Há 200 anos, nascia ‘o olho’ de Baudelaire

O aniversário de 200 anos de nascimento de Charles Baudelaire (1821 – 1867) foi comemorado ontem, dia 9.  A data me fez lembrar que, no outono de 2016, visitei a exposição L’Oeil de Baudelaire no Museu da Vida Romântica, em Paris, com a esperança de experimentar um pouco do spleen baudelairiano, aquele estado de mágoa pensativa, tédio existencial, desânimo profundo que o poeta exprime em As Flores do Mal. Pura ilusão! A exposição foi euforizante, o museu é lindo, o pessoal simpático e o jardim, onde fica o salão de chá, é deslumbrante. Saí de lá muito mais contente do que entrei.

“Retrato de Charles Baudelaire”, Gustave Courbet, cerca de 1848.

Nas salas que fotografei, cujas fotos estão na “galeria” abaixo, uma centena de pinturas, esculturas e estampas evocadas pelo poeta nos convidavam a confrontar o nosso próprio olhar à sua sensibilidade artística.  Nos estimulavam a compreender como é que ele pôde inventar aquela definição da “beleza moderna”, a partir de uma “concepção dupla que exprime o eterno no provisório”. Além disso, tudo fazia lembrar que ele proclamou o primado da imaginação, a “rainha das faculdades”, e a “função essencial da cor para a expressão de sensibilidade.” Dava para sentir tédio?

As obras e documentos retraçavam o percurso de quem começou a sua carreira literária pela crítica de arte. Animador! O primeiro texto publicado sob o seu nome, sobre o “Salão de 1845”, encontrava-se em destaque numa vitrina. Esta primeira crítica foi seguida por outras, sobre os “salões” de 1846, 1855 e 1859, e vários ensaios. Segundo a vontade do poeta, depois de sua morte, todos os seus escritos sobre arte foram reunidos em duas antologias intituladas Curiosidades estéticas e A Arte romântica. Fiquei contente pelos críticos que – mesmo com mais livros prontos para o prelo – também só possuem dois volumes de críticas publicados. Muito embora ninguém possa dizer que foi amigo de Courbet em sua juventude, e sobretudo que foi teórico do romantismo, fervoroso admirador e exegeta de Delacroix. Bem que eu teria gostado…

Em sua obra poética e nos textos críticos, Baudelaire elaborou a noção de uma modernidade ligada à vida urbana, em Paris. Isto é outra coisa agradável de se descobrir, sobretudo quando passamos o nosso tempo praguejando contra o mau humor e falta de civilidade dos parisienses, a sujeira nas ruas e o pesadelo do metrô. Seu olho e sua pluma souberam captar e magnificar este heroísmo da vida moderna, desvendado na arte romântica.

Na mostra, cada obra possuía o seu comentário. Era como se percorrêssemos, ao lado do poeta, as mutações que se operam entre o romantismo e o impressionismo por meio dos expoentes daquela época – Delacroix, Ingres, Camille Corot, Rousseau, Chassériau -, artistas que souberam agradá-lo ou irritá-lo profundamente. Como Manet, por exemplo, cuja pintura ele jamais conseguiu gostar.

Findo o percurso, abri a porta da saída e dirigi-me à pérgola do jardim onde se encontra o salão de chá. Enquanto tomava um expresso, tentei imaginar a razão desta incompreensão do poeta. Afinal, Manet é um gigante. Só porque parecia “realista” aos seus olhos (o que não é verdade) Baudelaire precisava rejeitá-lo? Ele que havia sentido toda a riqueza dos desenhos de Daumier, ainda assim, passou longe da obra de Manet? Será que eram parecidos demais? Trocavam amizade, adoravam o dandismo, frequentavam os mesmos amigos e cafés. E, não obstante, Baudelaire reprovava a “decrepitude” da sua arte.

