‘The Square’, um filme escandaloso que faz bem!

Quando a inteligência alia-se ao humor, à erudição, à lucidez e a um talento excepcional fica difícil não criar uma obra de gênio que divida as pessoas. É o caso de ‘The Square’ do sueco Ruben Östlund vencedor da Palma de Ouro em Cannes deste ano: um filme que já é cult.

Entrou em cartaz há pouco e, é claro, logo fui ver. Não há uma só pessoa que tenha ligação com a arte, a sociedade e o mundo de hoje que não seja concernente. Além de que este trabalho tem tudo a ver com o que estamos presenciando no Brasil e no resto mundo, em nossos dias: a banalidade da indiferença social, a censura na arte, a incompreensão e o desvirtuamento de palavras e imagens.

A intriga já foi mais do que contada: um conservador-chefe de museu divorciado (Christian, interpretado por Claes Bang), pai de duas meninas, é roubado em ardil de carteiristas e sai em busca do seu celular. Todo o resto, desastroso – e a revelação do seu caráter e personalidade – decorre daí.

Muitos viram o filme como farsa ou caricatura, para mim é uma comédia sagaz que trata de questões candentes como a imigração, a miséria, a compaixão e a indiferença, porém a sua complexidade e riqueza, são tão mais extremas quanto maior for a experiência do espectador.

Assim, quem não possui experiência com a arte contemporânea por exemplo, jamais compreenderá que, em vários momentos, o filme se transforma em uma “narrativa em abismo” (Mise en abyme). Uma obra de arte dentro de uma obra que contém uma narrativa sobre arte dentro de si.

Quem não possui a compreensão da ambiguidade, o sentido da nuance e pensa que as coisas são ou devem ser totalmente brancas ou totalmente pretas, também não compreenderá que se trata de uma indagação e uma viagem pela alma humana, que é incoerente em essência. Isto está evidente em todos os personagens, sobretudo no principal.

Quem não possui a prática do mundo de hoje com as suas contradições – onde a doxa, as ideologias e os bem-pensantes raramente são questionados ou ao contrário, glorificados – dificilmente poderá concluir que esta obra prodigiosa, de fina ironia, conseguiu colocar-se no espaço imparcial, que é de onde observa tudo que ocorre.

Já no começo, Christian cita rapidamente Robert Smithson, (1938 – 1973) grande teórico e artista. Fica subentendido que as suas obras minimalistas e de “land art” poderiam ser vistas como precursoras de The Square, nome da instalação que representa a próxima exposição deste museu imaginário.

Ele cita também o livro de Nicolas Bourriaud, ex codiretor do Palais de Tokyo em Paris, A Estética relacional que todas as pessoas do ramo, eu inclusive, temos em nossas bibliotecas. “Estética relacional” é um movimento (ou teoria) da arte contemporânea, nascido em 1995, que focaliza certas obras em função das relações inter-humanas que elas possam representar, produzir ou provocar.

Inúmeros artistas se inscrevem na “Estética relacional”. Dominique Gonzalez-Foerster, Vanessa Beecroft, Carsten Höller, Pierre Huyghe, Maurizio Cattelan, Liam Gillick, Douglas Gordon, Gabriel Orozco, Philippe Parreno são apenas alguns. Trata-se de um conceito com o qual Östlund, evidentemente, pretende definir a obra (fictícia) “The Square”, no filme. Isso esclarece não só esta obra, mas a razão pela qual o seu assunto está relacionado aos assuntos do filme, externos à ela.

Lembra infelizmente o que ocorre hoje no Brasil

Mas o verdadeiro assunto do filme não é a arte contemporânea. Tudo é apenas um pretexto para falar do comportamento aberrante e da má consciência da sociedade diante da miséria humana, uma preocupação que é constante na Suécia.

A crítica mais virulenta do filme não vai para a arte ou o mundo da arte contemporânea. Ela é dirigida às agências de comunicação e aos jornalistas, que ele demole sem dó.

The Square é cheio de suspense, com uma direção de atores excepcional, a naturalidade deles é surpreendente. A fotografia, o som e os cenários são de mestre; o filme é longo, pesado, incomoda, no entanto as situações são inteiramente plausíveis.

Até mesmo o jantar de gala onde um “artista” atua como macaco embaraçando os convidados, foi inspirado em uma performance nos anos 1990 em Estocolmo, onde o performer Oleg Kulik, imitava um cachorro, molestava os participantes e chegou a morder a filha do conservador a ponto de ele ser obrigado a chamar a polícia. O final da cena com Oleg, o homem-macaco (Terry Notary) é muito pior e lembra, infelizmente, o que ocorreu com a “Queermuseu” em Porto Alegre, a performance do MAM, em São Paulo, e a censura do Masp.

O momento em que vemos um agente de limpeza aspirar uma obra composta de fragmentos não é nenhuma novidade. Foi o que aconteceu de fato quando uma faxineira jogou uma obra de Robert Rauschenberg no lixo, ou quando outro agente de limpeza de um museu italiano “limpou” a instalação das artistas Goldschmied & Chiari, em 2015, pensando que aquilo eram “restos de festa”.

