‘Visões do incêndio’: a possível mostra da sucessão presidencial

Há 12 anos fui visitar a exposição “Visões do dilúvio” no museu Magnin, em Dijon. Me perguntei se o curador tinha se inspirado nas eleições brasileiras. Hoje o museu deveria estar apresentando “Visões do incêndio”.

 

Imagem: William TURNER (1775-1851). “O Incêndio na Câmara dos Lordes”(1835). Cleveland Museum of Art.

 

Em 2006, quando fui visitar a exposição “Visões do dilúvio” no museu Magnin, em Dijon, não pude deixar de me perguntar se o curador tinha se inspirado nas eleições brasileiras:

“Será que o povo que havia votado em Collor, Maluf, Clodovil, Ciro Gomes, Russomanno, ACM Neto – os cinco deputados mais votados no país – (ou aquele outro povo naïf que iria votar no “chefe da cacaria”*) estaria representado na visão premonitória das telas pré-rafaelitas?”

A minha pergunta tinha algo de ingênuo, mas continuo convencida de que aquela mostra sobre a inundação cataclísmica da superfície terrestre que está no Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, era também o preâmbulo simbólico do que iria acontecer no Brasil de hoje. Se julgarmos por esta pintura-emblema da exposição, de Jean-Baptiste Regnault, é possível que fosse um desfile do mau-gosto do renascimento até o século 19. Mas penso que o mau gosto atravessou os séculos, chegou ao século 21 e, hoje, floresce no nosso país. Hélas!

Jean-Baptiste Regnault, “O Dilúvio”, 1789 Paris, Louvre, Pinturas ©Foto RMN/Christian Jean – Na exposição “Visões do Dilúvio”.

Agora, ao lado de outras ameaças de teor igualmente incendiário feitas pelo “chefe”, quando se ouve de um pré-candidato à presidência do Brasil a “apologia ao uso de armamento de fogo, inclusive por civis”, como se isso fosse a única garantia de nossa liberdade, sendo que – segundo ele – um “Presidente tem que meter bala em vagabundo”, isto deveria inspirar ao curador do museu Magnin uma nova exposição: “Visões do incêndio”, com imagens aterrorizantes de Turner, Goya, Brueghel e tantos outros.

Sim, pois nos dois lados, esquerda e direita, trata-se no fundo de uma autorização da violência, inclusive guerra civil. Faroeste, bangue-bangue! Mentalidade arcaica de pirômanos que, é claro, não têm confiança nos poderes públicos, mas estão assoprando para ver o circo pegar fogo.

Na França, apesar de todos os problemas sociais, racismo, violência, terrorismo, etc., o porte de armas por civis é proibido desde o século 13, apenas maus cidadãos defendem o direito de possuir ou levar consigo uma arma de fogo, e na atualidade isto só é concedido se a pessoa “provar que está ‘específicamente’ em perigo”. Neste país civilizado, um apelo a “corretivos”, “exércitos”, “mortes” mas sobretudo  às “armas”, como o que foi feito ontem, dia 29, no Paraná, seria considerado “perturbação da ordem pública e social” e um pré-candidato bélico, certamente iria para a prisão.

De minha parte, a última convocação me faz pensar de imediato nas palavras de Groucho Marx: “‘inteligência militar’ é uma expressão contraditória.” Até a próxima que agora é hoje e, nessas horas, o voto certo e responsável é o mais importante de tudo!

 

*Cacaria = Grupo ou antro de ladrões. Sinônimo: quadrilha.

Francisco de Goya (1746-1828). “El Fuego en La Noche”, 1793.
Pieter Bruegel, o Velho (1525/1530 -1569). “Dulle Griet”, 1562. Musée Mayer van der Bergh, Antuérpia.

 

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Como ‘pôr ordem’ na cultura?

O perigoso programa cultural da candidata Marine Le Pen, que quer pôr “ordem na Cultura”, foi revelado há pouco. Segundo ele, que é a imagem mesma do fascismo, “todos os criadores devem se submeter a uma ‘arte oficial’, permitida pelo Estado”.

Quem fez (ou faz) galopar o Frankenstein tupiniquim?

Discute-se muito que o socialista François Mitterrand (1916-1996), presidente da França de 1981 a 1995, foi quem armou a estratégia deliberada de fortalecer a extrema-direita para desestabilizar a direita parlamentar. O galope da extrema-direita no Brasil seria igualmente fruto de “estratégia”?

