O que é um curador?

Hoje, o vocábulo está bastante inflado, qualquer um se batiza assim e a palavra parece não significar mais nada. Apesar disso, para alguns trata-se de uma profissão em plena ascensão, para outros em vias de desaparição. Afinal, o que é um curador de arte?

O curador ou “super” curador, como também costuma ser chamado, define-se por si mesmo, segundo 10 critérios:

1) não é novidade. Os curadores sempre existiram, apenas que sob outros nomes. Se remontarmos ao renascimento, período no qual o artista passou de sua condição de artesão a “autor”, já há traços de uma forma primeva de curador. Pode-se dizer, talvez, que Giorgio Vasari foi o primeiro “conselheiro/curador” do mundo. O seu livro Vidas dos Artistas pode ser visto com um ponto de partida ao que seria a profissão de curador, cinco séculos depois.

2) não é apenas um “organizador de exposições”. O organizador (ou “comissário”, na França) pensa a exposição como uma estrutura orgânica ou um “todo ideal”, o que o aproxima do conservador de museu. O curador, ao contrário, pensa a exposição como um “gesto crítico”. Curadoria é uma “crítica tridimensional” que usa a arte como medida, fazendo da exposição um espelho – fenomenológico e democrático – da aventura criativa.

3) pode ter múltiplas competências, porém não basta ser jornalista, fotógrafo, artista, arquiteto, escritor, poeta, nem mesmo um historiador. Um curador é sobretudo um crítico e/ou teórico, com trabalho reconhecido de reflexão sobre a arte.

4) é ubíquo. Está em várias partes do planeta e visita o maior número de ateliês e exposições de arte que lhe for possível.

5) não é um artista mas encontra-se, tanto quanto ele, dentro da turbulência de valores nos quais a arte se origina. Assim como o artista, possui obsessões, temas preferidos, subjetividade individual, e integra ao trabalho a sua experiência pessoal.

6) é como um metteur en scène ou maestro. Realiza uma “obra” sobre e a partir da arte – como uma ópera, peça teatral ou concerto.

7) não possui ligação com o mercado ou a conservação de obras.

8) ainda não precisa de diploma ou formação específica, apenas do reconhecimento de sua competência.

9) é uma espécie de inocente útil dentro dos esquemas milionários da arte. Raramente é bem pago. Jamais se ouviu falar em curadoria de uma exposição que permitisse a compra de um carro esporte conversível.

10) comparado ao “conselheiro artístico” (advisor) de colecionadores, não é uma profissão de futuro. O curador, tanto quanto o crítico de arte, o comissário de exposições e o conservador de museu, perdeu a antiga prerrogativa de dar legitimidade crítica e institucional aos artistas. De uma década para cá, é o “advisor” que detém este poder.

Até a próxima, que agora é hoje e, se houvesse um só critério, curadoria seria apenas a arte de admirar!

Feiras e mercado de arte: um escândalo permanente

“Confundir ‘feira de arte’ com ‘cultura’ é o mesmo que não distinguir ‘peixaria’ de ‘museu oceanográfico’.” Ao ler as notícias e ver as imagens da 13ª edição da SP-Arte, imediatamente pensei neste meu aforismo antigo, usado há algum tempo em um livro sobre o “valor da arte”, na entrevista à “rainha (agora internacional) do mercado” que, naturalmente, não gostou nada do dito. Enquanto eu ainda pensava em colocá-lo como incipit de um ensaio crítico sobre o assunto, a questão já foi ultrapassada em maleficência. Na verdade, o problema vai bem mais longe do que saber se feiras de arte são ou não são cultura.
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Venda em leilão do revolver de Verlaine, com o qual ele tentou matar Arthur Rimbaud, em julho de 1873. Com preço inicial de 50 000 euros, a arma foi arrematada por 434 500 euros. Christie’s, Paris (2016) – Foto : Aurélien Laudy/PHOTOPQR/L’UNION DE REIMS/MAXPPP

Sobre “reis” e “rainhas” do mercado da arte nem sempre há coisas muito probas e edificantes a relatar, de tal maneira que algumas já se encontram deliciosamente em minhas memórias, tanto para deixar fluir o excesso de bile negra que causa mau humor, quanto para divertir o leitor. É normal que marchands não gostem dos meus ditos. Gostarão menos ainda quando acabarem de ler este artigo.