A exposição The Square que, no filme, é “criada por uma artista argentina”, divide os visitantes em duas categorias: os que têm ou não têm confiança. Ora, no Palais de Tokyo justamente, em 2005, um artista peruano tinha imaginado duas filas, como nos aeroportos: uma para passaportes franceses e outra para imigrantes, onde os franceses é que eram controlados. Uma situação invertida para que os visitantes sentissem o mesmo mal-estar dos oprimidos. Mesmo o cenário no filme é muito parecido. Não seria de admirar se Ruben Östlund tivesse visitado a mostra.

Este é um cineasta que evidentemente possui bases literárias, conhece a psique, reflete profundamente sobre questões sociais e políticas, sabe muito sobre música, cinema, arte e fotografia. The Square está repleto de referências e iscas para reflexão. No século 19 “arte total” era a ópera, no século 21 é o cinema. Até a próxima que agora é hoje e não existem mais cineastas de gênio que não saibam se movimentar simultânea e confortavelmente em todos os campos do conhecimento e da cultura!

 

Cena magistral entre Christian (Claes Bang) e Anne (Elisabeth Moss), onde há “narrativa em abismo”. Um dos happenings do filme, onde o som tem papel fundamental.

Mais uma cena onde há “narrativa em abismo”. Performance inspirada em outra, real, ocorrida em Estocolmo, nos anos 1990.


Músicas de The Square

 

“Genesis” – Justice

“No Good” – Fedde Le Grand and Sultan + Ned Shepard

J.S Bach / The Swingle Singers 

“How Deep Is Your Love” – Calvin Harris & Disciples

“Djembe Jamave” – Jumping Drums

“Chains” / “Run Amok” – Amok

“Improvisation” – Bobby McFerrin

 

 

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Masp, um mau exemplo para o povo brasileiro

Qualquer responsável por uma instituição cultural sabe que neste momento político de exceção – hora de “clamor popular” retrógrado e moralista – não é sensato apresentar exposições deste teor. Até na sabedoria milenar do I Ching, o oráculo chinês, existe um hexagrama que, em outras palavras, aconselha: quando o tempo não está propício, aguarda-se a poeira abaixar. Qualquer responsável digno sabe igualmente que se houver cerceamento das liberdades básicas e dos direitos civis, a sua instituição não deve jamais submeter-se.

Em psicanálise, o processo de caráter defensivo pelo qual um indivíduo apresenta uma explicação coerente ou moralmente aceitável para atos, ideias ou sentimentos cujos motivos verdadeiros ele não percebe (ou percebe, porém não quer que outros percebam), chama-se racionalização.

Foi exatamente o que aconteceu nas explicações fornecidas pelos curadores do MASP quanto à proibição da exposição Histórias da Sexualidade (até o dia 9 de fevereiro de 2018), que faz parte do foco temático do Museu este ano, para menores de 18 anos que não podem entrar nem mesmo se acompanhados dos pais.

Não há um só país civilizado que use de proibição taxativa em exposições de arte e, menos ainda, de controle de idade. Que país é este, onde um aviso na porta e uma indicação etária não sejam suficientes para alertar se uma exposição é inconveniente para crianças?

Mesmo assim, em vez de encontrar alternativas expográficas (agrupando as obras mais problemáticas em espaços exclusivos) para liberar o acesso a todas as idades ou, em caso de impossibilidade, cancelar ou adiar esta mostra até segunda ordem, questionando e se insurgindo contra a pressão do Juizado de Menores, os curadores declararam: “precisamos aceitar a proibição, atendendo a três requisitos que caracterizam atividades para maiores de 18 anos”.

O paradoxo não para aqui. Os curadores disseram ainda que “só tiveram duas opções para realizar a mostra: abrir mão de quase um terço das obras ou transformar a faixa etária numa questão política”, sendo que escolheram a segunda para “não perder a pesquisa”. E clamaram ao público para que este “saia às ruas em protesto”, como se fosse possível transformar uma medida injusta, já aceita e assumida pelo museu, em debate público.

Na verdade, por uma questão de coerência e lógica, se não fosse possível encontrar formas museológicas de contornar o problema (o que é pouco provável visto o peso institucional que tem este museu), os responsáveis deveriam ter optado por abrir mão da totalidade da mostra, renunciar circunstancialmente à sua pesquisa (que, sem dúvida, poderia ser utilizada mais para frente) e aí, sim, transformar este caso em uma gigante questão política e de sociedade!

Ao contrário, escolheram trabalhar numa exposição “na companhia de advogados” (?!), abrir mão de mediadores para mostrar arte a alunos do Ensino Médio, e submeter-se covarde e oportunisticamente à aplicação arbitrária de requisitos que podem servir a outras atividades, porém certamente não são compatíveis com as artes plásticas. O “nudismo” por exemplo.

Não se trata de “culpar” instituições, trata-se de chamá-las às responsabilidades básicas que devem ter com o público, a sociedade e o país. Não é somente à classe artística e à sociedade que cabe pressionar o governo! As pessoas devem ir às ruas, sim. Mas as Instituições precisam ser a primeiras a descer de suas confortáveis e gratificantes torres de cristal para reclamar garantias de direitos sociais e civis, a fim de que o vírus obscurantista não se espalhe a outras áreas, além das artes plásticas.

