Despede-se Ai Weiwei, o artista que põe em xeque a ordem social

Não deixa de ser simbólico que o célebre contestatário chinês, artista crítico que põe em cheque a ordem social, deixe o nosso país praticamente no momento em que se inicia um governo oposto a tudo que representa a sua arte. Um governo conservador, ‘quimicamente puro’ (como afirma a historiadora Armelle Enders), ultranacionalista, antiglobalização, anti-multilateralismo, anti-clima. É possível que Ai Weiwei, depois de passar pelas agruras do regime totalitário de seu país, possa até mesmo achar ‘coerente’ que o ministro brasileiro das Relações Exteriores defenda e corteje o modelo chinês. Hoje, 20, é o último dia de ‘Raiz Weiwei’, exposição de 70 trabalhos na Oca (Parque Ibirapuera).

Imagem: “Straight”, impressionante instalação de Ai Weiwei realizada com restos de escolas destruídas por um terremoto em Sichuan. © Nelson Almeida / AFP

Mas quem é Ai Weiwei realmente?

Em 1980 ele descobriu Nova York. A sua formação artística havia terminado na China, país onde dominava o realismo socialista importado da União Soviética nos anos 50. Evidentemente, tornou-se bulímico de tudo que lhe havia sido proibido. Frequentou o mundo da arte e cultura ocidental e assimilou, com voracidade imensa, obras e artistas americanos e europeus de toda a metade do século 20. Não contente com isso, voltou à China e publicou três livros sobre arte contemporânea para compartilhar com os seus compatriotas tudo o que havia aprendido em 13 anos.

Entre as suas descobertas estava um artista ao qual ele prestou, e presta ainda, homenagens explícitas: Marcel Duchamp (1887-1968). Impossível entender Ai Weiwei sem pensar nos ready-made – aqueles objetos tirados do contexto que viravam arte – nas atitudes provocantes, declarações enigmáticas e satíricas, e também no tom geral de insolência e liberdade do artista francês. Entre Ai Weiwei e Duchamp, a relação é evidente – até mesmo no caso das fotos do artista chinês com as jovens nuas.

Por outro lado, Duchamp sempre afirmou ser indiferente à política. E aí é que eles se distanciam. Ai Weiwei declarou numa entrevista ao jornal Libération: “Não sou mais verdadeiramente eu, mas uma mídia carregada de mensagem”. Diz ele: “Vim para a arte pois quis escapar de outros limites da sociedade. A sociedade inteira é tão política que a ironia é que a minha arte se torna cada vez mais política.”

Não me admiraria se Ai Weiwei se inspirasse em ‘Brasil acima de tudo, Deus acima de todos’

O artista quer que as suas obras sejam compreendidas como alusões ou alegorias. A sua arte é crítica. Põe em xeque a ordem social. Reinventa Duchamp, usando-o de maneira política e, portanto, simbólica. E nisso, aproxima-se de muitos outros artistas e dos cyber ativistas igualmente. Os seus censores sentiram isso muito bem, tanto que ele continuou a ser reprimido por muito tempo, até deixar o seu país.

Há menos de uma década se insurgiu contra a contínua vigilância que lhe era imposta. Com a criatividade que lhe é peculiar e os meios que possuía, este “dissidente” sediado em Pequim, respondeu com 4 webcam em lugares estratégicos, na mais estrita intimidade do seu apartamento. Mas esta “instalação” ligada à Internet – metáfora do poder chinês, mestre da censura do Web e dos internautas – não durou muito. Em poucos dias, as autoridades chinesas o obrigaram a desligar as câmeras.

Dentro de um quadro análogo, no mesmo período, o Twitter chinês (Weibo) também foi censurado pela polícia do Net. Assustado com o espectro da primavera árabe – alimentada pelas redes sociais e Internet – o PCC aumentava a pressão. Os comentários eram triados e o site corria o risco de ser fechado definitivamente. Mil pessoas foram presas, 16 sites Internet eliminados e os dois mais populares entre eles, Sina e Tencent, não podiam mais receber comentários. Aquela nova “violação da liberdade de expressão” provocou a mobilização dos cyber ativistas.

Não dá para não lembrar, por exemplo, da escultura que o artista italiano Maurizio Cattelan colocou na frente da Bolsa em Milão, das suas figuras de Hitler rezando ou de João Paulo II esmagado por um meteorito. Ele, tanto quanto outros, Ai Weiwei inclusive, usam objetos simples para cometer “sacrilégios”. Não me admiraria se ele se inspirar um dia na frase  “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, sabendo que esta é uma referência assumida ao Deutschland über alles (“Alemanha acima de todos”), o hino nazista. É possível também que Ai Weiwei, depois de passar pelas agruras do regime totalitário de seu país, possa até mesmo achar coerente que o ministro brasileiro das Relações Exteriores defenda e corteje o modelo chinês.

Escultura de Catellan na frente da Bolsa de Milão – Reuters
Ai Weiwei, “Estudo de perspectiva: tiananmen, 1995-2003”

Pode parecer estranho, mas Ai Weiwei também não está muito longe de Jeff Koons. De forma análoga, alguns ready-made deste último – aspiradores de luxo, joguinhos de praia, etc. – podem igualmente ser vistos como uma crítica à sociedade de consumo. O artista chinês fotografa-se em situações escandalosas da mesma forma como Koons apareceu nu nas fotos e na escultura policromática “Made in Heaven” ao lado da ex-mulher Cicciolina, aliás Ilona Anna Staller atriz de filmes pornô que tive a honra de conhecer no Aperto 90 da Bienal de Veneza, há algumas décadas.

Não acredito que existam “influências” na arte contemporânea. Trata-se mais de fenômenos de geração e de um certo sincronismo. Quem nasceu entre 1955 e 1960, e teve contato com Duchamp como estes artistas, forçosamente apropriou-se dele, reativando-o segundo as próprias necessidades. Se hoje eles são ouvidos e discutidos não é porque têm em comum apenas a vontade de escandalizar. É porque desejam ser compreendidos pelo maior número de pessoas, fazendo-as pensar. Para os artistas ocidentais, praticamente não há risco. Na China, não é a mesma coisa.