O lixo e a política

Enquanto o “civilizado e polido” prefeito de São Paulo joga flores malcheirosas na rua em vez procurar uma lata de lixo, a candidata da extrema-direita à presidência da França joga mulheres na lata de lixo em vez de colocá-las na rua. O que é, onde está e para que serve uma lata de lixo, quando estamos na rua do progresso?

14 de Julho: o preço da liberdade

É a 26ª vez que assisto in loco a comemoração da queda da Bastilha e hoje particularmente também do centenário da entrada do Tio Sam na 1ª Guerra. E é a 1ª vez que vejo o Brasil, minha pátria original, nesse estado.

 

 

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Quando ataque terrorista tem a ver com o peixe

Hoje houve mais um atentado terrorista, assassinato e tomada de reféns, no sul da França, perpetrado desta vez por um franco-marroquino. Apesar de sua opacidade aparente, a questão é cristalina.

O supermercado onde faço as minhas compras desde 2015, ano do atentado de 13 de novembro, chama-se Super U. Jamais entro lá sem alguma preocupação. Aliás, jamais entro em qualquer lugar público em Paris com sentimento diferente. Hoje, houve mais um atentado terrorista, assassinato e tomada de reféns justamente no Super U, no sul da França, perpetrado desta vez por um franco-marroquino. O presidente Macron acaba de declarar em Bruxelas que o perigo do terrorismo persiste, mas agora é endógeno. Não é mais comandado do Exterior.

Apesar de sua opacidade aparente, a questão é cristalina: os jovens magrebinos se iniciam como simples delinquentes (tráfico de drogas, roubo, etc.) e são presos. Uma vez na prisão – barril de pólvora prestes a explodir, com uma população carcerária de mais de 70 mil pessoas -, são cooptados pelas redes salafistas e se radicalizam, dando continuidade ao mesmo ódio desenfreado pela França e pelos franceses. Ódio este que se prende ao passado colonial, é claro, mas também ao ostracismo que funciona como um círculo vicioso: quanto mais ódio, mais ostracismo e mais ódio. Logo tornam-se criminosos comuns podendo “eliminar” quem odeiam sob o pretexto “nobre” da causa jihadista e ainda passam por heróis aos olhos dos outros islamitas radicais.

A religião muçulmana é a mais fácil do mundo. Basta a pessoa declarar que acredita em Alá. Depois, é só alegar lealdade ao grupo Estado Islâmico (EI), gritar “Allahu Akbar” (Deus é o maior, em árabe) e, assim, maquiada e fantasiada de jihadista, cometer uma carnificina sob aura religiosa quando, na verdade, não é mais do que um pequeno facínora de periferia.

Retribuição

Hoje, sexta-feira, foi dia de peixe. Meus avós, imigrantes europeus no Brasil, jamais permitiram que comêssemos carne neste dia. Consideravam falta de respeito trair os hábitos do país cristão que os recebera, além de pensarem que era de mau gosto fazer isto diante de pessoas que, por motivos religiosos diferentes dos deles, preferiam o peixe neste dia da semana.

Esse é o meu costume até hoje, assim como ficou gravado em minha educação o forte sentido moral de “direito e dever”, segundo o qual o primeiro sempre deve se equivaler ao segundo. Em relação ao seu trabalho artístico*, a minha avó, já naturalizada brasileira, dizia:

“O que realizo é também uma forma de retribuir a este país o que ele me deu. ”

Claro que não dá para comparar, mas – penso que, em nossa época, se os muçulmanos da França pudessem ter o mesmo reconhecimento, amor e ausência de ódio, igual vontade de integração, consideração, gosto e atenção com a aculturação que os meus avós – os franceses certamente seriam mais respeitosos, tolerantes e, aqui, não teríamos chegado aonde estamos.

Até a próxima, que agora é hoje!

Vídeo Estadão: “Por que a França virou alvo de ataques?”

  • Obra escultórica que, no final da vida, Felícia Leirner doou ao governo do Estado e se encontra agora reunida no museu ao ar livre que leva o seu nome, em Campos do Jordão.


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Apesar de Sting, Paris não é mais uma festa

Romain Naufle, o apaixonado “médico dos violões”, estava no Bataclan para festejar com amigos. Morreu no dia 13 de novembro de 2015, crivado de balas dos terroristas que ensanguentaram Paris. Desde que a porta de ferro de sua lojinha permaneceu cerrada e cobriu-se de flores e mensagens, a nossa vida não é mais a mesma.

