As trancinhas teleguiadas do ‘produto’ Greta Thunberg

Não que eu seja contra questões climáticas. Muito ao contrário, defendo a sua importância, condeno a atual política ambiental brasileira, a visão anticlimática dos nossos políticos, os céticos mundiais, as teorias de conspiração, faço o que posso e faria ainda mais para contribuir com o planeta; é realmente urgente. Porém, tudo tem limite…

Foto: Wolfgang Rattay / REUTERS – Dusseldorf, Alemanha, 2019.

A menina Greta Thunberg sempre me irritou além da conta e nunca soube porquê. Descobri que, na verdade, não é ela que me irrita. Como poderia ficar incomodada por uma criança atingida pela síndrome de Asperger, uma perturbação do espectro autista?

Levei algum tempo observando: primeiro, achei muito estranho e paradoxal que ela simbolize um engajamento messiânico planetário, quando o seu rosto não revela nenhuma empatia. Depois, pensei: a sua idade e handicap a tornam inatacável. E concluí que Greta Thunberg é uma vítima, vergonhosa e covardemente manipulada. Oportunística e hipocritamente manipulada. Penso que ela deveria ser protegida e que, antes de acharmos tudo isso “maravilhoso”, precisamos também olhar com mais atenção a “verdade” das ideias que ela repete.

Greta Thunberg é manipulável a tal ponto que os próprios pais tornaram pública a sua perturbação neurológica – o que, na minha opinião, é de uma grande irresponsabilidade, para não dizer, imoralidade. Mas essa opinião não é só minha. Hoje, vários médicos franceses acreditam que revelar o estado neuropsiquiátrico de menores à mídia deveria ser considerado um delito. Sabe-se que – depois da descrição da síndrome por Hans Asperger em 1941, as crianças Asperger são às vezes geniais, porém sempre frágeis. Precisam de serenidade, cuidados especiais e não podem ser expostas, mesmo se assim quiserem. Um menor com uma perturbação do espectro autista, tanto quanto outros menores “não tem que querer”, os adultos são ainda mais responsáveis por ele. E instrumentalizá-lo, então, é um erro moral. Energias podem ser renováveis porém juventude, saúde e estudos, não. Sem ter consciência disto, esta menina, sacrificada, perde irremediávelmente os seus.

Thunberg tornou-se – por causa de seu handicap – um caso (inatacável) de trancinhas teleguiadas, marketing climático de muito dinheiro e interesse por trás. Grande lobby das indústrias de energias soi-disant sustentáveis, coisa que está sendo demonstrada por alguns especialistas, como veremos abaixo. Porém, principalmente, virou um estandarte da extrema esquerda anticapitalista e outros radicais.

Ora, com a morte de todos os modelos marxistas – da Coreia do Norte à Venezuela, passando por Cuba e pelo Camboja de Pol Pot – que deixou os antiliberais em pleno desespero, o eco catastrofismo, com os seus medos, dogmas e ideologias, transformou-se no instrumento ideal para a proposição de uma nova utopia que substitua a ditadura marxista. Instrumentalizando a juventude, essa extrema esquerda, e paradoxalmente também a extrema direita, os anarquistas (assim como os black bloc anticapitalistas, anti sistema, que desafiam o establishement), querem impor agora uma agenda liberticida em nome dos “bons sentimentos”.

Lenin qualificou os burgueses de esquerda como idiotas úteis da revolução; os jovens que seguem Greta Thunberg são os idiotas úteis da ditadura verde.

Os filósofos Pascal Bruckner e Michel Onfray, entre outros, apontam as contradições deste fenômeno. Laurent Alexandre, brilhante médico, cirurgião e ensaísta, cientista político, formado também pelo HEC e ENA – fundador do site Doctissimo, um dos únicos sites fiáveis sobre a saúde na França – tuitou : “O inferno está cheio de boas intenções.” Para ele, “Lenin qualificou os burgueses de esquerda como idiotas úteis da revolução; os jovens que seguem Greta Thunberg são os idiotas úteis da ditadura verde.”