Um documentarista obsessivo e fecundo

Esta, talvez, é uma das razões pelas quais um trabalho “ativista” (e heroico) desta ordem não combina com um espaço institucional. Certamente “respirou” e se adaptou perfeitamente ao Parque Ibirapuera. A sua última exposição no Jeu de Paume, em Paris, há sete anos, ficou pior do que a de Hélio Oiticica, quando foi pasteurizado por Catherine David no mesmo Jeu de Paume, bem antes de ele se tornar um espaço para a fotografia. O trabalho de documentação fotográfica de Ai Weiwei exibido ali naquele momento, apesar do esforço da montagem fica bom apenas onde ele acontece: Internet, blog, twitter, performance, etc. Ai Weiwei não é essencialmente fotógrafo, no sentido estético da fotografia. É mais um documentarista obsessivo e fecundo, escultor, “instalador”, arquiteto, curador, cineasta, crítico da cultura e da política, uma espécie de antropólogo ou sociólogo selvagem, cujas obras plásticas não se encontravam na exposição, mas felizmente estão em São Paulo.

Até a próxima, que agora é hoje e se ainda existisse o Museu do Homem em Paris (e não esse monumento da promiscuidade exótica que é o Museu do Quai Branly, chamado de Museu do Outro, para onde o antigo Museu do Homem foi deslocado) é lá que Ai Weiwei devia ser exposto!

90 anos, e Tintim sempre o mesmo ídolo

Tintim é Hergé, seu criador, claro! O positivo e modelar herói loiro de topete da nossa infância e juventude, repórter no qual nos projetávamos, e seu cachorro Milu – com mais de 250 milhões de álbuns vendidos no mundo, traduzidos em 110 línguas e dialetos – mesmo quando não podemos dizer que fomos ou somos verdadeiros “tintinófilos”. Isto, embora o personagem tenha sido criado em 1929 e constitua apenas a parte mais visível de uma obra com outras figuras e uma grande invenção, a famosa “linha clara”: o estilo de desenho que utiliza um só traço negro em torno das imagens e que influenciou até mesmo a Pop art.

Imagem: Tintim e Milu • Créditos : © Hergé-Moulinsart 2018

Além da centena de personagens – entre as quais estão o Professor Girassol, Dupond e Dupont, Bianca Castafiore, Nestor, Rastapopoulos, Dr. Müller -, quem pode esquecer da residência do Capitão Haddock, calcada no castelo de Cheverny? E por falar neste marinheiro, os curadores da grande exposição no Grand Palais em Paris dedicada a Hergé, há três anos, foram felizes na criação da sua página Twitter com um “gerador de insultos”. Assim, se as pessoas tivessem uma veia um pouco masoquista e quisessem ser injuriados(as) em francês de “Bachi-bouzouk!”, “Bugre falso ao molho tártaro”, “Espécie de cabra mal penteada”, “Coloquíntida com gordura de porco-espinho” ou “Ectoplasma de rodinhas”, bastava seguir o vociferador e dialogar com ele. Eu fui insultada de “Sombra oricterope”!

Muito se fala da “questão colonialista” nas histórias de Tintim. Mas entre os 600 livros que foram consagrados a ele, Albert Algoud, autor do volume integral dos xingamentos do Capitão (Ed. Casterman, 2014),  que lançou também o Dicionário amoroso de Tintim (Ed.Plon), esclareceu um aspecto menos conhecido. O da batalha entre célinianos e tintinófilos, sobre a paternidade dos palavrões. Teria Hergé se inspirado em Louis-Ferdinand Céline para criá-los? Ora, parece que o barbudo de bom coração – fumador de cachimbo e colérico, também nascido do célebre Pencroff, personagem de Júlio Verne em “A Ilha Misteriosa” – sim, ele proferia horrores inspirados pela pluma (antissemita) do escritor e médico francês. Que honra e… decepção.

Um grande artista contemporâneo

A origem do seu pseudônimo deve-se às iniciais invertidas “RG” (de Georges Rémi), cuja pronúncia é “Hergé”. Hergé (1907-1983) foi um desenhista que esgotou todas as suas possibilidades de criação, inspirando-se inclusive em outros cartunistas, países, regimes, civilizações antigas e primitivas. No processo criativo do mestre, fica evidente a influência que tiveram sobre ele diferentes formas de arte como o cinema, a fotografia e também as ilustrações de Benjamin Rabier (autor da famosa “vaca que ri”).

Fora da obra do gênio, quanto ao indivíduo, ainda resta a sombra de um grande mistério. Ele foi de fato um grande artista contemporâneo, uma das figuras mais conhecidas do planeta, porém também uma das mais elusivas. Por esta razão talvez, não apreciei a cronologia invertida naquela exposição retrospectiva no Grand Palais. Começava por mostrar um sofisticado homem de cultura, para terminar com a infância dele em Bruxelas, sua cidade natal, a admiração pelo escotismo e as imagens do primeiro amor Milu, apelido da namorada. Este “percurso ao contrário” perturbava, e muito. Opunha-se à ambição e à luta formidável de um artista sobre o qual uma das únicas coisas que sabemos de seu íntimo é que, inversamente, desejou sair da “cinza e medíocre juventude” e ganhar o vasto mundo.

Até a próxima, que agora é hoje e como diria Hergé, “as maiores aventuras são as interiores”! Mas como diria também o Capitão em “O Caranguejo das pinças de ouro” (e, no momento político presente, você pode interpretar como quiser) “VINGANÇA! VINGANÇA! VINGANÇA! VINGANÇA! Canalhas!… Emplastros!… Pés-descalços!… Trogloditas!… Caramelos-Tchuk-tchuk!”

Como entender o mal-estar à nossa volta?