Como já escrevi no artigo anterior, nos tempos da ditadura – eu que jamais pertenci a algum partido, nunca me considerei de esquerda ou de direita, tirando de cada lado o que julgava mais justo – fui pessoalmente protegida pelo Estadão contra as arbitrariedades da repressão. Desde então, é a primeira vez que vejo o mesmo tipo de repressão repetir-se na história do nosso país. E não como farsa.

Até a próxima, que agora é hoje e se representantes de um museu de prestígio como o MASP vêm a público com racionalizações para desculpar o fato de que a instituição submeteu-se, não tomou qualquer atitude, não se manifestou e tampouco se revoltou contra essa medida de exceção (jamais usada em museu brasileiro pois é, inclusive, anticonstitucional), como exigir a mesma coisa do povo? Como pedir que ele saia às ruas?

“Himeneu travestido durante uma cerimônia a Priapo” é o título desta obra de Nicolas Poussin (1594-1665), pertencente ao Masp, que foi restaurada e, em 2009 recuperou o falo camuflado de Priapo, o deus grego da fertilidade, durante muitos séculos. O quadro, que está na exposição “Histórias da Sexualidade”, pertenceu à família real espanhola e é provável que as camadas de tinta que recobriam esta parte da tela tivessem sido feitas no século 18, quando a Espanha era um país muito católico e puritano. Com as guerras napoleônicas, a obra caiu nas mãos de aristocratas ingleses e foi vendida em seguida a ao colecionador francês Georges Wildenstein que, por sua vez, a vendeu em 1953 a Francisco Assis Chateaubriand, fundador do MASP, em 1947. Foto – Paulo Mauricio Lima AFP
EXEMPLO DE TOLERÂNCIA E ABERTURA. Recusada pelo Louvre que a julgou brutal demais, a escultura gigante que evoca um homem copulando com um animal, foi finalmente exposta no Centro Pompidou – lugar mais tolerante e aberto à arte contemporânea. Como costuma ocorrer em toda parte, “Domestikator”, trabalho do holandês Joep Van Lieshout, foi mal interpretado. Segundo o diretor do Pompidou, a obra trata de “utopia” e para o escultor “ela representa também, simplesmente, a questão da ‘domesticação’ na sociedade de hoje.”

 

A liberdade de expressão e a ‘Peste’

Ontem eu lia, por acaso, a crônica de uma jovem colunista do Estadão com o qual também colaboro há mais de quatro décadas. Lia com prazer e rindo bastante pois – embora o texto não pretenda alcançar grandes alturas literárias e esta não seja a minha área – ela trata da questão do machismo com graça e humor, por meio de uma escrita fina e talentosa.

Fui ler os comentários esperando reações parecidas com as minhas, talvez inconscientemente na esperança de encontrar os “bons leitores” do Estadão e não os linchadores e os haters ( “Hater” é um termo usado na internet, não existe em português) a que costumo ver desbocar nos meus e em outros textos mais polêmicos dos críticos, colunistas, blogueiros e jornalistas efetivos deste órgão de imprensa.

Infeliz engano. Desde os primórdios da humanidade, tudo que é positivo também atrai o negativo. Os linchadores estavam lá a postos, proferindo as mesmas violências nascidas da ignorância, preconceito e atraso de costumes. Como sempre, falta a educação básica. Quase nenhum é capaz de escrever com propriedade e dar uma opinião lógica e decente, mesmo que seja contrária. Em um de meus últimos artigos, um deles (cujo comentário evidentemente foi deletado pelo mediador do jornal), louvou o nazismo para justificar a sua vontade de “sacar o revólver quando ouve a palavra ‘cultura’.”  Na crônica que li ontem, alguém chegou a insultar a família da articulista, o que também foi suprimido.

Opiniões divergentes sempre se aceita. Voltaire dizia: “Eu defenderei as minhas opiniões até morrer, mas darei a minha vida para que você possa defender a sua.” Inadmissíveis e deploráveis são os jorros de agressividade, racismo, incitação ao ódio e injúria quando se aborda certos assuntos “sensíveis”. Percebe-se claramente a “sede de sangue”, expressão de uma querida amiga, competente jornalista cultural, que está com muita vontade de atravessar definitivamente o oceano Atlântico. Eu a compreendo. Do jeito que estão, muitos leitores brasileiros e o país não merecem o belo trabalho que ela lhes oferece.

A vala comum, onde maus leitores e dejetos se confundem

O livro “A Peste” de Albert Camus (1913-1960), prêmio Nobel de literatura, continua atual. Já na epígrafe, que ele tirou do Robinson Crusoe de Daniel Defoe, Camus nos convida a assimilar aquela epidemia a várias analogias. Em seu sentido metafórico, portanto, o mal contagioso transmitido pelos ratos pode representar todas as pestilências, inclusive a degenerescência da política e da sociedade brasileira com os “maus leitores” de hoje.

Não importa se a estes trazemos preciosas informações, reflexões, imagens e testemunhos. Não importa o nosso esforço em compartilhar experiências e conhecimento, às vezes de muitos anos, da melhor forma que nos é possível. Sabe-se que o trabalho cultural é mal pago, mas também não importa a generosidade. Por felicidade tudo isso cai também em boas mãos como as de uma leitora que me comoveu quando comentou que, graças aos nossos textos, o mundo dela “fica maior e melhor”. Contudo, em geral, cai igualmente numa vala comum onde muitos nadam entre os dejetos dos “ratos da peste”, confundindo-se com eles.