Não que não seja provada, e mais do que provada, a existência do aquecimento global. Mas, “ressuscitando os temores dos cristãos do ano 1000, tentam convencer os jovens de que em breve serão queimados no calor do aquecimento global, a menos que aceitem uma redução massiva de suas liberdades”, diz o médico. E continua: “Os jovens que fazem greve escolar são manipulados. Greta Thunberg organiza greves escolares para exigir que dividamos o nosso consumo energético por quatro, mas isso levaria os franceses a um consumo como os da Nigéria e do Egito. A imposição de tal retrocesso não passa senão pela ditadura verde.”

De maneira sintética, destaco apenas algumas frases (que são sempre extremamente bem fundamentadas por Laurent Alexandre), na imprensa francesa:

  • “O paradoxo é que as soluções apresentadas por Greta Thunberg piorariam o aquecimento global.”
  • “Na realidade, se fecharmos as usinas nucleares, assim que o sol se puser, a noite cair ou o tempo estiver calmo com pouco vento, teremos que ligar as usinas de carvão (820 gramas de CO2 por kwh) ou gás (420 gramas de CO2 por kwh). A Alemanha já tem uma experiência amarga, neste sentido.”
  • “Os jovens estão sinceramente convencidos de que turbinas eólicas e painéis solares reduzem o CO2 e a poluição; a verdade é que eles aumentam consideravelmente. Os alemães gastaram 500 bilhões de euros com um resultado sombrio. A Alemanha produz hoje nove vezes mais gases do efeito estufa por quilowatt-hora, do que a França.”
  • “Greta Thunberg favorece, sem saber, os interesses da China e da Rússia. As energias renováveis ​​intermitentes nos tornam altamente dependentes dos metais raros que fervilham em instalações eólicas, solares e de armazenamento e dos quais a China tem um monopólio virtual.”
  • “Não se trata de negar a emergência climática, é claro, mas de desenvolver tecnologias que possibilitem a transição ecológica sem passar por uma ditadura, mesmo que seja verde.”
  • “Seguir Greta Thunberg agravaria o aquecimento global, aumentaria o desperdício de dinheiro público, levaria a uma ditadura verde regressiva e nos colocaria à mercê da China e da Rússia. Todos os democratas liberais, todos os herdeiros de Raymond Aron devem combater as utopias mortais que ela transmite.”

Essa viagem a Nova York não é tão ecológica quanto parece

Greta Thunberg chegou ontem, dia 29, a Nova York. A famigerada viagem de barco, em 15 dias, para participar das negociações da ONU sobre o clima, falando em uma cúpula de jovens em duas datas, não é tão ecológica quanto parece.

Enquanto a garota ativista atravessa o oceano, a organização do seu deslocamento precisa de 6 pessoas que tomarão avião ida e volta. O capitão do navio onde está, assim como o conhecido yachtsman que leva a sueca e seu pai, também pegarão avião para voltar. Além deles, 5 outras pessoas usarão avião para organizar a estadia da jovem militante, assim como os jornalistas do jornal alemão Die Welt, entre outros.

Se ela fosse normalmente a Nova York, de avião com o seu pai, chegaria mais rápido, evitaria parte da tropa de acompanhadores e certamente economizaria esta absurda emissão de carbono multiplicada.

Até a próxima, que agora é hoje e, no fundo, penso que essa garotinha me irrita também pois, além de tudo que escrevi, a sua greve climática parece ser uma maneira bem esperta de cabular as aulas!

Macron e a sua luva de pelica

Não sei o que foi pior. Assistir ao presidente brasileiro em rede nacional, lendo em quatro minutos o que foi escrito por algum assessor mais controlado – não improvisando, como fazem os grandes estadistas – quase sem conseguir articular as palavras e com aquela expressão vazia; ou ler as reações dos seus apoiadores nas redes que preferiram atacar a Europa e um presidente com a estatura de Emmanuel Macron, para escapar do verdadeiro problema.

Imagem: Jair Bolsonaro, Emmanuel Macron.