Não se trata de fazer amálgamas. Depois de terem se manifestado no último sábado, pela 5ª vez, alguns milhares de franceses pretendem protestar novamente Hoje, dia 22. Agora é Versalhes que os bárbaros oportunistas, que se juntam aos manifestantes, gostariam de quebrar, incendiar, pilhar. As tragédias de Estrasburgo e Campinas, os coletes amarelos, os quebradores da ultradireita e ultraesquerda que semeiam o caos, o cemitério judaico na Alsácia profanado com suásticas, o terrorismo, os psicóticos, as surpreendentes revelações sobre João de Deus, o ódio, preconceito e ressentimento nas redes sociais, tudo têm em comum, de fato, vítimas, carrascos e bodes expiatórios. Enxergar isso é talvez o primeiro passo para entender o que se passa.
Imagem: “Teseu lutando contra o Centauro”, Antonio Canova, 1805, Kunsthistorisches Museum, Viena.

É Natal, símbolo de paz. Aparentemente, nada justifica o terrorismo, o aumento da violência, cemitérios profanados, psicóticos à solta, teorias da conspiração, redes sociais transbordando de ódio, abuso de poder sobre os corpos de centenas de mulheres por um só curandeiro – o inverso do médico Denis Mukwege, Nobel da Paz 2018 por seus esforços para acabar com o uso da violência sexual como arma de guerra e conflito armado. Como explicar o mal?

A França, enquanto “estado de bem-estar social” (welfare state), é um dos países mais protetores do mundo, um dos mais lindos, culturalmente prodigiosos e profícuos em todos os campos. O seu governo não é uma ditadura a combater. Constitui, ao contrário – mesmo se instável – uma república democrática exemplar. Para um brasileiro, os movimentos sociais atuais e a cólera são indecifráveis. A conclusão é a de sempre: “os franceses não merecem a França.”

Sim, porque hoje o custo de vida nos dois países é praticamente idêntico, mas os salários mínimos totalmente díspares: 954 reais no Brasil, 5.700 reais na França (com o aumento de 450 reais já concedido pelo presidente Macron). Têm-se a impressão de que o individualismo consumista dos franceses da classe média faz com que não aceitem as reformas necessárias pretendidas pelo governo, perdendo a cabeça.

“David com a cabeça de Golias”, Caravaggio, 1606-1607 (Galeria Borghese, Roma)

O movimento dos coletes-amarelos não é político ou ideológico. As reivindicações dos pacíficos são difusas, muitos deles não são tão pacíficos assim. Pedem aumento do salário mínimo, são contra os impostos, as taxas, o aumento do combustível e a perda de poder aquisitivo. Já os quebradores da ultradireita e ultraesquerda, por sua vez, não têm nenhuma exigência além de semear o caos, pontualmente teleguiados por este ou aquele partido extremista que, naturalmente, também não quer outra coisa.

Depois de terem se manifestado no último sábado, dia 15, pela 5a vez, alguns milhares ainda pretendem protestar hoje, dia 22. Desta vez é Versalhes que os bárbaros oportunistas que se juntam aos coletes-amarelos gostariam de quebrar, incendiar, pilhar. Versalhes fechará suas portas, porém os criminosos continuarão a agredir a polícia e a causar prejuízos que já alcançaram milhões de euros ao país e aos próprios franceses.

Já na segunda-feira os coletes amarelos levarão as suas crianças a excelentes escolas gratuitas. Consultarão médicos, oftalmologistas, irão a hospitais e receberão óculos, remédios, exames de sangue e outros caríssimos, tudo isso quase gratuitamente. Receberão passes de vacinação gratuita, todos os exames para despistar doenças sem pagar nada, usarão uma enorme e confortável rede de transportes por um preço razoável, terão à disposição uma biblioteca e uma midiateca em cada bairro e em todas as cidades para lhes emprestar livros, discos e filmes por um preço simbólico.

Não sabemos ainda se os brasileiros merecem ou não o país que têm

O brasileiro é conhecido no mundo inteiro por sua doçura e espírito de apaziguamento. Não falta muito para que essa imagem positiva se dissipe. Basta ler o que se escreve nas redes sociais e nos comentários dos jornais on-line. De alguns anos para cá, qualquer assunto, mesmo o mais anódino, é motivo de rancor e agressividade. País polarizado, ainda indefinido politicamente, as consequências do ódio, preconceito e ressentimento, nos são, apesar da precariedade do país em comparação com a França, também inescrutáveis. Não sabemos ainda se os brasileiros merecem ou não o país que têm. Só sabemos que eles não merecem ter sido roubados como o foram até agora. Nem perder confiança e segurança jurídica em seus tribunais superiores, como acontece a todo instante.

Resta a teoria do filósofo e antropólogo René Girard (1923-2015), cuja síntese figura no meu último livro, no capítulo “O Inferno”, que republico abaixo. Sinto que precisamos dela neste momento, mais do que a discussão de Freud sobre o mal-estar na cultura, a pulsão de morte e a civilização. Freud tratava do indivíduo e da burguesia europeia no século 19. Época em que o mundo ainda não lidava com as “multidões democráticas”, a “democracia de massa”, as disfunções e doenças do igualitarismo como a derrocada do “segredo” (que protege) e a subida da “transparência” e da “liberação da palavra” que leva à violência crescente, da qual um bom exemplo é o #MeToo. Girard é da nossa época, nos fala de perto. A questão girardiana do “desejo mimético” exige um pouquinho de esforço para acompanhar, mas explica bastante, creio eu, o mal-estar geral que presenciamos à nossa volta, e em toda parte.

Desejo mimético

Em linhas gerais, na teoria sobre o fenômeno do “triângulo mimético” (que lançou as bases de uma nova antropologia e também pode explicar a violência apocalíptica e o radicalismo de certas civilizações islamitas), o “triângulo” é formado pelos indivíduos A e B, e pelo suposto “bem”, ou seja a “coisa desejada”. Trata-se de um jogo simbólico, onde o indivíduo B:

◆ Possui um bem (não necessariamente material)
◆ Parece dispor de um bem
◆ Poderia dispor de um bem

Que o indivíduo A pensa:

◆ Que ele mesmo não possui
◆ Que o seu gozo está ameaçado pelo simples fato de que B dispõe, pareça dispor ou possa dispor dele

O triângulo entre A, B e o “bem” é motivado pela necessidade de TER algo, já que não dá para SER algo. Ou seja, sem conseguir SER o “modelo” B, o indivíduo A pensa que o que caracteriza o indivíduo B, e justifica a diferença entre eles, é a “possessão” de um bem. A questão irá residir, portanto, na imitação do desejo desse bem. Quanto mais A deseja o bem, mais B o imita, entrando no mecanismo do “desejo mimético”. E mais A e B vão ficando parecidos em relação ao mesmo desejo.