Nos tempos da ditadura – eu que jamais pertenci a algum partido, nunca me considerei de esquerda ou de direita, tirando de cada lado o que julgava mais justo – fui pessoalmente protegida pelo Estadão contra as arbitrariedades da repressão. Até a próxima que agora é hoje, vence a liberdade e, com ela, o lado positivo do jornalismo opinativo. O único instrumento que nos permite medir o quanto estão doentes e carentes – e de que remédio precisam – a sociedade e os leitores médios brasileiros!

Imagem: Louis-Léopold Boilly (1761 -1845)

 

‘Vírus’ contamina a sociedade e a arte

A sociedade, a política, as redes sociais e até mesmo a arte foram contaminados por um “vírus” nascido dos índices de audiência e do sistema de algoritmos. Trata-se do chamado “Influenza quantitas”, nome provisório que dei a ele, uma vez que este agente infeccioso leva o nosso mundo a ser regido pela “lei do grande número”. Provoca uma doença viral que faz as pessoas perderem, definitiva ou circunstancialmente, a capacidade de discernir qualidade de quantidade.
Ontem inaugurou-se, no Grand Palais em Paris, “Gauguin o alquimista”, exposição igualmente tocada pelo vírus. Feito apenas para surpreender, o espetáculo reúne obras prodigiosas mas privilegia a quantificação em detrimento da qualificação, afastando-nos da complexidade estética do artista.

Sabe-se que os motores de procura dão visibilidade ao que não tem necessariamente superioridade, que páginas pessoais em Internet não indicam importância, que matérias de jornal e programas de televisão não medem qualidade, que as “avaliações” de hotéis, restaurantes, produtos, etc. podem ser mentirosas; que existem fábricas de “curtir” e de “cliques”, que mesmo um perfil falso pode alcançar milhões de seguidores no Twitter ou cinco mil amigos no Facebook. Apesar disso, atacados por “Influenza quantitas” os cérebros dos leitores (e eleitores) médios não encontram defesas para lutar contra o vírus.

Hoje, estas pessoas se orgulham de ter a mesma opinião que 99,99% da população e se acaso discordam das ideias da minoria, usam como argumento o fato de que “são maioria e, portanto, estão certas”. Mesmo quando “ser da maioria” não fala a favor de ninguém: até mesmo o prêmio Nobel de literatura George Bernard Shaw (1856-1950) assinalou que “a minoria às vezes tem razão, mas a maioria está sempre errada.”

Por uma espécie de falácia febril, o leitor (e eleitor) médio, contaminado, sempre delira defendendo que a quantidade conta mais do que a qualidade e “isso é democracia”. Fica difícil explicar para o doente que, como dizia o escritor e filósofo Albert Camus (1913-1960), outro prêmio Nobel de literatura, “democracia não é a lei da maioria, e sim a proteção da minoria”.

Gauguin ‘pedófilo’

Ora, em arte o “vírus” também se manifesta. Ontem inaugurou-se, no Grand Palais, em Paris, “Gauguin o alquimista” (até 22 Janeiro de 2018) que é, decididamente, uma exposição para grande público: um pouco sombria e misteriosa, porém longa, espetacular e didática. Se alguém perdeu Paul Gauguin (1848-1903) pelo caminho, é a boa hora de recuperá-lo.

Porém, se no Centro Beaubourg, também em Paris, cada mostra faz o visitante pensar, aqui cada exposição tem sido organizada ultimamente apenas para surpreender. O espetáculo, tocado igualmente pelo “vírus”, espanta o espectador pela quantificação no lugar da qualificação. E não por causa do número de obras, bem ao contrário. Faltam as mais importantes.

Em contrapartida, o visitante saberá quantas camadas de tinta Gauguin passava sobre a tela, quantas vezes pintava na parte de trás do quadro, quantos lugares visitou, quantos anos passou em cada um, quantas matérias utilizava nas cerâmicas, quantos instrumentos usava para esculpir a madeira, quantas doenças pegou na vida, quantas vezes teve casos com mocinhas de 13 anos, etc. Como se a contagem e a “medição” técnica e histórica tivessem relação direta com a obra do mestre que, sim, hoje seria considerado pedófilo e recidivista.

Na verdade, esta é uma exposição anticrítica e formalista, ligada demais aos materiais, que explica “como” sem dizer “porque”. Faz tudo para nos afastar da complexidade estética de Gauguin e também do que a sua obra possui de mágico e sublime. “Influenza quantitas” atacou firme: há três espaços onde vídeos explicam quantitativamente e de que forma ele trabalhava sem dizer uma palavra sobre o que fazia.

Em nenhum instante, os curadores discutem ou estimulam a discussão sobre as qualidades plásticas de um pintor que foi precursor em relação a Picasso. Também não há cronologia visual. Apenas cronogramas em painéis, como se estivéssemos consultando Wikipédia. Descobrimos sozinhos os prodigiosos desenhos, telas, gravuras, painéis de madeira esculpida, relevos policromados, vasos e garrafas de cerâmica. Sendo mais fácil conseguir móveis e vasos do que pinturas, há um exagero deles na exposição que, assim, torna-se extremamente cansativa.

