Mulheres: como querer igualdade sem aceitar diferenças?

Quando revelei a historieta e conclusão deste post a um amigo, ele ficou na dúvida.
– “Mas… o seu blog não é sobre arte?”
“Sim”, respondi, “porém, a arte, nós não saberíamos o que ela é se não fosse a vida e… vice-versa!”
Manifestação em Paris
“Não me libere. Faço isso sozinha.” Manifestação em Paris hoje, dia 8, quarta-feira. Remy Gabalda/AFP

Há 25 anos encontrei, pela primeira vez, a vizinha do terceiro andar do prédio onde moro até hoje. Psicanalista e psiquiatra, casada com um sociólogo do CNRS (“Centro Nacional da Pesquisa Científica”), pertencíamos à mesma geração.

Para a minha surpresa, após alguns minutos de conversa, ela confessou que “era uma mulher traída”. Tinha descoberto que “o seu marido mantinha uma relação extraconjugal há vários meses” com uma colega de trabalho. Não entendi a razão da revelação, uma vez que os franceses são extremamente discretos, jamais trocam intimidades, sobretudo quando acabam de conhecer uma pessoa.

Depois, por intuição, recusei o seu convite para um café e continuei, por um quarto de século, sem saber o motivo daquela confissão, sendo que cada vez que os via sentia o desprazer dessa “cumplicidade” não desejada.

O insight aconteceu há pouco. Eu assistia a um filme que não tinha nada a ver mas que, de certa maneira, deve ter mexido em algum neurônio. Posso estar errada, porém finalmente a ficha caiu: ela ficou com medo que o seu marido e a nova vizinha (eu) mesmo casada, tivessem um caso amoroso! Contando-me rapidamente que ele possuía uma amante, ela esperava neutralizar qualquer esperança que porventura eu – que não era de jogar fora – pudesse nutrir…

Muitas traem os maridos, poucas atraiçoam as ‘melhores amigas’

Nada de novo sobre a terra, afinal. Quem não conhece aquela tática, unicamente feminina, que consiste em ficar “amiga íntima do perigo iminente”? Muitas mulheres podem trair maridos, poucas são capazes de atraiçoar as “melhores amigas”. É por isso que,  na maior parte dos casos, a manobra funciona.

Aqui, a estratégia foi diferente. Tão perversa e inimaginável por mim, que só a decifrei agora, na maturidade. Junto com outro estalo. O fato de que este insidioso recurso de uma mulher, jamais teria sido usado por um homem.

Sim, porque o marido sociólogo infiel dela certamente nunca teria se aproximado do meu para dizer que era um “homem traído”. Que tinha descoberto que a sua mulher psicanalista “mantinha uma relação extraconjugal há vários meses”, de modo que o seu vizinho – que também não era de jogar fora –  não pudesse mais se interessar por ela. Enfim, nenhum dos dois usaria este tipo de estratagema… tipicamente feminino!

Sou pela igualdade de oportunidades, não pela igualdade entre os sexos

Penso que tudo deve estar aberto às mulheres: carreiras, posições, TUDO! E também a liberdade de escolher a vida e as paixões que quiserem. Mas sou pela paridade de oportunidades e salários – sempre contra o machismo, a violência e o assédio, é claro -, não pela uniformidade de resultados e muito menos pela igualdade entre os sexos que, a meu ver, é impossível.

A diferença enriquece. A igualdade depaupera. Tanto quanto na relação entre nativos e imigrantes em um país, a alteridade é fonte de riqueza. Quando uma mulher “quer ser como um homem”, sem que os problemas de gênero se imponham, ela se desnatura. Quando provoca artificialismos de “solidariedade feminina” ela se empobrece. E quando escolhe apenas outras mulheres para se relacionar, como se fossem espelhos, deixa inexoravelmente de se ver.

Até a próxima que agora é hoje, dia internacional das mulheres que querem – e com razão – os mesmos direitos, porém só alcançarão esta meta quando começarem a aceitar as suas (colossais) diferenças!

 

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A morte de Jean Baudrillard não aconteceu

Uma década sem este filósofo francês e teórico da sociedade contemporânea são dez anos sem luz sobre assuntos que continuam a nos preocupar. Criativo, irônico, radical, ele foi o pensador dos fenômenos extremos. Abandonava toda pretensão crítica, ilusão dialética e esperança racional, entrando – à imagem do mundo – em “fase paradoxal”. O que lhe valia a desconfiança e, às vezes, ódio da parte politicamente correta e intelectualmente anacrônica dos meios universitários na França. Mas fazia crescer, cada vez mais, a admiração de aficionados no mundo inteiro. Que falta Baudrillard faz, que lacuna nos deixa!
Lançamento da antologia de ensaios sobre a obra de Baudrillard no Cahiers de l’Herne
Lançamento da antologia de ensaios sobre a obra de Baudrillard no Cahiers de l’Herne, 11 de fevereiro de 2005. No cavalete, a famosa poltrona vermelha do filósofo, em foto do próprio Jean Baudrillard.