Esquematicamente, quanto mais a tensão em direção ao objeto (material ou não) é forte, mais A e B perdem as suas diferenças.

Para Girard, essa indiferenciação entre as pessoas traz rivalidade por causa da tensão com relação ao mesmo objeto. E a rivalidade mimética cria conflito e violência.

Aí entra a outra teoria de Girard: a do “Bode Expiatório” (1982), fenômeno coletivo que, segundo ele, é a resposta inconsciente de uma comunidade à violência que seus próprios membros geraram por causa da rivalidade, dentro do “triângulo mimético” entre A, B e o objeto.

Esse fenômeno ancestral de “todos contra um” tem a função de extirpar a violência interna (endêmica) à sociedade. Em resumo, o bode expiatório é o mecanismo coletivo que permite a uma coletividade sobreviver à violência gerada pelo desejo mimético de seus membros, mesmo quando esses desejos não são individuais, mas coletivos.

Aplicado ao Brasil, à França – e a qualquer país instável  – o desejo e a rivalidade são excitados pela propaganda política, publicidade, mídia e redes sociais, que não são mais do que caixas de ressonância da “violência mimética”.

O jogo simbólico do “triângulo” permite a aproximação dos indivíduos em uma classe única. Esta, fica povoada de “iguais-rivais” que se invejam. Todos pensando que a saída é reencontrar uma “unanimidade” e, sobretudo, um “bode expiatório”. É o inferno sobre a Terra.

Até a próxima que agora é hoje e… obrigada René Girard!

O antropólogo francês René Girard em junho de 2008. LINDA CICERO/STANFORD NEWS SERVICE

 

“A adoração do Carneiro de Deus”, Jan Van Eyck, 1432 

Paul Klee: a ironia, a sátira e o humor de um gênio raro do século 20

Há 139 anos exatos, como bem marcou o Doodle na página inicial de Google, nascia Paul Klee (1879 -1940), artista que o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) apresentará aos brasileiros no início de 2019. Com a retrospectiva do gênio alemão no Grand Palais em Paris, no final dos anos 1960, quando eu ainda era estudante, vivi uma aventura grandiosa e jubilatória da qual jamais esqueci. Há dois anos, uma nova retrospectiva organizada pelo Centro Pompidou foi ainda além: ver Klee, mais de um século depois, de uma maneira totalmente inédita e muito mais completa, confirmou definitivamente – e não só para mim – que ele é um dos raros artistas verdadeiramente fundamentais do século 20. Uma grandeza só equiparável talvez a Picasso ou a Duchamp dentro, é claro, dos domínios específicos de cada um. Nem Malevitch, nem Kandinsky, Miró, Morandi, nem os surrealistas, ninguém chega à altura de Paul Klee.
Imagem: Uma visitante observa “Insula Dulcamara”, trabalho de 1938. Foto tirada durante a visita para a imprensa no Centro Georges Pompidou – no dia 5 de abril de 2016 – na qual também estive. AFP/ FRANÇOIS GUILLOT.

Dentre sua obra colossal de 5 mil desenhos e 10 mil pinturas, serão apresentadas no Brasil  100 peças de Paul Klee entre pinturas, desenhos, documentos, gravuras, fantoches e objetos pessoais, de modo a fazer o público brasileiro descobrir o artista (depois de São Paulo, a mostra  vai percorrer outras cidades como Rio de Janeiro e  Belo Horizonte). Contudo, se esta exposição inédita chamada Paul Klee – Equilíbrio Instável tiver as mesmas qualidades da última exposição francesa, ela revelará além do mais os ângulos inimagináveis da sua obra.

São raras as mostras que modificam o nosso olhar sobre um artista. Paul Klee, Ironia à Obra, exibida há dois anos no Centro Pompidou foi uma delas. A retrospectiva não apenas oferecia ao espectador uma aventura como a do Grand Palais, em 1969. Os 230 trabalhos revelavam uma prática que antes não se percebia forçosamente e que, no entanto, perpassa de fato todo o caminho de Klee: a ironia, a sátira e o humor, advindos já do primeiro romantismo alemão e sua “zombaria transcendental”.

Um Klee nunca se parece a outro Klee

Tratava-se, segundo a curadora Angela Lampe, “de desvelar como Klee, em todos os períodos, denuncia os dogmas, a doxa e as normas estabelecidas por seus contemporâneos”. O que, na verdade, penso ter sido também um esforço no sentido de nos devolver a dimensão “terrena” e a humanidade de um artista diante do qual ficamos sempre suspensos, em estado de leveza, voo e elevação. Duchamp dizia que Klee tinha tanto a dizer que “um Klee nunca se parece a outro Klee”. Eu diria que cada porção de cada trabalho também não se parece, transformando uma só peça em caleidoscópio infinito de traços, formas, espaços, superfícies, profundidades, perspectivas e cores.

A sua obra feita com inteligência e criatividade espaciais infinitas, os seus espaços múltiplos e complexos, a sua sensibilidade ilimitada, a facilidade e abundância de seus exercícios gráficos, tudo isso sempre nos pareceu quase impalpável, feito apenas de poesia, sonho e espiritualidade. E de música, principalmente. Sabemos que ele, nascido em família de músicos e violinista aos 7 anos numa orquestra de Berna, hesitou bastante tempo entre as notas musicais e o pincel.

Ver Paul Klee dessa maneira, inédita e muito mais completa, confirmava o fato de que ele é um dos raros artistas verdadeiramente fundamentais do século 20. Uma grandeza só equiparável talvez a Picasso ou a Duchamp dentro, é claro, dos domínios específicos de cada um. Nem Malevitch, nem Kandinsky, Miró, Morandi, nem os surrealistas, ninguém chega à altura de Paul Klee.

