14 de Julho: o preço da liberdade

É a 26ª vez que assisto in loco a comemoração da queda da Bastilha e hoje particularmente também do centenário da entrada do Tio Sam na 1ª Guerra. E é a 1ª vez que vejo o Brasil, minha pátria original, nesse estado.

Vendo os presidentes francês e americano lado a lado, tão diferentes e depois de o segundo ter se mostrado ferino com o primeiro, a palavra “magnanimidade” pairou nos meus pensamentos. Apesar de a França acordar a diplomacia que dormia até agora, e de precisar dos Estados Unidos para inúmeras questões, como a luta contra o terrorismo, os conflitos no Oriente médio, Síria e Iraque, a oposição foi contra o convite de Emmanuel Macron a Donald Trump, evidentemente. Assim como se opôs à visita de Vladimir Putin, já que este havia tentado desestabilizar as eleições, aprovando de certa maneira a candidata do FN (Frente Nacional), partido da extrema direita. Mas a oposição hoje, na França, representa a velharia intolerante e dogmática que ainda resta e este país não quer mais. Não têm estatura para saber que não leva a nada recusar o diálogo, e que a história é sempre maior do que qualquer governo.

Precisamos de indivíduos magnânimos e livres que saibam virar a página e esquecer o que deve ser esquecido. Uma pessoa assim é a generosa, aquela que perdoa com facilidade, mostra-se indulgente com o próximo. Alguém que, a despeito de todos os riscos e perigos, age ou pensa desinteressadamente, com vistas a servir os outros, um país ou a encarnar um ideal. Afinal, o mundo é uma passagem. Ele muda, os humanos se transformam e, com tal rapidez que, mesmo as coisas que foram ditas ou as ideias que tivemos na semana passada, hoje podem não valer mais nada.

Mesmo certos jovens brasileiros parecem pequenos velhos

Isto me fez concluir que a grande tragédia (e atraso) da minha primeira pátria hoje se deve, talvez, justamente, à falta deste olhar e desta grandeza. Vemos no Brasil engajamentos congelados em tempos que não existem mais, ideologias de direita e esquerda nas quais apenas os cegos ou os idiotas persistem.

O drama que os brasileiros vivem hoje não está apenas na corrupção e podridão de certas instituições. Ele se deve sobretudo ao espírito de ortodoxia e à mesquinhez ideológica de todos os tipos, fantasiados de uma artificial generosidade, ainda que em direção dos menos favorecidos. Mesmo muitos jovens brasileiros, tanto de esquerda quanto de direita, parecem pequenos velhos imutáveis dentro dessa conformidade absoluta com as normas ou padrões doutrinários.

Os menos favorecidos não carecem de ideologias. Os mais favorecidos, tampouco. Todos necessitam apenas de países fortes. E países fortes precisam apenas de ética, determinação, educação, cultura, eficiência, inteligência e… magnanimidade.

Até a próxima que agora é hoje e viva o 14 de julho!

Rasto deixado pela Patrulha Francesa, na comemoração da festa nacional, dia 14 de julho de 2017. Foto (zoom 10x) tirada de minha janela, às 10h40.

 

Claude Monet, “Festa Nacional na Rua Montorgueil” (1878)

 

 

Gostar tem a ver com arte?

O que pensar da imensa arte de Rodin, Picasso e Toulouse-Lautrec depois de ver um jornalista brasileiro declarar no Facebook que detesta Rodin, Picasso e Toulouse-Lautrec, além de pizza massa fina, cartilagem de frango, calor, salada, fumaça de cigarro e outras coisinhas mais?

O surpreendente post que vários “curtiram” e comentaram de maneira mais surpreendente ainda, me lembrou um caso e inspirou um aforismo.

Há 16 anos fui visitar, e escrevi uma crítica sobre, a exposição do centenário de Jean Dubuffet, um dos grandes artistas franceses do século 20, no Centro Pompidou. Como na época os jornais tinham mais espaço, o texto explicava tudo com pormenores. Dizia, por exemplo, que “apesar de Dubuffet não ser nenhum Picasso, a sua obra continua como uma fonte preciosa de referência às mais novas gerações que optaram pelo caminho pictórico da expressividade, espontaneidade e prazer.”

Contei que o que se via, na exposição, “era uma grande fidelidade à opulência, truculência e júbilo do artista. Pois este, um pouco como Picasso, não cessou de mexer, romper, relançar, esgotar, indo do mais erudito ao mais caótico, do terra-a-terra ao metafísico, da matéria à visão cósmica, da figuração à abstração. A sua obra tirava partido da sua própria vida e dos acidentes de trabalho. Se inscrevia entre a cidade e o campo, o volume e o grafismo, a cor e a não-cor, o movimento e o estático, a casualidade e as contingências do momento.”

“Afinal”, escrevi entre muitas outras coisas, “os artistas são personalidades contraditórias, constantemente em conflito consigo mesmos…”

No mesmo domingo em que a matéria saiu no Caderno 2, recebi a visita de um casal de amigos e ele foi logo perguntando qual era a minha opinião sobre o trabalho de Dubuffet.

Gosto particular não interessa a ninguém

-“Você leu o meu artigo hoje?”

-“Li, sim. Por isso estou perguntando”.

-“Já não basta o que escrevi sobre a obra dele?” respondi, rindo.

-“Entendi perfeitamente, mas gostaria de saber se gosta de Dubuffet”.

-“E é importante saber se gosto ou não gosto?”

-“Claro que é importante, crítica é isso”, disse ele.