Também é natural que artistas e profissionais, dependentes do mercado da arte, possam não apreciar a alusão à “peixaria”. No entanto, se para eles “o mercado é necessário”, “cumpre o seu papel”, “é honesto ou desonesto” – nada disso é a minha questão. O que me interessa é a arte, o artista, o público e o efeito que o mercado da arte pode ter sobre eles, em termos de manipulação que reduz as obras a simples produtos, imprimindo-lhes um valor artificial, diverso de sua qualidade estética real. Eis, na minha opinião, uma das partes principais do escândalo permanente do mercado da arte em nossa época.

Poucos sabem, por exemplo, que em certas escolas de arte há uma corrida aos projetos mais rentáveis, para os quais a razão estética e o senso artístico tornaram-se desnecessários. Colecionadores e galeristas percorrem estas escolas, não raro oferecendo aos estudantes somas desmesuradas. O exagero é a regra. Encoraja-se o tipo de criação que vai agradar e alimentar a atração pelas “provocações da arte contemporânea”. Como cada exposição em galeria deve ser financeiramente autossuficiente, os jovens precisam “produzir” trabalhos “vendáveis”, seguindo a tendência do momento. Assim, privilegiam as falsas transgressões afim de ser percebidos e poder rapidamente entrar na arena.

É natural que tenhamos caído ao nível das latrinas

Sou do tempo em que o conjunto de negócios da arte era regulado por um jogo sutil de conhecedores, de um lado galeristas de alto nível, de outro, verdadeiros experts. Com a mundialização, a partir dos anos 1990, talvez, a coisa mudou gradualmente, e de tal forma, que hoje aquele sistema transformou-se num mecanismo de alta especulação financeira entre algumas galerias, casas de leilão e um pequeno público de “novos ricos” em todo o mundo, Brasil inclusive. “Novos ricos” dos quais alguns nem mesmo sabem o que compram ou – como confessou Bidzina Ivanishvili, o oligarca georgiano que gasta centenas de milhões de dólares em sua coleção – “não são grandes fãs de artes plásticas”. Em 2005 havia 70 feiras de arte no mundo. Hoje são 190. Em Nova York, no início dos anos 1970, contava-se pouco menos de 80 galerias. Hoje, o seu número oscila entre 900 e 1000.

Como escreveu Jean Clair – pseudônimo de Gérard Régnier, curador e historiador, hoje membro da Academia francesa – “do culto à cultura, da cultura ao cultural, do cultural ao culto do dinheiro, é natural que tenhamos caído ao nível das latrinas”. “Que sentido tem isto?” pergunta ele, “porque o ‘socius’* precisa deste poder ‘artístico’, quando a sua categoria não é mais assumida nem na qualidade do religioso nem na ordem do político? Seria a desordem escatológica, que se espalha e cola, que pode assegurar a coesão que lhe falta?”

Estou de acordo com Régnier. O ouro, a especulação, as feiras de arte, os depósitos discretos do tipo Schaulager na Basileia, os antigos museus transformados em vistosos showrooms, ou as galerias transformadas em museus, os leilões, enfim, com vendas colossais, obscenas… Subprimes, titularização, esquema em pirâmide de Ponzi…  Em pouco mais de duas décadas se tomou consciência de que os objetos sem valor eram suscetíveis não somente de serem postos à venda, mas tornarem-se igualmente objetos de troca, próprios à circulação e à especulação financeira mais extravagante. Os procedimentos que permitem promover e vender uma obra dita de “arte contemporânea”, podem ser comparados aos que, no mercado de valores mobiliários e outros, possibilitam vender qualquer coisa e muitas vezes, até mesmo, nada.

