Klimt em kitsch puro e duro

Gustav Klimt – Uma Imersão na Arte e na Música é o evento parisiense mais falado do momento com 250 mil visitantes em menos de dois meses. E, no entanto, não é uma exposição. É apenas uma atração, na qual a imitação é bem inferior à arte que substitui.


Imagens: Gustav Klimt © Culturespaces/Eric Spiller

Depois da experiência no Carrières de Lumières, antigo lugar de exploração de rochas calcárias em Baux-de-Provence, Klimt (1862-1918) abre o baile do recém-inaugurado Ateliê de Lumières em Paris, junto de mais dois vienenses: Egon Schiele (1890-1918) e o pintor arquiteto Friedensreich Hundertwasser (1928-2000).

Desta vez são 140 projetores laser de vídeo que varrem o espaço de 1.500 metros quadrados e 10 de altura com 3 mil imagens coloridas, enquanto 50 alto-falantes espacializam a música de Wagner e Beethoven. Nenhum quadro é para ser visto. Não existem obras, apenas imagens a partir delas. Representações dançantes, flutuantes, moventes, em zoom constante. Reproduções que se fundem em transições, com num videoclipe gigante, criando uma experiência sensorial vigorosa. É o que chamam de “exposição imersiva”. “Trata-se da maior instalação multimídia do mundo” vangloriam-se os organizadores. Não é para menos. A sociedade deles (Culturespaces) investiu cerca de 10 milhões de euros para reformar a antiga fundição do século 19 em Paris.

Foi o sucesso da matriz na comuna turística perto de Provença-Alpes-Costa Azul, que levou a instituição a abrir a filial parisiense. Naquele “parque temático kitsch” dedicado a shows também feitos com a técnica AMIEX® (Art & Music Immersive Experience), os espetáculos atraíram mais de 2,1 milhões de pessoas desde 2012.

Obras parecem ser apenas ilustrações para a grandiloquência artificial

No ano passado, o público assistiu à apresentação Bosch, Brueghel, Arcimboldo. Fantástico e Maravilhoso. O nome não era muito original e a exibição tampouco. Como em desfile alegórico de rua ou uma narrativa de narrativas (o que é bastante redundante) 2 mil imagens movimentavam-se pelos muros, no espaço de 7 mil metros quadrados, durante 30 minutos. E tudo isso sob fundo musical de Carmina Burana (Carl Orff), Quatro Estações (Vivaldi), peças de Mussorgski e Led Zeppelin.

Agora, em Paris, é a mesma coisa. No entanto, ver obras de arte transformadas em clipe tridimensional é triste! Pior do que ouvir certos “remix” musicais em que os DJ’s desrespeitam compositores e intérpretes. Ao dar formas e volumes reais às características virtuais dos artistas, e outros artifícios, os virtuoses espertalhões estetizam e esvaziam a linguagem dos mestres, transformando obras-primas em assombrosos e gratuitos exercícios técnicos, vazios de alma.

Fica como se as obras de Klimt, Schiele e Hundertwasser fossem ilustrações ou decorações para a grandiloquência artificial e sensacionalista de um show de cabaré. Certo, pode ser muito bonito e até mesmo “mágico”. Mas será que é preciso vampirizar a verdadeira arte para criar magia? Ou será que se pensa que maravilhas pictóricas reais precisam de “efeitos especiais” para que cheguemos a elas? Até mesmo uma pequena reprodução em cartão-postal pode ser mais fiel à nossa percepção…

Videoclipe de divulgação

Nota: Este artigo foi publicado no Caderno 2/Estadão, sob outra forma, no dia 15 de Junho de 2018.

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‘Visões do incêndio’: a possível mostra da sucessão presidencial

Há 12 anos fui visitar a exposição “Visões do dilúvio” no museu Magnin, em Dijon. Me perguntei se o curador tinha se inspirado nas eleições brasileiras. Hoje o museu deveria estar apresentando “Visões do incêndio”.

 

Imagem: William TURNER (1775-1851). “O Incêndio na Câmara dos Lordes”(1835). Cleveland Museum of Art.