Até a próxima que agora é hoje e, contra este vírus contemporâneo, infelizmente até agora não há tratamento!

Holograma que descreve “La Maison du Jouir” (A Casa do Gozar), uma casa na Polinésia francesa onde Paul Gauguin morou, e que Victor Segalen visitou um ano depois de sua morte.

 

 

Nu no MAM: as reações reveladoras

João Doria, prefeito de São Paulo, é capaz de declarar publicamente (sem conhecer o percurso, a obra e a história da arte em geral) que o trabalho de um artista “é uma cena libidinosa”. Não sei e não é minha especialidade explicar a razão pela qual toda a baixeza que reside calada nos recônditos das sociedades só vem à tona e levanta a voz nos períodos mais podres de sua história. Mas é um fato.

Antes da segunda guerra, o exército francês era considerado como um dos mais potentes do mundo. Em 1940, quando a França entregou-se em rendição aos alemães – época em que o seu povo acabou perdendo confiança nas instituições, deixou de orgulhar-se de seu país e começou até mesmo a colaborar com o inimigo – testemunhou-se o início de um declínio que durou por muitos anos. A sociedade francesa revelou, então, o que tinha de pior: delações, racismo, intolerância, intimidação, clima de ódio, injustiça, polarização política entre colaboracionistas e resistência… Polarização, diga-se de passagem, já herdada do Caso Dreyfus que dividira a França por longo tempo, durante o final do século 19.

Não sei e não é minha especialidade explicar a razão pela qual toda a baixeza que reside calada nos recônditos das sociedades só vem à tona e levanta a voz nos períodos mais podres da história. Só sei que com o advento de Internet e das redes sociais, as ocorrências deste fenômeno são multiplicadas por milhões, tomam uma proporção devastadora e acabam revelando não só uma espécie de “imbecilidade de massa”, como também  a própria degenerescência de um país – que é o que está acontecendo hoje, infelizmente, no Brasil.

País cujo o prefeito de sua cidade mais importante é capaz de declarar publicamente (sem conhecer o percurso, a obra do artista e a história da arte em geral) que o seu trabalho “é uma cena libidinosa”. Ora, onde está a “afronta à liberdade de outrem”, como ele diz, numa apresentação que não possui nada de erótico, violento, sexual, perverso ou ofensivo – em que um homem nu encontra-se deitado como morto, ou dormindo, sobre as costas?

Claro que nem tudo pode ser mostrado às crianças. Cabe aos curadores usar a estratégia da “classificação indicativa” (coisa que não é censura, propus no artigo anterior e o Ministério da Cultura agora também defende) e aos pais de decidirem o que é melhor para os seus filhos. Onde está a ofensa, então, se a sala onde ocorria a performance, segundo os organizadores, estava “devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a nudez artística” e, mesmo com esta advertência, uma mãe decidiu levar a sua criança para assistir? Porque tanta indignação se a criança, com a permissão materna, tocou no homem como para ver se ele estava vivo ou dormindo, sem que se tenha podido testemunhar neste gesto, em nenhum momento, qualquer malícia ou intenção “sexual”?

Ou é com fins eleitoreiros que o nosso prefeito junta-se oportunisticamente aos neomoralistas integristas, os “talibãs” domésticos de plantão que, por sua vez, evidentemente também se unem a certas bancadas religiosas do nosso poder legislativo?

Em períodos de degenerescência política e social, qualquer fato pode tornar-se objeto de ódio e injustiça

A performance deste artista coreógrafo (que já realizou muitas outras na mesma linha) interpreta a célebre obra interativa “Bicho” de Lygia Clark – na qual o público é convidado a interagir mexendo em seus braços, pernas e no restante do corpo para alterar a sua posição como se ele mesmo fosse a escultura articulada da artista, falecida em 1988. Não há nada de novo, nem de excepcional em apresentações como esta. Yves Kein, John Cage, o grupo Fluxus e seu iniciador George Maciunas, Marina Abramović, Ulay, Vito Acconci, Joseph Beuys, Chris Burden, Allan Kaprow, Yayoi Kusama, Hermann Nitsch,Yoko Ono, Orlan, Gina Pane, Niki de Saint Phalle, Ben, Wolf Vostell, Ivald Granato, Gilbert & George e suas críticas à sociedade inglesa e à religião, são apenas poucos exemplos. Vários deles se apresentaram ou apresentaram personagens nus em seus trabalhos ao vivo, em diversas partes do planeta.

Se pessoas nuas não são “tabu” em tribos indígenas, são menos ainda em espetáculos, performances (ou pinturas) de museu. No entanto, as reações provocadas, em curto espaço de tempo, pela exposição “Queermuseu”, a peça teatral “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, e a presente performance “La Bête” no MAM, mostram como, em períodos de degenerescência política e social, qualquer fato torna-se “objeto de projeção”, derivado direto do “objeto transicional” que alimenta o fogo das paixões, quase como um vaticínio ou um apelo à guerra civil virtual.