Damien Hirst na Bienal de Veneza não surpreende

Tomemos como exemplo, Damien Hirst (1965) que estará agora em duas megaexposições na 53a Bienal de Veneza, com 200 trabalhos inéditos no Palazzo Grassi e na Punta della Dogana de Pinault, o colecionador milionário. Não surpreende. Dinheiro faz dinheiro.

Ora, suponhamos que “objetos de curiosidade” possuam um autor do tipo Damien Hirst e que estes objetos precisem ser “lançados” da mesma forma como os de Hirst o foram. Que processo permitirá ao artista, entrar no mercado? Como, a partir de um valor não apurado artisticamente (caso de Hirst), lhes dar um preço e vendê-los por milhões de dólares individualmente ou, se possível, por lote?

Questão de crédito: quem acreditará neles a ponto de investir? Fundos de cobertura (Hedge Fund) e titularizações deram o exemplo do que a manipulação financeira é capaz de conseguir a partir do nada. Primeiro, afoga-se o crédito duvidoso (o “artista tipo Hirst”) em um lote de créditos um pouco mais seguros. Por exemplo, expõe-se uma obra “curiosa” deste autor ao lado de Sol LeWitt, Beuys ou Frank Stella – que têm trabalhos já conhecidos e com “classificação de crédito” (“notação financeira de risco”) AAA ou BBB – no mercado de valores, mais seguros do que os chamados “títulos tóxicos”.

Logo, faz-se com que entrem no circuito das raras e famosas galerias particulares, perfeitamente advertidas, e que podem compartilhar os riscos. Os acionários, que formam o núcleo de “iniciados”, financiam o projeto e também estão lá para “esclarecer” os especuladores dos leilões, feiras de arte, ou os simples amadores, aqueles que tomam o risco. Os “iniciados” são como as “agências de notação financeira” (ou “agências de notação de risco”) ou seja, a sua função é guiar os investidores, porém, na verdade, manipulando os juros e favorecendo a especulação. É o que se chama de insider trading.

Não é o valor da obra que é levado em conta, e sim o último preço com que foi vendida

Promete-se, por exemplo, um rendimento com juros muito elevados, 20% a 40% na revenda, desde que esta se faça em curto prazo, seis meses no máximo – ao contrário do que ocorria no mercado da arte antigamente, que era fundado no longo prazo. Se não houver comprador, a galeria pode até mesmo se comprometer a recomprar a obra do “artista tipo Hirst” pelo preço inicial, aumentada de pequenos juros. Encontra-se, enfim, uma instituição pública – um grande museu de preferência – que faça uma exposição dele. Os custos da mostra, transporte, seguros, catálogo, despesas de comunicação e relações públicas (coquetel, jantar de inauguração, etc.) serão discretamente cobertos pela galeria ou pelo consórcio que o promovem.

Mas, principalmente, pedra angular da operação, o sistema institucional – por meio deste engenhoso estratagema – parecerá garantir a conservação e o valor das propostas vindas do mercado privado, ou seja, duas ou três galerias, um leiloeiro e alguns especuladores.

Evidentemente, não é o valor da obra que é levado em conta, e sim o último preço com que foi vendida. Claro, como no esquema de Ponzi, o perdedor será aquele que não conseguir vender rapidamente a obra: o último perde tudo.

Um imbróglio financeiro mafioso internacional

Reduzir as obras a simples produtos, imprimindo-lhes um valor artificial, diverso de sua qualidade estética real já seria um delito em si. No entanto, se pedíssemos enquetes judiciárias junto a certas instituições, feiras de arte, museus e outras, cruzando fichas de compras, históricos, agentes e galeristas dos artistas comprados, membros das comissões técnicas e conselhos de compra, se se conseguisse desembaraçar esse imbróglio financeiro mafioso internacional, a verdadeira função e vocação destas instituições talvez pudesse ser salva um dia.

Por razões que não interessam aqui, visitei feiras em Colônia, na Basileia e em Paris, a FIAC. Vi com os meus próprios olhos, a cada vez, quando, não simples conservadores – diretores mesmo, no mais alto cargo – flertavam e traficavam com galeristas, aceitando comissões para apresentar certas obras (nem sempre boas e/ou representativas) aos “conselhos” ou “comissões de aquisição” de seus museus. Ninguém é ingênuo ou purista quando acredita que ética e estética são uma coisa só. Porque desejar moralização para a vida política e fechar os olhos quando se trata da vida artística?

