Klimt em kitsch puro e duro

Gustav Klimt – Uma Imersão na Arte e na Música é o evento parisiense mais falado do momento com 250 mil visitantes em menos de dois meses. E, no entanto, não é uma exposição. É apenas uma atração, na qual a imitação é bem inferior à arte que substitui.


Imagens: Gustav Klimt © Culturespaces/Eric Spiller

Depois da experiência no Carrières de Lumières, antigo lugar de exploração de rochas calcárias em Baux-de-Provence, Klimt (1862-1918) abre o baile do recém-inaugurado Ateliê de Lumières em Paris, junto de mais dois vienenses: Egon Schiele (1890-1918) e o pintor arquiteto Friedensreich Hundertwasser (1928-2000).

Desta vez são 140 projetores laser de vídeo que varrem o espaço de 1.500 metros quadrados e 10 de altura com 3 mil imagens coloridas, enquanto 50 alto-falantes espacializam a música de Wagner e Beethoven. Nenhum quadro é para ser visto. Não existem obras, apenas imagens a partir delas. Representações dançantes, flutuantes, moventes, em zoom constante. Reproduções que se fundem em transições, com num videoclipe gigante, criando uma experiência sensorial vigorosa. É o que chamam de “exposição imersiva”. “Trata-se da maior instalação multimídia do mundo” vangloriam-se os organizadores. Não é para menos. A sociedade deles (Culturespaces) investiu cerca de 10 milhões de euros para reformar a antiga fundição do século 19 em Paris.

Foi o sucesso da matriz na comuna turística perto de Provença-Alpes-Costa Azul, que levou a instituição a abrir a filial parisiense. Naquele “parque temático kitsch” dedicado a shows também feitos com a técnica AMIEX® (Art & Music Immersive Experience), os espetáculos atraíram mais de 2,1 milhões de pessoas desde 2012.

Obras parecem ser apenas ilustrações para a grandiloquência artificial

No ano passado, o público assistiu à apresentação Bosch, Brueghel, Arcimboldo. Fantástico e Maravilhoso. O nome não era muito original e a exibição tampouco. Como em desfile alegórico de rua ou uma narrativa de narrativas (o que é bastante redundante) 2 mil imagens movimentavam-se pelos muros, no espaço de 7 mil metros quadrados, durante 30 minutos. E tudo isso sob fundo musical de Carmina Burana (Carl Orff), Quatro Estações (Vivaldi), peças de Mussorgski e Led Zeppelin.

Agora, em Paris, é a mesma coisa. No entanto, ver obras de arte transformadas em clipe tridimensional é triste! Pior do que ouvir certos “remix” musicais em que os DJ’s desrespeitam compositores e intérpretes. Ao dar formas e volumes reais às características virtuais dos artistas, e outros artifícios, os virtuoses espertalhões estetizam e esvaziam a linguagem dos mestres, transformando obras-primas em assombrosos e gratuitos exercícios técnicos, vazios de alma.

Fica como se as obras de Klimt, Schiele e Hundertwasser fossem ilustrações ou decorações para a grandiloquência artificial e sensacionalista de um show de cabaré. Certo, pode ser muito bonito e até mesmo “mágico”. Mas será que é preciso vampirizar a verdadeira arte para criar magia? Ou será que se pensa que maravilhas pictóricas reais precisam de “efeitos especiais” para que cheguemos a elas? Até mesmo uma pequena reprodução em cartão-postal pode ser mais fiel à nossa percepção…

Videoclipe de divulgação

Nota: Este artigo foi publicado no Caderno 2/Estadão, sob outra forma, no dia 15 de Junho de 2018.

Sartre e Beauvoir ‘calavam-se e continuavam’

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir jamais escreveram alguma coisa contra Franco, Hitler ou Mussolini. Calavam-se e continuavam. Como disse um famoso filósofo e musicólogo francês, ‘foi só depois da Guerra que os dois começaram a se engajar. Isso, para fazer esquecer o próprio esquecimento.’

Foto: Jean-Paul Charles Aymard Sartre e Simone Lucie Ernestine Marie Bertrand de Beauvoir, em Roma, 1978.

Assisti a um programa literário de boa audiência na televisão francesa, onde a “expoente da nova literatura francófona” (não é a minha opinião), a franco-marroquina Leïla Slimani, filha de banqueiro que adora o presidente Macron (e confirmou presença na Flip 2018 ) se desmancha completamente falando do novo posfácio que escreveu sobre “O Segundo Sexo” de  Simone de Beauvoir, que todas as feministas – pobres, ricas ou remediadas – adoram… nem sempre sabendo exatamente por que.

Os convidados respondem sem dizer muita coisa e subitamente Dan Franck, verdadeiro escritor que jamais seria convidado à Flip, penso eu, diz: “Simone de Beauvoir? Bem… enquanto ela e Sartre bebiam aperitivos no Café de Flore nos anos 1940, Max Jacob estava morrendo. A ‘guerra’ de Beauvoir em suas memórias é completamente simplória. Sartre e ela jamais escreveram alguma coisa contra Franco, Hitler ou Mussolini. Calavam-se e continuavam. Como afirmou o filósofo e musicólogo francês  Vladimir Jankélévitch(1903-1985), ‘foi só depois da Guerra que os dois começaram a se engajar. Isso, para fazer esquecer o próprio esquecimento.’ ”

Sartre e Beauvoir, bodes expiatórios?

Já se disse tudo e o contrário sobre a atitude de Jean-Paul Charles Aymard Sartre e Simone Lucie Ernestine Marie Bertrand de Beauvoir sob a Ocupação estrangeira. “Collabos”? Resistentes? Expectantes? Ou seja, aqueles que “esperavam em observação”, prática política, sindical ou atitude individual que recusa a inciativa e só toma posição segundo as circunstâncias? De todo modo, a atitude do filósofo e de sua companheira durante a guerra sempre suscitou o debate. Ora, graças a novos documentos descobertos em 2014, Ingrid Galster (1944-2015), grande pesquisadora na Universidade de Paderborn, na Alemanha, coloca tudo em seu lugar. Diz ela: “Sartre ocupou o posto de um professor afastado pelo regime de Vichy. Será que ele não sabia? (…)”

Mas Ingrid Galster se pergunta, sabendo que entra no campo da especulação, se o “super engajamento” de Sartre no livro Reflexões Sobre o Racismo, publicado em 1946, não traduziria também uma espécie de culpabilidade escondida diante de sua indiferença humana durante a guerra. Sobretudo quando se conhece o caso infeliz com Bianca Bienenfeld, a jovem judia com quem Sartre manteve uma relação em 1939.  Na primavera de 1940, quando eles se separam, e que Bianca, desesperada, foi obrigada a se esconder para não ser enviada a um campo de concentração, jamais recebeu um sinal de seu ex-amante.