-“Crítica não é opinião, é análise.”

-“OK, mas você gosta ou não gosta?” insistiu.

-“O meu gosto particular, fora você, não interessa a ninguém. Nem a mim mesma, ele interessa.”

-“E o gosto das outras pessoas, te interessa?”

-“Menos ainda. Às vezes até me irrita quando ouço opiniões assertivas. Só os tolos fazem isso…”

-“Ah entendi. Do tipo ‘adooooro Fulano!’, ‘deteeeesto Sicrano!’, ou ainda ‘maravilhoooso artista!’, ‘graaaande mestre!’ ”

-“Isso. Só me interessa o que as pessoas e eu somos capazes de apreender e depreender de uma obra. Gostando ou não.”

-“Começo a entender o seu ponto de vista…”

-“Que bom, porque eu ia justamente lhe dizer: não tenho opinião sobre a obra de Dubuffet.”

Até a próxima que agora é hoje e todos têm o direito de gostar ou não de um artista. Mas só os tolos pensam que a arte tem a ver com gostar ou não de um artista!

Imagem: Fotomontagem de Jean Harold enviada a Picasso por Jean Cocteau e legendada no dorso : “Picasso – Período negro’ – Crédito : RMN-Grand Palais (musée Picasso de Paris), Mathieu Rabeau

 

 

Meu encontro com César

Coisa rara, foi antipatia à primeira vista. Eu estava em seu ateliê da rua Roger, em Montparnasse, para uma conversa. Queria publicá-la no Caderno 2 porque César era o artista oficial da França na 46a Bienal de Veneza de 1995, e isso tinha gerado uma grande polêmica.
Ateliê de César, na rue Roger, em Montparnasse

Era Junho, estava calor como hoje e fui recebida por uma linda jovem de minissaia e decote profundo que me acompanhou até uma segunda linda jovem de minissaia e decote profundo, que por sua vez me levou à uma terceira linda jovem de calça justa e decote profundo, que verificou o meu nome em sua agenda. Sim, era eu quem vinha falar com o senhor César Baldaccini (1921-1998), célebre artista do “novo realismo” defendido pelo crítico Pierre Restany nos anos 1960, época em que ninguém ainda sabia que o “César” seria acariciado 16 vezes por Isabelle Huppert. Sim, porque desde que ela ganhou esse prêmio/escultura em 1976 – na primeira cerimonia de mesmo nome presidida por Jean Gabin – nunca mais parou de colecionar o escultor.

Verdade que eu já estava cheia de parti pris, e por boas razões. Além daquele harém de assistentes de pernas longas e decote profundo na pequena fábrica de esculturas em série, o personagem não me inspirava grande confiança. Há 22 anos, eu pensava que de Salvador Dalí, por exemplo, não havia nenhuma dúvida. Restava muita coisa interessante. Por outro lado, para mim, só o tempo diria o que ficaria de César, pois até então só era a César o que era de César e à Arte o que era da Arte.

Sobreviveriam, com certeza, e “mesmo sem as botas de sete-léguas”, pensava eu, “o grande polegar” monumento fálico que está em toda parte. Ficariam também algumas compressões que escondem pedras preciosas e talvez outras do gênero daquelas que o artista fabricou pessoalmente numa das bienais brasileiras, há meio século, em performance de grande estardalhaço na mídia.

O tijolão de 520 toneladas era arte para impressionar

César estava de mau humor. A premiação de Kitaj, Gary Hill e do pavilhão egípcio, na Bienal de Veneza, provavelmente o haviam decepcionado, assim como Catherine Millet, a comissária francesa que o tinha escolhido. Ela, que também foi responsável pela representação na 20a Bienal de São Paulo (1989), estava longe de conseguir unanimidade no meio artístico parisiense. Afinal, esta crítica e historiadora, que permanecia há quase três décadas à frente da editoria da revista Art Press, defendendo a rígida e politizada vanguarda francesa, tinha atacado Joseph Beuys duramente e eleito para Veneza o kitsch do famoso mestre das ferragens, sucessor de Dalí, grande bufão do século 20.

Ora, o tijolão de 520 toneladas, composto por retângulos de metal amassado, e os custosos carros Citröen achatados contra as paredes laterais do pavilhão francês, que perderam o premio em Veneza, estavam mais próximos da arte americana feita para impressionar – diante da qual ainda se ajoelhavam os franceses – do que da indigesta hegemonia alemã representada, entre outros, por Beuys. Fariam face aos exageros de Damien Hirst este ano, na mesma bienal.

Pior do que isso, a obra de César, embora não tivesse nada a ver com o tema da 46a Bienal de Veneza, se adaptava como uma luva às teorias, a meu ver naquela época oportunistas, do curador-geral Jean Clair, que rejeitava a arte contemporânea, minimizava a existência da abstração e fazia a apologia decadente de um certo retorno sombrio, “fin de siècle”, à tradição, ao métier e ao academicismo.

Como é que você quer que eu responda?

“O polegar”, 1981. Monumento fálico que está em toda parte.

Quando César apareceu no ateliê, depois de me deixar esperando uns 15 minutos, fui direto ao assunto. Ele só teve tempo de dizer “bonjour”. Perguntei:

– “O título escolhido por Jean Clair, curador da Bienal de Veneza, é ‘Identidade e Alteridade’, que trata da história do corpo humano e do rosto de 1985 até hoje. Em que sentido a sua obra se liga à esta ideia?”

– “Eu não me perguntei sobre isso.”