Hoje, no Brasil, as intimidações morais se aproximam daquelas que se viu durante o declínio da sociedade francesa, quando esta se encontrava perdidamente desconfortável depois da derrota na segunda grande guerra. Até a próxima que agora é hoje e quando uma parte das pessoas começa injustamente a considerar arte como “degenerada”, isto sempre significa que são estas próprias pessoas que estão em vias de degeneração!

 

 

Que vergonha, senhores!

O fechamento da exposição “Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira” no Santander Cultural na capital gaúcha, é um dos raros casos no mundo da arte, em que todos – sem exceção – pisaram na bola.

“O tato é a imaginação do que os outros podem sentir.
O fato de ele nascer da imaginação explica porque é tão raro.”
Charles Dantzig

Todos pisaram na bola. A começar pelo curador Gaudêncio Fidelis que por ingenuidade, provocação, irresponsabilidade, falta de tato ou – como escrevi no meu post “O que é um curador?” – por se sentir mais real do que o rei, mais artista do que os artistas, exagerou em suas “obsessões, temas preferidos, subjetividade individual, possivelmente também integrando ao trabalho – como fazem outros curadores – a sua experiência pessoal”. Isso, porém, de maneira centrada, egoísta, arrogante e desrespeitosa. Como se o público, com as suas diferentes sensibilidades, muitas vezes com os seus às vezes inevitáveis e perfeitamente compreensíveis limites, não existisse.

Por mais pessoal que ela seja, uma exposição não é feita para si. Ela é destinada, antes de tudo, a um público de diferentes faixas etárias e sociais. Em qualquer exposição do mundo, em Paris, Nova York, Tóquio ou Berlim, as obras inadequadas a crianças ou que podem ferir o sentimento de certos adultos, são isoladas com um aviso. O público fica livre para escolher visitar estes “espaços reservados” ou não.

Na exposição de Jeff Koons, no Centro Pompidou em Paris, por exemplo, o curador teve este cuidado. Quando o público, depois de ler a comunicação, escolhe por sua própria vontade transpor as barreiras para ver algo que sabe que vai revoltá-lo, já não pode reclamar porque a escolha foi dele. É por esta razão que jamais se viu uma “exposição explícita” em países civilizados. Que vergonha, senhor curador!

Desrespeito de todos os lados…  Ninguém se salva nessa história.

O banco Santander pisou na bola. Depois de ter acolhido a mostra, cedeu à pressão das “críticas” e de seus cofres-fortes. Voltou atrás, numa atitude francamente covarde, contraditória e arbitrária (sem consultar o curador ou lhe dar a oportunidade de rever a montagem deslavada) “pedindo desculpas a todos os que se sentiram ofendidos”. Como se os banqueiros tivessem sabido no último minuto que algumas das obras da “Queermuseu” no Santander Cultural, feita com a captação de R$ 800 mil por meio da Lei Rouanet, “desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a sua visão de mundo”. Que vergonha, banco Santander!

Parte do público também pisou na bola, com uma enorme violência, sobretudo nas redes sociais. Os germes da intolerância e preconceito subiram à tona como para nos lembrar que o conceito de “arte degenerada” não pertence apenas aos nazistas. O MBL pisou na bola gravemente. Comemorou a censura como uma “vitória da pressão popular”, alguns tecendo um amálgama oportunista, vil e demagógico entre manifestações artísticas livres, partidos e ideologias. O movimento pediu até mesmo que os correntistas do banco, encerrassem as suas contas. Trata-se de uma nova forma de macarthismo na “caça às bruxas”  ou de sovietismo na “caça aos burgueses”. Dá na mesma, caça é caça. Em  vídeo com mais de 400.000 visualizações, um representante primitivo desse retrocesso visita o centro cultural com insultos dignos dos fascistas nas piores ditaduras. Que vergonha, facção e minoria de pequenos déspotas!

Até a próxima que agora é hoje e, mesmo para mim que nunca fui nostálgica, o Brasil da minha infância parece um paraíso!

A exposição ‘Queermuseu’, no Santander Cultural, em Porto Alegre

7 cuidados que devemos tomar

Como dizia o escritor, poeta e filósofo francês Paul Valéry (1871-1945)1, precisamos tomar muito cuidado com os que:

1) gritam em alto-falantes, insultam, apostrofam.

2) fazem discurso de poder maior do que um homem.

3) fazem falar coisas fictícias (e inverificáveis) como Povo, História, deuses e ídolos.

4) tratam os outros e os entendem como matéria de seus próprios julgamentos e desejos.

5) levam as pessoas a agir, pagar e lutar.

6) estipulam no lugar dos outros.

7) pretendem conhecer melhor os nossos interesses do que nós mesmos.

O espírito livre

Se anarquia – segundo Valéry – é “quando cada um de nós tenta recusar qualquer submissão à injunção do inverificável”; se, ainda segundo ele, um “espírito livre não se apega às suas próprias opiniões e é inalienável”2; e se eu mesma penso que devemos sempre recusar as ideias feitas, os discursos ideológicos de direita e esquerda – colocando em causa os valores estabelecidos – então… até a próxima que agora é hoje e acabo de descobrir:

devo ser anarquista!

 

1 em “Principes d’anarchie”, Ed. Espaces & Signes
2 em “Regards sur le monde actuel”, Ed. Gallimard

 

Ilustração – “Cristo abençoando”, Rafael Sanzio (1483 – 1520), cerca de 1506.