De modelos, Sartre e Beauvoir tornaram-se bodes expiatórios. Galster explica: “É como se fosse apenas Sartre que tivesse levado toda uma geração ao erro – URSS, Cuba, esquerdismo… Seria injusto. As coisas são mais complexas. Como na Ocupação.”

Mas, voltando ao programa literário, os convidados e o apresentador, depois de ouvir Franck, cuja especialidade é contar magnificamente os bastidores da história e intelectualidade francesa, engoliram em seco. E eu exultei como sempre exulto nas ocasiões em que a verdade histórica destitui o aspecto mítico do qual precisam os tolos para poder fundamentar as suas tolices.

Até a próxima, que agora é hoje e que satisfação quando aparece alguém colocando os pingos nos is!

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir no Café de Flore, em Paris. Fotografias de Brassaï.

 

Site oficial do último livro do autor

 

Picasso, sua mãe e a tela cubista

Quando terminou a ‘Guernica’, o gênio chamou a mãe que estava de visita em Paris. Queria a opinião da ‘madrecita’, cujo ‘Dia’, o 1° domingo de Maio, só seria oficializado na Espanha duas décadas depois. Aos 82 anos, María Picasso y López chegou esbaforida depois de subir os cinco lances de escada do ateliê…

 

Imagem: Pablo Picasso, “Maria Picasso y Lopez”, 1916.

Para mi madre

No dia 28 de abril de 1937, Picasso abriu o jornal L’Humanité e descobriu, horrorizado, as fotos de Guernica reduzida a cinzas. A cidade basca tinha sido bombardeada, dois dias antes, por 44 aviões da Legião nazista alemã, 13 aviões da aviação fascista italiana, como apoio ao golpe de Estado nacionalista espanhol.

O mestre havia recebido o pedido de um trabalho do governo republicano de Francisco Largo Caballero, para o pavilhão espanhol da Exposição universal de Paris daquele ano. Portanto, encomendou rapidamente uma tela gigante a Antonio Castelucho, artesão catalão que possuía, perto do bairro de Montparnasse, uma loja muito apreciada pelos pintores espanhóis exilados em Paris.

Em três dias, do dia 1 a 4 de Maio, ele cobriu a superfície do quadro febrilmente, sem descanso. Sofreu muito pensando e desenvolvendo o tema e as formas cubistas que pudessem relatar e, ao mesmo tempo, expressar – em claro-escuro – a dor dos habitantes de uma cidade destruída pela barbárie. Em seu cubismo, Picasso desconstruiu as formas, misturou-as, as associou e dissociou da mesma maneira que as bombas e os estilhaços. Ainda na força dos seus 56 anos, executou a pintura em preto e branco, com várias nuances de cinza, não se sabe se à óleo ou tinta industrial de parede, também fornecida por Castelucho. Queria um resultado sem brilho, que se aproximasse do aspecto das casas destruídas.

Quando terminou, o gênio que, na verdade, chamava-se Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Mártir Patricio Ruiz y Picasso, chamou a mãe que estava de visita na cidade. Queria a opinião da “mamacita de su corazón” cujo “Dia”, o 1° domingo de Maio, só seria oficializado, na Espanha, duas décadas depois.

Aí está a ‘Guernica’, mamãe! O que acha?

María Picasso y López, que estava para completar 82 primaveras no mês seguinte, chegou esbaforida depois de subir os cinco lances de escada do ateliê, enquanto gemia “¡Ay! Sólo una madrecita para hacer esos sacrificios a un hijito…”. Beijaram-se e Pablo apontou a tela encostada na parede do fundo:

“¡Ahí está “Guernica”, mamá! ¿Que crees?”

María aproximou-se do quadro e ficou em silêncio alguns minutos: a figura central, iluminada por uma lâmpada, era uma égua aterrorizada cujo corpo, recoberto de linhas verticais, havia sido transpassado por uma lança. À esquerda, uma mulher carregava a sua criança morta e gritava de dor. Atrás dela, estava um touro. Embaixo à esquerda, um homem deitado com os braços esticados segurava uma espada quebrada. Uma pequena flor aparecia tímida, quase esmagada entre as patas do jumento e a espada quebrada. À direita do quadro, três mulheres desconjuntadas, uma delas ferida, choravam e gritavam; a do alto estendia uma lâmpada a óleo em direção ao centro da tela. No fundo, formas geométricas evocavam casas incendiadas, sendo que as chamas eram representadas por triângulos claros.

Pensou em voz baixa:

“¡Oh, là! ¡Estoy para ver una pantalla más fea y triste en el planeta!” (Ai! Estou para ver uma tela mais feia e triste no planeta!)

Em seguida virou-se para o filho e perguntou:

“Já que é uma encomenda para o pavilhão espanhol da Exposição universal de Paris, porque você não pintou uma coisa mais bonita e alegre, Pablito? Nada de cubismo! Uma natureza morta como as do nosso conterrâneo Juan Sánchez Cotán, à maneira dos flamengos, que tal?”

“Flamengos… como assim?”, respondeu Picasso.

“Ou mais moderninha”, replicou María. “Como a Natureza espanhola do seu ‘rival’. Afinal, não foi você que disse que ‘se não fizesse o que faz, gostaria de pintar como Matisse’?”

E acrescentou abanando a cabeça, diante do filho mudo e aturdido:

“Pablito, Pablito, você não toma jeito!”

Até a próxima que agora é hoje, uma semana depois do Dia das Mães, e mesmo que a “parte maternal” (nem toda) desta historinha seja inventada, bem que ela poderia ser verdadeira!

Ismael Nery e a essência, 84 anos depois

O título ou parti pris “Ismael Nery: Feminino e Masculino” parece um pouco redutor, e a ênfase nas relações do artista com “androginia”, “provocação”, “sexo grupal”, “erotismo”, etc., tende ao sensacionalismo atual. Como se a obra não transcendesse o anedótico e como se, sem essa apelação, o público não fosse se interessar por sua arte. Mas a exposição de 220 trabalhos que está agora no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), até o dia 8 de Agosto, é uma grande oportunidade para rever ou conhecer um trabalho que vai além das trivialidades e, como é muito raro, lançou os olhos sobre o futuro.


Imagem: “Autorretrato (Homem de Chapéu)”. Reprodução fotográfica Romulo Fialdini. ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras

Na comemoração do meio século de sua morte na idade legendária dos trinta e três anos, Ismael Nery (1900-1934) já podia ser compreendido. Hoje, ele também pode ser venerado. Isso porque este artista, grande conhecedor de si mesmo, do homem e do universo em totalidade, projetou sua obra em direção a um futuro (que é o nosso presente), no qual a arte – reflexo dessa conjunção e conhecimento – é capaz agora de oferecer subsídios ideais para compreendê-la.

