Eugenismo soft

Estou há tempo demais sem escrever, peço desculpas aos queridos leitores e seguidores, agradeço a sua compreensão. Quando a nossa energia é gasta para viver, entender e dominar uma situação que é totalmente nova, como esta de pandemia e confinamento, às vezes resta pouco dela para a reflexão e a escrita. Mesmo assim, no dia 27 de março, publiquei um texto em rede social onde afirmava que, para o governo brasileiro, o novo coronavírus é muito conveniente. Apesar de tocar na economia, matará – mesmo sem revólver  – todos aqueles que a elite bolsonarista odeia e “pesam” ao país. Seria uma espécie de depuração da espécie brasiliana, “aperfeiçoamento” via Covid-19, eugenismo soft.

Foto: ministro da Saúde Nelson Reich, quero dizer, Teich. 

No dia 24 de março, quando assisti à “live” do psicopata que nos governa, pensei que, de fato, para Hitler (o eugenista duro), só lhe faltava o bigode. As declarações do presidente brasileiro, recebidas na Europa com horror e escárnio, traziam de volta a lembrança do verdadeiro satanás. Não o demônio que, segundo os pobres ignorantes, é responsável pelo vírus. Mas aquele que orienta a extrema-direita global, cujo nome é Steve Bannon.

Quem é que pode garantir que os discursos, escritos pelo chamado “gabinete do ódio”, com o apoio do pornô filósofo de Virgínia, de alguns ministros, responsáveis por entidades públicas e Bannon – além da questão política e econômica – não contenham intenção eugenista por trás? Se não, por que querer circulação livre, abertura de comércios, escolas e o resto, transformando pessoas em armas de destruição em massa?

Punido pela História

Só para informação, na França, a multa para quem desobedece ao confinamento é de 135€ (cerca de R$ 750) ou 200€ (R$ 1.200) em caso de recidiva em duas semanas, mas pode chegar até 3.750€ (R$ 20.900) e 6 meses de prisão para recidivas sucessivas. Além de policiais e gendarmes, outros funcionários podem agora multar as pessoas. Depois de mais de um mês fechados em casa, há cinco dias, começou a cair consideravelmente o número de pessoas hospitalizadas. Era o esperado, e desejado.

Para salvar vidas, o governo francês preferiu adiar as reformas, contrair dívidas, pagar bônus aos heróis da saúde, do nosso dia a dia, ajudar os trabalhadores e todos os necessitados. Segundo o estudo publicado no dia 22 de abril pelos epidemiologistas da prestigiosa “Ecole des hautes Etudes en Santé publique” (EHESP), o confinamento na França evitou pelo menos 62.000 mortes e 105.000 leitos de UTI em apenas um mês. Em seu último pronunciamento, no qual o citou, o primeiro ministro Eduard Philippe declarou: “Não acredito que o nosso país teria suportado isto.”

Sem confinamento, 23% da população francesa teria sido infectada, com um resultado catastrófico: a saturação dos hospitais. Assim, com quase 1 contaminado em cada 4 franceses, 670.000 pacientes teriam precisado de hospitalização e, pelo menos 140.000 casos graves deveriam ter sido custeados pela França. Hoje, a esperança renasce. Já podemos falar em futuro.

Enquanto isso, no Brasil – onde a calamidade está só no começo e mesmo assim os hospitais públicos têm praticamente todos os leitos de UTI ocupados pelo Covid-19, registrando a cada dia centenas de novas mortes – o seu presidente confunde a população, divide o país, fomenta a discórdia e a desordem. Não precisará ser julgado por um Tribunal internacional. Será julgado e punido por seu próprio povo e pela História.

Escolha de Sofia

Ontem, assistindo à posse do schmock³ que é o novo ministro da Saúde⁴ e também revendo o vídeo onde ele reafirma que “na saúde, o dinheiro é limitado e escolhas (como entre um adolescente e um idoso) são inevitáveis”, tive a confirmação da minha hipótese inicial. De fato, parece ser mesmo depuração da espécie brasiliana, “aperfeiçoamento” via Covid-19, eugenismo soft. Lembrando que “Escolha de Sofia” também foi uma invenção nazista.