Esperando ‘Miss Liberty’, a homenagem às vítimas do terrorismo

m Paris, aguarda-se a escultura que será colocada este ano, em frente ao Palácio de Tóquio, em homenagem às vidas inocentes ceifadas pelos atentados terroristas.

14 de Julho: o preço da liberdade

É a 26ª vez que assisto in loco a comemoração da queda da Bastilha e hoje particularmente também do centenário da entrada do Tio Sam na 1ª Guerra. E é a 1ª vez que vejo o Brasil, minha pátria original, nesse estado.

De Paris ao vivo e em HD

Apareceram caminhões do exército, carros de polícia, bombeiros e ambulâncias. Enquanto alguns militares de uniforme bloqueavam as ruas e entravam nos cafés, outros avançavam com armas, e os policiais vestiam os seus coletes antibalas.

Prêmio Marcel Duchamp 2016 é atribuído a Kader Attia

O que mais surpreende neste artista franco-argelino é a sua capacidade de refletir sobre a consciência individual e coletiva num mundo em crise. O que ele faz tem talvez mais a ver com a etnologia, antropologia, geopolítica e história, do que com as artes plásticas em seu sentido tradicional. Colonização, guerras, terrorismo, religiões, ideologia, política, pintura e arquitetura são os temas que disseca com maestria.

 

 

Esperando ‘Miss Liberty’, a homenagem às vítimas do terrorismo

28A explosão no metrô de São Petersburgo, ocorrida ontem, conturba mais uma vez a nossa alma. Em várias cidades francesas, as bandeiras encontram-se a meio-mastro e, em Paris, aguarda-se a escultura que será colocada este ano, em frente ao Palácio de Tóquio, em homenagem às vidas inocentes ceifadas pelos atentados terroristas. Em novembro do ano passado, inspirado pela Estátua da Liberdade, presente da França aos Estados Unidos, o artista contemporâneo americano Jeff Koons, doou um monumental buquê de tulipas (‘Miss Liberty’) ao povo francês.
Jeff Koons, "Buquê de Tulipas"
Miss Liberty de Jeff Koons, em frente ao Palácio de Tóquio, em Paris. Uma escultura que será, segundo ele, “símbolo de que a vida continua”. Crédito: Jeff Koons, via Noirmont art production

Esta é uma das maiores esculturas realizadas pelo artista. Com 10,4 metros de altura, 8,4 metros de largura e 10,2 metros de profundidade – feita inteiramente em bronze, aço inoxidável e alumínio -, Miss Liberty, atualmente em construção na Alemanha, será instalada ainda este ano, permanentemente, na praça em frente ao Museu de Arte Moderna de Paris e ao Palácio de Tóquio. O seu custo, 3 milhões de euros, está sendo financiado por doações privadas dos Estados Unidos e da França.

“Espero que este trabalho mude a vida das pessoas”, disse Koons. “Espero que ‘Miss Liberty’ possa comunicar um sentido de futuro, otimismo, a alegria de oferecer para encontrar algo maior fora de nós mesmos”. Ele disse também que “espera que as flores dêem às famílias das vítimas, força para continuar”, acrescentando que a escultura foi inspirada nas pinturas florais de Monet, Picasso e Fragonard.

Até a próxima que agora é hoje, e a mensagem otimista de Miss Liberty representa também o compartilhamento, entre a França e os Estados Unidos, da mesma crença nos princípios universais da liberdade!

Jeff Koons, "Buquê de Tulipas"
Jeff Koons, maquete do buquê de tulipas (Miss Liberty) que se inspira na Estátua da Liberdade, um presente da França aos Estados Unidos. Crédito: Jeff Koons, via Noirmont art production

 

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Para ONU, a destruição do patrimônio cultural é ‘crime de guerra’

Com tudo que certas posições da ONU têm de contestável, o seu Conselho de segurança votou, há alguns dias, por unanimidade, uma boa decisão. Trata-se da resolução 2347, que visa reforçar a defesa dos sítios ameaçados nas zonas de conflito com os terroristas. É a primeira vez que uma determinação tão importante relativa apenas ao patrimônio cultural foi tomada por este organismo, e não vi nenhuma notícia sobre o assunto na imprensa brasileira.
Daexe
Transformado em ruína pelos terroristas do Daexe, este grande touro alado antropomorfo (XIII a.c.) era um dos “protetores” do palácio de Nimrud, capital assíria situada no sul de Mossul, no Iraque.