– “Você não se importa?”

– “Não. Porque se eu me importasse, então era preciso fazer obras de acordo com o tema, e na Bienal, nos pavilhões, isso não é uma obrigação. Os americanos, japoneses, Takis, acho que ninguém se importou com isso.”

– “É por esta razão, entre outras coisas, que a Bienal de Veneza está decadente… Além disso, nesta edição em particular, Jean Clair nega o interesse da abstração no nosso século, ironiza as ‘utopias libertárias’ dos anos 60, rejeita a arte minimalista e conceitual dos anos 70 e 80 que ele define como um ‘neoplatonismo de bolso’, e faz a apologia do figurativismo contra a suposta degradação deste final de século que ele pensa representar o ‘espírito do tempo’. Isto tudo é bastante grave. Como é que você se vê nesse ‘fim de século’ do curador?”

– “Como eu me vejo? Bem, eu me vejo tendo vivido este século com uma certa angústia. Pois eu tenho 74 anos! Eu vi as guerras, os terremotos, a poluição, as catástrofes. Sou sensível, não há como não sofrer com a morte, a agressão… Você me pergunta isso, como é que você quer que eu responda? Eu sou um autodidata, tenho um temperamento anarquista! Como você quer que eu me analise ou defina as minhas obras em função do que se passa? Intuitivamente eu utilizei sempre os detritos, os restos…”

Nas famílias simples uma boa cozinha se faz com restos

– “Você conta sempre que teve uma infância pobre. Não foi por isso que, ao sair da Academia, começou a criar com materiais usados?”

– “Sem dúvida! Você sabe, nas famílias simples sempre se faz uma boa cozinha com restos. Se você tem paladar e sensibilidade, pode fazer coisas ótimas. Os pobres encontram uma linguagem…”

– “Até ficarem ricos e famosos. Me perdoe em insistir, mas são questões candentes: o que você acha da extinção do ‘Aperto’ em Veneza?” perguntei.

– “O que faz o ‘Aperto’?”

– “Era uma exposição dedicada aos jovens e à arte contemporânea, realizada dentro da Bienal de Veneza.”

– “Ah! Sim! Lá onde estava a Cicciolina (obra de Jeff Koons)… eu gostava muito daquele lugar! Ele acabou? Porque? Bom, deve ter uma razão… talvez econômica, não?”

– “Não é econômica, é ideológica. Outra questão que ainda ferve: o que você, César, tem a dizer sobre a polêmica criada em torno da sua escolha como representante oficial da França em Veneza?”

– “É uma pergunta interessante”, disse ele. “Eu não compreendo o porquê desta polêmica. Antes, quando eu era jovem, não me convidavam. Só convidavam velhos. Sempre pensei que a Bienal era feita para consagrar os velhos e mostrar os jovens. Você pergunta, porque acompanha a imprensa. Eu não sigo a imprensa. Você me questiona ‘porque convidaram César?’ e eu digo ‘porque não César?’ “

– “Talvez, entre outras coisas, porque não seja ‘vanguardísticamente correto’, para usar o termo da comissária Catherine Millet, que defende a sua escolha na revista Art Press.”

– “E o que é vanguarda? Aquela artista (Louise Bourgeois) que representou os Estados Unidos na ultima Bienal de Veneza (1993) tem 82 anos! Um comissário convida quem ele quer…”

– “Certo. Mas por falar nisso, todos os comissários responsáveis pelas exposições francesas em Veneza, a sua e as demais, estão ligadas de uma forma ou de outra à revista Art Press. O que você pensa dessa estranha e, segundo os especialistas, ‘escandalosa’ coincidência?” provoquei.

– “Ah é? Não estou sabendo…”

– “Não está sabendo…”

– “Madame faz perguntas muito interessantes. Mas que não têm nada a ver comigo!”

E, ao dizer isto, César levantou-se, chamou uma das moças para me acompanhar, virou as costas e saiu da sala.

Até a próxima que agora é hoje e, quanto mais penso em César, o “novo realista” primitivo da boa cozinha de restos, mais gosto de Alfredo Volpi, verdadeiro operário sem cozinha, sem usina e sem harém!

 

Nota: Esta conversa foi publicada no Caderno 2 do dia 21 de Junho de 1995.  O meu encontro com Alfredo Volpi (1896 – 1988), simpatia à primeira vista, espero publicar em breve neste blog.

 

Ateliê de César, na rue Roger, em Montparnasse
O César é um premio anual do cinema francês atribuído aos profissionais da “sétima arte”, em várias categorias. A cerimonia de entrega, também conhecida por “A Noite dos Césares”, ocorre no Teatro do Châtelet, em Paris.
César, “O Polegar”. Bairro La Défense, em Paris.

 

Meu encontro com Umberto Eco

No elevador do prédio onde também morava o especialista em arte russa, Eco olhava o meu embrulho, creio que tentando adivinhar o que ele continha. Eu olhava o seu pacote de livros, também me esforçando em desvendar o nome da livraria.

Foi nos anos 1990¹, no elevador do prédio onde ele morava ocasionalmente, cujas janelas de frente davam para uma rosácea da Igreja de São Sulpício em Paris. Eu carregava um pequeno embrulho para presentear o proprietário do 4° andar, querido amigo especialista em Malevitch², que festejava o seu aniversário. Ele, um saco de livraria, o que, para mim, tinha algo de profano. Transportar livros em saco plástico não combinava com um escritor sagrado que já portava tantos volumes no currículo.