O verdadeiro problema não é a Europa. Mesmo porque estavam todos felizes, torcendo muito para o acordo UE-Mercosur dar certo. O problema também não é o presidente francês. No vídeo em Biarritz, antes da abertura do G7, no lindíssimo discurso improvisado com belo vocabulário – digno da pessoa culta, poliglota e fina que é – o presidente Macron diz claramente que trabalhará para mobilizar os sete países que integram o grupo na luta contra o incêndio na Amazônia e para investir no reflorestamento. Além disso, destaca que a França também é um dos países amazônicos por meio do território da Guiana Francesa e deixa bem claro as importâncias específicas tanto do oceano quanto da floresta, para o planeta.

Zombaram do presidente francês porque, condenando esta catástrofe ecológica, ele usou uma foto de 2003, de fotógrafo falecido. Ora, florestas pertencem a todos os tempos. E imagens de incêndio em florestas são intemporais. Inspirada pelo presidente Macron, também publiquei nas redes uma imagem antiga que remete à atualidade: “O Fogo” (1937) de Antônio Parreiras (1860-1937), uma das últimas pinturas deste artista acadêmico brasileiro que já se preocupava com a preservação ecológica, quando o que importava era “o progresso e o modernismo”. Naquela época, foi considerado retrógrado e anacrônico porque defendia a proteção do meio ambiente, contra a devastação da natureza. Pelo visto a idiotia e ignorância dos dirigentes brasileiros atuais contagia!

É evidente que a motivação do presidente francês não é apenas ecológica, mas sobretudo política, inteligentemente política. Claro que ele atende também aos interesses do agronegócio francês. É mais do que legítimo. Em essência, isso desmerece a ação? Desde quando, seja qual for o motivo, querer preservar esse “tesouro da biodiversidade” como ele diz – que, antes de pertencer ao Brasil, pertence ao planeta – é interferir em soberania? Onde está o espírito de colonizador (justo ele que hoje toma medidas e reprova firmemente o passado colonialista da França)? Isso é conversa de neofascistas nacionalistas e dos imbecis que os imitam, infestando o país e as redes sociais. Paradoxo absoluto de um presidente brasileiro que fala em soberania ao mesmo tempo em que diz querer abrir a Amazônia para os americanos, dos quais é, comprovadamente, “mais do que um aliado”.

Além do mundo agrícola, a decisão do presidente Macron foi saudada igualmente pelo ex-ministro da Transição ecológica Nicolas Hulot, sempre muito apreciado pelos franceses. “O anúncio de Emmanuel Macron de se opor ao acordo de comércio com o Mercosur é uma primeira etapa essencial”, tuitou Hulot. “Deve ser seguida por sanções comerciais proibindo importações de produtos agrícolas brasileiros para tentar parar com o desmatamento.”

O Conselho Europeu diz ser “difícil imaginar” acordo com Mercosul com queimadas na Amazônia após a postura do governo brasileiro frente aos incêndios florestais. Apoiou e apoia esse acordo desde 1999, mas claro que, para ele, agora o acordo é inimaginável. O Parlamento Europeu estimula plantio de árvores como “resposta” a incêndios. Faz campanha para que prefeitos de cidades da Europa plantem árvores como solução à destruição causada pelos incêndios na Amazônia e na região russa da Sibéria. Isso é político? É campanha contra soberania?

Não há nada de “oculto” no “interesse internacional”, como gostam de dizer os amadores de teses conspiratórias. Os países civilizados levam muito a sério todas as florestas do planeta e a função das árvores na redução de carbono, no equilíbrio da biodiversidade e do clima. Os europeus sabem, e isto foi lembrado hoje cedo, 25, em entrevista à BFM TV por Yannick Jadot, militante ecologista e deputado dos Verdes no Parlamento Europeu: “muito antes de assumir a Presidência, o presidente brasileiro já falava que o meio ambiente não ficaria entre as suas prioridades. Prova é que pensou absurdamente unir os ministérios da Agricultura e Meio Ambiente, acabando com este.”  De fato, ele gritava contra a “indústria da multa” por parte de órgãos ambientais, planejava não demarcar mais nenhuma terra indígena e sair do Acordo de Paris. O seu filho senador quis até mesmo acabar com Reserva Legal que protege as florestas em propriedades rurais.

