Meu encontro com Volpi

Continuo a minha série de encontros. De tempos em tempos, publicarei algum. Ao contrário de César, com Alfredo Volpi (1896 – 1988) foi simpatia à primeira vista. Na simplicidade da casa no Cambuci, em 1976, pouco antes de eu publicar um longo texto no Estadão sobre a sua obra, ele conversou comigo de maneira amável, ainda que um tanto indiferente.

Enquanto nos fazia um café perguntou a minha idade, comentou que tínhamos bem mais do que 50 anos de diferença (o que explica um pouco a puerilidade de minhas perguntas) e contou que a sopa de alho era o segredo da sua saúde e longevidade. Depois, sentou-se na cadeira da sala deixando-me a poltrona e, à medida que enrolava o cigarro de palha, dispôs-se a falar como se o nosso diálogo fosse mais uma de suas tarefas diárias, algo que era obrigado a cumprir como “plantar cogumelos”, pensei eu, lembrando de John Cage. Ele completava oitenta anos naquela semana e dava a impressão de que nada do que falássemos teria grande importância. Tinha a figura sólida do chassi – que ele mesmo construía – ou de uma tela preparada para receber a sua têmpera. E a sensibilidade e poesia de suas formas e cores, com as quais procurou transcender a realidade. Creio que foi o artista menos narcisista que já conheci:

-“Quem é Alfredo Volpi, hoje?”

-“Hoje? Um velho de oitenta anos. Só isso.”

-“Desde os quinze você vem trilhando o caminho da arte. Olhando para trás, o que é que mais o satisfaz?”

-“Não sei. Para mim nunca aconteceu nada demais. A minha vida não tem altos nem baixos. Não teve felicidades nem tristezas.”

-“E arrependimentos?”

-“No meu trabalho? Não tive, não. Quando não gosto de alguma obra, destruo.”

-“Em que sentido a sua vida particular se misturou ao seu trabalho e vice-versa?”

-“É tudo uma coisa só. A vida é o trabalho e o trabalho é que dá vida. Trabalhar nunca envelhece.”

-“Hoje em dia você é uma personalidade famosa e tem uma cotação altíssima no mercado. Como você se enxerga nesse papel?”

-“O quê?”

-“Você hoje é uma celebridade…”

-“Isso é bobagem. Que celebridade? Nunca penso na celebridade.”

-“O que é talento?”

-“Todos têm talento. Uns têm mais, outros têm menos. Quem tem mais, produz mais. Isso é uma coisa natural em mim. Cada um dá o que pode dar e não tem nada de extraordinário.”

-“O que orientou a sua vida do ponto de vista filosófico?”

-“O trabalho, somente o trabalho.”

-“A arte é uma paixão para você?”

-“É uma coisa natural. Está em mim mesmo. Como é que posso ter uma paixão? Em mim mesmo?”

-“Então, você tem paixão por quê?”

-“Pela vida.”

-“Você não se identifica de certa forma com alguma escola ou artista?”

-“Não. O que eu faço sou eu. E o que outro pintor faz, é ele. Nunca tive influências. Se gosto de um pintor, isso não quer dizer que vou me influenciar. Tenho sempre um problema diferente. Qualquer pintor bom me interessa. Gosto de ver um trabalho bom.”

-“Que influência tiveram as escolas para você?”

-“Quando comecei a pintar, nem conhecia os impressionistas e peguei os mesmos problemas deles. Foi a natureza que me indicou isto. Quando se abandona a natureza é que começa o expressionismo. De dentro para fora. Depois isto se transforma. A gente se desliga e então só passa a existir o problema da linha, forma e cor. O assunto desaparece. Some a paisagem, some tudo. As minhas bandeirinhas não são bandeirinhas; são só o problema das bandeirinhas. Problema de toda uma construção para resolver em pintura, as cores.”

Quando a arte e a vida são uma coisa só

Em 1988, quando ele faleceu, escrevi que Volpi não havia representado apenas uma categoria de arte. Mais do que isso, figurou como um modelo de artista, para quem a arte e a vida são uma coisa só, uma unidade indivisível. O mestre representou sobretudo um estilo de vida que determina (e é determinado) por opções estéticas. A vida de Volpi o levou à pintura e a pintura formou a vida de Volpi. Algo da mais absoluta coerência, integridade e verdade.