Pior do que isso, preferiu Constantin Guys, artista fraquinho cujo trabalho ele transformou no arquétipo pictórico da vida moderna! Mesmo presente em uma das telas emblemáticas de Manet, Música no Jardim das Tulherias, o autor de As Flores do Mal não captou nada da importância desta obra do autor da famosa Olympia. Deixou a um certo Émile Zola, ainda jovem e desconhecido escritor, a tarefa de acolher “comme il fallait” a imensa obra do mestre. Enfim… vá entender as fricções entre grandes inspirados!

Até a próxima que agora é hoje e, como dizia o próprio Charles Pierre Baudelaire em seu Spleen de Paris, contrariando toda e qualquer ideia de tédio existencial, “às vezes é bom ensinar aos felizes deste mundo que existe felicidade superior à deles, bem maior e mais refinada”. Claro, ela pode estar no simples contato com a energia do espírito e da arte, coisa que se apresenta – sempre e em quaisquer lugares – à disposição de todos nós!

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Natal e a esperança de dias melhores. Com arte.

Para preparar esta soirée, mais do que a árvore, a ceia e os presentes, será preciso arrumar fé e esperança em belos dias futuros.

Até a próxima, que agora é hoje e, aos queridos leitores de “Arte, aqui e agora”, os meus votos carinhosos e sinceros de Boas Festas e um Feliz 2021… ✨ com arte! ✨

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Philip Guston, Ku Klux Klan e a desinteligência da censura

Os jornais brasileiros não noticiam nem analisam, porém já há algum tempo cresce uma grande celeuma que movimenta artistas, críticos, curadores e outros profissionais do mundo da arte contra importantes museus de Washington, Londres, Boston e Houston que tomam o caminho covarde do “politicamente correto” e da censura. De fato, shame on them!

 

Imagem: “Riding Around”, pintura de Philip Guston, exposta em Frankfurt em 2013. Foto: Daniel Reinhardt. Picture Alliance. DPA

 

Depois de outras gafes, mais uma. Não está no comunicado de imprensa, mas o motivo é claro: quatro dos maiores museus do mundo decidiram de comum acordo adiar para 2024 uma retrospectiva dedicada a Philip Guston, grande mestre da pintura americana do século 20, porque algumas de suas pinturas retratam figuras encapuzadas da Ku Klux Klan.

Os diretores da National Gallery of Art de Washington, Tate Modern de Londres, do Museum of Fine Arts de Boston e Museum of Fine Arts de Houston anunciaram que a exposição seria adiada “até o momento em que” (eles acharem que) “a poderosa mensagem de justiça social e racial que está no centro da obra de Philip Guston possa ser interpretada mais claramente”.

Em suma, os covardes diretores temem que a dúzia de pinturas que mostram os homenzinhos do KKK sejam perturbadoras demais na época do movimento Black Lives Matter e causem protestos na frente de suas portas. Shame on them!

Philip Guston, entre o dilema de Beckett e o tormento de Kafka

Não é à toa que Philip Guston foi um dos artistas americanos que mais influenciou as novas gerações. A sua obra, que continua eternamente contemporânea, causa impacto pela singularidade extraordinária, mas misteriosamente ficou desconhecida muito tempo na Europa.

Este pintor americano, amigo de Pollock e de De Kooning, rompeu com o expressionismo abstrato em 1968 para voltar à figuração. A reconversão, encarada pela crítica da época como uma «traição», talvez explique o mistério.

Mesmo os brasileiros viram o trabalho de Guston quase vinte anos antes. Já em 1981, um ano depois da sua morte, Henry T. Hopkins, então diretor do MAM de São Francisco, trouxe à 16a. Bienal de São Paulo uma série de 31 telas importantes. Elas abarcavam a última década da produção deste artista da escola de Nova York que havia participado da mesma aventura dos discípulos do crítico Clement Greenberg, mas que havia retornado ao figurativismo com uma nítida influência do muralismo mexicano, Piero della Francesca, Giorgio de Chirico e da história em quadrinhos. E com que liberdade!