 

Em 2006, quando fui visitar a exposição “Visões do dilúvio” no museu Magnin, em Dijon, não pude deixar de me perguntar se o curador tinha se inspirado nas eleições brasileiras:

“Será que o povo que havia votado em Collor, Maluf, Clodovil, Ciro Gomes, Russomanno, ACM Neto – os cinco deputados mais votados no país – (ou aquele outro povo naïf que iria votar no “chefe da cacaria”*) estaria representado na visão premonitória das telas pré-rafaelitas?”

A minha pergunta tinha algo de ingênuo, mas continuo convencida de que aquela mostra sobre a inundação cataclísmica da superfície terrestre que está no Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, era também o preâmbulo simbólico do que iria acontecer no Brasil de hoje. Se julgarmos por esta pintura-emblema da exposição, de Jean-Baptiste Regnault, é possível que fosse um desfile do mau-gosto do renascimento até o século 19. Mas penso que o mau gosto atravessou os séculos, chegou ao século 21 e, hoje, floresce no nosso país. Hélas!

Jean-Baptiste Regnault, “O Dilúvio”, 1789 Paris, Louvre, Pinturas ©Foto RMN/Christian Jean – Na exposição “Visões do Dilúvio”.

Agora, ao lado de outras ameaças de teor igualmente incendiário feitas pelo “chefe”, quando se ouve de um pré-candidato à presidência do Brasil a “apologia ao uso de armamento de fogo, inclusive por civis”, como se isso fosse a única garantia de nossa liberdade, sendo que – segundo ele – um “Presidente tem que meter bala em vagabundo”, isto deveria inspirar ao curador do museu Magnin uma nova exposição: “Visões do incêndio”, com imagens aterrorizantes de Turner, Goya, Brueghel e tantos outros.

Sim, pois nos dois lados, esquerda e direita, trata-se no fundo de uma autorização da violência, inclusive guerra civil. Faroeste, bangue-bangue! Mentalidade arcaica de pirômanos que, é claro, não têm confiança nos poderes públicos, mas estão assoprando para ver o circo pegar fogo.

Na França, apesar de todos os problemas sociais, racismo, violência, terrorismo, etc., o porte de armas por civis é proibido desde o século 13, apenas maus cidadãos defendem o direito de possuir ou levar consigo uma arma de fogo, e na atualidade isto só é concedido se a pessoa “provar que está ‘específicamente’ em perigo”. Neste país civilizado, um apelo a “corretivos”, “exércitos”, “mortes” mas sobretudo  às “armas”, como o que foi feito ontem, dia 29, no Paraná, seria considerado “perturbação da ordem pública e social” e um pré-candidato bélico, certamente iria para a prisão.

De minha parte, a última convocação me faz pensar de imediato nas palavras de Groucho Marx: “‘inteligência militar’ é uma expressão contraditória.” Até a próxima que agora é hoje e, nessas horas, o voto certo e responsável é o mais importante de tudo!

 

*Cacaria = Grupo ou antro de ladrões. Sinônimo: quadrilha.

Francisco de Goya (1746-1828). “El Fuego en La Noche”, 1793.
Pieter Bruegel, o Velho (1525/1530 -1569). “Dulle Griet”, 1562. Musée Mayer van der Bergh, Antuérpia.

 

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Como ‘pôr ordem’ na cultura?

O perigoso programa cultural da candidata Marine Le Pen, que quer pôr “ordem na Cultura”, foi revelado há pouco. Segundo ele, que é a imagem mesma do fascismo, “todos os criadores devem se submeter a uma ‘arte oficial’, permitida pelo Estado”.

Quem fez (ou faz) galopar o Frankenstein tupiniquim?

Discute-se muito que o socialista François Mitterrand (1916-1996), presidente da França de 1981 a 1995, foi quem armou a estratégia deliberada de fortalecer a extrema-direita para desestabilizar a direita parlamentar. O galope da extrema-direita no Brasil seria igualmente fruto de “estratégia”?

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Enquanto o “civilizado e polido” prefeito de São Paulo joga flores malcheirosas na rua em vez procurar uma lata de lixo, a candidata da extrema-direita à presidência da França joga mulheres na lata de lixo em vez de colocá-las na rua. O que é, onde está e para que serve uma lata de lixo, quando estamos na rua do progresso?