Dos budas de Bamiyan no Afeganistão, aos manuscritos de Tombuctu, passando por Palmira – o luxuriante oásis do deserto sírio -, os ataques deliberados contra os grandes sítios do patrimônio mundial se multiplicaram nos últimos anos.

O saque das antigas cidades devastadas pelo Daexe – Nínive, Nimrud, Hatra, antiga Mesopotâmia onde nasceram a escrita e a arquitetura monumental, cobrindo o Iraque atual em suas fronteiras, e a parte oriental da Síria, até o velho mercado de Alepo – são ataques diretos ao Homem no que diz respeito às suas raízes, memória e criação. E com um único objetivo: erradicar todos os vestígios da civilização para um retorno literal à época de Maomé.

É verdade que a adoção pela ONU, em 2015, da resolução 2199 proibindo o comércio de bens culturais do Iraque e Síria, por cinquenta estados, reforçou a legislação contra o tráfico ilícito de antiguidades. Estes compartilham os seus dados com a UNESCO, a Interpol, as alfândegas, o grupo de trabalho “Unidos a Favor da Herança”, afim de desmantelar as redes que financiam os grupos jihadistas, entre os quais os do Oriente Médio. Estes incitam às escavações selvagens, pagando os saqueadores.

Trazida a Nova York pela França e Itália, a nova proposta para a paz e segurança, por meio do patrimônio cultural e religioso, foi adotada por unanimidade. O texto pede a sua proteção em todas as zonas de conflito, sem exceção ou limitação geográfica, e para todos os tipos de ameaças (destruição, pilhagem, tráfico). Sublinha também que qualquer ataque “constituirá, segundo as leis do direito internacional, um crime de guerra”.

Até a próxima que agora é hoje e a defesa do que é cultural vai bem além da cultura. Como a vontade dos terroristas de destruir os corpos de mulheres, homens e crianças, é a mesma de aniquilar pedras, barro, museus e tesouros da humanidade – a proteção da cultura e da própria vida humana tornam-se indissolúveis!

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O Louvre ultrapassado por sua época

Quando estive na apresentação da exposição “Vermeer e os mestres da pintura de gênero” para a imprensa, no museu do Louvre, me pareceu absurda a exiguidade do espaço e a falta de antevisão museológica no caso de uma gigantesca afluência do público. Além do novo e previsível fenômeno da nossa época que é o das visitas culturais em massa, quem não gostaria de ver de perto um terço de toda a célebre obra do mestre de Delft, sobretudo a amada “Leiteira”?
Comuna de Paris, 24 de maio de 1871, incêndio no Louvre/Palácio das Tulherias
Comuna de Paris, 24 de maio de 1871, incêndio no Louvre/Palácio das Tulherias

Como as obras são de pequeno porte, ao tentar observá-las de perto – mesmo com poucas dezenas de jornalistas – cheguei a levar uma ou outra cabeçada e algumas cotoveladas. Imagino aquelas salas agora, com várias centenas de visitantes em rodízio. O resultado não poderia ser diferente. Se por um lado, em apenas alguns dias, a exposição obtém um sucesso jamais alcançado, por outro lado é uma catástrofe também inigualável!

Inventaram a fórmula do “bilhete único” por 15 euros, para ver a Mona Lisa e o resto do museu, com hora marcada para Vermeer. Não adiantou. O povo, enlouquecido, só quer Vermeer. No primeiro dia, 22 de fevereiro, 9 400 pessoas conseguiram “perceber ligeiramente” o holandês. Isso, levando muito mais cotoveladas e cabeçadas do que eu, depois de ficar em pé na fila durante 3 ou 4 horas. Mesmo as grandes exposições do passado jamais atingiram a metade deste número…

Os que conseguiram “vislumbrar” Vermeer tiveram sorte. O resto ficou na porta, mesmo tendo pago o bilhete, sem poder entrar. Até mesmo a bilheteria online teve que fechar. O público gritava, os funcionários do museu corriam de um lado para outro, sem saber o que fazer. E essa bagunça dura até hoje.

O Louvre não está pronto para o turismo desenfreado

Seguindo o exemplo da Fundação Louis Vuitton – cuja mostra “Coleção Chtchoukine” termina no domingo, dia 5, depois de ter recebido 1,2 milhões de visitantes – o Louvre prometeu que tudo entrará nos eixos no dia 6, segunda-feira. Segundo os responsáveis, com as reservas (online) de horários definidos, a espera não excederá 45 minutos. Isto, para quem conseguir um bilhete, é claro. Mas também há a possibilidade de aparecer sem reserva, correndo o risco de esperar… e não ver Vermeer.