Segundo Hopkins, Guston se debatia entre o dilema beckettiano e o tormento kafkiano. A definição é perfeita, porém essa liberdade e virulência lhe valeram o ostracismo por muitos anos. Antes de influenciar artistas como Baselitz, Guston foi praticamente proscrito da cena americana como um «mau pintor». Apenas poucos, como o crítico Harold Rosenberg ou o escritor Philip Roth, adivinhavam a turbulência contida nessas pinturas. Segundo Roth, « Guston imprimiu as imagens populares de uma tal tristeza, de uma tal urgência artística, que ele deu forma à uma nova paisagem do terror específicamente americano». Afinal quem, senão Roth, poderia entender melhor uma visão do terror americano?

Philip Guston, além do mais, teve a grande qualidade de ser inclassificável, não pertencer a nenhuma categoria da arte. Foi de uma insolência jubilosa não apenas porque a sua obra não estava de acordo com as imagens esperadas da pintura americana, mas da pintura em geral. Não se parece com nada que tenhamos visto até agora.

“The Studio” pintura de Philip Guston. Foto: Genevieve Hanson/© The Estate of Philip Guston, courtesy Hauser & Wirth

Na última mostra que vi de seu trabalho, no ano 2000 no Centro Pompidou, em Paris, 50 trabalhos de 1947 a 1979 permitiam seguir o seu processo : do início figurativo influenciado por Max Beckmann à abstração; e da abstração novamente à imagem. O mais interessante é que, apesar das mudanças aparentes, o processo de Philip Guston é sempre o mesmo. Até a abstração que o desgostava tão profundamente, está impregnada da sua linguagem pessoal.

O que é esta linguagem pessoal ? É uma linguagem impura. Permeada da sua experiência de vida e da sua angústia, que são quase antiestéticas. A aventura desse imigrante judeu nascido no Canadá começa em Los Angeles, no começo dos anos 30, ao lado de Pollock com quem Guston fez amizade nos bancos de uma escola de arte. Há a tragédia pessoal do suicídio do pai, porém, mais do que por Pollock, ele foi marcado igualmente pela política, pela depressão, pela Ku Klux Klan, pelo realismo social de Ben Shan e pelo muralismo mexicano.

A sua linguagem é a da dúvida e da transição. As imagens, quer sejam abstratas ou figurativas, são obsessivas, rápidas, desfeitas em tramas cerradas de pinceladas entrecruzadas e sempre sangrentas. “Eu estava cansado de toda essa pureza. O que eu queria era contar histórias”, dizia ele, referindo-se à action painting que tratava de diminuir o tempo do gesto pictórico à maneira japonesa.

A partir de 1968, portanto, ele não fazia senão contar histórias. O resultado foram centenas de recapitulações das figuras emblemáticas de sua velha mitologia pessoal: solas de sapatos com pregos, o livro que se transforma em casa, a mão que segura o pincel e o cigarro, as cabeças cortadas, os encapuchados. Tudo isso dentro de um clima cada vez mais tenebroso, com o espaço da tela sempre dividido entre a terra e o céu. Todos os clássicos pertencem às suas figuras e composições. Professor de arte em grandes universidades, ele era um erudito que rimava metafísica com trivialidade, um “mandarim que se fazia de idiota” como dizia injustamente Hilton Kramer, crítico falecido do New York Times.

No século 21 pudemos compreender melhor esse artista marcado pela filosofia existencialista e pela leitura de Camus em particular. Tivemos mais possibilidades de olhar o rude manifesto de luto, de revolta e de desencanto de quem parou de acreditar no progresso e que, ao contrário dos artistas Pop, nunca teve confiança na sociedade de consumo. Agora temos a faculdade de entender que um verdadeiro sôco no estômago, enquanto arte, não contém necessáriamente a “visibilidade pura” de gestos estéticos como os de Barnett Newman ou de Mark Rothko. Goya está aí para provar.

Até a próxima que agora é hoje e sabemos que a trangressão é uma “outra” realidade vivida! No caso de Guston, trágicamente vivida também com o hediondo, o patético e o grotesco. A censura aqui, mais do que uma gafe, é uma desinteligência ética e estética.