14 de Julho: o preço da liberdade

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Céline, Tarsila e o racismo

“Pessoalmente estou pouco ligando para o talento e os fãs do senhor Louis-Ferdinand Céline. Penso que o melhor que possa acontecer à sua memória é ele ser esquecido!” (Pedro Paulo, universitário brasileiro imaginário, residente em Paris). “Há algo de muito forte e constrangedor naquele peito caído da ‘Negra’ de Tarsila do Amaral, pintora da elite paulista. É difícil não pensar em seu caráter ideológico, que tem marcas raciais.” (professora da Unicamp, não imaginária, em comentário no Facebook.).

Imagem: “O Postal”, 1928, Tarsila do Amaral. Esta tela pertenceu aos meus avós e à minha infância e adolescência, até 1963. Jamais imaginei que alguém, um dia, pudesse dizer que alguma pintura de Tarsila do Amaral tivesse “caráter ideológico, com marcas de racismo”. Mas esta é a patrulha estética que grassa hoje, pensando que, assim, possui a chave de compreensão da arte brasileira.

Marido e mulher, ambos profissionais na área da cultura em Paris, se encontram, em sua própria cozinha, na hora do chá. Catherine, francesa, livro embaixo do braço, coloca o bule sobre a mesa; Pedro Paulo, brasileiro, belisca um biscoito pensando que teria preferido um café. Ela diz:

“Ontem reli algumas páginas de Louis-Ferdinand Céline, o começo de Morte a crédito, onde ele conta a sua experiência de médico com as pessoas pobres. Ah grandioso! Hilário! O suprassumo da literatura francesa! Você não leu, leia pelo menos esse trechinho.”

Catherine abre o livro que trazia debaixo do braço e o estende ao marido:

“É preciso ler em voz alta, se possível imitando o sotaque ‘parigot’ (parisiense) tipo Louis Jouvet! Dá pra entender porque Fabrice Luchini, grande ator, recitou essa passagem no palco, ha ha!”

Pedro Paulo lê rapidamente, em voz baixa, e faz uma careta: “É provocação?”

“Como assim?”, ela se surpreende.

“Imagino o Luchini recitando Céline, responde Pedro Paulo, mas não vejo nada de hilário. Isso é um ‘pedaço de horror’ em sua falta de humanidade, bondade, compaixão – o contrário da medicina! Hipócrates ficaria de cabelo em pé!”

“Sinto muito, Pedro Paulo, mas a sua incompreensão de Céline é consternadora. Ou você não leu direito ou, o mais grave, é incapaz de compreender um texto de literatura escrito numa língua que não é a do código civil ou do francês que emprega o apresentador do jornal das 8 na televisão. Estou com a impressão de ouvir o que o nosso peixeiro poderia proferir de Céline!”

O homem, no sublime do seu horror e de sua grandeza

Pedro Paulo joga o resto do biscoito dentro da xícara vazia e retruca:

“A literatura não justifica tudo. Que nojento esse Céline! Que pessoa desumana. A gente se pergunta porque ele escolheu ser médico. Talvez para poder cuspir o seu ódio ‘maravilhosamente literário’ sobre os humanos. Irra!”

Catherine, à beira de um ataque de nervos, tenta maneirar:

“É porque ele era médico justamente, que Céline pôde se aproximar da condição humana e escrever duas ou três obras-primas onde o homem, ou melhor, o fundo da condição humana é apresentado no sublime do seu horror e de sua grandeza.”

“Consternador é o seu autoritarismo e arrogância! Segundo você, só porque é conferencista e professora catedrática na Sorbonne, eu não tenho o direito de falar e sentir de maneira diferente? Inacreditável!”

“Mas Pedro Paulo, é mais forte que Pascal! Simplesmente trata-se de uma imagem paradoxal que não agrada, perturba, decepciona os discursos submissos que embelezam e escondem o fundo de egoísmo, mesquinharia, covardia que os carregam e agitam!”

“Vai comparar com Proust…”, resmunga Pedro Paulo.