Até a próxima, que agora é hoje e como diz Raymonde Moulin, pessoa maravilhosa que tive o prazer de conhecer nos anos 1990, especialista das relações entre arte e economia, fundadora do centro de sociologia da arte no CNRS, em Paris: “O mercado da arte é uma coisa à parte. O que é delito em outros lugares, aqui é valorizado.” “Por exemplo”, afirma ela, “quanto mais se é iniciado, mais se é reconhecido e ouvido. Em outros lugares, ‘ser iniciado’ é um delito! E eu me permito acrescentar que, na Bolsa, com insider trading, você vai direto à prisão!”

[*] “Socius”, segundo a psicologia social,  é o componente social do comportamento e da vida mental dos seres vivos.

Bem-vindo à 33a Bienal ‘homem branco’!

Está confirmado! Um espanhol assumirá o cargo de curador-chefe ocupado por um alemão na última edição da Bienal de São Paulo e trabalhará em parceria com o novo presidente da Fundação. Há duas semanas a notícia ainda não era oficial e já me perguntavam nas redes sociais se eu havia notado que “depois de uma década nomeando curadores homens, foi chamado mais um homem para consagrar a ‘hegemonia branca’ masculina”. Agora que a informação não é mais oficiosa, tenho o prazer de responder. 
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Marcel Gautherot (1910-1996). Foto apresentada, no ano passado, na exposição dedicada à obra deste grande fotógrafo na Maison Européenne de la Photographie, em Paris. Título: “Biennale de São Paulo, 1961”.

Eu seria a última pessoa a adular cada recente escolhido apontado a um cargo, sem saber ainda do que ele é capaz, mesmo conhecendo o que já realizou. Acho isso deplorável. Apoio é uma coisa, adulação é outra, e reconhecimento… só no final!

Porém, não notei absolutamente que foi chamado “mais um homem” para consagrar alguma presumida “hegemonia branca masculina”. O que menos me interessa é o sexo, a cor, a religião ou as convicções políticas de um profissional. Considero ridícula, imbecil e perigosa toda e qualquer posição fundada hoje em ideologias igualitaristas, inspiradas no politicamente correto, que tentam controlar os julgamentos e decisões.

Não aceito nenhuma autoridade, regulamento e juízo, fora os da minha própria consciência. Pedir quota feminina em bienais é uma medida sexista que não é outra coisa senão a afirmação da inferioridade da mulher em relação ao homem. Sim, porque fica parecendo que há algo de errado com as mulheres para que se exija a sua presença em cargos públicos apenas pelo fato de serem mulheres, não é mesmo? Assim como parece haver algo de errado com a cor dos artistas de cinema para que alguns reclamem “quota de negro” no Oscar…

Escolha deve ser por competência e capacidade, não por sexo ou cor. “Quota de negro” e “Quota feminina” são defesas perversas. Enquanto discriminações contra discriminações, são contradições de efeito contrário: impedem a evolução da posição dos negros e das mulheres. Quanto mais recebemos esse tipo de defesa, mais nos tornamos devedores e mais fracos ficamos.

Bem-vindo à curadoria da 33a Bienal de São Paulo “homem branco”!

Antes de ser homem ou mulher, você pertence à raça humana, provavelmente mostrou ser mais competente do que outros (ou, pelo menos, tem mais afinidades com “colecionadores”). Só é pena não ser brasileiro, ainda que conheça arte latino-americana. E também é pena que o seu chefe tenha feito a sua “desautorização pública” antes mesmo de anunciar o seu nome, o que me obrigou inclusive a publicar uma carta aberta a ele. No entanto, não foi só na entrevista ao Estadão que a carroça ficou na frente dos bois. À uma revista, João Carlos de Figueiredo Ferraz testemunhou com o mesmo autoritarismo: “queremos primeiro elaborar um projeto para a próxima Bienal e, a partir disso, conversar com um curador que tenha afinidade com ele.” Que se saiba é a diretoria e o presidente da Fundação que precisam ter afinidade com um projeto curatorial, não o contrário.