Dois monstros sagrados, Klee e Picasso

O percurso foi exultante! Sete formidáveis seções temáticas, que se percorria de maneira fluida: Os Começos Satíricos, primeiros anos solitários nos quais ele zombava da sociedade burguesa e depravada de Berna; Klee e o Cubismo, que mostrava a sua insubordinação à ortodoxia cubista; Teatro Mecânico, quando a sua obra, influenciada pela Bauhaus, onde lecionava, entra em uníssono com Dada, o Surrealismo e particularmente com o trabalho de Oskar Schlemmer; Klee e os Construtivismos, em que ele também passa transversalmente pelas doutrinas; Olhares ao Passado, o confronto discreto no qual ele opõe o seu ceticismo e ironia às certezas e ao proselitismo de seus colegas, durante os anos 1930; Klee e Picasso tratava do efeito causado pela sua visita à retrospectiva de Picasso em Zurique, em 1932; e, finalmente, Os Anos de Crise, período sombrio no qual o artista trabalha apesar da política nazista (que define a sua arte como “degenerada”), da guerra e da doença.

Naturalmente, a parte mais anedótica, e também a mais deliciosa da exposição, foi a do encontro cômico entre os dois monstros sagrados, Klee e Picasso que, na época, têm quase a mesma idade. Neste segmento, as humoradas telas e desenhos “à maneira de Picasso” são a pura e inteligente paródia do virtuosismo picassiano. Menos por provocação ou hostilidade do que para ver realmente como as deformações do mestre funcionavam por dentro, Klee se esbaldava em criar os seus pastiches. O fato é que, como ocorre com todos os grandes, o artista alemão não se levava a sério, possuía distância e desprendimento tanto em relação à vida quanto à arte.

Até a próxima, que agora é hoje, aniversário do gênio que, em 1906, dizia: “Ninguém precisa ironizar à minha custa. Eu me encarrego disso sozinho”!

 

Suíço naturalizado alemão, Paul Klee (18 de dezembro de 1879 – 29 de junho de 1940) nasceu em uma família de músicos, em Münchenbuchsee perto de Berna. Com formação em Munique, na Alemanha, conheceu artistas como Kandinsky e Franz Marc e com eles participou da segunda exposição do grupo Blaue Reiter (Cavaleiro Azul), em 1912. Também lecionou na Bauhaus entre 1921 e 1931; teve sua arte classificada como “degenerada” pelos nazistas; e morreu na Suíça.

 

Um visitante observa “Altos Espíritos”, pintura de 1939. Foto tirada durante a visita para a imprensa no Centro Georges Pompidou no dia 5 de abril de 2016. AFP/ FRANÇOIS GUILLOT.

 

 

Cassandro mon amour

Estou apaixonada por uma pessoa da qual nenhum homem pode ter ciúme. Ela é doce, carismática, vibrante, humana, corajosa e tem uma vida inacreditável. Uma vida que, apesar de tudo que me desgosta nela, para mim é um exemplo de transposição, superação de todos os limites sociais, fraquezas pessoais e preconceitos.

Cassandro, nome artístico de Saúl Armendáriz (1970), mais conhecido sob o apelido de ringue Cassandro el Exótico, é um esportista de luta livre nascido em El Paso, no Texas, que trabalhou no México e inspirou a cineasta Marie Losier, cujo documentário, apresentado no Festival de Cannes este ano, sai hoje nos cinemas em Paris.

A inspiradora do nome já dá o tom do seu destino: Cassandra foi a prostituta que com todo o seu ganho construiu e sustentou uma fundação de ajuda a mulheres batidas mexicanas. Vendo o lutador que escapou das drogas e adições pela espiritualidade, este ser que – com suas dezenas de ferimentos, cicatrizes e intervenções cirúrgicas – dança ao sol, como nos rituais astecas, vêm à memória a obra de Frida Kahlo.

Sim, porque além de fazer pensar no que há de “sacrifício” e de tradição mexicana na dualidade “vida e morte”, este artista se aproxima um pouco de Marina Abramović pela fusão entre a sua vida, biografia, suas neuroses pessoais e a sua “arte corporal” ou performática, porém de uma maneira ainda mais autêntica e profunda – sem sequer saber que é artista. E se afasta totalmente do artificialismo e das estratégias de uma Orlan, por exemplo, que – ao contrário de Cassandro – nunca foi uma “lição de vida” para ninguém.

Muros aviltantes

Não importa se é bom, passável ou ruim. Interessa que o filme, rodado na Ciudad Juarez, é profundamente marcado pelo dual, pelo sofrimento e desafio dos muros simbólicos e reais, aqueles anteparos aviltantes que todos enfrentamos e construímos mentalmente em nossa existência, também os que os governos de extrema-direita estão erigindo.

Se adorei Cassandro el Exótico, drag queen da luta livre, não é porque sou politicamente correta. Longe de mim este tipo de correção. Se sinto ternura e compaixão por Saúl, ser humano doce, vibrante, corajoso, sofrido e perseguido que está por trás do carismático Cassandro, é porque também poderia colocá-lo no meu colo. Abraçá-lo por puro instinto maternal com o qual amo meus filhos – como eles são, apesar do que são ou poderiam ser. Sentimento judaico-cristão, talvez, que me faz aceitar a diferença mesmo que ela me choque.

Até a próxima, que agora é hoje e a transgressão talvez seja a melhor forma de nos fazer entender o que é fraternidade!