“Proust demoliu os esnobes burgueses e a classe decadente da aristocracia do faubourg Saint-Germain e isso dá prazer, não é? Todo mundo perdoa a maldade dele. Céline demoliu os pobres, os pequenos, o ‘povinho’, isso não dá prazer e o consideram um canalha. É a reação dos imbecis que são os cães de guarda do ‘politicamente correto’ que, aliás, não mudou nada desde 1936.”

Tarsila, Cioran, Céline, processos parecidos por razões execráveis

“Catherine, você está me chamando de imbecil? Justo eu que nunca gostei dos ‘bem pensantes’, saí correndo da USP e vim trabalhar em Paris porque pressenti que um dia teria de presenciar a destruição ética e mental que um partido político faria com os meus colegas? Justo eu que vejo com horror, no Facebook e na mídia, esses  pseudo artistas e professorinhas da Unicamp pertencentes à doxa atual, cães de guarda criticando Tarsila do Amaral e a Antropofagia por causa de uma suposta ‘desigualdade racial’?

“Entenda como quiser, Pedro Paulo. Arte não é a minha especialidade, mas em todos os campos a turma de idiotas é igual: sempre prefere falar do que é externo às obras artísticas ou literárias. É mais fácil. Fizeram o mesmo processo a Cioran que a Céline, pelas mesmas e execráveis razões. Para compreender o século 20 é preciso ler Proust, sim, e TAMBÉM Céline. Junto com Kafka, é o tríptico essencial. Todo o resto é tagarelice insignificante.”

“Catherine, eu sempre defendi que o entendimento de qualquer movimento de arte deve se dar longe dos processos rasteiros de cunho ideológico, você sabe. Os mesquinhos não fazem outra coisa do que descrever a si mesmos através de suas acusações. Quando falam que Tarsila tinha uma “ideologia” é da própria ideologia que estão falando, e quando falam de “cegueira ideológica” é a cegueira deles mesmos que descrevem. Reconheço a maestria de um autor, mas Céline me dá engulhos viscerais! Só de olhar o retrato dele… É quase o mesmo sentimento de repugnância que experimento ao ver a expressão e o topete de Trump, ha ha!”

“Pedro Paulo! Que comparação!!! E que incoerência! Você defende a Antropofagia e ataca Céline!!! O seu pai, que era um dos homens mais cultos do Brasil e te fez prometer que você leria certos autores nacionais e estrangeiros, coisa que você não cumpriu, teria tido vergonha da sua reação.”

“Ele teria tido vergonha de ouvir o tom e a falta de humor com o qual a minha mulher me fala! Eu li, sim, uma parte do que ele me fez prometer. Um volume de Proust, dois de Dostoievski… Também nunca ouvi muita música de Schoenberg, Alban Berg, Messiaen, Stockhausen ou Webern. Não preciso entender de tudo. Mas isso não me impede de julgar.”

Leitores e espectadores inteligentes não julgam.

“Julgar? Livros, antes de julgar sem conhecer ou compreender, é preciso LER. Mas os leitores inteligentes não julgam, eles estão além do julgamento. Diante de obras-primas, eles ficam silenciosos. Claro, eles se veem e se reconhecem no espelho que autores como Proust, Céline e Kafka lhes oferecem. É a força e a grandeza da literatura. Mas é a força e a grandeza da arte igualmente. Tão ridículos e tolos quanto os que dizem ficar ‘constrangidos diante do que existe de racial’ em Tarsila, são aqueles que dizem  ‘gostar dela” ou, pior, os que exclamam ADOOORO TARSILA!!! Não dá para aguentar… ”

“A força e a grandeza da literatura às vezes dá de cara com uma realidade que não é tão grandiosa assim. Li bastante sobre essa polêmica de publicar ou não os textos antissemitas de Céline. Pierre-André Taguieff, autor do livro “Céline contre les Juifs ou L’École de la haine” (“Céline contra os Judeus ou a Escola do Ódio”), lançado este ano aqui em Paris, disse numa entrevista que entre os esnobes e conformistas acadêmicos de esquerda e direita é de bom tom se declarar ‘céliniano’. O que significa se identificar com um pretenso ‘rebelde, vítima da inveja e do ódio dos medíocres e dos maldosos’. Essa é a imagem que o paranoico do Céline conseguiu impor à posteridade. Acho estranho você não perceber isso igualmente, Catherine.”