Até a próxima que agora é hoje e – homem, mulher, negro, branco, índio, judeu, muçulmano, budista, católico, homossexual, bissexual, heterossexual, de esquerda, direita ou centro -, em princípio, a únicas condições para organizar uma bienal é que você conheça, goste profundamente de arte e sobretudo… do público!

EVA & ADELE, as “gêmeas hermafroditas” agora em mausoléu

Não, EVA & ADELE não morreram. Hoje, poucos artistas vivos são tão célebres quanto elas. A retrospectiva destas autoproclamadas “gêmeas hermafroditas na arte” no Museu de Arte Moderna de Paris é a sua consagração. Se estão em mausoléu, e me sinto de luto, é porque esta mostra (até o dia 26 de fevereiro) constitui a capitulação final, a renúncia definitiva ao que elas tinham de mais precioso e característico: a sua liberdade.
EVA & ADELE
EVA & ADELE e a sua motocasa, hoje peça de museu intitulada “Biographische Skulptur nç2 B-EA 5800, Camping-car VW” (460 cm x 185 cm x 257cm, 1999-2006).

Durante os últimos 25 anos, nenhum evento artístico foi o mesmo sem EVA & ADELE (com maiúsculas como elas fazem questão de assinar). Quando eu não as percebia – fosse em Veneza, Berlim, Kassel ou Lyon – procurava por elas. E se não as visse sentia uma espécie de mal-estar, como se houvesse alguma coisa errada com a exposição. E isso, mesmo sabendo que vinham por conta delas e não como convidadas. Certamente não fui a única. Este par simbiótico, gracioso, quase angelical, pródigo em acenos amistosos, e a sua indefectível motocasa cor-de-rosa que os levava a toda parte, era um acontecimento dentro dos acontecimentos.

Eu amava estas performers. Ainda amo. Não que as ame no mesmo sentido com que admiro certos artistas contemporâneos, mas – para mim – a presença delas tornou-se necessária em vários níveis. Elas representavam a inocência da arte em seu estado puro. Nos asseguravam a continuidade da vida, como se ela fosse perene. E desempenhavam o papel mais importante que pessoas, objetos e ideias podem exercer na arte, que é a “referência”. Ou seja, um ponto firme de contato, sem o qual tudo que é móvel e mutante já não pode mais nos assustar.

A vontade de EVA & ADELE contava igualmente e muito. Elas queriam ultrapassar as fronteiras dos gêneros dentro de uma transgressão afirmada. E não apenas em exposições, mas em sua vida cotidiana. Não mudavam o seu estilo e aparência, nem para ir comprar pão. Para o casal, vida e obra formavam uma coisa única e indissolúvel. O que representou também um grande risco à sua integridade física e lhe valeu intolerância, rejeição e até mesmo violência.

A identidade sexual não é uma coisa simples

Sempre vestidas de maneira idêntica e hiperfemininas, maquiladas com muitos brilhos e o crânio raspado como homens, procuraram demonstrar que a identidade sexual não é uma coisa simples. Que a liberdade e a indulgência também não se obtêm com facilidade. E que nenhuma arte é possível sem a grande qualidade delas, que foi a perseverança em meio a todas as adversidades.

A grande liberdade de EVA & ADELE foi a de sempre recusar todo e qualquer apoio institucional e comercial. Não aceitavam entrevistas, críticas e mantiveram-se voluntariamente enigmáticas, reservadas sobre a sua vida pessoal. O seu conceito artístico nunca mudou: vir de um universo exterior ao da arte, conhecendo perfeitamente os mecanismos do mundo da arte; introduzir uma estética artificial, ligada ao kitsch, ao lúdico, às fantasias sexuais, às heranças do modernismo; romper com a figura do artista solitário, heroico e individualista; não produzir e não gerar discurso teórico ou crítica que pudessem justificar o seu trabalho.