 

O novo souvenir de Paris

O Centro Pompidou em Paris abriga o Museu Nacional de Arte Moderna, com uma coleção à altura do MoMA em Nova York ou da Tate em Londres. Suas exposições extraordinárias me inspiram sempre. E, no entanto, acabo de receber um press release propondo o hashtag #SOUVENIRSDEPARIS para “descobrir uma ação surpreendente que atrairá os turistas estrangeiros”. Com isso, a instituição quer alçar-se – segundo ela – à altura da Torre Eiffel, Basílica de Sacré Cœur, Catedral de Notre-Dame e do Arco do Triunfo. Pobres de nós e do que resta de nossa vida espiritual. Pobres artistas como Ad Reinhardt (1913-1967) para quem um museu devia ser “a tumba do silêncio”…

Quando um museu torna-se ponto turístico, pode a arte manter para o público, a sua função e seus objetivos? Podem os artistas e a sua arte transmitir mais do que se fossem uma publicidade de si próprios?

A glória era de Deus e não dos homens

No Ocidente, exceto durante um curto lapso de notoriedade individual na Grécia do século V a.C., os artistas foram fundamentalmente incógnitos até o fim da Idade Média. E nesses períodos – quando a arte era usada originalmente para a mágica e o ritual- a posição social do artista era a de artesão. A arte medieval não precisava de artistas individuais que almejassem a fama: a glória do que se conquistava era de Deus e não dos homens.

Em certas cidades italianas do século XIV já se pensava, no entanto, de forma diferente. Ali, juntar fortunas pessoais poderia representar uma glória muito maior, e o desejo de identificar e discutir o artista era, então, uma consequência natural. Grosso modo, foi essa a postura adotada pelos intelectuais do Renascimento, que estavam justamente providenciando os tijolos para a construção da ideologia do capitalismo.

Em vez de liberação, o anonimato tornou-se alienação

A progressão constante do artista meio-divino-meio-gênio culminou com o expressionismo na primeira metade do século XX e adquiriu uma feição de reprise tragicômica no neoexpressionismo dos anos 1980. Entre os dois expressionismos, o século passado viu a ascensão do intelectualismo na prática da arte. As primeiras manifestações podiam ser relacionadas à política de massa e as seguintes à cultura de massa. A diferença foi imensa.

Sabemos que o sistema capitalista sempre encontrou meios para impor a cultura “da conveniência e do espetáculo”, de cima. De lá para cá, passando pela especulação no mundo financeiro, infelizmente, o anonimato, entre outras coisas, é mais um fator de alienação do que de liberação. No presente, o sistema da arte não funciona sem estrelas e o turismo também não.

Até a próxima que agora é hoje e se as instituições se derem a concessões perigosas como essa, será difícil continuarmos a repensar os objetivos da arte, seus valores em termos mais profundos e imateriais; ou, pelo menos, compreendê-la como uma resposta mais plausível à nossa nova época! Não basta trazer o público à arte, para efeito de bilheteria. É preciso primeiro, por meio da educação, levar a arte às pessoas, o que não ocorre automaticamente, por captação e bugigangas “atraindo turistas”. Transmitir sem angariar: penso que é este o papel e o dever da instituição.

A lei Rouanet e a ilusão da necessidade

A tradição do mecenato renascentista nos permitiu até há pouco tempo aceitar com certa benevolência, e mesmo com alguma satisfação, esse caráter “benemérito” do patrocínio e das instituições com relação à arte e aos artistas. Todos sabemos, no entanto, que se de um lado essa relação é sempre questionada e desejada simultâneamente, por outro lado, determinados incentivos ou certos tipos de política podem acabar muito mal.


Imagem: Retrato do mecenas Lourenço de Médici “o Magnífico”, por Girolamo Macchietti (1585). Homem generoso, foi um dos personagens mais notáveis de sua época. Além de seus talentos de diplomata e político, vivia no meio de brilhantes eruditos, artistas e poetas, dedicando-se a várias atividades entre as quais o mecenato. Lourenço de Médici é a mais formidável representação do “ideal do Homem do Renascimento”.

Os interesses políticos, econômicos e sociais da sociedade que eles representam sempre foram preteridos no entendimento de todos nós — organizadores e produtores culturais — em favor dos valores “supremos” da cultura.

Todos sabemos muito bem, no entanto, que se de um lado a relação arte e instituição é sempre questionada mas aceita – e não só aceita, como desejada – por outro lado, as melhores intenções como determinados incentivos ou certos tipos de política podem acabar em detrimento lamentável da produção cultural.

Com uma boa pesquisa, não seria difícil enumerar centenas de exemplos de distorções provocadas pelos subsídios oficiais no mundo. O caso do Brasil, com a Lei Rouanet deveria ser (se já não é) objeto de tese universitária ou livro de investigação jornalística sobre esse desvirtuamento. Basta lembrar, porém, que nos Estados Unidos – onde o National Endowment for the Arts (NEA) é controverso e várias vezes quase desapareceu – as subvenções de grandes bancos aos artistas terminaram por formar uma arte-tipo-banco, análoga à arte-tipo-hall nos edifícios brasileiros; ou que os próprios salões de arte foram responsáveis pela arte-tipo-salão, quer dizer, feita especialmente para agradar e passar pelo sistema caduco dos juris.

As contradições são claras: as melhores intenções partem justamente das instituições, ideias e personalidades que formam o todo negativo, o sistema contra o qual, paradoxalmente, por razões culturais, a arte sempre assumiu posições políticas radicais. De um lado, a criação atormentada por forças antagônicas, de outro a crença das instituições nos valores “supremos” da cultura. E também, contraditoriamente o desejo velado de normalizar o que a arte tem de subversivo ou de genuíno, desvitalizando-lhe o processo criativo. Ou, o que é pior, instrumentalizando e/ou manipulando arte e artistas com vistas a interesses político partidários, como vimos acontecer.

O “apoio” à cultura brasileira, em sua grande parte, passou a funcionar então, como uma espécie de cerco ideológico que delimitava a ação, transformando-a num compartimento diferenciado dentro do complexo histórico, político, social, econômico, científico e tecnológico que é o nosso país. Até hoje, e ainda mais depois de 1991 quando a Lei Rouanet começou a ser posta em prática, as instituições culturais brasileiras (e a Bienal de São Paulo não fugiu disso) sofreram do mesmo mal que atinge todas as entidades burocráticas. Esse mal é a “ilusão da necessidade”, um fator que — como o filósofo e sociólogo Raymond Aron afirmou — pode ser tão obscurantista quanto a censura.