“Esse Pierre-André Taguieff é um asno. Ele faz parte desses pseudo-intelectuais provocadores e venenosos chamados ‘novos reacionários’ que procuram um lugar ao sol. Fica ao lado do Éric Zemmour.”

“Mas Taguieff tem um pouco de razão, não? O ‘estilo’ lava tudo: o pro nazi, o propagandista anti-judeu, o colaboracionista. Quando se possui a sorte de ter ao seu lado a Sorbonne, Gallimard, a imprensa cultural e tantos personagens mediáticos como Michel Audiard, Nicolas Sarkozy e Fabrice Luchini, tudo é possível. Uma certa França adora amar os ‘párias’ ou os ‘malditos’. É o oposto do que acontece em um certo Brasil.”

Catherine fica em silêncio. Arruma a louça no lava-pratos enquanto suspira dando de ombros como se o marido fosse um “caso perdido”. Ou talvez essa discussão fosse importante, para que os dois descobrissem no final onde é que as suas ideias, aparentemente divergentes, convergiam.

“Claro, continua Pedro Paulo, cada um tem o seu Céline: o autor da Viagem não é o mesmo da Féerie e dos panfletos. O suposto pacifista agrada alguns, o “médico dos pobres” agrada outros. Viagem ao fim da noite ou Morte a crédito têm, com razão, muitos fãs. Mas, quer saber? Pessoalmente estou pouco ligando para o talento e os fãs do senhor Louis-Ferdinand Céline. Penso que o melhor que possa acontecer à sua memória é ele ser esquecido!”

Catherine dirige-se à porta, porém antes de sair da cozinha, dispara:

“OK, Pedro Paulo, mas posso te pedir um favor? Dá para você parar de ser brasileiro – ou, pelo menos, parar de ser brasileiro pelo pior lado? Merci!


Até a próxima, que agora é hoje e é uma ironia muito grande que, no mesmo momento em que alguns “tagarelam” querendo encontrar racismo na arte, outros que lutam de verdade contra o racismo morram assassinados como a vereadora carioca Marielle Franco!

“A Negra”, Tarsila do Amaral, 1923

 

Primeiras páginas de “Morte a crédito”, de Louis-Ferdinand Céline.

 

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“Se o potencial erótico de corpos modelados não deixa as pessoas indiferentes, isto quer dizer que elas talvez sofram de “agalmatofilia”, que é um desvio sexual bastante estranho…”; análise de Sheila Leirner

 

 

“No século 19 “arte total” era a ópera, no século 21 é o cinema. Não existem mais cineastas de gênio que não saibam se movimentar simultânea e confortavelmente em todos os campos do conhecimento e da cultura”; análise de Sheila Leirner

 

 

Digamos que este artista possui a rara capacidade de provocar suspense, fascínio e curiosidade; análise de Sheila Leirner

 

 

“Todos os pais têm defeitos. Uns mais, outros menos. Porém, quando as imperfeições tornam-se destrutivas, podemos defini-las como “tóxicas.”; análise de Sheila Leirner

 

 

“Racionais e rigorosos – jamais fortuitos, aleatórios ou arbitrários – seus trabalhos são como fórmulas matemáticas com as suas soluções já embutidas nas imagens.”; análise de Sheila Leirner

 

 

Krajcberg, muito além da ecologia

Registro apenas agora*, porém com a mesma emoção, a minha homenagem a Frans Krajcberg. Ele nos deixou, há quatro meses, órfãos não de sua obra – que, duradoura ou efêmera, também resta em nossa memória – mas da disciplina que a natureza impôs a ela. Aquela ordem metafísica do “natural concedido”** que parece termos perdido para sempre, mas que contribui para a aquisição da “verdade permanente” encontrada em raros exemplos da arte universal.

Imagem: Frans Krajcberg, “Flor do Mangue” – Foto: Divulgação.

O fato é que este artista brasileiro, nascido na Polônia em 1921 e desaparecido no dia 15 de novembro do ano passado, atingiu um estágio elevado de reflexão e envolvimento com o mundo natural por meio de um diálogo cada vez mais intenso e fecundo com ele, cuja mudez revelava um pacto íntimo e indissolúvel. Pacto a favor do quê? Ou contra o quê?