4 razões para amar o barro

Na arte, assim como na vida, costumamos celebrar muitos elementos e matérias, porém o barro é sempre esquecido, às vezes até mesmo desconhecido pelos artistas.

E, no entanto, esta amada mistura de argila  e água, é nela que também podemos pensar quando queremos ficar de bem com a existência. Não apenas porque o barro seja bíblico ou simbólico, como repositório divino do sopro da vida, mas porque “é” a própria vida.

Escuro, úmido, orgânico, sempre enigmático, nunca se sabe de que reserva, margem de rio ou manguezal, ele provém. Frio, liso, elástico, odorante, quando exala seu perfume mineral entre os dedos torna-se sensualidade pura. Fala aos sentidos, mas também à memória e à percepção da arte. Não admira que se tivesse feito amar por Rodin, minha avó e todas as crianças que, enquanto “pequenos Prometeus” como eu, tiveram a sorte de acariciá-lo para modelar figurinhas em seus “olimpos”, sendo que o meu “lugar paradisíaco de divindades” era o ateliê de escultura dela.

Para Didier Vermeiren (1951), artista belga que esteve na 18a Bienal de São Paulo (1985), “Rodin não é um talhador mas um modelador”. Vermeiren, que, no começo deste ano, visitava o Museu do mestre falando ao microfone da Radio France Culture, comentou: “nos fizeram acreditar que Rodin era um talhador, essa figura heroica do escultor que ataca um bloco de mármore. Não é verdade! Isso evidentemente é a figura de Michelangelo que ainda domina, ele que dizia que a verdadeira escultura era a pedra e não a argila. Para Michelangelo trabalhar a argila era como fazer pintura.”

Princípio básico, herdado de Brecheret

Só entendi o significado do barro, quando passei a fazer companhia à minha avó Felícia (1904-1996), enquanto ela trabalhava no ateliê envidraçado, no fundo da casa. Lá, ela me construia uma pequena armação de madeira e arame, geralmente com a forma de um homem. Depois, dirigia-se ao tanque, onde afastava os pedaços de pano encharcados de água que protegiam a argila do ressecamento, arrancava um bom pedaço daquele material e, após amassá-lo e transformá-lo em uma bola, mostrava-me como preencher com ele o homenzinho.

“Se não der certo”, dizia, “a gente desfaz e refaz a figura, tudo de novo!”. Mas, quando ela via o meu horror ao imaginar a destruição do boneco, tentava me acalmar afirmando com muita autoridade:

– “Um artista deve ter a coragem de destruir o que ele julga ruim. Não pode ter medo, não pode ter preguiça! Ele tem que refazer, refazer, refazer, até o momento em que achar que está bom de verdade!”

Sim, certamente. Embora eu não fosse artista e gostasse do meu homenzinho mesmo que ele saísse torto, entendi muito bem a lição. Assim, enquanto eu me aplicava em copiar os gestos dela, usando as mesmas espátulas de madeira com aros de ferro, Felícia dizia coisas sobre o ato de esculpir que associo hoje às palavras de Vermeiren quando ele fala de Rodin.

Ao invés do “ataque à matéria”, a minha avó, apesar da força de suas mãos, empregava toda a sua energia para manipular a forma na duração eterna e inquebrantável dos contornos. A mim, parecia mais uma carícia, do que um ataque. E era o princípio básico, herdado de Victor Brecheret (1894-1955), seu professor, que provavelmente também herdou de Rodin: perpetuar os volumes num só transcurso, sem interrupções na linha que os contorna, imprimindo às formas todo o seu significado.

Até a próxima que agora é hoje e, como está no Tao Te Ching, “do barro fazemos um pote, mas é o vazio interior que retêm o que queremos”. Viva esse material divino! Material que:

  1. representa a vida

  2. tem o dom de nos deixar de bem com o mundo.

  3. fala aos sentidos, mas também à memória e à percepção.

  4. imprime às formas todo o seu significado, num só transcurso.

Cenas de “Rodin”, filme biográfico de Jacques Doillon, interpretado por Vincent Lindon (foto), Izïa Higelin e Séverine Caneele.

 

Na França, o grande kitsch temático da arte

“A França é um gigantesco parque de diversão para turistas russos, indianos ou chineses.” (Michel Houellebecq, em “O Mapa e o Território”, 2010)
“Em cinquenta anos, vejo a França como um grande parque turístico.” (Gerard Depardieu, ator, em entrevista de 2016)

Até mesmo as artes plásticas possuem o seu parque de diversão. Ao lado de Disneyland Paris, Puy du Fou, Futuroscope ou Parque Asterix, há o “Les Carrières de Lumières”, lugar dedicado ao que chamam de “exposições de arte imersiva”. De Michelangelo, Leonardo, Bosch, Klimt, Monet, Renoir e Chagall, até Gauguin e Van Gogh, milhares de telas gigantes são projetadas em 7,000 metros quadrados como em uma coreografia, sob fundo musical clássico e moderno.