Tanto a ilusão doutrinária — que é a política — quanto a ilusão da necessidade cultural impõem um sistema de valores vindos de “cima para baixo”. O que, além de tudo, reafirma uma visão “terceiro-mundista”, assegura um paternalismo e um provincianismo que não cabe mais numa época em que a noção de subdesenvolvimento, segundo Octávio Paz, “pode ser aplicada à economia e à técnica, porém não à arte, à literatura, à moral ou à política”.

‘Escolhas feitas de cima para baixo’

Existe ainda uma moral rígida, uma maioria silenciosa que atua não numa fantasia paranoica, mas, como nos extratos sociais, desempenhando um papel de normalizadora. Uma espécie de “classe média” intelectual que, ao despejar uma quantidade enorme de informações com a intensidade descritiva das suas minúcias, soterra eficientemente a camada “marginal” e, com ela, o “sentimento oceânico” do qual falava Freud, que é “provocado pela relação cósmica com o divino da Grande Arte, da Grande Cultura”.

Esse deslumbramento nos aproximaria de uma realidade que não se restringiria à ciência, à história e à lógica cotidiana dos fatos e dos conceitos artísticos. Ele nos revelaria, isto sim, o universal como uma dinâmica de transcendência, fim ideal, utopia. Trata-se igualmente da contraposição do “mundial e universal”, pensada pelo filósofo Jean Baudrillard, teórico da sociedade contemporânea. Segundo ele, “a mundialização – realidade irreversível – é aquela das técnicas, do mercado, turismo, da informação. A universalidade – em vias de desaparecimento, por outro lado – é aquela dos valores, dos direitos do homem, das liberdades, da cultura e democracia.”

É possível parafrasear Baudrillard com vistas ao enfoque “realista” dado às manifestações artísticas contemporâneas: “No tempo das luzes”, escreve ele, “a universalidade se fazia pelo alto, segundo um progresso ascendente. Hoje, ela se faz por baixo, pela neutralização dos valores devido à sua proliferação e à sua extensão indefinida”.

Culturalmente, em última análise, o que tivemos até agora nos sistemas que circunscrevem as nossas instituições, foi uma certa promiscuidade de todas as trocas, produtos, signos e valores, o que, segundo Baudrillard, trata-se de “pura pornografia”. “A sucessão, a difusão mundial de tudo e qualquer coisa, no fio das redes de informação, dizia ele com razão, isso é pornografia”. Eu acrescentaria que o patrocínio e o apoio a “escolhas feitas de cima para baixo”, em grande parte das vezes termina como “bloqueio” ou “favoritismo” decorrentes, não de merecimento real, mas de um sistema de ideias, convicções e interesses sustentados por grupos. O que nega a universalidade, a liberdade e a democracia. Diria, como Aron, que isto pode de fato causar tanto prejuízo à cultura quanto a censura.

Até a próxima que agora é hoje e não concluo que a lei Rouanet deva ser revogada, de forma alguma! Em vez de abolir a prescrição, o que certamente seria catastrófico, penso que é a sua forma e aplicação que devem ser reformuladas. De cabo a rabo.

 

Um colunista que precisa pedir desculpas. E já!

Duvido que a coluna de Luis Fernando Verissimo, do dia 1, no Estadão, publicada igualmente em papel, esteja em acordo com este órgão de imprensa exemplar que conheço desde criança, e onde comecei a escrever há 43 anos, quando o diretor de redação era Fernando Pedreira. Não acredito que expresse, nem de longe, a opinião de um jornal que, sob a direção de Júlio de Mesquita Neto e Ruy Mesquita (JT), passou pelas piores fases da ditadura, sempre defendendo com objetividade a justiça e os direitos do homem, abominando preconceitos e parti pris ideológicos.

 

Edifício OESP
Sede do Jornal O Estado de S. Paulo (1951-1976) Arquivo/Estadão

A coluna em questão deste escrevinhador de 82 anos, é ultrajante. Liberdade de expressão não é isso. Luis Fernando Verissimo certamente não é nenhum Flaubert, mas segundo a Wikipédia é também humorista, cartunista, tradutor, roteirista de televisão e autor de teatro, já foi publicitário, revisor de jornal e toca saxofone. Ainda segundo a mesma fonte “ele tem mais de 60 títulos publicados, é um dos mais populares escritores brasileiros contemporâneos, e é filho de…”  Está explicado. Ninguém é “filho de”, impunemente.  Tem que se esforçar muito!

Mas a coluna dele é ultrajante em vários aspectos. Em primeiro lugar desrespeita a escolha da maioria, julgando-a sob ideias preconcebidas que só podem ser provadas com pesquisa, estatísticas e estudo. Verissimo “afirma” em vez de “apresentar como hipótese” que “o ódio ao PT foi maior que o amor pela democracia”. Não é uma certeza. Aqui, tanto “ódio”, quanto “amor” e “democracia” podem ser questionados em todos os níveis, inclusive na sua convicção de que o governo petista preservaria a democracia e o governo bolsonarista, não.  Também não é uma certeza. E a desonestidade intelectual já se inicia desta maneira.

Mas o que o colunista condena principalmente é a “omissão”. Acusa a preterição (legítima, diga-se de passagem) dos políticos e o verdadeiro (e também legítimo) “protesto” (votos em branco, nulos e abstenção) de  42,1 milhões de pessoas no Brasil e 60% de votantes no Exterior. Pessoas para quem nenhum dos candidatos as representava. É muita gente só “para cuidar de suas hortas”, não é mesmo?

Antissemitismo às avessas

E, por fim, dá a sua contribuição que, evidentemente, cai como uma luva confortando uma espécie de antissemitismo às avessas, e transforma os petistas em “perseguidos”: “como será difícil distinguir um marginal vermelho de um cidadão normal, agora que até a direita usa barba, sugiro que se costure uma estrela vermelha na roupa dos marginais, para identificá-los”, escreve. E o colunista termina a ironia, afirmando  que “deu certo em outros países”. Só esqueceu de acrescentar “em outra época”.