Até a próxima, que agora é hoje e Nelson Reich, quero dizer, Nelson Teich, para Dr. Arthur Gütt¹, também só falta o bigode!


¹ Dr. Arthur Gütt (1891-1949), foi médico, membro do Comitê do Reich, em 1936, para a “proteção do sangue”, e editor de revistas de biologia sobre raça e sociedade alemã. Tornou-se membro do Lebensborn²  e, em 1939 tornou-se secretário da comissão do Reich para o serviço de Saúde pública.

² Lebensborn: associação patrocinada pelo Estado nazista e apoiado pelas SS (Schutzstaffel, organização paramilitar nazista), cujo objetivo era aumentar a taxa de natalidade das crianças arianas, com base na ideologia nacional-socialista de higiene racial e saúde.

³ Schmock é o insulto supremo em iídiche, muito usado por Woody Allen. Quer dizer três coisas: idiota, vergonhoso e a terceira não posso repetir aqui.

⁴Ex-ministro da saúde. Vinte e oito dias após assumir o cargo, Nelson Reich, quero dizer, Nelson Teich pediu demissão, em meio a divergências com o psicopata que circunstancialmente nos governa.

Estamos caindo como patinhos

A estratégia perversa (manjada em outros países, porém jamais usada no Brasil) tem três atos:

1° – Preenche-se o governo com pessoas ruins, incompetentes e inimigas dos assuntos de suas pastas.

2° – Orienta-se cada atroz a fazer uma declaração mais estapafúrdia do que a outra, ocupando espaço na imprensa e nas redes.

3° – Estimula-se o falatório, bom ou mau, a fim de mostrar “autoridade”.


O objetivo? Reforçar um governo centralizado, populista, nacionalista, autoritário e autocrata – exatamente o que está acontecendo no nosso país, em ritmo acelerado.

Trata-se de um método de sideração, como o que ocorreu na Itália de Salvini e felizmente terminou. Ninguém sai às ruas porque as pessoas estão sideradas, paralisadas. Ora, além da estratégia perversa, que é externa – certamente orientada pelo satânico Steve Bannon e o “guru” de Virgínia (é bom lembrar que o novo psicótico, agora diretor da Funarte, foi aluno dele) – existe igualmente uma neurose interna que permite a este governo existir. Exemplo que todos conhecem: aquele tipo de casal, completamente neurótico, que não pode viver separado porque um depende das neuroses do outro. O casal Bolsonaro-Lula também está nessa, por oposição.

Charge de João Montanaro, publicada no jornal Folha de S. Paulo em 11 de novembro, 2019.

Pois é. A crescente “família governamental” brasileira, que agora tem membros em todas as pastas, é assim. Funciona, não em oposição, mas em sintonia, dentro da estrutura psicopatológica da qual também necessita para existir.

‘Conteúdos proveitosos ou inspiradores’

A contra estratégia? Um pacto entre os órgãos fidedignos da imprensa e a sociedade civil. Não se noticia ou analisa nos jornais, rádios e televisões; não se compartilha ou comenta nas redes nenhuma destas provocações sensacionalistas.

Reconheço que é muito duro ficar quieto vendo o antirrepublicano chamado “sinistro da Deseducação” dançar de guarda-chuva e insultar as pessoas, e um diretor imbecil de instituição cultural dizer que a terra é plana ou que os Beatles foram comunistas.  O jornal Estadão, neste editorial, chegou até mesmo a exigir: “o ministro da Educação, Abraham Weintraub, tem de ser demitido imediatamente.”