O “Les Carrières de Lumières”, inaugurado em 2012, fica em Les Baux-de-Provence, comuna turística perto de Provença-Alpes-Costa Azul. Apresenta neste momento, o espetáculo “Bosch, Brueghel, Arcimboldo. Fantástico e maravilhoso” (até 7 de Janeiro de 2018). O nome não é muito original e a exposição tampouco. Como em desfile alegórico de rua ou uma narrativa de narrativas (o que é bastante redundante) 2 mil imagens movimentam-se pelos muros, no espaço de 7,000 metros quadrados, durante 30 minutos. E tudo isso sob fundo musical de Carmina Burana (Carl Orff), Quatro Estações (Vivaldi), peças de Mussorgski e Led Zeppelin.

Difícil adivinhar o que a grande arte e a imaginação sem limites dos grandes mestres do século 16 fazem nestes cenários, músicas e animações, já que não são roupas ou acessórios de moda como as que foram mostradas na linda e feérica retrospectiva Christian Dior.

Ver esses trabalhos transformados em clipe tridimensional é triste! Pior do que ouvir os “remix” musicais onde os DJ’s desrespeitam compositores e intérpretes.  Ao dar volumes reais aos volumes virtuais dos artistas e outros truques, os virtuoses espertalhões esvaziam a linguagem dos mestres, transformando obras-primas em assombrosos e gratuitos exercícios técnicos.

Fica como se o Jardim das Delícias, a Tentação de Santo Antônio (telas de Hieronymus Bosch) e outras preciosidades como as frutas de Giuseppe Arcimboldo ou as festas campestres de Brueghel, fossem ilustrações ou decorações para a grandiloquência artificial e sensacionalista de um show de cabaré. Certo, pode ser muito bonito, mas será que estas maravilhas pictóricas (em si) precisam de “efeitos especiais” para que cheguemos a elas?  Até mesmo uma pequena reprodução em cartão postal pode ser mais fiel à nossa percepção…

De 2012 para cá, o lugar atraiu mais de 2,1 milhões de visitantes. O sucesso levou a instituição a abrir uma filial deste seu “parque temático” kitsch numa antiga fundição do século 19 em Paris, onde será inaugurado em abril de 2018. Mais de 3,300 metros quadrados serão dedicados a estes shows feitos com a técnica AMIEX® (Art & Music Immersive Experience).

Até a próxima que agora é hoje e os que se vendem ao mundo do espetáculo, ao invés de levar arte ao povo – em nome da diversão, vulgarização e consumo – acabam por afastá-lo cada vez mais da verdadeira experiência estética!

 

O que é um curador?

Hoje, o vocábulo está bastante inflado, qualquer um se batiza assim e a palavra parece não significar mais nada. Apesar disso, para alguns trata-se de uma profissão em plena ascensão, para outros em vias de desaparição. Afinal, o que é um curador de arte?

O curador ou “super” curador, como também costuma ser chamado, define-se por si mesmo, segundo 10 critérios:

1) não é novidade. Os curadores sempre existiram, apenas que sob outros nomes. Se remontarmos ao renascimento, período no qual o artista passou de sua condição de artesão a “autor”, já há traços de uma forma primeva de curador. Pode-se dizer, talvez, que Giorgio Vasari foi o primeiro “conselheiro/curador” do mundo. O seu livro Vidas dos Artistas pode ser visto com um ponto de partida ao que seria a profissão de curador, cinco séculos depois.

2) não é apenas um “organizador de exposições”. O organizador (ou “comissário”, na França) pensa a exposição como uma estrutura orgânica ou um “todo ideal”, o que o aproxima do conservador de museu. O curador, ao contrário, pensa a exposição como um “gesto crítico”. Curadoria é uma “crítica tridimensional” que usa a arte como medida, fazendo da exposição um espelho – fenomenológico e democrático – da aventura criativa.

3) pode ter múltiplas competências, porém não basta ser jornalista, fotógrafo, artista, arquiteto, escritor, poeta, nem mesmo um historiador. Um curador é sobretudo um crítico e/ou teórico, com trabalho reconhecido de reflexão sobre a arte.

4) é ubíquo. Está em várias partes do planeta e visita o maior número de ateliês e exposições de arte que lhe for possível.

5) não é um artista mas encontra-se, tanto quanto ele, dentro da turbulência de valores nos quais a arte se origina. Assim como o artista, possui obsessões, temas preferidos, subjetividade individual, e integra ao trabalho a sua experiência pessoal.

6) é como um metteur en scène ou maestro. Realiza uma “obra” sobre e a partir da arte – como uma ópera, peça teatral ou concerto.

7) não possui ligação com o mercado ou a conservação de obras.

8) ainda não precisa de diploma ou formação específica, apenas do reconhecimento de sua competência.

9) é uma espécie de inocente útil dentro dos esquemas milionários da arte. Raramente é bem pago. Jamais se ouviu falar em curadoria de uma exposição que permitisse a compra de um carro esporte conversível.

10) comparado ao “conselheiro artístico” (advisor) de colecionadores, não é uma profissão de futuro. O curador, tanto quanto o crítico de arte, o comissário de exposições e o conservador de museu, perdeu a antiga prerrogativa de dar legitimidade crítica e institucional aos artistas. De uma década para cá, é o “advisor” que detém este poder.

Até a próxima, que agora é hoje e, se houvesse um só critério, curadoria seria apenas a arte de admirar!