Ultracrepidanismo, a arte de falar sobre o que não sabemos

Ultracrepidanismo é a palavra do momento. Significa falar e dar opinião sobre assuntos para os quais não somos habilitados. Em período de crise sanitária, define este comportamento cada vez mais frequente, especialmente nas redes sociais, influenciado por políticos ultracrepidanistas como o atroz presidente brasileiro que tentou convencer até mesmo uma ema do Palácio Alvorada, dos efeitos miraculosos da cloroquina. Efeitos estes, desmentidos pela Organização Mundial da Saúde. Alguns são mais ultracrepidanistas – como o irresponsável palhaço da ema que não foi vacinado, certos personagens midiáticos, políticos, pseudomédicos e pseudocientistas – outros são menos. Mas, basicamente, não seríamos todos um pouco?

A arte de falar sobre o que não sabemos

Hoje, todo mundo tem uma opinião sobre tudo. Umberto Eco (1932 – 2016)  escreveu: “as mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. As pessoas os mandavam calar a boca, mas agora têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel.”

Desde o início da pandemia, vimos nas redes sociais o florescimento de posts e comentários de pessoas midiatizadas ou não, que começam com “eu não sou médico, mas…” seguido por uma série de injunções ou, em todo caso, por uma saraivada de opiniões diversas e absurdas sobre a situação sanitária. A palavra é antiga mas traduz um fenômeno contemporâneo.

Sutor ne supra crepidam!

A origem deste termo raro, difícil de pronunciar sem tropeçar, está na frase latina Sutor ne supra crepidam que significa, literalmente, “sapateiro, não (vá) além da sandália!”, ou seja, “limite-se a falar sobre o que você realmente sabe”.

A narrativa encontra-se no livro 35 da Naturalis Historia de Plínio, o Velho. Através desta enciclopédia monumental que era considerada uma referência em matéria de ciência e técnica, Plínio contava uma série de anedotas, sendo que uma delas era justamente sobre o ultracrepidanismo.

Nesta obra famosa, Plínio conta que o célébre pintor Apeles, de Kos, contemporâneo e amigo de Alexandre, o Grande, pintava uma bela mulher em seu estúdio, quando seu sapateiro (em latim, sutor) aproximou-se da tela e assinalou um erro na representação de uma sandália (crepida, em latim; krepis em grego). Apeles corrigiu a pintura imediatamente. No dia seguinte, o sapateiro, encorajado por sua audácia, veio fazer outras observações, uma das quais referindo-se à forma como o artista havia pintado a perna e a túnica de sua personagem. A ousadia lhe valeu uma contundente resposta:

“Sutor, ne supra crepidam!” ( “sapateiro, não além da sandália!”) exclamou o pintor, subentendendo que um indivíduo especialista apenas em calçados não devia dar nenhuma opinião além daquela sobre a qual tinha autoridade.

A réplica tornou-se um provérbio.

Ignorância gera autoconfiança

O ultracrepidanismo foi descrito em 1891 por Charles Darwin (1809-1882)  como exemplo de que a ignorância gera mais frequentemente autoconfiança do que o conhecimento. Fenômeno também conhecido sob o nome do efeito que causa o excesso de confiança em si, ou seja, efeito Dunning-Kruger, em homenagem aos dois cientistas que pesquisaram o assunto. Todos conhecemos alguém com essa superioridade ilusória. Eu, por exemplo, tenho uma amiga que acha que é médica. O último remédio que me “receitou”, a minha (verdadeira) médica proibiu.

Este é um assunto que interessa particularmente o físico e doutor em filosofia da ciência, Étienne Klein que, no ano passado, escreveu dois pequenos livros para a coleção Tracts de Gallimard: O gosto do verdadeiro e Eu não sou médico mas eu…  questionando precisamente o lugar da ciência em nossa sociedade, e sobretudo a sua relação com a política.

Até a próxima, que agora é hoje e a pergunta Klein é “quando, de um lado, a ignorância está no poder – de outro, os argumentos das ‘falsas autoridades’ esmagam tudo em sua passagem – e a credibilidade da pesquisa repousa sobre a força dos ‘eventos’ e da ‘opinião’, como guardar o gosto do verdadeiro, aquele de descobrir, aprender e compreender?”

“A história de Apeles e do sapateiro”, na Casa de Vasari em Florença.
“A história de Apeles e do sapateiro”, Vasari © Todos os direitos reservados

Arte menstrual para o presidente

Vejo pessoas indignadas, apontando a desumanidade do veto à distribuição gratuita de absorventes a mulheres que sofrem com a pobreza menstrual. Não há como não ficar indignado. Porém, para não permanecer na ingenuidade, é preciso ir além da indignação e da repulsa epidérmica. Mais do que nunca, é urgente entender que o que está por trás dos fatos, vai bem além do horror que se julga em superfície.

Chiharu SHIOTA (1972). “Me Somewhere Else”, instalação de 2018, Londres.

Além do horror

Não há nada de espontâneo ou simplesmente “desumano e maldoso” em desprezar e tolher os pobres, as mulheres, todas as minorias. Não é por acaso que o atroz presidente brasileiro coloca-se continuamente na condição de “réu” por crime de responsabilidade, atos incompatíveis aos compromissos que possui com a nação.