A obra perturbadora de EVA & ADELE nasce sobretudo de uma reflexão sobre o papel social do artista e a sociedade contemporânea. Constrói uma espécie de “escultura social” no sentido de Joseph Beuys cujas performances tinham esse mesmo caráter simbólico, no contato direto com o público, longe da “profissionalização” e “institucionalização” da arte. Tanto que, para sobreviver, estas artistas estabeleceram uma relação de trabalho e cooperação com a população multicultural que habita o seu bairro popular, em Berlim.

“Usamos cor-de-rosa porque os nazistas obrigavam os homossexuais a costurar um triângulo desta cor em seus paletós.”

A identidade simbiótica de EVA & ADELE e seu modo de vida é uma ascese. Sempre gimnocéfalas, mantêm-se fiéis a si mesmas. Levam três horas para se preparar todas as manhãs, raspam as suas cabeças, maquiam-se à perfeição e saem de casa reluzentes e felizes, como de dentro de uma caixa de bombons. As suas roupas e estilo geminados são únicos. ADELE é mulher desde o princípio, EVA é um homem que se tornou mulher. As duas se amam e são de fato associadas em todos os níveis. Sorriem mais do que os outros seres humanos, não apenas porque são felizes entre si. O seu sorriso é a única arma que elas possuem contra a intolerância. “Na maior parte das vezes usamos cor-de-rosa porque os nazistas obrigavam os homossexuais a costurar um triângulo desta cor em seus paletós. Usar cor-de-rosa é uma vingança!”

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EVA & ADELE passeando em Kassel, durante a última Documenta, em 2013. Foto © Patrick Corneau

 

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EVA & ADELE observando a instalação de Kader Attia na última Documenta de Kassel, em 2013. Foto © Patrick Corneau

Talvez porque goste e sinta ternura por tudo que elas fazem, percorri esta exposição no Museu de Arte Moderna de Paris, com uma certa melancolia, como se fosse uma despedida. Ali são apresentados vídeos, fotos e instalações. Vê-se inclusive a motocasa rosa bombom que elas inauguraram em sua primeira viagem à Grécia. Há algumas roupas, é claro, e 1500 autorretratos realizados, como um ritual, cotidianamente (mesma pose, mesmo sorriso, mesmo enquadramento). Estão também, nas paredes, cronogramas e descrições de todas as suas performances.

A entidade EVA & ADELE nasceu em 1991. Em 2011 casaram-se após a mudança do sexo de EVA – sem cirurgia, apenas um questionário psicológico de 4500 perguntas e julgamento por especialistas. A Alemanha por causa do seu passado e do fantasma monstruoso de Mengele, talvez, agora facilita bastante esses trâmites. O casamento foi para assegurar o futuro de sua fundação que dará continuidade à pesquisa delas sobre arte e transsexualidade.

Hoje elas estão no porão-mausoléu de um museu pelo preço do reconhecimento

Desde o começo, talvez,  já estivessem investindo em seu futuro célebre. O fato é que hoje, o seu trabalho é uma empresa de comunicação artística, com todas as estratégias de marketing. Elas criaram até mesmo um logotipo (o seu rosto, dentro de um coração). Recuperam tudo que é escrito sobre elas para criar a série de telas que chamam de MEDIAPLASTIC e as deslocam diretamente ao mercado. Suas obras bem “materiais” e “duráveis”, não as performances, já apareceram na última FIAC, a Feira Internacional de Arte contemporânea de Paris. É um pouco como se fosse um “suicídio” a dois. O casal capitulou, se “institucionalizou”, mergulhando de cabeça na podridão do sistema de mercado.

No museu, quase não há cartazes indicando a exposição. É preciso descer vários lances de escada pois ela se encontra enterrada num subsolo escuro e sem janelas. Enquanto Buffet acha-se no alto, em salas nobres, com uma das piores exposições que já vi em minha vida, as performers estão no porão-mausoléu pelo preço do reconhecimento. E me sinto de luto.

Até a próxima que agora é hoje e adeus EVA & ADELE que amávamos pela liberdade! Como resistir à fama e ao dinheiro? Mas… quem sou eu para julgar?