Essa capacidade prospectiva de Nery – que, entre outras extraordinárias e místicas visões premonitórias (até mesmo da própria morte) “deixou seu cérebro às gerações futuras” – deve-se, portanto, a uma obra que é essencial, universal, mítica e, consequentemente, atemporal. Um conjunto que antecipou o momento no qual a arte conquistou três prerrogativas: uma aguda (e ativa) aproximação com o sujeito; total independência dos dogmáticos apriorismos “históricos”; e principalmente, uma visão ampla no lugar do mesquinho enfoque do formalismo e/ou informalismo a partir da “aparência final” do trabalho.

O formalismo fundamenta-se nos princípios autoritários modernistas, nas doutrinas do progresso técnico e estético (Bauhaus, concretismo, construtivismo etc.), segundo o qual a redução do conteúdo é um dos pré-requisitos para uma arte pura, essencial, adversa ao trivial. Tanto é que, há algumas décadas, os conceitos de “motivação” ou “intenção” foram banidos do vocabulário crítico que trata dessas questões. O informalismo (abstração lírica, tachismo, expressionismo abstrato etc.), por sua vez, apesar de aparentemente antagônico ao formalismo, não é – como se pensa – oposto a ele. Ali, a visão formalista permanece do ponto de vista das “qualidades” formais da obra.

Um artista completo

O que a arte contemporânea felizmente conquistou – por meio do neoexpressionismo, pós-happeningsperformances, etc. – como sempre, de forma dialética, foi um não-formalismo, ou seja, uma espécie de reconquista dos conteúdos, em novos moldes, já com toda a bagagem conceitualista que coloca a ideia acima dos resultados formais.

É verdade que Ismael Nery é um surrealista. Quer dizer, traz à tona imagens e questões do inconsciente. Seu estilo muitas vezes aproxima-se da metafísica de um Carrà ou de um De Chirico. Mas, antes disso, Ismael Nery é um artista completo (poeta, filósofo, pintor, desenhista, gravurista, atleta, arquiteto, escultor, cenógrafo, figurinista), que procurou por meio da pluralidade (renascentista ou pós-moderna?) chegar à essência das coisas, sem se importar com o seu resultado formal.

O essencialismo, sistema filosófico que construiu, era – segundo Murilo Mendes, seu melhor amigo – “baseado na abstração e redução do tempo e espaço, na seleção e cultivo dos elementos essenciais à existência e na representação das noções permanentes que dão à arte a universalidade.”

O homem deveria ser uma bola com pensamento (Ismael Nery)

Nery era adverso às finitudes, aos limites que circunscrevem a ação e o pensamento prosaico. Tanto é que até o seu corpo representava uma espécie de limite que ele queria transcender:  “Meu Deus, para que me destes tantas almas num só corpo? / Neste corpo neutro que não representa nada do que sou / Neste corpo não me permite ser anjo nem demônio / Neste corpo que gasta todas as minhas forças / Para tentar viver sem ridículo tudo o que sou ( … )” (1933).

Segundo o artista, o “homem deveria ser uma bola com pensamento”. Essa rejeição dos nossos “inúteis apêndices” físicos, essa procura da síntese funcional/essencial é a chave para a compreensão da religiosidade e do gênio de Ismael Nery que, como um “Saint Genet” na literatura, não reputa como pecados estéticos nenhuma série de características artísticas que, desde os anos 1980, podemos considerar anti-modernas ou pós-modernas: figurativismo, expressionismo, surrealismo, egocentrismo, narcisismo, romantismo, ecletismo, historicismo clássico. Todas aquelas características, enfim, que interferem na autonomia da obra e no princípio da “arte-como-arte” que, em princípio, rejeita a vida, a natureza etc., tudo o que está “fora” dela mesma.

O desejo de síntese é a chave paradoxal para a compreensão da figuração excessiva, transbordante, de Nery, cheia de conotações físicas, sexuais; uma quantidade de elementos arcaicos, arquetípicos que, justamente por sua profusão e riqueza, tentam transcender a realidade em busca de uma unidade superior. Como se configurassem os movimentos de um balé contemporâneo.

_____________________________________

Até a próxima, que agora é hoje e não sei porque essa insistência atual em levar tudo para o lado do sensacionalismo, no caso as relações do artista com “androginia”, “provocação”, “sexo grupal”, “erotismo”, etc., como se isso fosse prioritário num conjunto que transcende toda questão anedótica e como se, sem essa apelação barata, o público não fosse se interessar por sua arte!

Maio 68 já está bem longe. Que bom!

Manifestações, greves gerais e selvagens, encontros e namoros. Os eventos parisienses de Maio e Junho – que haviam começado conosco em Paris, ganharam o mundo operário, depois a totalidade do país, atravessando fronteiras – festejam agora o seu aniversário de meio século. E nós, comemoramos que tudo aquilo já esteja bem longe!

 

“Quando não dá para mudar o mundo, é preciso mudar de cenário.”
Daniel Pennac (1944), escritor premiado e meu vizinho de bairro, em seu livro La Petite Marchande de prose

Que alívio não querer mais colocar em xeque as instituições tradicionais, não mais sentir revolta contra o “capitalismo”, “consumismo”, “autoritarismo cultural, social e político”, “imperialismo americano”, “poder instituído”, etc. Que tranquilidade ver que estas palavras, de tanto serem repetidas, não explicam e significam mais nada no mundo de hoje que, para nós, acredito, já não é uma invenção. O que são os velhos “capitalismo” e “imperialismo” daqueles discursos engajados, militantes e obsoletos, diante da onipotência do presente “policiamento econômico mundial” que representa a saída dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã?

Quem sabe daqui a meio século os (agora) jovens brasileiros sentirão, igualmente, que o tempo e a história liberam, desdramatizam e tiram o peso das situações e fatos conjunturais de uma época, restituindo os seus verdadeiros significados?

Até a próxima, que agora é hoje e que sossego não odiar mais de Gaulle (bem ao contrário), sabendo que nunca mais teremos aquela sensação penosa de responsabilidade de que “devemos e somos capazes de mudar o mundo”. Viva! Ufa!

 

Peça de museu: paralelepípedo de rua, arrancado no dia 25 de Maio de 1968.
Meus guardados preciosos
Cartazes da mostra comemorativa na Escola de Belas Artes, em Paris

 

Léger: uma visão comovente e universal do trabalhador

Em cada país, o Dia do Trabalhador tem uma história e um sentido diferente. Na arte, Fernand Léger (1881-1955) tornou este dia universal.

Imagem: Os Construtores, Fernand Léger, 1950. No Museu nacional Fernand Léger, em Biot. Óleo s/ tela, 300 x 228cm, doação Nadia Léger et Georges Bauquier, 1969 © ADAGP, Paris 2014 © cliché RMN Gérard Blot.