Cada gesto dele e de seu governo é perfeitamente calculado, faz parte de uma única estratégia publicitária. Tanto vetar (no caso de absorventes necessários) quanto impor (no caso de tratamentos desnecessários) é PROPAGANDA. Duplamente eficaz – assim como ocorre com o Estado Islâmico, que visa recrutar novos militantes galvanizados pela brutalidade do grupo – esta propaganda também pretende atingir e inflamar o seu “gado”.

Tão cinicamente quanto aqueles terroristas, a extrema-direita brasileira aposta não somente no temor de seus inimigos, mas, a longo prazo, em sua reação: a violência da esquerda não poderá senão reconfortar a retrógrada e sempre conveniente fobia do “comunismo”. E justificar, depois, o seu combate pelas armas.

A extrema-direita anticonstitucional – aquela que nega o Estado laico com o hipócrita “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos” – constrói a grande estratégia de tensão para mergulhar o país numa barbárie sem fim.

Até a próxima, que agora é hoje e já sabemos que Marine Le Pen perderá as eleições francesas em 2022. O seu pai tinha razão. Quando Jean-Marie Le Pen viu a filha “desdiabolizar” o partido, ele afirmou: “uma extrema-direita boazinha não interessa a ninguém!”

‘ARTE MENSTRUAL’ PARA O PRESIDENTE

 

Cinco contas Instagram celebram a menstruação, uma estação de metrô na Finlândia expõe esta arte e, no mundo inteiro, centenas de artistas, militantes feministas ou não, criam em torno do assunto. Veja a galeria:

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

11 de setembro: o que a arte pode dizer 20 anos depois?

O mundo ocidental, tocado e terrivelmente ameaçado pelo estado das coisas no Afeganistão – com o terrorismo evoluindo no âmago daquele país – reverencia a memória de suas vítimas. A nossa vida, no Brasil igualmente, não é mais a mesma depois desta data. Embora o governo brasileiro atual, presidido por um atroz alienado, não possa nos significar isto em nenhum momento, intimamente sabemos que temos uma responsabilidade e uma solidariedade a assumir, até o fim de nossas existências. O que a arte pode dizer, 20 anos depois?

Manju Shandler – AFP / William EDWARDS / Getty Images

Enquanto os Estados Unidos comemoram o 20° aniversário de um dos dias mais traumáticos do mundo ocidental, o extraordinário Memorial & Museu Nacional do 11 de Setembro em Nova York exibe um acervo histórico e didático para que os atos terroristas hediondos não sejam esquecidos. Conta os fatos daquele dia e das pessoas que o viveram ou foram mortas ali, no mesmo espaço do antigo World Trade Center. O museu já foi visitado por milhões de pessoas.

A instituição apresenta também exposições temporárias, renovando o interesse dos visitantes, como as de obras criadas em resposta à tragédia. Reuniu, por exemplo, vários artistas nova-iorquinos que, através das lentes da linguagem artística, refletem de maneira íntima e contemplativa, sobre a emoção bruta que experimentaram naquela inesquecível terça-feira de 2001.

Os trabalhos oferecem um outro modo de lembrar as emoções provocadas pelos sinistros acontecimentos nos quais morreram quase 3 mil pessoas. São pinturas, instalações, vídeos e escultura de artistas que, de uma maneira ou de outra, viveram o atentado. Um deles, Christopher Saucedo, perdeu até mesmo um de seus dois irmãos, ambos bombeiros, cujo corpo jamais foi encontrado.

“WTC como uma nuvem”,” série de Christopher Saucedo.

A arte traz um sentimento de empatia, não fala à mesma parte do cérebro

Que não se espere ver nestes trabalhos, entretanto, telas violentas ou representações assustadoras. A arte, quando é arte, sempre traça o seu caminho transcendendo o mimetismo, excedendo o realismo, o que por vezes é ainda mais contundente do que a realidade. E é a única forma, talvez, de aprisionar a história e apaziguar o sofrimento.

O artista Ejay Weiss, por exemplo, utilizou as cinzas do “Ground Zero” para incorporá-las em pinturas que sublimam o caos com um centro quadrado onde se vê o céu azul. Esta é a imagem que todos guardamos: cinzas e céu.

Ejay Weiss

Manju Shandler, para quem “a arte traz um sentimento de empatia, não fala à mesma parte do cérebro”, no dia seguinte ao atentado já começara a pintar pequenas telas para representar cada uma das vítimas. A artista pintou todas elas, das quais 850 foram montadas em um afresco no museu. “A arte permite ressentir imediatamente a verdade emocional de um instante passado”, disse ela.

Foram exibidos centenas de trabalhos e um vídeo coletivo pungente do grupo Blue Man, inspirado pelas folhas de papel, cartas e documentos que voaram desde o World Trade Center até o pátio de seu ateliê no Brooklin. Há vinte anos, cada um de nós, tanto quanto os artistas presentes, viveu de forma profunda este ataque à integridade do Ocidente. Mas só os artistas tiveram a chance de exprimir tal comoção.

Até a próxima que agora é hoje e, quando a dor não pode mais ser descrita por palavras, felizmente restam as imagens que a exprimem, libertam e purificam!

“Mulher Caindo”, trabalho de Eric Fischl no Memorial & Museu Nacional do 11 de setembro.