Vida urbana

Anteontem, 14, dia do professor, o mestre e médico, entre outras coisas, do meu joelho que sofreu contusão em viagem – sumidade que compartilho com Michel Houellebecq, sem que este saiba, é claro -, recomendou radiografia. “Gente que escreve e é sedentária, sempre têm mais problemas do que os outros”, disse ele. Obedeci e marquei o exame para ontem, 15, maldito dia de sair de casa. Sirenas, buzinas, um barulho desgraçado não se sabia de onde, tudo parado.

Imagem: LP/Aurélie Ladet

Tentei pegar ônibus, sem sucesso. Fui a pé. O professor garantira que andar é bom para joelhos estragados e sobretudo para pessoas em busca de reflexão. Repetira mais uma vez que “desde os gregos, marchar é uma filosofia e um exercício espiritual”. E reordenara que eu fizesse “nem mais nem menos, 10 mil passos por dia!”

Depois de três quilômetros, já perto da clínica, o robô que fica dentro do meu relógio conectado falou: “Pelo jeito, parece que você resolveu fazer exercício. Quer gravar o feito?” Respondi que sim, pois ele me atribui umas medalhas de vez em quando e o meu lado geek imbecil fica contente.

‘O gás entrou até mesmo no metrô!’

Enquanto esperava o envelope com as chapas, sentia uma forte náusea.  Ao sair, entendi. Ventava muito, espalhava-se um cheiro medonho, meus olhos começaram a arder e vi que todos corriam, também enjoados, cobrindo o nariz com lenços e echarpes. Parei duas moças na rua que me explicaram: “É gás lacrimogênio, a polícia lança jatos de água e gás nos bombeiros que manifestam a dois quarteirões daqui por melhores condições de trabalho. O gás entrou até mesmo no metrô!”

Mas isso é surrealista! Bombeiros levando água e gás? Ninguém nunca viu polícia e bombeiros brigando entre si.

Mais três quilômetros a pé, desta vez em fuga no sentido oposto, e eu estava em casa. O enjôo continuou ainda por meia-hora, perdi a fome, peguei uma conjuntivite, mas o relatório do radiologista não parece desesperador. Meu joelho vai melhorar um dia. Já a política e a vida urbana, estas, acho que não. Até a próxima, que agora é hoje e tudo fica de mal a pior!

Lição da queda

Caímos doentes, caímos apaixonados, caímos na calçada, caímos na política. Toda problemática está na queda.

Imagem: Yves Klein, “Salto no Vazio”, 1960.

Estava chovendo. Ao voltar de um exame de sangue que me estressou porque a enfermeira só encontrou a minha veia quatro picadas depois, pisei na calçada com sapatilhas macias, sem prestar atenção, e tropecei num desnível. Perdi o equilíbrio, fui arriando lindamente e caí. Pousei no chão como bailarina, sem machucadura alguma, porém um pouco arrependida da minha distração.

Logo apareceram dois cavalheiros que me acudiram com perguntas e recomendações, enquanto me colocavam em pé e colhiam a bolsa e o guarda-chuva, estatelados como eu. Sorri muito e agradeci não apenas a eles, mas intimamente à minha avó que me obrigou durante toda a infância e juventude a frequentar escolas de dança clássica e depois moderna. Nas vezes em que fui ao chão em minha vida – e não foram poucas – sempre arrumei uma forma de precipitar-me em desaceleração, de maneira coreográfica, protegendo joelhos e o resto.

‘Democradura’ à vista

Um escritor, não lembro quem, disse que sempre caímos. Caímos doentes, caímos apaixonados, caímos na calçada. Toda problemática, portanto – segundo ele – está na queda. Certamente. Caímos na política também. É o que vai acontecer se o resultado das eleições coincidir com as sondagens de ontem, segundo as quais – sem o ex-presidente – o candidato da extrema-direita persiste na dianteira. Faremos parte da cena caótica internacional, ao lado da Áustria, Polônia, Hungria, Itália, Venezuela, Turquia, Rússia, etc. Ou seja, teremos uma “democradura”, termo criado em 1987 pelo sociólogo francês Gérard Mermet, oximoro no qual se combinam palavras de sentido oposto: democracia e ditadura. Esta palavra é retomada constantemente por políticos, autores e jornalistas quando se referem às ditaduras camufladas ou trucadas. Democracia liquidada, sabemos, é caída total!

Quanto à minha queda de ontem, ao contrário, penso que foi muito útil para pensar sobre a questão em todos os seus ângulos e me perguntar que lição eu deveria tirar do acontecimento. Sim, porque já que nasceu de uma experiência, acontecimento sem preceito não faz sentido. Tanta gente viu maçãs caindo de árvores e não pensou em nada. Já imaginou se Newton não tivesse se perguntado qual era o ensinamento daquilo?

Para mim, a lição de Confúcio de que “a grande glória é saber levantar a cada vez que caímos”, serviu muito menos do que o ditado judaico que diz que para cair não precisamos de ninguém, mas para levantar é melhor ter um amigo”. O que teria feito estendida na rua, sem meus dois cavalheiros?