Hoje, diante dos variados apelos, dos diversos instrumentos de linguagem, de milhares de possibilidades plásticas, materiais e intelectuais, diante da indeterminação, das dúvidas e da negação, esta imagem do artista uno, determinado, “operário” do seu métier, surge como uma miragem. O paraíso perdido que esconde o segredo da felicidade: todas as respostas sem qualquer pergunta.

Aí está a razão do mito. Não na pintura, apenas. Não em seu resultado formal e naturalmente muitas vezes desigual. Mas na verdade com que uma obra e uma vida são entrelaçadas e concebidas. Artistas como Rothko, Reinhardt ou Pollock foram mitos por esse motivo. A única diferença entre eles e Volpi – excetuando as características intrínsecas das obras, é claro – é que eles morreram por sua arte. Volpi viveu por ela.

Os primeiros morreram sem respostas. Volpi as tinha todas. Ou pelo menos vivia e pintava como se assim fosse. Todos foram sábios. Apenas que os primeiros perguntavam-se, Volpi, não. E esta era a sua grande forma de sabedoria, a simplicidade. A aceitação das coisas como absolutamente “naturais” em si e fora de si. Tanto quanto o John Cage (dos cogumelos), uma atitude, no final, talvez muito mais sofisticada do que o niilismo, a angústia e os recursos artificiais da pós-modernidade que nem Rothko, Pollock, ou Reinhardt experimentaram.

Até a próxima, que agora é hoje!

Meu encontro com Umberto Eco

Meu encontro com César

 

 

Colados na realidade

Há algum tempo fui ao Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris, ver a enorme exposição monográfica “Albert Marquet, pintor do tempo suspenso” que este ano foi mostrada no Museu Pouchkine de Moscou. Resolvi prestar um pouco de atenção também aos comentários de diversos visitantes que, além de ficarem falando com os vizinhos, pareciam passar mais tempo lendo as etiquetas e ouvindo o guia no smartphone, do que olhando as telas.
Albert Marquet (1875-1947), La Varenne Saint-Hilaire, A Barca, 1913 – Óleo s/ tela, 65,4 x 81 cm

Menos conhecido do que Giorgio de Chirico, Raoul Dufy ou Kees van Dongen, sempre vi este artista relegado a um cantinho nos museus. E, no entanto, Marquet – amigo de Matisse, que evoluiu do pós-impressionnismo ao fovismo, conservando um estilo próprio – é certamente um dos pintores mais fascinantes da primeira metade do século 20.

A mostra é de cair o queixo! Centenas de vistas de cidades, portos, rios, o Sena, oceano, mar, lagos, praias da Europa e da África do Norte – acho que poucos artistas viajaram tanto para fazer tantas obras parecidas umas com as outras!

Olha a bandeirinha da França!

Menos por bisbilhotice do que por curiosidade sócio estética, resolvi prestar um pouco de atenção aos comentários de diversos visitantes:

  • “Onde você acha que fica essa praia? No Midi?”

  • “Estou reconhecendo! É na Argélia!”

  • “Deixa ver o que está escrito.”

  • “Será que é aquarela? Ah não… deve ser pintura.”

  • “Eu já vi esse lugar!”

  • “Essa mancha é Notre Dame.”

  • “Que mancha escura! Ele não devia gostar de igreja.”

  • “A ponte você lembra.”

  • “Aqui está nevando.”

  • “Quanta água!”

  • “Será que tem o cartão postal?”

  • “Ele devia ver tudo isso da janela da sala.”

  • “Pintando o sol assim, podia ficar cego!”

  • “A que horas ele saía pra pintar?”

  • “Estou até sentindo o cheiro do mar, hehe!”

  • “O Havre você adivinha na hora…”

  • “Olha a bandeirinha da França!”

  • “Que nuvens esquisitas… essa parece um urso.”

  • “Pelo jeito deve ser outono.”

O pessoal via e pensava em tudo, menos em pintura. Ninguém parecia preocupado, como eu, em saber como é que Marquet fazia para que as suas obras estivessem tão além da realidade e fossem muito, mas muito, muito mais lindas do que ela.

Até a próxima, que agora é hoje!