Mas, se não for para ser contundente assim e apenas banalizar barbaridades, silenciar é o que todos deveriam fazer. Se todo mundo ignorasse as hostilizações e os ultrajes, a imprensa inclusive, o governo seria neutralizado neste aspecto. Aliás, qual é o interesse em reproduzir e comentar perversidade? Muda alguma coisa?

O silêncio, junto com a continuidade da avaliação, abordagem crítica, iluminação de problemas, indicação de falhas e contradições, questionamento das autoridades públicas e dos poderes privados, sempre buscando “conteúdos proveitosos ou inspiradores” – como está nas diretrizes editoriais publicadas pela Folha em 12 de março deste ano – estas são as nossas melhores armas.

Até a próxima, que agora é hoje e não caiamos como patinhos!  #Silêncio

Em outros países, filmar professores é crime

Para o presidente e o ministro da Educação, Abraham Weintraub, filmar professores em sala de aula ‘é um direito dos alunos’. Para a autora do vídeo em que expõe uma professora por críticas a Olavo de Carvalho, o seu ato de delação é ‘exemplar’. Para a eminente jurista alemã, professora e doutora Christiana Fountoulakis, premiada especialista em Direito civil, com vários livros publicados, se um aluno ou esta secretária do PSL em Itapeva-SP fizessem isto sem o acordo do professor, seriam reprimidos criminalmente e poderiam sofrer severas sanções. Eis uma entrevista recente que a jurista concedeu ao jornal da universidade de Friburgo, na Alemanha. 

Porque um curso não pode ser gravado sem o conhecimento do professor?

Isto é considerado como um “ataque à personalidade”, e também como “tratamento ilícito de dados”. Ademais, os códigos penais em toda parte, não apenas na Alemanha, geralmente proíbem a gravação de uma aula ou conversa que não sejam públicas sem o consentimento dos interlocutores. O mesmo se aplica à fotografia. Cursos e aulas não são públicos. São privados, uma vez que nem todos podem participar.

Quais são as sanções para um aluno que infringe esta lei?

A lei prevê culpa, multa de até 500 euros, advertência, suspensão ou ainda a exclusão do aluno da universidade ou outros estabelecimentos de ensino. Juridicamente, o infrator se expõe, além da pena pecuniária, até mesmo a uma sentença de 3 anos de prisão.

Existe diferença de gravidade entre uma gravação destinada a uso pessoal e o compartilhamento com uma ou mais pessoas?

Ambos são reprimidos criminalmente. No entanto, um estudante que grava um curso ou uma aula sem o consentimento do professor e dos participantes e, em seguida, compartilha a gravação com outras pessoas comete duas infrações sucessivas, o que aumenta a sua pena.

Qual é a penalidade para um aluno que mantém um curso gravado em seu computador sem o consentimento do professor?

A sanção pode ir de uma pena pecuniária a ser determinada pelo juiz, que irá considerar a gravidade do comportamento (90 euros é o mínimo, em princípio) até à pena de prisão de um ano (no caso da conservação da gravação áudio) ou de três anos (quando há a conservação de uma gravação em vídeo).

Um vídeo é portanto mais sério do que um áudio?

Os dois tipos de gravação são infrações, mas a pena é mais severa quando se trata de vídeo. O juiz pode dar uma sentença de 3 anos ou mais, ao passo que para áudio, não poderá ir além de um ano de prisão.

O que pode fazer um professor se um aluno o filma sem o seu consentimento?

Professor ou não, qualquer pessoa filmada ou gravada sem o seu consentimento pode exigir a destruição do material ou, quando isto não for possível, mover um processo por perdas e danos, ou exigir uma compensação pelo prejuízo moral que sofreu.


Até a próxima, que agora é hoje e se o Brasil continuar a passos largos em direção à delação e ao controle de indivíduos, este país transformar-se-á rapidamente em pesadelo orwelliano. Ou seja, no universo totalitário de espionagem imaginado por George Orwell (1903-1950), o visionário escritor inglês!

Congresso de Nuremberg, 1936. Dentro das visões totalitárias de George Orwell.