No cubículo usual destes antigos compartimentos de deslocação vertical que os franceses ainda chamam de elevador, Eco olhava o meu embrulho, creio que tentando adivinhar o que ele continha. Eu olhava o seu sachê de livros, também me esforçando em desvendar o nome da livraria. O meu andar chegou antes. Gentilmente ele avançou, abriu a porta para que eu saísse e disse:

 

– “Eu trocaria com prazer esse meu pacote pelo seu embrulho.”

– “Também trocaria com prazer se o meu embrulho não fosse um presente de aniversário para o seu vizinho”, respondi com um sorriso, apontando o apartamento da direita.

– “Ah o vizinho simpático, conhecedor de arte russa? Ele entenderia.”

– “Entenderia e certamente gostaria, porém não acreditaria.”

– “Os livros não são feitos para serem acreditados. Boa noite!”³, replicou Umberto Eco, também sorrindo, antes de entrar no elevador.

Até a próxima, que agora é hoje e sem que esse encontro tenha provocado alguma alteração em minha vida, não sei por que razão o destino me fez prisioneira em elevador por alguns minutos, com o também “prisioneiro de O Nome da Rosa“⁴. Talvez para entender, apenas na maturidade, a profundidade daquelas palavras.

 

⒈Este encontro é absolutamente verídico.
⒉Kasimir Malevitch – artista russo, inventor do “suprematismo”, o grau zero da pintura, onde a supremacia do sentimento puro encontra um equivalente na forma pura, destituída de toda significação simbólica ou racional.
⒊”Os livros não são feitos para serem acreditados, mas submetidos a exame. Diante de um livro não devemos nos perguntar o que ele diz, mas o que quer dizer.” (Umberto Eco, em O Nome da Rosa)
⒋”Eu sou prisioneiro de O Nome da Rosa, assim como García Márquez o foi de Cem Anos de Solidão.” (Umberto Eco, “Le Figaro littéraire”,  21 de maio de 2015)

 

Homenagem a Kasimir Malevitch e à vanguarda russa no Stedelijk Museum, em Amsterdam, 2014.
O “Suprematismo” de Kasimir Malevitch

 

 

Colados na realidade

Há algum tempo fui ao Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris, ver a enorme exposição monográfica “Albert Marquet, pintor do tempo suspenso” que este ano foi mostrada no Museu Pouchkine de Moscou. Resolvi prestar um pouco de atenção também aos comentários de diversos visitantes que, além de ficarem falando com os vizinhos, pareciam passar mais tempo lendo as etiquetas e ouvindo o guia no smartphone, do que olhando as telas.
Albert Marquet (1875-1947), La Varenne Saint-Hilaire, A Barca, 1913 – Óleo s/ tela, 65,4 x 81 cm

Menos conhecido do que Giorgio de Chirico, Raoul Dufy ou Kees van Dongen, sempre vi este artista relegado a um cantinho nos museus. E, no entanto, Marquet – amigo de Matisse, que evoluiu do pós-impressionnismo ao fovismo, conservando um estilo próprio – é certamente um dos pintores mais fascinantes da primeira metade do século 20.

A mostra é de cair o queixo! Centenas de vistas de cidades, portos, rios, o Sena, oceano, mar, lagos, praias da Europa e da África do Norte – acho que poucos artistas viajaram tanto para fazer tantas obras parecidas umas com as outras!

Olha a bandeirinha da França!

Menos por bisbilhotice do que por curiosidade sócio estética, resolvi prestar um pouco de atenção aos comentários de diversos visitantes:

  • “Onde você acha que fica essa praia? No Midi?”

  • “Estou reconhecendo! É na Argélia!”

  • “Deixa ver o que está escrito.”

  • “Será que é aquarela? Ah não… deve ser pintura.”

  • “Eu já vi esse lugar!”

  • “Essa mancha é Notre Dame.”

  • “Que mancha escura! Ele não devia gostar de igreja.”

  • “A ponte você lembra.”

  • “Aqui está nevando.”

  • “Quanta água!”

  • “Será que tem o cartão postal?”

  • “Ele devia ver tudo isso da janela da sala.”

  • “Pintando o sol assim, podia ficar cego!”

  • “A que horas ele saía pra pintar?”

  • “Estou até sentindo o cheiro do mar, hehe!”

  • “O Havre você adivinha na hora…”

  • “Olha a bandeirinha da França!”

  • “Que nuvens esquisitas… essa parece um urso.”

  • “Pelo jeito deve ser outono.”

O pessoal via e pensava em tudo, menos em pintura. Ninguém parecia preocupado, como eu, em saber como é que Marquet fazia para que as suas obras estivessem tão além da realidade e fossem muito, mas muito, muito mais lindas do que ela.

Até a próxima, que agora é hoje!

 

 

Missão cumprida no espaço. Com arte e tudo mais!

na França, crianças e adultos apaixonados pela astronáutica estão felizes! E um artista brasileiro provavelmente também. Depois de seis meses na estação espacial internacional, Thomas Pesquet e seu colega russo Oleg Novitski pousaram no Cazaquistão, Ásia Central no mês passado. Foi quase uma ironia que, no dia seguinte à resolução ecocida* de Donald Trump, este astronauta francês voltasse à Terra, depois de também imortalizar o nosso amado planeta em fotos deslumbrantes.