 

 

Rosenquist, o anti-Warhol

James Rosenquist, um dos pioneiros da arte pop, morreu aos 83 anos, no dia 31 de março, em Nova York. O artista, que sempre quis se diferenciar de Andy Warhol, integrava objetos comuns de consumo em uma obra quase tradicional, fundada na figuração de caráter surrealista. Influenciado por Magritte e Dalí, mais do que Lichtenstein, Wesselman ou Dine, Rosenquist criou imagens-colagens recortadas segundo um processo cinematográfico de “telas múltiplas”.
James Rosenquist
“F-111”, no MoMA em Nova York. James Rosenquist começou a pintar este quadro em 1964, no meio de uma das décadas mais turbulentas dos Estados Unidos. Inspirado pelos cartazes de publicidade e pela pintura mural como as “Nymphéas de Monet”, ele desenhou 23 painéis para a galeria Leo Castelli Gallery em Manhattan.

O primeiro trabalho de Rosenquist que vi pessoalmente foi o “F-111, no final de 1964, em Nova York. Mesmo adolescente, esta peça de 2 metros de altura por 26 de comprimento, que pertence ao MoMA, me marcou. F-111 era o nome de um bombardeiro americano durante a guerra do Vietnã, e a tela mistura espaguetes, uma menina sob um secador de cabelo e o cogumelo atômico. Ainda hoje, ela me causa arrepios.

Nascido em Dakota do Norte, James Rosenquist, filho de um pintor amador, instalou-se em Nova York aos 22 anos, começando por pintar painéis publicitários na Times Square, antes de definir o gênero “pop” na companhia de artistas como Andy Warhol e Roy Lichtenstein. Eles, assim como Claes Oldenburg, Wesselmann e Dine foram, nos anos 1960, os expoentes deste que é um fenômeno claramente americano. Afinal, as manifestações da pop arte estavam enraizadas no contexto socioeconômico dos Estados Unidos e, especialmente, na grande mitologia figurativa criada pelos meios de comunicação. O artista pop se contentava em observar e reproduzir, elaborando os signos das mensagens visuais e dos objetos que a sociedade de consumo propunha ao público. Isto, geralmente de maneira fria e crítica, como uma “constatação”, onde o viés ideológico muitas vezes estava ausente.

Suas obras são a anatomia de uma figuração que poderia estender-se ao infinito…

As composições de Rosenquist são sempre pintadas em telas de grandes dimensões, descendentes irônicas da “pintura de Salão” e da imagem publicitária que prolifera no espaço urbano americano. O artista buscava as suas fontes em linguagens já elaboradas, como a das revistas e dos cartazes que ele deformava para obter uma segunda linguagem, uma espécie de metalinguagem onírica e exótica escondida atrás de signos reconhecíveis da realidade. Estas obras imponentes, que se estendem em superfícies imensas, dão a impressão de não estarem presas em campos delimitados de visão. Elas revelam toda a sua riqueza de combinações, por meio de imagens associadas, dissociadas e justapostas. Ao contrário dos trabalhos “conceituais” de Warhol, são a anatomia de uma figuração que poderia estender-se ao infinito…

A partir dos anos 80, quando as suas pinturas se tornaram menores, o artista, à procura de uma imaginária e mitologia contemporâneas, criou ambientes para os quais usou telas de plástico. Contudo, não renunciou ao grande formato: em 1987 e 1988, realizou dois trabalhos de cunho ecológico, intitulados “Bem-vindo ao Planeta Água” (Atlanta e Estocolmo). A retrospectiva organizada pela galeria de Leo Castelli (New York), em 1994, reuniu as suas grandes pinturas. Ainda em grandes tamanhos, Rosenquist executou a série “The Swimmer in the Econo-mist” (1997-1998) para a Deutsche Guggenheim Berlim e “Velocidade da Luz “(1999-2006). Parte destas obras foi apresentada na importante retrospectiva organizada pelo Museu Guggenheim em Nova York, em 2004.

Até a próxima, que agora é hoje e, grande lástima, os últimos representantes da incrível geração dos anos 1960 começam a nos deixar!

James Rosenquist: “F-111” na ala renovada do MoMA em Nova York.  Foto © Michael Kim/Corbis

 

James Rosenquist
1988: James Rosenquist em seu ateliê de Aripeka, na Florida, destruído em 2009 por um incêndio (Foto Russ Blaise)

Foto de cobertura: James Rosenquist, “Celebração do 50° Aniversário da Assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos por Eleanor Roosevelt” (1998) exibida na Art 37 de Basel, em 2006. REUTERS/Foto Stefan Wermuth