É verdade que deu certo. A estrela infamante costurada na roupa – dispositivo obrigatório de identificação e discriminação imposto pela Alemanha nazista aos judeus residentes nas zonas conquistadas, durante a Segunda Guerra mundial – indicava as vítimas aos algozes. Só que aquelas vítimas constituíam um povo e uma civilização e não um partido político corrupto, em extinção. A estrela amarela não foi cosida como a imaginária “estrela vermelha” de Luis Fernando Verissimo na “roupa dos marginais, para identificá-los”. Os judeus, ao contrário de certos membros do PT, nunca foram “marginais” como ele diz, a partir do que gritou Jair Bolsonaro em seu horrível discurso. Além de que foram “cidadãos normais”, não precisavam “ser distinguidos” como sugere o colunista.

Até a próxima, que agora é hoje e estamos aguardando as desculpas deste esforçado colunista “filho de”! Sei que é difícil, mas ao ler esta frase final, por favor, não confunda com “filho da”.


Imagem de abertura: a “estrela amarela” foi um dispositivo obrigatório de identificação e discriminação, imposto pela Alemanha nazista aos judeus residentes nas zonas conquistadas, durante a Segunda Guerra mundial.


 

Adeus mamíferos, pássaros, peixes, anfíbios e répteis

Podemos nos despedir destes vertebrados. 60 % dos animais desapareceu em 44 anos, sobretudo nas zonas tropicais da América do Sul e central, onde a perda é de 89%. Sejam quais forem os argumentos dos presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro, eles deverão tomar em conta esta trágica conclusão do último relatório da WWF (Fundo Mundial para a Natureza), publicado hoje, dia 30, em seu site

Estão em causa as atividades humanas e suas consequências: agricultura intensiva, degradação dos solos, exploração e pesca exageradas, mudança climática, poluição pela matéria plástica, espécies invasoras, explosão da demanda de meios naturais e energia, etc.

O problema não se restringe apenas ao futuro dos bichos, mas ao capital natural do planeta, uma vez que tudo que funda as sociedades humanas se deve à natureza. Trata-se da sobrevivência da humanidade inteira.

Questão de vida ou morte

Sejam quais forem os argumentos dos presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro, esta é uma questão de vida ou morte. Segundo um estudo feito pelo economista americano Robert Costanza (apresentado pela WWF), a natureza nos fornece, gratuitamente, serviços de um valor igual a 125 trilhões de dólares por ano. Ou seja, se devêssemos pagar pelo ar que respiramos, pela água potável, e alimentação que ainda é gratuita, precisaríamos desembolsar bem mais do que o PIB mundial que é de 80 trilhões de dólares por ano. Fora isso, um terço da produção alimentar mundial depende de polinização (por 20 mil espécies de abelhas, centenas de outros insetos e mesmo de vertebrados como certos pássaros e morcegos).

É urgente!

A WWF considera urgente que os líderes mundiais, os responsáveis públicos e privados admitam que a natureza é a nossa única casa e que repensem a nossa maneira de produzir e consumir. Há recomendações e estudos concretos. Não resta muito tempo. Os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro já deveriam começar a planejar a presença de seus países no acordo ambicioso que será adotado na conferência mundial em Pequim, em 2020.

“A nossa casa morre e nós olhamos para outras coisas” disse Jacques Chirac – um presidente esclarecido, humanista, da direita – no “Sommet de la Terre”, em 2002.  Até a próxima que agora é hoje, a humanidade está em perigo, e para onde olham os governos de extrema-direita destituídos da luz do conhecimento?

Será que ninguém percebe?

Será que ninguém vê o que está por trás dos discursos chocantes de ódio e atritos (aparentemente “já desnecessários”) entre o candidato da extrema-direita, seus acólitos e familiares?

Imagem: Eugène Delacroix, “Méphistophélès dans les airs”(O Diabo no ar), cerca de 1825.

Poucos talvez imaginam, porém está “tudo certinho”, “totalmente necessário”, “exatamente como deve ser”.  O conjunto de esforços com fim eleitoral, segue o seu curso inerente. Não é preciso ser especialista. Estes eventos são conhecidos de todos, já podemos até mesmo chamá-los de “clássicos”, em todas as campanhas populistas do mundo. Sejam elas de esquerda ou de extrema-direita.

Bolsonaro e a mundialização do mal

Ali, cada acontecimento obedece às famosas táticas de Steve Bannon, orientado em direção a alvos precisos. Este DIABO manso, “Grande Sedutor” (nome com o qual o Evangelho designa o anjo mau), hoje talvez o maior expert em comunicação do mundo, declarou há pouco na Itália, publicamente ao lado do vice Matteo Salvini, estar criando “um grande movimento (anti-sistema) de ajuda aos governos (e candidatos) populistas do planeta (Brasil, inclusive), com o patrocínio dos maiores capitais americanos e estrangeiros.” Isto, para que o “Grande Capital” possa circular livremente num mundo agora “liquidificado”, para usar o termo do filósofo e sociólogo Zygmunt Bauman.

O ‘Diabo Bannon’

É muito simples, sem disfarce, não foi escondido de ninguém e não se trata de “teoria de complô”. Mesmo que não exista ou não for provado que existe um pacto do candidato com o DIABO, o tinhoso é onipresente, está cada vez mais rico e trabalha “de graça” pois não são os candidatos que o pagam. Se você votar em Jair Bolsonaro, estará necessáriamente contribuindo com o PROJETO AMERICANO DE DESTRUIÇÃO MUNDIAL DA DEMOCRACIA, já em andamento na América Latina e Europa (cuja desintegração é almejada, claro, a começar pelo Brexit abertamente orquestrado por Bannon).

Nessa altura, como diz o provérbio chinês, quando é a lua que brilha é melhor não ficar olhando só para o dedo que a aponta. Se você votar neste candidato, não é só o PT que estará atingindo. O PT não vale nem uma migalha do pão que o DIABO amassou. Até a próxima, que agora é hoje e… pense nisso.