até a próxima, que agora é hoje e Nelson Reich, quero dizer, Nelson Teich, para Dr. Arthur Gütt¹, também só falta o bigode!


¹ Dr. Arthur Gütt (1891-1949), foi médico, membro do Comitê do Reich, em 1936, para a “proteção do sangue”, e editor de revistas de biologia sobre raça e sociedade alemã. Tornou-se membro do Lebensborn²  e, em 1939 tornou-se secretário da comissão do Reich para o serviço de Saúde pública.

² Lebensborn: associação patrocinada pelo Estado nazista e apoiado pelas SS (Schutzstaffel, organização paramilitar nazista), cujo objetivo era aumentar a taxa de natalidade das crianças arianas, com base na ideologia nacional-socialista de higiene racial e saúde.

³ Schmock é o insulto supremo em iídiche, muito usado por Woody Allen. Quer dizer três coisas: idiota, vergonhoso e a terceira não posso repetir aqui.

⁴Ex-ministro da saúde. Vinte e oito dias após assumir o cargo, Nelson Reich, quero dizer, Nelson Teich pediu demissão, em meio a divergências com o psicopata que circunstancialmente nos governa.