Só o que aconteceu no último mês, como está nesta matéria do BR Político (Estadão) é suficiente para explicar o ódio e a repulsa que o governo brasileiro provocou praticamente no mundo inteiro, não apenas na Europa. Houve a terrível questão do Inpe, da Noruega e Alemanha, do vídeo da Dinamarca, da acusação mentirosa das ONGs e dos insultos a Macron. No sábado, 24, até mesmo à Brigitte, sua esposa, em tuitada machista e cafajeste, como de hábito. Mas é preciso lembrar tudo que ocorreu desde o final de 2018, com resultados aterradores. O que também está muito bem descrito na reportagem “Como o País virou vilão ambiental em 1 mês“(Estadão), com várias e ótimas entrevistas, entre as quais com o diplomata Rubens Ricupero e com Carlos Nobre, climatologista e colaborador do Instituto de Estudos Avançados da USP.

Somos muitos a aguardar a demissão imediata de Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, assim como o “arregaçar de mangas” do responsável-chefe por esta catástrofe: depois de combater o fogo com a ajuda da França e de outros países da Europa, que ele comece a combater o desmatamento, a reflorestar também com a ajuda da França e de outros países da Europa (que generosamente já se ofereceram a isto) e a proteger este patrimônio, que é nosso e também do planeta!

Até a próxima, que agora é hoje e o “G7 quer ajudar o mais rápido possível países atingidos por incêndios na Amazônia,” diz Macron. Que belo tapa com luva de pelica no presidente brasileiro! E de quebra, também no grosseiro e deseducado ministro do Kafta que, metendo-se em seara alheia – insultou o presidente da França!

“O Fogo” (1937) de Antônio Parreiras (1860-1937), uma das últimas pinturas deste artista acadêmico brasileiro que já se preocupava com a preservação ecológica, quando o que importava era “o progresso e o modernismo”.


O aviso da história à extrema direita

Ao ler o editorial de ontem, dia 4, no Estadão, sob o título ‘Falta de civilidade’, lembrei imediatamente uma das principais razões que parecem ter provocado o desmoronamento do Império Romano do Ocidente com a abdicação do imperador Rômulo Augusto em setembro de 476, o que marcou o início do obscurantismo com a Idade Média na Europa Ocidental. Claro que a elasticidade do tema ‘a queda de Roma’ está sempre de acordo com preocupações contemporâneas. No século 19, quando a fibra nacionalista começava a ficar afiada, os historiadores colocavam o acento principalmente ‘nas invasões bárbaras e seus desastres’ (veja a pintura abaixo). No século 20, quando o que mais contava era a análise econômica e social, foi sob este prisma que eles viam o declínio romano. Não é de surpreender que, no século 21, as questões ambientais ou a escalada da extrema direita possam dominar a visão sobre este campo de estudo.

Imagem: “Os romanos da decadência”, Thomas Couture, 1847. Musée d’Orsay, Paris

Você já percebeu que, cada vez mais, vários brasileiros de suas relações estão ficando grosseiros, mal-educados, para não dizer, simplesmente cafajestes e cafonas? Já se deu ao trabalho de ler os comentários do mais baixo nível de leitores em jornais ou de usuários nas redes sociais? Já notou o tom deprimido, enfermiço e obsessivo de pessoas que antes lhe pareciam inteligentes, humoradas e hoje não fazem outra coisa além de gemer e repetir o óbvio como papagaios?

Ao ler o editorial de hoje no Estadão, sob o título “Falta de civilidade”, lembrei imediatamente uma das principais razões que parecem ter provocado o desmoronamento do Império Romano do Ocidente. As conquistas militares da Roma antiga (a conquista da Itália e as Guerras Púnicas, com a destruição de Cartago pelo exército romano em 146 a.C.) permitiram que a civilização romana dominasse a bacia do Mediterrâneo, e portanto o mundo, durante mais de 600 anos. No entanto, a abdicação do imperador Rômulo Augusto em 4 de setembro de 476 marca a queda de Roma. Por que aquele Império nascido em 27 a.C., entrou em colapso?

Naturalmente, os motivos são assunto de várias e diferentes teorias. É muito difícil para os historiadores desenvolverem um conceito único sobre esta ruína, por causa da falta de dados objetivos deixados pelos narradores que viveram na época.