Há 137 anos, nascia em Argentan mais um sábio mecânico tipicamente francês. Aquele que tranquiliza o estrangeiro quando há uma pane no motor de seu carro, enrolando um cigarro Gauloise entre os dedos: Ah, m’sieu, c’est la bonne chance, ce n’est rien… (Ah, senhor, por sorte, não é nada…).

Troncudo, atarracado, de alma e ombros largos, com um rosto talhado como por um açougueiro e um nariz agressivo, este mecânico foi, todavia, Fernand Léger. Um dos pesos pesados, uma das massas brutas da pintura moderna, na qual ele canta em todas as cores a civilização mecânica, o sortilégio social. Um homem que sabia o que fazer diante da pintura quando algo “quebrava” ali, e que podia sempre fazê-la “andar”.

Assim era Léger. Desde o seu primeiro trabalho dos dias de aprendiz, ele sempre foi competente em seu serviço manual. Como um especialista em máquinas, sabia exatamente o que queria fazer. É possível, talvez, que as tarefas que ele se propôs não tenham sido as mais complexas na história da pintura, mas cada uma delas foi concebida com clareza, economia e acabada com limpeza e expediente. De fato, pode ser dito até mesmo que a objetividade de Léger ultrapassou todos aqueles problemas da pintura moderna que não são imediatamente demonstráveis, ao admitir uma solução simples e racional ao invés de soluções expressivas, mentais ou verbais.

Léger foi um homem como o da Renascença

Creio que Léger certamente não teria sido Léger se não fosse francês. E mesmo assim sempre nos esquecemos que, dos maiores cubistas, apenas Braque e ele foram franceses. O primeiro, amadurecido dentro do cubismo. O último, suficientemente jovem para passar pelo cubismo como uma forma de adolescência antes de descobrir o seu próprio estilo. Pode-se dizer, entretanto, que eles dividem entre si a expressão gálica do cubismo: macio e duro, feminino e masculino, engenhoso e manipulativo, “midinette e méchanicien” (sentimental e mecânico), patrão e camponês. O resto do cubismo é internacional, nascido em megalópole, exceto a Espanha Negra de “sangue e areia” de Picasso.

Não há abstração na pintura de Léger. Seus trabalhos são retratos de coisas, do homem e de um povo. Coisas tão palpáveis, simples e rudes quanto as ideias e os assuntos de seu pequeno, direto e maravilhoso Funções da Pintura, publicado pela primeira vez em 1956 (e editado no Brasil em várias edições). Léger não é de, maneira alguma, um pintor moderno no sentido formal que frequentemente depreendemos de seu trabalho — e que Tarsila nos trouxe, no começo do século, do seu contato com o artista.

O que fica agora mais em evidência é que Léger foi um homem como o da Renascença, um compositor de objetos no espaço representativo, um pintor de arquétipos humanos isolados. Na verdade, as realizações deste artista constituem uma tal soma de invenções — invenção da cor, da forma e do espaço — que ele não teve mesmo nenhuma necessidade, como Kandinsky ou Mondrian, de se refugiar na abstração. Seus trabalhos têm a dimensão humana mais pura. Apesar de restritos à focalização de uma classe e uma terra, eles são, em síntese, o próprio artista e, portanto, testemunhos universais decisivos na evolução da arte contemporânea.

Nenhuma outra pintura teve, com efeito, maior influência sobre as demais artes. Cartazes, tipografia, luminosos, publicidade e mesmo o cinema. É necessário remontar, talvez, a J. L. David e, mais ainda, a Le Brun para encontrar na França um pintor que tenha exercido uma ação tão determinante no âmbito da vida cotidiana.

Quando instalaram Os Construtores na cantina das usinas Renault, em Billancourt, os metalúrgicos zombaram do quadro. “Como os operários”, perguntavam, “podiam trabalhar com mãos como estas?” Eram mãos enormes como só Léger sabia pintar com seu espírito essencialmente épico.

Perdido na massa operária quando montava a sua pintura, o artista tomava tristemente a sua sopa na cantina assistindo, silencioso e concentrado, a este primeiro julgamento da sua grande tela. Voltou oito dias mais tarde, os metalúrgicos não riam mais. Eles haviam se habituado às suas cores, tons, estilo e sobretudo à sua generosidade e violência. Assimilaram a “linguagem moderna”, não apenas porque ela falava o que lhes dizia respeito, mas porque Os Construtores são, na verdade, os construtores da França de uma outra época; posterior a tantos anos de guerra, desordem e traição. Mas, mais do que isso, são também universais.

Até a próxima que agora é hoje, dia dos trabalhadores, estes seres humanos que talvez nem os artistas do Egito ou da Renascença conseguiram retratar de forma mais comovente do que Léger!

Há quatro anos o Museu nacional Fernand Léger, de Biot, apresentou Os Construtores, obra-prima de sua coleção, na fábrica Renault em Flins.
Museu nacional Fernand Léger, Biot, França.

‘Visões do incêndio’: a possível mostra da sucessão presidencial

Há 12 anos fui visitar a exposição “Visões do dilúvio” no museu Magnin, em Dijon. Me perguntei se o curador tinha se inspirado nas eleições brasileiras. Hoje o museu deveria estar apresentando “Visões do incêndio”.

 

Imagem: William TURNER (1775-1851). “O Incêndio na Câmara dos Lordes”(1835). Cleveland Museum of Art.

 

Em 2006, quando fui visitar a exposição “Visões do dilúvio” no museu Magnin, em Dijon, não pude deixar de me perguntar se o curador tinha se inspirado nas eleições brasileiras:

“Será que o povo que havia votado em Collor, Maluf, Clodovil, Ciro Gomes, Russomanno, ACM Neto – os cinco deputados mais votados no país – (ou aquele outro povo naïf que iria votar no “chefe da cacaria”*) estaria representado na visão premonitória das telas pré-rafaelitas?”

A minha pergunta tinha algo de ingênuo, mas continuo convencida de que aquela mostra sobre a inundação cataclísmica da superfície terrestre que está no Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, era também o preâmbulo simbólico do que iria acontecer no Brasil de hoje. Se julgarmos por esta pintura-emblema da exposição, de Jean-Baptiste Regnault, é possível que fosse um desfile do mau-gosto do renascimento até o século 19. Mas penso que o mau gosto atravessou os séculos, chegou ao século 21 e, hoje, floresce no nosso país. Hélas!

Jean-Baptiste Regnault, “O Dilúvio”, 1789 Paris, Louvre, Pinturas ©Foto RMN/Christian Jean – Na exposição “Visões do Dilúvio”.