Thomas Pesquet decolou no dia 17 de novembro do ano passado da base russa de Baïkonour a bordo do Soyuz e chegou na estação espacial internacional (ISS) levando 63 experiências que deveria fazer para a Agencia espacial europeia (ESA) e o Centro nacional de estudos espaciais (Cnes). Entre elas, a realização de uma obra de arte. Esta, foi concebida pelo artista brasileiro Eduardo Kac, conhecido pioneiro da chamada bio-arte, gênero que descreve a vertente da arte contemporânea que usa os mananciais oferecidos pela biotecnologia. Quem não lembra de sua experiência dos anos 2000, ele que possui um laboratório de biotecnologia na escola do Art Institute de Chicago, com os coelhos albinos que ficaram fluorescentes graças à proteína desenvolvida por uma medusa?

Não tenho opinião sobre a ideia dos coelhos albinos- nenhum crítico é obrigado a possuir opinião sobre tudo – mas ao ver a Soyuz voltando à Terra, sob o paraquedas, pensei que a performance de poesia espacial que o artista encomendou ao astronauta é talvez tão emocionante em sua singeleza quanto esta cápsula menor do que um fusca dos anos 60, sendo arrastada pelo deserto do Cazaquistão.

O que é esta obra imaginada por Cac e realizada por Pesquet? Simples recortes de folhas de papel que formam a palavra “MOI” (EU, em francês) , com um tubo no meio, feitos para flutuar na estação espacial. Nada mais.

“MOI”. É com esta palavra que a arte foi para o espaço, no meio dos mais sofisticados avanços tecnológicos. Na milionária estação espacial internacional, a visita da humanidade, com toda a sua fragilidade, na ausência total da gravidade. Sinto que Fernando Pessoa teria ficado encantado com esse trabalho chamado “Telescópio interior”. E o poeta Rainer Maria Rilke também. O seu “Aberto” é o “puro, o inesperado que se respira, que se sabe infinito sem a avidez do desejo (…)”. **

Até a próxima que agora é hoje e, pelo jeito, mesmo na órbita terrestre baixa, a arte tem coisas a dizer!

“Telescópio interior”, Eduardo Kac 2016. Projeto para a missão “Proxima”, de Thomas Pesquet.

* Extermínio deliberado de um ecossistema regional ou comunidade
**Em “Elegias de Duíno (Oitava Elegia)

 

NEW EYES

 

 

Giacometti na Tate e… na memória

Abriu há pouco na Tate Modern de Londres (até 10 de setembro) a esperada e grandiosa retrospectiva de Alberto Giacometti (1901-1966), um dos maiores artistas da modernidade. Será que ela diz tanto sobre este artista quanto as duas centenas de desenhos, pela primeira vez reunidos em Paris, há 16 anos? Por vezes, a melhor maneira de nos aproximar de uma obra gigante não seria reduzir o foco de luz apenas sobre a sua parte mais significativa?
Alberto Giacometti trabalhando na Tate, em 1965. Foto de Pierre Matisse, seu marchand – Crédito: ARS, NY & DACS, Londres 2017.

Não vi e não sei se poderei ir ver esta mostra de 250 obras, entre esculturas, pinturas e desenhos, para compará-la à também imensa retrospectiva de 1991, no Museu de Arte Moderna de Paris, até hoje viva na minha memória. No entanto, sinto que qualquer retrospectiva de Giacometti, por mais completa que seja, não teria o mesmo impacto que tiveram sobre mim as duas centenas de desenhos reunidos pelo Pompidou, em Paris, em 2001.

O próprio artista acreditava que “mesmo tratando-se de escultura ou de pintura, não há senão o desenho que importa”. De fato, aquela exposição no Pompidou foi a ocasião sonhada para medir até que ponto o exercício gráfico pode ser iniciador – e até constitutivo – de outras linguagens plásticas. O que hoje, de certa forma, é esquecido por grande parte dos artistas contemporâneos.

É verdade que, na ocasião, os desenhos de Giacometti foram confrontados a vários gessos, bronzes e telas comprovando, em todo caso, que para ele “nem tudo se resumia ao traço”. Mas lembro que percorri mil metros quadrados de obras gráficas fundamentais, desde o começo “acadêmico” do artista em Stampa, perto de seu pai o pintor Giovanni Giacometti, até as linhas nervosas e cortantes dos anos 60.

Um artista que nunca teve segurança do seu risco

Nada mais árido para o público do que uma série interminável de desenhos, é claro.
Sobretudo quando não se trata de invocar o gênio sedutor de um Picasso ou de um Matisse, e sim de um artista que nunca teve segurança do seu risco, como Giacometti. Alguém, cujo desenho se baseava menos na realização do que na dificuldade ou mesmo na impossibilidade angustiante de revelar o que ele via.

Mas o carisma daquela obra gráfica era absoluto! Tínhamos o desenrolar “cinematográfico” da criação cotidiana de Giacometti, com suas interrogações, pressas, desvios, erros e verdadeiros milagres de representação da realidade. Podíamos nos interrogar sobre as diferenças entre um campo de investigação e uma expressão plenamente autônoma, pois o exercício do lápis para ele sempre foi o meio necessário, permanente, de “ver”.

Nas fases anteriores a 1945, há nos desenhos de Giacometti, a evolução da feitura tradicional por meio do cubismo que poucos conhecem, com procuras inteiramente inéditas, em direção às obras com as quais temos mais familiaridade. Em toda a trajetória do artista, testemunhamos a sua grande experiência com a história da arte e das civilizações e a imensa caminhada dentro da desmaterialização do desenho. Uma aniquilação paradoxalmente construtiva que abria o espaço da escultura e da pintura. E que – dentro do caos absoluto da realidade, da sua representação e do seu esboço – preservava assim mesmo o homem e a vida.