Mesmo assim, escritores como o romano Flávio Vegécio (século 4), o francês Montesquieu (1689-1755) que também foi filósofo político, historiadores como o inglês Edward Gibbon (1737-1794) ou pensadores como o tcheco Radovan Richta (1924-1983), consideravam que uma combinação de circunstâncias perigosas levou à queda do Império Romano. Caso contrário, segundo eles, o domínio poderia ter continuado indefinidamente.

Para alguns, Roma trazia nela mesma as causas de sua queda. Vegécio, por exemplo, disse que o império declinou devido ao contato com populações bárbaras. Ele fala de um “aumento do barbarismo” que seria a força motriz do declínio.

Corroeram-se as relações sociais e instituições. Lembra alguma coisa?

Uma teoria bastante semelhante foi desenvolvida por Gibbon. Segundo ele, os cidadãos romanos (assim como os brasileiros de hoje) perderam gradualmente as suas virtudes cívicas. Eles teriam finalmente esquecido de defender o império contra as intrusões dos bárbaros, teriam deixado deteriorar o respeito pelo outro, e corroerem-se as relações sociais e instituições. O historiador britânico também considerava a religião, a ascensão do cristianismo, como uma das causas da queda. A religião teria desviado o povo da vida cotidiana do império para o benefício de esperar pelas recompensas do paraíso, assim como teria começado a justificar a perda das virtudes cívicas. Lembra alguma coisa?

Outra das razões do desmoronamento do Império Romano do Ocidente foi o poder excessivamente autoritário. Mesmo que o imperador Rômulo Augusto fosse bastante incompetente, não tivesse nenhum carisma, senso de prioridades e capacidade de tomar decisões importantes, foi o autoritarismo – seu e dos antecessores – que provocou lentamente o declínio de Roma. A isso, juntava-se o fato de que as autoridades romanas sofriam de um sentimento de superioridade diante dos exércitos bárbaros que se encontravam nas fronteiras do Império. Lembra alguma coisa?

Na verdade, os imperadores romanos eram um pouco como os governos nacional-populistas que vemos hoje, entre os quais se encontra o brasileiro. Se, ao invés do seu “nacionalismo” e aceitação apenas de seus iguais, tivessem mantido trocas frutíferas no final do século V, como por exemplo com Constantinopla (o Império Romano do Oriente do qual “não eram fãs”), Roma jamais teria caído nas mãos dos bárbaros.

Desrespeita-se a cultura, Roma declina. Lembra alguma coisa?

Muitos cientistas tiveram uma visão teleológica considerando a queda do Império romano como a antítese natural do seu enorme florescimento. Mais recentemente, o historiador Henri-Irénée Marrou (1904-1977) rompeu com esta visão e utilizou o prisma sobretudo cultural para explicar o fenômeno. Desrespeita-se a cultura, Roma declina. Lembra alguma coisa?

Claro que a elasticidade do tema da “queda do Império Romano” está de acordo com preocupações contemporâneas. Não é de surpreender que também sejam as questões ambientais que dominem esse campo de estudo no século 21. Kyle Harper, professor de História na universidade de Oklahoma e também o especialista em história romana Benoît Rossignol, professor na Sorbonne estudam o impacto do clima, calor, insalubridade e doenças, na queda de Roma.

Rossignol confirma: “A questão climática foi levada muito a sério na história com o trabalho de Emmanuel Le Roy-Ladurie desde os anos 1960, mas no nosso campo mais específico de estudo, o da história romana, temos fontes e dados que nos permitem ter uma ideia clara sobre o assunto, apenas a partir dos anos 2000.”

Os romanos, antes da queda, estavam tão convencidos quanto alguns brasileiros de que o seu mundo permaneceria essencialmente o mesmo (ou, pelo menos, “de pé”) para sempre. Estavam errados. Cabe a estes não repetir o mesmo erro dos romanos, tentando garantir-se com a falsa segurança. A história da humanidade, história geralmente negada ou distorcida pela extrema direita, pode conter avisos severos e certos escrúpulos que devem ser tomados, sobretudo quando há violência social e falta de civilidade, como na Roma antiga, alimentadas por uma crise de autoridade.

Até a próxima, que agora é hoje!