Agora, ao lado de outras ameaças de teor igualmente incendiário feitas pelo “chefe”, quando se ouve de um pré-candidato à presidência do Brasil a “apologia ao uso de armamento de fogo, inclusive por civis”, como se isso fosse a única garantia de nossa liberdade, sendo que – segundo ele – um “Presidente tem que meter bala em vagabundo”, isto deveria inspirar ao curador do museu Magnin uma nova exposição: “Visões do incêndio”, com imagens aterrorizantes de Turner, Goya, Brueghel e tantos outros.

Sim, pois nos dois lados, esquerda e direita, trata-se no fundo de uma autorização da violência, inclusive guerra civil. Faroeste, bangue-bangue! Mentalidade arcaica de pirômanos que, é claro, não têm confiança nos poderes públicos, mas estão assoprando para ver o circo pegar fogo.

Na França, apesar de todos os problemas sociais, racismo, violência, terrorismo, etc., o porte de armas por civis é proibido desde o século 13, apenas maus cidadãos defendem o direito de possuir ou levar consigo uma arma de fogo, e na atualidade isto só é concedido se a pessoa “provar que está ‘específicamente’ em perigo”. Neste país civilizado, um apelo a “corretivos”, “exércitos”, “mortes” mas sobretudo  às “armas”, como o que foi feito ontem, dia 29, no Paraná, seria considerado “perturbação da ordem pública e social” e um pré-candidato bélico, certamente iria para a prisão.

De minha parte, a última convocação me faz pensar de imediato nas palavras de Groucho Marx: “‘inteligência militar’ é uma expressão contraditória.” Até a próxima que agora é hoje e, nessas horas, o voto certo e responsável é o mais importante de tudo!

 

*Cacaria = Grupo ou antro de ladrões. Sinônimo: quadrilha.

Francisco de Goya (1746-1828). “El Fuego en La Noche”, 1793.
Pieter Bruegel, o Velho (1525/1530 -1569). “Dulle Griet”, 1562. Musée Mayer van der Bergh, Antuérpia.

 

LEIA TAMBÉM:

 

Como ‘pôr ordem’ na cultura?

O perigoso programa cultural da candidata Marine Le Pen, que quer pôr “ordem na Cultura”, foi revelado há pouco. Segundo ele, que é a imagem mesma do fascismo, “todos os criadores devem se submeter a uma ‘arte oficial’, permitida pelo Estado”.

Quem fez (ou faz) galopar o Frankenstein tupiniquim?

Discute-se muito que o socialista François Mitterrand (1916-1996), presidente da França de 1981 a 1995, foi quem armou a estratégia deliberada de fortalecer a extrema-direita para desestabilizar a direita parlamentar. O galope da extrema-direita no Brasil seria igualmente fruto de “estratégia”?

O lixo e a política

Enquanto o “civilizado e polido” prefeito de São Paulo joga flores malcheirosas na rua em vez procurar uma lata de lixo, a candidata da extrema-direita à presidência da França joga mulheres na lata de lixo em vez de colocá-las na rua. O que é, onde está e para que serve uma lata de lixo, quando estamos na rua do progresso?

14 de Julho: o preço da liberdade

É a 26ª vez que assisto in loco a comemoração da queda da Bastilha e hoje particularmente também do centenário da entrada do Tio Sam na 1ª Guerra. E é a 1ª vez que vejo o Brasil, minha pátria original, nesse estado.

 

 

Quando ataque terrorista tem a ver com o peixe

Hoje houve mais um atentado terrorista, assassinato e tomada de reféns, no sul da França, perpetrado desta vez por um franco-marroquino. Apesar de sua opacidade aparente, a questão é cristalina.

O supermercado onde faço as minhas compras desde 2015, ano do atentado de 13 de novembro, chama-se Super U. Jamais entro lá sem alguma preocupação. Aliás, jamais entro em qualquer lugar público em Paris com sentimento diferente. Hoje, houve mais um atentado terrorista, assassinato e tomada de reféns justamente no Super U, no sul da França, perpetrado desta vez por um franco-marroquino. O presidente Macron acaba de declarar em Bruxelas que o perigo do terrorismo persiste, mas agora é endógeno. Não é mais comandado do Exterior.

Apesar de sua opacidade aparente, a questão é cristalina: os jovens magrebinos se iniciam como simples delinquentes (tráfico de drogas, roubo, etc.) e são presos. Uma vez na prisão – barril de pólvora prestes a explodir, com uma população carcerária de mais de 70 mil pessoas -, são cooptados pelas redes salafistas e se radicalizam, dando continuidade ao mesmo ódio desenfreado pela França e pelos franceses. Ódio este que se prende ao passado colonial, é claro, mas também ao ostracismo que funciona como um círculo vicioso: quanto mais ódio, mais ostracismo e mais ódio. Logo tornam-se criminosos comuns podendo “eliminar” quem odeiam sob o pretexto “nobre” da causa jihadista e ainda passam por heróis aos olhos dos outros islamitas radicais.

A religião muçulmana é a mais fácil do mundo. Basta a pessoa declarar que acredita em Alá. Depois, é só alegar lealdade ao grupo Estado Islâmico (EI), gritar “Allahu Akbar” (Deus é o maior, em árabe) e, assim, maquiada e fantasiada de jihadista, cometer uma carnificina sob aura religiosa quando, na verdade, não é mais do que um pequeno facínora de periferia.

Retribuição

Hoje, sexta-feira, foi dia de peixe. Meus avós, imigrantes europeus no Brasil, jamais permitiram que comêssemos carne neste dia. Consideravam falta de respeito trair os hábitos do país cristão que os recebera, além de pensarem que era de mau gosto fazer isto diante de pessoas que, por motivos religiosos diferentes dos deles, preferiam o peixe neste dia da semana.

Esse é o meu costume até hoje, assim como ficou gravado em minha educação o forte sentido moral de “direito e dever”, segundo o qual o primeiro sempre deve se equivaler ao segundo. Em relação ao seu trabalho artístico*, a minha avó, já naturalizada brasileira, dizia:

“O que realizo é também uma forma de retribuir a este país o que ele me deu. ”

Claro que não dá para comparar, mas – penso que, em nossa época, se os muçulmanos da França pudessem ter o mesmo reconhecimento, amor e ausência de ódio, igual vontade de integração, consideração, gosto e atenção com a aculturação que os meus avós – os franceses certamente seriam mais respeitosos, tolerantes e, aqui, não teríamos chegado aonde estamos.

Até a próxima, que agora é hoje!

Vídeo Estadão: “Por que a França virou alvo de ataques?”

  • Obra escultórica que, no final da vida, Felícia Leirner doou ao governo do Estado e se encontra agora reunida no museu ao ar livre que leva o seu nome, em Campos do Jordão.


