Esperando ‘Miss Liberty’, a homenagem às vítimas do terrorismo

28A explosão no metrô de São Petersburgo, ocorrida ontem, conturba mais uma vez a nossa alma. Em várias cidades francesas, as bandeiras encontram-se a meio-mastro e, em Paris, aguarda-se a escultura que será colocada este ano, em frente ao Palácio de Tóquio, em homenagem às vidas inocentes ceifadas pelos atentados terroristas. Em novembro do ano passado, inspirado pela Estátua da Liberdade, presente da França aos Estados Unidos, o artista contemporâneo americano Jeff Koons, doou um monumental buquê de tulipas (‘Miss Liberty’) ao povo francês.
Jeff Koons, "Buquê de Tulipas"
Miss Liberty de Jeff Koons, em frente ao Palácio de Tóquio, em Paris. Uma escultura que será, segundo ele, “símbolo de que a vida continua”. Crédito: Jeff Koons, via Noirmont art production

Esta é uma das maiores esculturas realizadas pelo artista. Com 10,4 metros de altura, 8,4 metros de largura e 10,2 metros de profundidade – feita inteiramente em bronze, aço inoxidável e alumínio -, Miss Liberty, atualmente em construção na Alemanha, será instalada ainda este ano, permanentemente, na praça em frente ao Museu de Arte Moderna de Paris e ao Palácio de Tóquio. O seu custo, 3 milhões de euros, está sendo financiado por doações privadas dos Estados Unidos e da França.

“Espero que este trabalho mude a vida das pessoas”, disse Koons. “Espero que ‘Miss Liberty’ possa comunicar um sentido de futuro, otimismo, a alegria de oferecer para encontrar algo maior fora de nós mesmos”. Ele disse também que “espera que as flores dêem às famílias das vítimas, força para continuar”, acrescentando que a escultura foi inspirada nas pinturas florais de Monet, Picasso e Fragonard.

Até a próxima que agora é hoje, e a mensagem otimista de Miss Liberty representa também o compartilhamento, entre a França e os Estados Unidos, da mesma crença nos princípios universais da liberdade!

Jeff Koons, "Buquê de Tulipas"
Jeff Koons, maquete do buquê de tulipas (Miss Liberty) que se inspira na Estátua da Liberdade, um presente da França aos Estados Unidos. Crédito: Jeff Koons, via Noirmont art production

 

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Para ONU, a destruição do patrimônio cultural é ‘crime de guerra’

Com tudo que certas posições da ONU têm de contestável, o seu Conselho de segurança votou, há alguns dias, por unanimidade, uma boa decisão. Trata-se da resolução 2347, que visa reforçar a defesa dos sítios ameaçados nas zonas de conflito com os terroristas. É a primeira vez que uma determinação tão importante relativa apenas ao patrimônio cultural foi tomada por este organismo, e não vi nenhuma notícia sobre o assunto na imprensa brasileira.
Daexe
Transformado em ruína pelos terroristas do Daexe, este grande touro alado antropomorfo (XIII a.c.) era um dos “protetores” do palácio de Nimrud, capital assíria situada no sul de Mossul, no Iraque.

Dos budas de Bamiyan no Afeganistão, aos manuscritos de Tombuctu, passando por Palmira – o luxuriante oásis do deserto sírio -, os ataques deliberados contra os grandes sítios do patrimônio mundial se multiplicaram nos últimos anos.

O saque das antigas cidades devastadas pelo Daexe – Nínive, Nimrud, Hatra, antiga Mesopotâmia onde nasceram a escrita e a arquitetura monumental, cobrindo o Iraque atual em suas fronteiras, e a parte oriental da Síria, até o velho mercado de Alepo – são ataques diretos ao Homem no que diz respeito às suas raízes, memória e criação. E com um único objetivo: erradicar todos os vestígios da civilização para um retorno literal à época de Maomé.