‘Cair’ é assunto sem fim

Lembrei, é claro, do terceiro capítulo do Gênesis, que – embora não fale dela – trata da “queda” que é quando Adão e Eva desobedecem o Criador e comem o fruto do conhecimento do bem e do mal. Depois pensei em Albert Camus, autor de um livro com este título, se bem que a verdadeira queda é de Meursault, seu personagem em “O Estrangeiro”. E pensei em Cioran, enorme escritor e filósofo romeno que adorava temas pessimistas e escreveu magníficamente sobre “The Crack-Up” de Scott Fitzgerald, que começa o livro com a frase simpática e otimista “Of course all life is a process of breaking down ….” (“Claro que a vida inteira é um processo de queda…”). Livro, aliás, que foi publicado por seu amigo, o grande Edmund Wilson, escritor e duro crítico literário que chamou “O Senhor dos Anéis” de J. R. R. Tolkien de “lixo juvenil”. Até o filósofo Gilles Deleuze adotou o termo “crack-up” de Fitzgerald para se referir à sua interpretação do “instinto de morte” freudiano. Enfim, “cair” é assunto sem fim tanto em literatura quanto em artes plásticas. E, nem sempre, baixo-astral.

Sei que “o melhor segredo para não cair é ficar sentado”, como dizia Stendhal, porém penso que as quedas foram inventadas para nos levantarmos e proteger. Até a próxima que agora é hoje, pena dos que nunca caem. Só quem cai pode se levantar!

Lula, a morte e a política: devemos nos indignar?

Como para milhares de indivíduos que não se detêm para refletir, ao ver as imagens do velório e ouvir o discurso de Lula, a minha primeira reação foi pensar que era deplorável aquele “faturamento político” da morte da ex-primeira-dama. Porém, antes de me indignar e julgar, resolvi me dar o tempo de pensar. Além do mais, esta é uma questão que toca a arte.

Imagem: Philippe Pasqua (1965), Vanité.

É uma questão que toca a arte porque trata de reflexão, julgamento e sobretudo empatia que, do ponto de vista psicológico, é o processo de se colocar no lugar do outro assim como de um objeto artístico para compreender emocionalmente o seu comportamento e significado. E do ângulo social ou estético é uma forma de percepção do objeto ou da pessoa que está fora de nós, do ponto de vista dela mesma – e não de nós.

Como para milhares de indivíduos que não se detêm para refletir, ao ver as imagens do velório e ouvir o discurso de Lula, a minha primeira reação foi pensar que era deplorável aquele “faturamento político” da morte da ex-primeira-dama.

Porém, antes de me indignar e julgar – o que teria sido mais fácil pois nunca defendi este personagem, suas ações e ideias; ao contrário, gostaria, isto sim, que respondesse em Justiça pelo que fez, não fez ou deixou de fazer – resolvi me dar o tempo de pensar. Afinal, quem somos nós para “moralizar”, se para Madame de Staël e Tolstói “tudo compreender é tudo perdoar”?

Além disso, tenho horror à chamada “moralina”, neologismo inventado por Nietzsche que designava uma certa moral cristã com a qual a burguesia “bem-pensante” do século 19 se vestia para camuflar melhor a sua rapinagem, autorizar o seu poder e continuar a explorar os pobres em nome de Deus.

Hoje, infelizmente ainda grassam os espíritos bem-pensantes e a “moralina” continua. Somos obrigados a beber pelo menos três copos por dia de ideias convencionais e padronizadas, tanto na imprensa quanto nas redes sociais.

Devemos nos indignar?

Para refletir, não levou mais do que alguns segundos. Nem precisei de muito esforço. Porém, mais do que entender o suposto “faturamento político da morte” por Lula, percebi o quanto falta de compreensão da alma e psicologia humanas mesmo em especialistas respeitáveis. Compreendi que alguns “pundits”, experts e líderes formadores de opinião – célebres gurus das redes sociais – precisariam, tanto quanto os políticos, de uma boa injeção de responsabilidade! Estes analistas de eventos na mídia popular transmitem falsas expectativas e julgamentos breves, não raro errôneos e levianos, a milhares de “carneirinhos automáticos” que os compartilham e “curtem”.

Contudo, será que é tão difícil captar, por empatia, que para alguém que come, bebe, fuma, dorme e ama política, não existe compartimentação entre os setores da sua vida? É tão complicado perceber que um homem primário que se casa, tem filhos, se veste, anda, ri, chora, fica são, cai doente, vive e vai morrer politicamente e só politicamente – que este indivíduo intelectualmente limitado e a política são uma coisa só? Se nem a participação de um Papa pode ser outra que a religiosa, como esperar uma configuração e consciência apenas humanas, num velório onde as pessoas envolvidas não têm outra dimensão senão a política?

Não tenho a menor intenção de defender Lula. Gostaria apenas de apontar os pseudo-moralizadores, destiladores constantes de “moralina” que se indignam com tanta rapidez e facilidade, sempre julgando sumariamente o que ou quem detestam, a partir de si mesmos, sem jamais se colocar no lugar do outro. Objetividade e justiça só podem nascer da aptidão de não projetar as próprias suposições, impressões e valores, mesmo quando o objeto é odiado.

Até a próxima que agora é hoje e tremo só de pensar em como que esses “gurus” julgariam obras de arte, caso a tarefa lhes fosse apresentada. Se é tão difícil para eles tomar alguns segundos do seu tempo para pequenos exercícios de empatia e reflexão, imagino como veriam a arte!