LEIA TAMBÉM:

 

Apesar de Sting, Paris não é mais uma festa

Romain Naufle, o apaixonado “médico dos violões”, estava no Bataclan para festejar com amigos. Morreu no dia 13 de novembro de 2015, crivado de balas dos terroristas que ensanguentaram Paris. Desde que a porta de ferro de sua lojinha permaneceu cerrada e cobriu-se de flores e mensagens, a nossa vida não é mais a mesma.

Esperando ‘Miss Liberty’, a homenagem às vítimas do terrorismo

m Paris, aguarda-se a escultura que será colocada este ano, em frente ao Palácio de Tóquio, em homenagem às vidas inocentes ceifadas pelos atentados terroristas.

14 de Julho: o preço da liberdade

É a 26ª vez que assisto in loco a comemoração da queda da Bastilha e hoje particularmente também do centenário da entrada do Tio Sam na 1ª Guerra. E é a 1ª vez que vejo o Brasil, minha pátria original, nesse estado.

De Paris ao vivo e em HD

Apareceram caminhões do exército, carros de polícia, bombeiros e ambulâncias. Enquanto alguns militares de uniforme bloqueavam as ruas e entravam nos cafés, outros avançavam com armas, e os policiais vestiam os seus coletes antibalas.

Prêmio Marcel Duchamp 2016 é atribuído a Kader Attia

O que mais surpreende neste artista franco-argelino é a sua capacidade de refletir sobre a consciência individual e coletiva num mundo em crise. O que ele faz tem talvez mais a ver com a etnologia, antropologia, geopolítica e história, do que com as artes plásticas em seu sentido tradicional. Colonização, guerras, terrorismo, religiões, ideologia, política, pintura e arquitetura são os temas que disseca com maestria.

 

 

Céline, Tarsila e o racismo

“Pessoalmente estou pouco ligando para o talento e os fãs do senhor Louis-Ferdinand Céline. Penso que o melhor que possa acontecer à sua memória é ele ser esquecido!” (Pedro Paulo, universitário brasileiro imaginário, residente em Paris). “Há algo de muito forte e constrangedor naquele peito caído da ‘Negra’ de Tarsila do Amaral, pintora da elite paulista. É difícil não pensar em seu caráter ideológico, que tem marcas raciais.” (professora da Unicamp, não imaginária, em comentário no Facebook.).

Imagem: “O Postal”, 1928, Tarsila do Amaral. Esta tela pertenceu aos meus avós e à minha infância e adolescência, até 1963. Jamais imaginei que alguém, um dia, pudesse dizer que alguma pintura de Tarsila do Amaral tivesse “caráter ideológico, com marcas de racismo”. Mas esta é a patrulha estética que grassa hoje, pensando que, assim, possui a chave de compreensão da arte brasileira.

Marido e mulher, ambos profissionais na área da cultura em Paris, se encontram, em sua própria cozinha, na hora do chá. Catherine, francesa, livro embaixo do braço, coloca o bule sobre a mesa; Pedro Paulo, brasileiro, belisca um biscoito pensando que teria preferido um café. Ela diz:

“Ontem reli algumas páginas de Louis-Ferdinand Céline, o começo de Morte a crédito, onde ele conta a sua experiência de médico com as pessoas pobres. Ah grandioso! Hilário! O suprassumo da literatura francesa! Você não leu, leia pelo menos esse trechinho.”

Catherine abre o livro que trazia debaixo do braço e o estende ao marido:

“É preciso ler em voz alta, se possível imitando o sotaque ‘parigot’ (parisiense) tipo Louis Jouvet! Dá pra entender porque Fabrice Luchini, grande ator, recitou essa passagem no palco, ha ha!”

Pedro Paulo lê rapidamente, em voz baixa, e faz uma careta: “É provocação?”

“Como assim?”, ela se surpreende.

“Imagino o Luchini recitando Céline, responde Pedro Paulo, mas não vejo nada de hilário. Isso é um ‘pedaço de horror’ em sua falta de humanidade, bondade, compaixão – o contrário da medicina! Hipócrates ficaria de cabelo em pé!”

“Sinto muito, Pedro Paulo, mas a sua incompreensão de Céline é consternadora. Ou você não leu direito ou, o mais grave, é incapaz de compreender um texto de literatura escrito numa língua que não é a do código civil ou do francês que emprega o apresentador do jornal das 8 na televisão. Estou com a impressão de ouvir o que o nosso peixeiro poderia proferir de Céline!”

O homem, no sublime do seu horror e de sua grandeza

Pedro Paulo joga o resto do biscoito dentro da xícara vazia e retruca:

“A literatura não justifica tudo. Que nojento esse Céline! Que pessoa desumana. A gente se pergunta porque ele escolheu ser médico. Talvez para poder cuspir o seu ódio ‘maravilhosamente literário’ sobre os humanos. Irra!”

Catherine, à beira de um ataque de nervos, tenta maneirar:

“É porque ele era médico justamente, que Céline pôde se aproximar da condição humana e escrever duas ou três obras-primas onde o homem, ou melhor, o fundo da condição humana é apresentado no sublime do seu horror e de sua grandeza.”

“Consternador é o seu autoritarismo e arrogância! Segundo você, só porque é conferencista e professora catedrática na Sorbonne, eu não tenho o direito de falar e sentir de maneira diferente? Inacreditável!”

“Mas Pedro Paulo, é mais forte que Pascal! Simplesmente trata-se de uma imagem paradoxal que não agrada, perturba, decepciona os discursos submissos que embelezam e escondem o fundo de egoísmo, mesquinharia, covardia que os carregam e agitam!”

“Vai comparar com Proust…”, resmunga Pedro Paulo.

“Proust demoliu os esnobes burgueses e a classe decadente da aristocracia do faubourg Saint-Germain e isso dá prazer, não é? Todo mundo perdoa a maldade dele. Céline demoliu os pobres, os pequenos, o ‘povinho’, isso não dá prazer e o consideram um canalha. É a reação dos imbecis que são os cães de guarda do ‘politicamente correto’ que, aliás, não mudou nada desde 1936.”

Tarsila, Cioran, Céline, processos parecidos por razões execráveis

“Catherine, você está me chamando de imbecil? Justo eu que nunca gostei dos ‘bem pensantes’, saí correndo da USP e vim trabalhar em Paris porque pressenti que um dia teria de presenciar a destruição ética e mental que um partido político faria com os meus colegas? Justo eu que vejo com horror, no Facebook e na mídia, esses  pseudo artistas e professorinhas da Unicamp pertencentes à doxa atual, cães de guarda criticando Tarsila do Amaral e a Antropofagia por causa de uma suposta ‘desigualdade racial’?

“Entenda como quiser, Pedro Paulo. Arte não é a minha especialidade, mas em todos os campos a turma de idiotas é igual: sempre prefere falar do que é externo às obras artísticas ou literárias. É mais fácil. Fizeram o mesmo processo a Cioran que a Céline, pelas mesmas e execráveis razões. Para compreender o século 20 é preciso ler Proust, sim, e TAMBÉM Céline. Junto com Kafka, é o tríptico essencial. Todo o resto é tagarelice insignificante.”