Alberto Giacometti desenhava o tempo todo sobre tudo

Alberto Giacometti desenhava o tempo todo sobre tudo, sem se perguntar se o tema era importante ou não. O branco da folha de papel tornava-se o lugar mais imediato, mais turbulento também, dessa tentativa sem fim de captar no espaço e na luz, a presença viva e fugidia do ser ou do objeto que estivesse à sua frente. Uma procura exigente e absoluta da “verdade” que alguns críticos conseguem comparar apenas à de Cézanne.

“É preciso segurar-se unicamente, exclusivamente, no desenho. Se o dominássemos um pouco, todo o resto seria possível”, dizia ele. Partindo dessas e outras afirmações sobre o “ver” e o “olhar”, que pontuam o seu percurso, seria possível igualmente inverter os hábitos de ver e olhar o seu próprio trabalho. Suas telas e esculturas se apresentariam, então, sobretudo como um apoio ou um complemento às problemáticas expressas nos desenhos: a matéria e o contorno, o cheio e o vazio, o testemunho e a sugestão, a presença e a falta.

Nos desenhos de juventude, nos autorretratos austeros, nos trabalhos calcados em Dürer ou em Cézanne – antes que a dúvida invadisse esse seu investimento na representação – atestamos um universo obsessivo de rostos e objetos onde a fatura gráfica o acompanha o tempo todo. O seu lápis torna-se cada vez mais fino, como a ponta seca de uma gravura ou o grafite dos mestres do passado. Cada torso, cabeça, paisagem é tramado como uma teia que, ao contrário de Matisse ou Picasso, não prende, não aperta, não define, não traz certezas nem plenitudes. Soberbos, mas vacilantes, seus riscos sugerem perspectivas, propõem limites provisórios, testemunham desordens e mutações.

A imagem que se torna consciente

A despeito de suas múltiplas facetas, entretanto, a forma em Giacometti sempre permanece. Ela subsiste em meio aos arremessos espaciais, às voltas e justaposições, às acumulações e efervescências, às interrupções e alongamentos. Nada, nenhuma circunstância abstrata, é capaz de impedir o florescimento da imagem. “Multiplicando as suas possibilidades de aparecer, Giacometti deixa o objeto a seu futuro incerto, à sua mobilidade ansiosa”, exprimiu o poeta Jacques Dupin. O resultado é o remanescente frágil e inconstante registrado no papel que Giacometti afirmava ser “a visão que fica a cada instante, a imagem que se torna consciente”.

Alberto Giacometti tinha 21 anos quando se instalou em Paris para trabalhar no ateliê de Bourdelle. O seu desenho, que já ficava entre a escultura e a gravura, se aproximou ainda mais do trabalho tridimensional do seu amigo Henri Laurens. São traçados precisos e cruéis de anatomias inventadas que estão lá quase que apenas para informar a matéria escultórica. Depois de dez anos de trabalho de imaginação, ele voltou ao desenho sobre a natureza e modelos vivos para verificar se a realidade continuava lhe “fugindo”. Ela fugia ainda mais. Daí os desenhos-pânico, os traços nervosos e espontâneos que saem do olho e não da mão. É a partir desse momento que a problemática muda do objeto para o preparo do “olhar” sobre este objeto. O desenho começa a ser um comentário de si próprio e o erro passa fazer parte do processo de criação. Uma espécie de confissão de impotência de quem não conseguirá jamais capturar nem mesmo as semelhanças do verdadeiro mundo, seja qual for a sua veracidade.

Até a próxima que agora é hoje e como com a vida, em Giacometti não existe certezas!

“Caroline”, Alberto Giacometti 1965 – Tate

 

 

 

Piza, a morte de um convicto

Arthur Luiz Piza morreu anteontem, sexta-feira, dia 26, aos 89 anos. É uma perda para a arte e também pessoal. Ele e Clelia foram, posso dizer, alguns dos poucos e estimados amigos que tive nesta cidade nos últimos 26 anos. Durante muito tempo visitei o artista em seu ateliê, estive em várias de suas exposições, acompanhei de perto a evolução do seu trabalho e compartilhei momentos alegres do casal. A última vez que os vi foi em minha própria casa, quando se preparavam para mais uma estadia em sua linda residência no Vaucluse.

 

Arthur Luiz Piza em seu ateliê, 2012 © Jeanne Bucher Jaeger

 

A história da arte é formada, sobretudo, pelos fatos e pelas ideias artísticas. Porém ela é constituída também pela persistência de certos caminhos individuais, que acabam confirmando de alguma forma os movimentos coletivos. Pois essas procuras agem não apenas como transmissoras da energia e da experiência circunstancial e pessoal desses artistas, mas principalmente como elementos dialéticos de afirmação, definição e unificação da linguagem artística no tempo e no espaço histórico.

Equilíbrio entre contenção, prazer e erudição

Percursos como o de Arthur Luiz Piza, cuja objetividade e coerência se mantêm por meio do rigor e da convicção com que o artista encarava a criação, têm um papel preponderante em nosso processo histórico-artístico. Não que seus trabalhos sejam uma ruidosa tribuna de ideias revolucionárias, um silencioso e estoico campo de éticas, um monastério para misticismos, ou um terreno visionário de esoterismos e utopias. Ao contrário, sua obra não é radical. Ela possui apenas o clássico equilíbrio entre a contenção, o prazer e a erudição. Dentro da sua materialidade e modernas (não contemporâneas) qualidades formais, é uma arte avançada e essencial, que também pode falar de perto ao espectador comum.