Jean Baudrillard (1929-2007) morreu no dia 6 de março, há exatamente 10 anos. Quando a notícia apareceu nas “atualidades”, antes que eu fosse avisada pela mulher dele, chorei muito porém, não consegui realizar. Da mesma maneira como não pude admitir que ele estava doente quando o vi mudado, em tão curto espaço de tempo, durante o lançamento da antologia de ensaios sobre a sua obra no Cahiers de l’Herne dois anos antes. Para mim, era impossível aceitar que uma pessoa que eu amava, grande pensador, talvez um dos maiores de nossa era, estava de fato “à beira da morte”. Mesmo enquanto crítica e jornalista, eu me recusava a fazer o seu necrológio antecipado. Não queria fazer o seu necrológio em geral!

Baudrillard possuía a violência do paroxismo e o charme discreto da indiferença. O justo balanço entre os extremos. Lá onde brilha um vislumbre de desespero. Lembro que pouco mais de uma década antes da sua morte, tão rápido e avassalador quanto “A Guerra do Golfo Não Aconteceu” e “A Ilusão do Fim”, acabava de cair no mercado editorial francês o seu mais recente míssil: “O Crime Perfeito”, livro brilhante que recomeçava a pedir esforço da inteligência francesa.

A vida póstuma de um ‘criminoso perfeito’

Eu poderia falar sobre outros “projéteis” que vieram antes ou depois. Não todos, ele escreveu mais de 40. Lembro apenas dos que me fizeram convidá-lo à Bienal de São Paulo, em 1987, e dos que ele publicou em seguida. Guardo na memória especialmente “O Crime Perfeito”, assim como a sua imagem, quando veio ao Brasil pela primeira vez. Ele entrou em meu escritório como um leão à contragosto, talvez porque a arte, sobretudo a contemporânea, nunca foi a sua “taça de chá”. E mesmo assim, ou talvez justamente por causa disto, Jean Baudrillard foi o seu profeta!

A contragosto ou não, leão ele era. Personalidade de leão ele tinha. Com a cabeça grande demais em proporção ao resto de seu corpo, a testa alta, os olhos claros, vivos e a vasta cabeleira, físico de leão ele possuía! Altivo e sereno ele foi.

“O Crime Perfeito” é uma antologia de 21 ensaios, em sua maior parte inéditos, costurados em torno de uma só ideia: a história de um crime – o assassinato da realidade e a exterminação de uma ilusão – a ilusão vital, radical, do mundo, pela hiper-realidade. Segundo Baudrillard, “o real não desaparece na ilusão, é a ilusão que desaparece na realidade integral”.

Crime sem arma e sem cadáver

Mas aquele não foi um crime perfeito. No “policial” de Baudrillard, não se encontram os moventes ou os autores do desaparecimento do real. Nem o próprio cadáver é descoberto. E a arma deste crime inexplicável e sem atenuantes, que é a ideia que preside o livro, esta também nunca é achada.

Se as consequências do crime são perpétuas, isto quer dizer que não há assassino nem vítima. Ou melhor, que um e outro se confundem. Em última análise, de acordo com Baudrillard, “o objeto e o sujeito são um só. Nós não podemos seguir a essência do mundo se não seguirmos, em toda sua ironia, a verdade desta equivalência radical”.

Assim, no livro, o mundo caminha em direção à sua “perfeição” por meio da “Alta Definição” de tudo, o que sempre corresponde à baixa definição de seus significados. Como se as coisas tivessem engolido o seu espelho. No lugar de estar ausentes de si mesmas na ilusão, elas são forçadas a se inscrever sobre milhares de telas das quais desapareceu não apenas o real, mas a imagem.

A realidade foi expulsa da realidade. O tempo foi afastado pelo “Tempo Real”, a música pela “Alta Fidelidade”, o sexo pela “Pornografia”, o pensamento pela “Inteligência Artificial”, a linguagem pela “Linguagem Numérica”, o corpo pelo “Código Genético” e “Genoma”, o rosto pela “Cirurgia Estética”, o mundo pela “Realidade Virtual”, a alteridade pela “Comunicação Perpétua”. E nós, como seres “reais”, graças a esse “crime perfeito” do qual fala Baudrillard, no futuro poderemos ser enxotados pela simples “Clonagem de Células individuais”.

Até a próxima que agora é hoje, “keep calm and carry on”!

 

Lançamento da antologia de ensaios sobre a obra de Baudrillard no Cahiers de l’Herne
Jean Baudrillard, no lançamento da antologia de ensaios sobre a sua obra no Cahiers de l’Herne, 11 de fevereiro de 2005, dois anos antes de sua morte.

 

Lançamento da antologia de ensaios sobre a obra de Baudrillard no Cahiers de l’Herne.
Lançamento da antologia de ensaios sobre a obra de Baudrillard no Cahiers de l’Herne, 11 de fevereiro de 2005. Vitrina com algumas publicações recentes.: Borges, Vargas Llosa, Steiner, Lévi-Strauss, Derrida, etc.

 

Megumi Satsu (1948-2010)  薩 めぐみ “en concert” no Bataclan, em 1984. A letra da primeira canção, “Motel Suicide”, é de Jean Baudrillard.

 

Realizei quatro entrevistas com Jean Baudrillard, das quais publico três aqui, em versões diferentes:
Entrevista com Jean Baudrillard , 1995 – Estadão – Arquivo
Entrevista com Jean Baudrillard , 1997 – Estadão – Arquivo 1
Entrevista com Jean Baudrillard , 1997 – Estadão – Arquivo 2
Entrevista com Jean Baudrillard , 1997 – Estadão – Completa
Entrevista com Jean Baudrillard, 1999 – Revista “Bravo!” – Completa