O Louvre, que não está preparado para ataques – nem de terroristas nem de Trump (tuitando mentiras contra o museu e Paris) -, que perdeu 2 milhões de visitantes em dois anos porque 80% deles são turistas, também não está pronto para a massa.

Junto com Vermeer, inauguraram-se duas exposições maravilhosas, uma das quais roubou um enorme espaço vizinho que poderia ter sido dado aos “mestres da pintura de gênero”. Estas mostras de Valentin de Boulogne (1591- 1632) e de onze telas de Rembrandt (1606 -1669) na coleção Leiden, deveriam ter sido inauguradas em outro momento. Estão praticamente vazias e se alguém quiser visitá-las, será obrigado a passar pela mesma fila de Vermeer.

Os projetos deste museu são varridos pela voracidade por “grandes nomes” e pelo turismo desenfreado. Culpa da nossa época? Na minha opinião, culpa sobretudo deste museu que não aprendeu a lidar com ela.

Até a próxima, que agora é hoje e dá pena saber que, segundo a previsão, 400 000 verão Vermeer, quando o número de pessoas que pode acolher uma grande instituição cultural como esta, se for bem organizada e equipada, é três vezes maior!

 

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De Paris ao vivo e em HD

Em meio ao trânsito totalmente paralisado, apareceram caminhões do exército, carros de polícia, bombeiros e ambulâncias. Enquanto alguns militares de uniforme bloqueavam as ruas e entravam nos cafés, outros avançavam com armas, e os policiais vestiam os seus coletes antibalas.
Vi que um dos homens armados tirou de seu caminhão um estranho aparelho de rodinhas, uma espécie de veículo terrestre não tripulado…

As janelas da minha sala dão para uma praça bastante movimentada que distribui o tráfego, simetricamente, entre seis ruas. Como o vidro delas é duplo – exceto quando há casamentos étnicos na prefeitura, nas horas de pico ou quando um carro ou ônibus empaca e as buzinas irrompem – pode-se dizer que o ambiente fica quase silencioso.

Hoje, não era hora de rush, não havia música e ululações de emoção coletiva, veículo com problema, nem buzina. Apenas o ruído ensurdecedor de sirenes. Corri à janela. Em meio ao trânsito totalmente paralisado, apareceram caminhões do exército, carros de polícia, bombeiros e ambulâncias. Enquanto alguns militares de uniforme bloqueavam as ruas e entravam nos cafés, outros avançavam com armas, e os policiais vestiam os seus coletes antibalas. Em seguida, todos ficaram imóveis em pontos estratégicos. Os motoristas, dentro de seus veículos, provavelmente nem ousavam respirar.

Na praça, ninguém piscava!

Pensei estar presenciando uma operação bélica, entrei em pânico e o único instinto que tive foi o de ir ao quarto me enfiar debaixo do cobertor. Porém, como não havia tanques nem helicópteros, me acalmei e continuei a observar. Vi que um dos homens armados tirou de seu caminhão um estranho aparelho de rodinhas, uma espécie de veículo terrestre não tripulado. Colocou-o no chão, deu uns tapinhas no seu traseiro e este começou a rolar. Na praça, ninguém piscava!

Seguindo a trajetória que o robô começava a fazer – em linha reta, um pouco mais longe – finalmente descobri a razão de tamanha inquietação! Encostada no lixo da calçada, bem em frente ao McDonald’s, encontrava-se abandonada uma maleta rígida preta bastante grande com os bordos de metal prateado. Foi isso! Suspeita de atentado na lanchonete imperialista, cheia de gente.

Assim que o engenho teleguiado emitiu o veredicto de que nada de atroz havia dentro, o senhor caça minas aproximou-se tão despreocupado e saltitante que pegou a mala pela alça, sem olhar, como se fosse dele. No total, a operação levou 40 minutos, o objeto que não explodiu foi colocado no porta-bagagem de um dos carros de polícia, todos partiram, o trânsito voltou ao normal e eu fui tomar um café. Se tivesse explodido, os meus vidros duplos e a minha estúpida curiosidade de janela certamente teriam estourado com ele. Nada disso é ficção e comprova duas coisas:

1 – O terrorismo não destruirá a República francesa.
2 – A melhor ideia é sempre o cobertor.

Até a próxima, que agora é hoje e como dizia um célebre artista do noroeste da América do Sul, “quando a arte entra em casa, a violência vai embora”!