“Catherine, eu sempre defendi que o entendimento de qualquer movimento de arte deve se dar longe dos processos rasteiros de cunho ideológico, você sabe. Os mesquinhos não fazem outra coisa do que descrever a si mesmos através de suas acusações. Quando falam que Tarsila tinha uma “ideologia” é da própria ideologia que estão falando, e quando falam de “cegueira ideológica” é a cegueira deles mesmos que descrevem. Reconheço a maestria de um autor, mas Céline me dá engulhos viscerais! Só de olhar o retrato dele… É quase o mesmo sentimento de repugnância que experimento ao ver a expressão e o topete de Trump, ha ha!”

“Pedro Paulo! Que comparação!!! E que incoerência! Você defende a Antropofagia e ataca Céline!!! O seu pai, que era um dos homens mais cultos do Brasil e te fez prometer que você leria certos autores nacionais e estrangeiros, coisa que você não cumpriu, teria tido vergonha da sua reação.”

“Ele teria tido vergonha de ouvir o tom e a falta de humor com o qual a minha mulher me fala! Eu li, sim, uma parte do que ele me fez prometer. Um volume de Proust, dois de Dostoievski… Também nunca ouvi muita música de Schoenberg, Alban Berg, Messiaen, Stockhausen ou Webern. Não preciso entender de tudo. Mas isso não me impede de julgar.”

Leitores e espectadores inteligentes não julgam.

“Julgar? Livros, antes de julgar sem conhecer ou compreender, é preciso LER. Mas os leitores inteligentes não julgam, eles estão além do julgamento. Diante de obras-primas, eles ficam silenciosos. Claro, eles se veem e se reconhecem no espelho que autores como Proust, Céline e Kafka lhes oferecem. É a força e a grandeza da literatura. Mas é a força e a grandeza da arte igualmente. Tão ridículos e tolos quanto os que dizem ficar ‘constrangidos diante do que existe de racial’ em Tarsila, são aqueles que dizem  ‘gostar dela” ou, pior, os que exclamam ADOOORO TARSILA!!! Não dá para aguentar… ”

“A força e a grandeza da literatura às vezes dá de cara com uma realidade que não é tão grandiosa assim. Li bastante sobre essa polêmica de publicar ou não os textos antissemitas de Céline. Pierre-André Taguieff, autor do livro “Céline contre les Juifs ou L’École de la haine” (“Céline contra os Judeus ou a Escola do Ódio”), lançado este ano aqui em Paris, disse numa entrevista que entre os esnobes e conformistas acadêmicos de esquerda e direita é de bom tom se declarar ‘céliniano’. O que significa se identificar com um pretenso ‘rebelde, vítima da inveja e do ódio dos medíocres e dos maldosos’. Essa é a imagem que o paranoico do Céline conseguiu impor à posteridade. Acho estranho você não perceber isso igualmente, Catherine.”

“Esse Pierre-André Taguieff é um asno. Ele faz parte desses pseudo-intelectuais provocadores e venenosos chamados ‘novos reacionários’ que procuram um lugar ao sol. Fica ao lado do Éric Zemmour.”

“Mas Taguieff tem um pouco de razão, não? O ‘estilo’ lava tudo: o pro nazi, o propagandista anti-judeu, o colaboracionista. Quando se possui a sorte de ter ao seu lado a Sorbonne, Gallimard, a imprensa cultural e tantos personagens mediáticos como Michel Audiard, Nicolas Sarkozy e Fabrice Luchini, tudo é possível. Uma certa França adora amar os ‘párias’ ou os ‘malditos’. É o oposto do que acontece em um certo Brasil.”

Catherine fica em silêncio. Arruma a louça no lava-pratos enquanto suspira dando de ombros como se o marido fosse um “caso perdido”. Ou talvez essa discussão fosse importante, para que os dois descobrissem no final onde é que as suas ideias, aparentemente divergentes, convergiam.

“Claro, continua Pedro Paulo, cada um tem o seu Céline: o autor da Viagem não é o mesmo da Féerie e dos panfletos. O suposto pacifista agrada alguns, o “médico dos pobres” agrada outros. Viagem ao fim da noite ou Morte a crédito têm, com razão, muitos fãs. Mas, quer saber? Pessoalmente estou pouco ligando para o talento e os fãs do senhor Louis-Ferdinand Céline. Penso que o melhor que possa acontecer à sua memória é ele ser esquecido!”

Catherine dirige-se à porta, porém antes de sair da cozinha, dispara:

“OK, Pedro Paulo, mas posso te pedir um favor? Dá para você parar de ser brasileiro – ou, pelo menos, parar de ser brasileiro pelo pior lado? Merci!


Até a próxima, que agora é hoje e é uma ironia muito grande que, no mesmo momento em que alguns “tagarelam” querendo encontrar racismo na arte, outros que lutam de verdade contra o racismo morram assassinados como a vereadora carioca Marielle Franco!

“A Negra”, Tarsila do Amaral, 1923

 

Primeiras páginas de “Morte a crédito”, de Louis-Ferdinand Céline.

 

LEIA TAMBÉM AS ANÁLISES:

 

 

“Se o potencial erótico de corpos modelados não deixa as pessoas indiferentes, isto quer dizer que elas talvez sofram de “agalmatofilia”, que é um desvio sexual bastante estranho…”; análise de Sheila Leirner

 

 

“No século 19 “arte total” era a ópera, no século 21 é o cinema. Não existem mais cineastas de gênio que não saibam se movimentar simultânea e confortavelmente em todos os campos do conhecimento e da cultura”; análise de Sheila Leirner

 

 

Digamos que este artista possui a rara capacidade de provocar suspense, fascínio e curiosidade; análise de Sheila Leirner

 

 

“Todos os pais têm defeitos. Uns mais, outros menos. Porém, quando as imperfeições tornam-se destrutivas, podemos defini-las como “tóxicas.”; análise de Sheila Leirner

 

 

“Racionais e rigorosos – jamais fortuitos, aleatórios ou arbitrários – seus trabalhos são como fórmulas matemáticas com as suas soluções já embutidas nas imagens.”; análise de Sheila Leirner

 

 

Krajcberg, muito além da ecologia

Registro apenas agora*, porém com a mesma emoção, a minha homenagem a Frans Krajcberg. Ele nos deixou, há quatro meses, órfãos não de sua obra – que, duradoura ou efêmera, também resta em nossa memória – mas da disciplina que a natureza impôs a ela. Aquela ordem metafísica do “natural concedido”** que parece termos perdido para sempre, mas que contribui para a aquisição da “verdade permanente” encontrada em raros exemplos da arte universal.