É verdade que a adoção pela ONU, em 2015, da resolução 2199 proibindo o comércio de bens culturais do Iraque e Síria, por cinquenta estados, reforçou a legislação contra o tráfico ilícito de antiguidades. Estes compartilham os seus dados com a UNESCO, a Interpol, as alfândegas, o grupo de trabalho “Unidos a Favor da Herança”, afim de desmantelar as redes que financiam os grupos jihadistas, entre os quais os do Oriente Médio. Estes incitam às escavações selvagens, pagando os saqueadores.

Trazida a Nova York pela França e Itália, a nova proposta para a paz e segurança, por meio do patrimônio cultural e religioso, foi adotada por unanimidade. O texto pede a sua proteção em todas as zonas de conflito, sem exceção ou limitação geográfica, e para todos os tipos de ameaças (destruição, pilhagem, tráfico). Sublinha também que qualquer ataque “constituirá, segundo as leis do direito internacional, um crime de guerra”.

Até a próxima que agora é hoje e a defesa do que é cultural vai bem além da cultura. Como a vontade dos terroristas de destruir os corpos de mulheres, homens e crianças, é a mesma de aniquilar pedras, barro, museus e tesouros da humanidade – a proteção da cultura e da própria vida humana tornam-se indissolúveis!

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O Louvre ultrapassado por sua época

Quando estive na apresentação da exposição “Vermeer e os mestres da pintura de gênero” para a imprensa, no museu do Louvre, me pareceu absurda a exiguidade do espaço e a falta de antevisão museológica no caso de uma gigantesca afluência do público. Além do novo e previsível fenômeno da nossa época que é o das visitas culturais em massa, quem não gostaria de ver de perto um terço de toda a célebre obra do mestre de Delft, sobretudo a amada “Leiteira”?
Comuna de Paris, 24 de maio de 1871, incêndio no Louvre/Palácio das Tulherias
Comuna de Paris, 24 de maio de 1871, incêndio no Louvre/Palácio das Tulherias

Como as obras são de pequeno porte, ao tentar observá-las de perto – mesmo com poucas dezenas de jornalistas – cheguei a levar uma ou outra cabeçada e algumas cotoveladas. Imagino aquelas salas agora, com várias centenas de visitantes em rodízio. O resultado não poderia ser diferente. Se por um lado, em apenas alguns dias, a exposição obtém um sucesso jamais alcançado, por outro lado é uma catástrofe também inigualável!

Inventaram a fórmula do “bilhete único” por 15 euros, para ver a Mona Lisa e o resto do museu, com hora marcada para Vermeer. Não adiantou. O povo, enlouquecido, só quer Vermeer. No primeiro dia, 22 de fevereiro, 9 400 pessoas conseguiram “perceber ligeiramente” o holandês. Isso, levando muito mais cotoveladas e cabeçadas do que eu, depois de ficar em pé na fila durante 3 ou 4 horas. Mesmo as grandes exposições do passado jamais atingiram a metade deste número…

Os que conseguiram “vislumbrar” Vermeer tiveram sorte. O resto ficou na porta, mesmo tendo pago o bilhete, sem poder entrar. Até mesmo a bilheteria online teve que fechar. O público gritava, os funcionários do museu corriam de um lado para outro, sem saber o que fazer. E essa bagunça dura até hoje.

O Louvre não está pronto para o turismo desenfreado

Seguindo o exemplo da Fundação Louis Vuitton – cuja mostra “Coleção Chtchoukine” termina no domingo, dia 5, depois de ter recebido 1,2 milhões de visitantes – o Louvre prometeu que tudo entrará nos eixos no dia 6, segunda-feira. Segundo os responsáveis, com as reservas (online) de horários definidos, a espera não excederá 45 minutos. Isto, para quem conseguir um bilhete, é claro. Mas também há a possibilidade de aparecer sem reserva, correndo o risco de esperar… e não ver Vermeer.

O Louvre, que não está preparado para ataques – nem de terroristas nem de Trump (tuitando mentiras contra o museu e Paris) -, que perdeu 2 milhões de visitantes em dois anos porque 80% deles são turistas, também não está pronto para a massa.