Algumas obras são extremamente simples, diretas, manuais, seriais. Não há truques ou ilusões. Tudo está revelado, desde o processo criativo até o resultado final. Formam modulações, ritmos, densidades e volumes diversos, por meio dos materiais, sua disposição, uma escala cromática infinita, e também por meio das distâncias, posições e sombras manipuladas por ele.

Outras parecem monótonas e cinzentas, o que não passa de uma aparência. Comparadas às conhecidas gravuras coloridas em relevo editadas pela La Hune, não são belas, vistosas ou agradáveis. Mas esta foi a maneira de Piza trabalhar: ele sempre permeava o belo com peças mais rigorosas e agressivas. Em 1977, na galeria Arte Global, Piza mostrou trabalhos despojados, propositalmente malfeitos, livres de toda concessão possível, que por sua vez já seguiam o veio da produção de 1959 e de 1974, quando expôs na Petite Galerie, em São Paulo.

Além da essencialidade, que torna o trabalho de Arthur Luiz Piza acessível ao espectador, há para ele sobretudo o grande estímulo de ser o partícipe “tátil”, visual e mental das múltiplas decisões objetivas e intuitivas do artista, e até do acaso que se origina delas. E de tomar parte, com isso, de uma linguagem abstrata, construtiva, de tradição concreta, mas hedonisticamente liberta e, portanto, viva no presente. Para sempre.

Até a próxima, que agora é hoje, dia de lembranças e tristeza!

 

Ateliê de Arthur Luiz Piza, 2012 © Jeanne Bucher Jaeger

 

 

Movimentos, sim!

(…) O Brasil é um caso notório de subdesenvolvimento partidário (…) Não iremos a lugar algum se as elites dos diversos setores não assumirem suas responsabilidades (…). Frases pescadas no artigo de Bolívar Lamounier, hoje, dia 20, no Estadão, que cita Fernando Gabeira na, também esclarecedora, matéria de ontem, dia 19. O que não está dito, como deveria, no texto do segundo e não foi acatado pelo primeiro (que afirma “não saber o que isso significa”), é que “movimentos” não são destinados a ficar ou “representar”.

Movimentos constituem apenas um primeiro passo. A sua vocação, em segundo tempo, é a sua transformação em partidos, como o “La République En Marche” (LREM), na França. Partido este que não poderia ter nascido senão de um movimento fulgurante, por meio da interação, da “troca” genuína entre seu líder e o povo.

Se, como lembra Gabeira, na década de 1980, no Brasil ou na França, as pessoas se indagavam “se os partidos não eram uma forma de organização historicamente condenada”, isso não teve, como ele deduz erroneamente, nenhuma influência (nem remota) “na forma como o atual presidente, Emmanuel Macron, se elegeu”. Ele se elegeu pois conseguiu impor a imagem de um candidato fora do sistema, portanto sem partido político, mas que assumiu plenamente a necessidade de criar o LREM, logo em seguida, com a função de fazer eleger representantes nas legislativas.

Claro que “a democracia representativa é o único modelo sério e consistente de democracia e os partidos lhe são essenciais”, como diz Lamounier. No entanto, em países que são “casos notórios de subdesenvolvimento partidário” nos quais agora “o processo de decomposição é irreversível”, podemos (e devemos) pensar em movimentos, sim.

Os valores da República francesa mudaram. Antes tínhamos “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Como “Fraternidade” não possui mais o mesmo sentido, hoje – com a atual visão de mundo – a nova divisa será “Liberdade, Igualdade e Benevolência”. Sim, adotar “benevolência” é a grande mudança que deverá orientar as gerações futuras, e não só da França. Movimentos em novos moldes, com ações participativas, à escuta real da população, podem surtir efeitos inimagináveis e terminar em partidos fortes, com formas bem definidas, em qualquer país. A prova aí está!

Até a próxima que agora é hoje, dia de lembrar que, enquanto assunto, arte e cultura só são prioridades em país vitorioso!

Como funcionou o movimento ‘En Marche!’

Foi um trabalho de proximidade. Perseverante, tranquilo, bem estudado, respeitoso do “outro”, mesmo que suas ideias fossem divergentes. Houve até mesmo programas de formação para os voluntários, que os ensinava como encarar, sem agressividade ou violência, as objeções e as propostas discordantes. Alta civilidade! Em seus meetings, Macron pediu que não se vaiasse os adversários. Sabe-se que ética e probidade começam com boa educação. Não foi o que testemunhamos até agora em nosso país.

Tudo começou com o “porta a porta”, um procedimento inédito. Foram recolhidas por voluntários, vestidos com as camisetas do movimento, 100 mil conversas sobre o cotidiano dos franceses. Enquanto isso, 400 experts em todos campos formaram grupos de trabalho. Fez-se um diagnóstico das problemáticas, iniciativas e energias, a partir da chamada “Grande Marcha” e das reflexões dos grupos de experts. Formaram-se 3 mil e 400 comitês locais, ateliês para a discussão dos temas e planos de transformação, a partir das primeiras constatações e propostas concretas.