Imagem: Frans Krajcberg, “Flor do Mangue” – Foto: Divulgação.

O fato é que este artista brasileiro, nascido na Polônia em 1921 e desaparecido no dia 15 de novembro do ano passado, atingiu um estágio elevado de reflexão e envolvimento com o mundo natural por meio de um diálogo cada vez mais intenso e fecundo com ele, cuja mudez revelava um pacto íntimo e indissolúvel. Pacto a favor do quê? Ou contra o quê?

A experiência continha duas significações muito especiais. Particularmente, tratando-se de Krajcberg, indicava a associação do artista com os elementos naturais de forma não apenas plástica, como também filosófica. E apontava um forte sentido de religiosidade com o qual o artista obedecia a um ritual e reverenciava o elemento natural, realizando sua “imagem” ou “altar”.

A outra significação era o prenúncio de um revivalismo, em particular a volta simbólica ao século 19, quando a aniquilação iminente da natureza a fez mais desejável e o artista tinha que se apressar antes que ela terminasse. A ação depredadora que, com maior violência, atravessou os séculos 20 e 21, a civilização nuclear e especuladora em que continuamos a viver, assim como todas as vicissitudes de uma cultura essencialmente tecnológica, faziam (e continuam fazendo) germinar reações dessa ordem que, no caso de Krajcberg, ao invés de resultarem melancólicas, representavam a posição firme e imbatível de quem conhecia as verdadeiras relações do Homem com a força ativa natural que lhe dá a vida.

Depois de todas as experiências da vanguarda, sobretudo com o conceitualismo e a desmaterialização, até que ponto podia ser legítima e eficaz, uma arte de valor quase que estritamente plástico e estético, desvinculada dos “progressos” da civilização e cultura contemporâneas? A questão não era inédita nem recente. Extensas análises já haviam terminado em múltiplas, divergentes, caóticas e às vezes niilistas conclusões acerca da função da arte e dos artistas em nossos dias.

Uma obra que transcende problemáticas ecológicas

Desde o início do percurso de Krajcberg até as obras apresentadas na última Bienal de São Paulo (2016), ficou patente a sua profícua e extremamente criativa intervenção na natureza. Ficou claro também o intenso e sensível diálogo que mantinha com os elementos naturais, assim como o profundo sentido plástico e poético com que os reorganizava.

Por outro lado, porém, penso que em suas obras nunca transpareceu claramente o intuito ambientalista do artista, de preservação de uma natureza condenada pelo avanço da vida. A apropriação plástica dessa mesma natureza, em pequenas parcelas, em nenhum momento sugeria por si só algum apelo nesse sentido.

Seu trabalho não contém – ao contrário do que se diz ou do que o artista pretendia – nenhuma alusão à hipótese de ele ser um fenômeno de alguma forma vinculado a processos sociais ou políticos. Enquanto obra plástica e esteticamente autônoma, transcende qualquer reflexão acerca de problemáticas ecológicas.

Ora, como todo grande mestre, Krajcberg conseguia aliar de maneira indissolúvel o propósito de seus trabalhos aos meios que o sustentavam. Servia como mensageiro de uma linguagem cifrada que lhe ditavam o mar sobre a areia, o vento sobre as árvores, os troncos dentro da terra, revelando uma natureza antes apenas pressentida dentro dos cânones estéticos aos quais estamos habituados. Como por meio de uma lente de aumento, destacava fragmentos, enquadrava detalhes particularíssimos e punha em evidência os momentos de grande verdade que conseguia aprisionar em seu diálogo visceral com os elementos naturais.

Poeta dos elementos naturais

Os seus trabalhos revelam uma qualidade rara de percepção da forma natural e de suas combinações. A manipulação e reorganização dos elementos já existentes – que poderia facilmente cair numa ação violentadora do material, como acontece com muitos – resulta harmoniosa e suave, sempre compatível com o resultado global.

Os relevos e os sulcos, a sombra e a luz, os côncavos e saliências, os versos e reversos de um todo abrangente e vigoroso, fazem dessa obra sempre realizada unicamente em materiais naturais, um conjunto magistral e poético que desperta para esta força ativa infelizmente já esquecida nas grandes metrópoles.

A experiência que Krajcberg nos aportou, transcende o indivíduo, a época e a circunstância, por meio da intuição individual. Nela resta a “verdade permanente” da qual falava Ernst Fischer, em A Necessidade da Arte. Aquilo que “nos possibilita comover-nos com as pinturas pré-históricas das cavernas e com antiquíssimas canções”.

Frans Krajcberg tentava captar a essência da natureza que aprisionava, sem usá-la como panfleto, sem interpretá-la. Apenas apreendendo-a pela sua apurada noção estética e percepção. A sua representação é objetiva. Uma representação que se utiliza dos elementos naturais da mesma forma como o poeta das palavras: trazendo à luz expressões já existentes, porém não percebidas.

A arte simples e extraordinária de ver

Picasso costumava dizer que devemos agradecer aos artistas a imagem que temos da natureza. E que o artista não cria, ele encontra. De fato, artistas como Frans Krajcberg nos fizeram perceber os elementos naturais e o ambiente em que eles estão, através de seus olhos. Às vezes, menos pela produção e montagem artística do que pela pura seleção de formas, cores e materiais, eles tiveram a capacidade infinita de transferir ao espectador as mesmas experiências das suas descobertas. E de iniciá-lo, didaticamente, na arte simples e extraordinária de ver.

Até a próxima, que agora é hoje!

 

Notas:

*O texto aqui reproduzido encontra-se originalmente no número recém-saído (edição 44) do jornal Arte & Crítica da ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Arte).

** A noção de “natural concedido” está implícita no Manifesto do naturalismo integral ou Manifesto do Rio Negro escrito por Pierre Restany, na presença do próprio Krajcberg e de Sepp Baendereck, em agosto de 1978, em sua viagem fluvial pelo ecossistema da Amazônia.

 

LEIA TAMBÉM AS ANÁLISES:
“Se o potencial erótico de corpos modelados não deixa as pessoas indiferentes, isto quer dizer que elas talvez sofram de “agalmatofilia”, que é um desvio sexual bastante estranho…”; análise de Sheila Leirner

 

“No século 19 “arte total” era a ópera, no século 21 é o cinema. Não existem mais cineastas de gênio que não saibam se movimentar simultânea e confortavelmente em todos os campos do conhecimento e da cultura”; análise de Sheila Leirner

 

Digamos que este artista possui a rara capacidade de provocar suspense, fascínio e curiosidade; análise de Sheila Leirner

 

“A obra é um gigante jogo geométrico de percursos, onde os passantes não são mais do que pontos impulsionados pela vontade desse “Anticristo pop” que quer nos fazer andar sobre as águas.”; análise de Sheila Leirner