Junto com Vermeer, inauguraram-se duas exposições maravilhosas, uma das quais roubou um enorme espaço vizinho que poderia ter sido dado aos “mestres da pintura de gênero”. Estas mostras de Valentin de Boulogne (1591- 1632) e de onze telas de Rembrandt (1606 -1669) na coleção Leiden, deveriam ter sido inauguradas em outro momento. Estão praticamente vazias e se alguém quiser visitá-las, será obrigado a passar pela mesma fila de Vermeer.

Os projetos deste museu são varridos pela voracidade por “grandes nomes” e pelo turismo desenfreado. Culpa da nossa época? Na minha opinião, culpa sobretudo deste museu que não aprendeu a lidar com ela.

Até a próxima, que agora é hoje e dá pena saber que, segundo a previsão, 400 000 verão Vermeer, quando o número de pessoas que pode acolher uma grande instituição cultural como esta, se for bem organizada e equipada, é três vezes maior!

 

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De Paris ao vivo e em HD

Em meio ao trânsito totalmente paralisado, apareceram caminhões do exército, carros de polícia, bombeiros e ambulâncias. Enquanto alguns militares de uniforme bloqueavam as ruas e entravam nos cafés, outros avançavam com armas, e os policiais vestiam os seus coletes antibalas.
Vi que um dos homens armados tirou de seu caminhão um estranho aparelho de rodinhas, uma espécie de veículo terrestre não tripulado…

As janelas da minha sala dão para uma praça bastante movimentada que distribui o tráfego, simetricamente, entre seis ruas. Como o vidro delas é duplo – exceto quando há casamentos étnicos na prefeitura, nas horas de pico ou quando um carro ou ônibus empaca e as buzinas irrompem – pode-se dizer que o ambiente fica quase silencioso.

Hoje, não era hora de rush, não havia música e ululações de emoção coletiva, veículo com problema, nem buzina. Apenas o ruído ensurdecedor de sirenes. Corri à janela. Em meio ao trânsito totalmente paralisado, apareceram caminhões do exército, carros de polícia, bombeiros e ambulâncias. Enquanto alguns militares de uniforme bloqueavam as ruas e entravam nos cafés, outros avançavam com armas, e os policiais vestiam os seus coletes antibalas. Em seguida, todos ficaram imóveis em pontos estratégicos. Os motoristas, dentro de seus veículos, provavelmente nem ousavam respirar.

Na praça, ninguém piscava!

Pensei estar presenciando uma operação bélica, entrei em pânico e o único instinto que tive foi o de ir ao quarto me enfiar debaixo do cobertor. Porém, como não havia tanques nem helicópteros, me acalmei e continuei a observar. Vi que um dos homens armados tirou de seu caminhão um estranho aparelho de rodinhas, uma espécie de veículo terrestre não tripulado. Colocou-o no chão, deu uns tapinhas no seu traseiro e este começou a rolar. Na praça, ninguém piscava!

Seguindo a trajetória que o robô começava a fazer – em linha reta, um pouco mais longe – finalmente descobri a razão de tamanha inquietação! Encostada no lixo da calçada, bem em frente ao McDonald’s, encontrava-se abandonada uma maleta rígida preta bastante grande com os bordos de metal prateado. Foi isso! Suspeita de atentado na lanchonete imperialista, cheia de gente.

Assim que o engenho teleguiado emitiu o veredicto de que nada de atroz havia dentro, o senhor caça minas aproximou-se tão despreocupado e saltitante que pegou a mala pela alça, sem olhar, como se fosse dele. No total, a operação levou 40 minutos, o objeto que não explodiu foi colocado no porta-bagagem de um dos carros de polícia, todos partiram, o trânsito voltou ao normal e eu fui tomar um café. Se tivesse explodido, os meus vidros duplos e a minha estúpida curiosidade de janela certamente teriam estourado com ele. Nada disso é ficção e comprova duas coisas:

1 – O terrorismo não destruirá a República francesa.
2 – A melhor ideia é sempre o cobertor.

Até a próxima, que agora é hoje e como dizia um célebre artista do noroeste da América do Sul, “quando a arte entra em casa, a violência vai embora”!