Simultaneamente desenvolveu-se o trabalho por Internet: houve a fundação (online) do movimento e a formação de todas as redes e plataformas disponíveis, com pormenorização didática do programa, sistema simplificado de adesão, mensagens individualizadas, vídeos instantâneos, programação de eventos, “caminhadas” de conscientização do público em ruas e espaços públicos. As visitas de “porta a porta” continuaram até as eleições. Toda a informação e o resultado dos trabalhos foi convergindo à equipe próxima de Emmanuel Macron que, finalmente, pôde propor um plano definitivo de transformação do país, ou seja, um plano que partiu de baixo para cima, da forma mais democrática possível.

 

Como ‘pôr ordem’ na cultura?

O perigoso programa cultural da candidata Marine Le Pen, que quer pôr “ordem na Cultura”, foi revelado há pouco. Segundo ele, que é a imagem mesma do fascismo, “todos os criadores devem se submeter a uma ‘arte oficial’, permitida pelo Estado”. Já faz um tempo que os eleitos da Frente Nacional, partido francês da extrema-direita que concorre às eleições presidenciais no próximo domingo, dia 7, excluem certos livros das bibliotecas públicas, vandalizam obras de arte, negam subvenções às associações culturais que julgam “politizadas ou comunitárias” e também àquelas que acolhem migrantes, rejeitam a arte contemporânea e, entre várias outras coisas, expulsam jornalistas indesejados dos meetings do seu partido.

 

Olivier de Sagazan, artista performático que, no dia 29 de abril, permaneceu horas “latindo” como protesto na praça da Défense, em Paris.

Como não desenvolver temas políticos dentro da categoria “Cultura”, se um e outro são indissolúveis? Esta semana, mais de mil personalidades do mundo da cultura se reuniram na Filarmônica de Paris e mais de uma centena assinou um manifesto contra Marine Le Pen e a extrema direita. Archie Shepp, Renaud, Jeanne Moreau, Annette Messager, Valeria Bruni Tedeschi, Christian Boltanski, Cécile de France, Zazie, Karin Viard, Zabou Breitman, Laura Smet, Alexandre Chemetoff, Georges Didi-Huberman, Romane Bohringer, Catherine Frot, entre outros, denunciaram o caráter racista, antissemita, xenófobo e nacionalista de um programa cultural que defende uma identidade imutável, voltada para si mesma, e uma arte que deve servir a uma ideologia de Estado.

O vandalismo já é a prática dos políticos eleitos que representam o FN. O prefeito de Hayange pintou em azul a fonte do escultor Alain Mila porque a cor original não o agradava e ele não conseguia chamá-la de “arte”. Maréchal-Le Pen, a sobrinha de Marine Le Pen, recusa-se a subvencionar arte contemporânea. O prefeito de Luc-en-Provence tirou da programação o filme de Lucas Belvaux, “Chez nous”, simplesmente porque “o incomoda”. O diretor da Frente Nacional, candidato à prefeitura de Reims, fala abertamente sobre obras importantes, para ele “pseudo-obras que poderiam ser feitas por crianças ou animais com um pincel no rabo”. A senhora Neveux, candidata à prefeitura de Roche-sur-Yon denuncia “criadores decadentes”, à maneira dos nazistas e do que eles chamavam de “arte degenerada”, quando ela se refere a nomes reconhecidos da arte moderna. E o senhor Gollnisch, ex-vice-presidente do FN, designa “todos” os artistas contemporâneos como “gozadores grotescos que tiram dinheiro dos franceses”, dizendo que gostaria que cedessem o lugar aos que “ele julga autênticos, talentosos e modernos”.

Os eleitos do Front National excluem certos livros das bibliotecas públicas, tiram as subvenções de associações culturais julgadas “politizadas ou comunitárias” e também aquelas que acolhem migrantes, expulsam jornalistas indesejados dos meetings do seu partido. Exprimem desprezo por cineastas, autores literários, artistas plásticos, intelectuais, universitários e jornalistas que não entendem ou com os quais não concordam.

Google de Estado

Marine Le Pen no meeting de Saint-Raphael, dia 15 de março. No cartaz: “Recolocar a França em ordem, em 5 anos”. REUTERS/Jean-Paul Pelissier

E não é tudo. Na resposta feita por um representante do FN a uma organização do setor cultural, apresentou-se um projeto estruturado e metódico: a criação de um motor de procura nacional, uma espécie de “Google de Estado”(sic), cujo uso seria obrigatório, substituindo-se ao Google, e cujos critérios de procura, hierarquizados e ordenados, seriam decididos pelo “ministério da cultura”.

Cereja sobre o bolo, Marine Le Pen quer instituir um “cartão profissional” para os artistas de todas as categorias. Ora, foi o regime de Vichy que criou, pela lei de 2 de outubro de 1940, um “cartão de identidade” para os profissionais do cinema, documento que devia ser renovado a cada três meses.

No campo audiovisual, a “ordem” de Marine Le Pen compreende uma sociedade de produção nacional financiada por doações públicas. O plano é criar um orçamento anual fixado pelo Estado a partir da “taxa cultural” que seria destinada apenas aos artistas com o tal do “cartão de identidade profissional”. O ministério da cultura possuiria uma “direção da cultura francesa no Exterior”!

Se se quer recriar uma “arte oficial”, deixar o Estado escolher os seus artistas, controlar a criação cultural e amordaçar a imprensa, a opção de voto para domingo está clara.

A cultura é a condição de acesso a um pensamento livre e crítico, fora do qual não existe real cidadania. É por isso que a liberdade absoluta de criação e expressão deve ser assegurada a todos os criadores, sem exceção. Até a próxima que agora é hoje e tomara possamos preservar a irreverência e a subversão da arte, condição e garantia de liberdade e democracia!

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