A experiência continha duas significações muito especiais. Particularmente, tratando-se de Krajcberg, indicava a associação do artista com os elementos naturais de forma não apenas plástica, como também filosófica. E apontava um forte sentido de religiosidade com o qual o artista obedecia a um ritual e reverenciava o elemento natural, realizando sua “imagem” ou “altar”.

A outra significação era o prenúncio de um revivalismo, em particular a volta simbólica ao século 19, quando a aniquilação iminente da natureza a fez mais desejável e o artista tinha que se apressar antes que ela terminasse. A ação depredadora que, com maior violência, atravessou os séculos 20 e 21, a civilização nuclear e especuladora em que continuamos a viver, assim como todas as vicissitudes de uma cultura essencialmente tecnológica, faziam (e continuam fazendo) germinar reações dessa ordem que, no caso de Krajcberg, ao invés de resultarem melancólicas, representavam a posição firme e imbatível de quem conhecia as verdadeiras relações do Homem com a força ativa natural que lhe dá a vida.

Depois de todas as experiências da vanguarda, sobretudo com o conceitualismo e a desmaterialização, até que ponto podia ser legítima e eficaz, uma arte de valor quase que estritamente plástico e estético, desvinculada dos “progressos” da civilização e cultura contemporâneas? A questão não era inédita nem recente. Extensas análises já haviam terminado em múltiplas, divergentes, caóticas e às vezes niilistas conclusões acerca da função da arte e dos artistas em nossos dias.

Uma obra que transcende problemáticas ecológicas

Desde o início do percurso de Krajcberg até as obras apresentadas na última Bienal de São Paulo (2016), ficou patente a sua profícua e extremamente criativa intervenção na natureza. Ficou claro também o intenso e sensível diálogo que mantinha com os elementos naturais, assim como o profundo sentido plástico e poético com que os reorganizava.

Por outro lado, porém, penso que em suas obras nunca transpareceu claramente o intuito ambientalista do artista, de preservação de uma natureza condenada pelo avanço da vida. A apropriação plástica dessa mesma natureza, em pequenas parcelas, em nenhum momento sugeria por si só algum apelo nesse sentido.

Seu trabalho não contém – ao contrário do que se diz ou do que o artista pretendia – nenhuma alusão à hipótese de ele ser um fenômeno de alguma forma vinculado a processos sociais ou políticos. Enquanto obra plástica e esteticamente autônoma, transcende qualquer reflexão acerca de problemáticas ecológicas.

Ora, como todo grande mestre, Krajcberg conseguia aliar de maneira indissolúvel o propósito de seus trabalhos aos meios que o sustentavam. Servia como mensageiro de uma linguagem cifrada que lhe ditavam o mar sobre a areia, o vento sobre as árvores, os troncos dentro da terra, revelando uma natureza antes apenas pressentida dentro dos cânones estéticos aos quais estamos habituados. Como por meio de uma lente de aumento, destacava fragmentos, enquadrava detalhes particularíssimos e punha em evidência os momentos de grande verdade que conseguia aprisionar em seu diálogo visceral com os elementos naturais.

Poeta dos elementos naturais

Os seus trabalhos revelam uma qualidade rara de percepção da forma natural e de suas combinações. A manipulação e reorganização dos elementos já existentes – que poderia facilmente cair numa ação violentadora do material, como acontece com muitos – resulta harmoniosa e suave, sempre compatível com o resultado global.

Os relevos e os sulcos, a sombra e a luz, os côncavos e saliências, os versos e reversos de um todo abrangente e vigoroso, fazem dessa obra sempre realizada unicamente em materiais naturais, um conjunto magistral e poético que desperta para esta força ativa infelizmente já esquecida nas grandes metrópoles.

A experiência que Krajcberg nos aportou, transcende o indivíduo, a época e a circunstância, por meio da intuição individual. Nela resta a “verdade permanente” da qual falava Ernst Fischer, em A Necessidade da Arte. Aquilo que “nos possibilita comover-nos com as pinturas pré-históricas das cavernas e com antiquíssimas canções”.

Frans Krajcberg tentava captar a essência da natureza que aprisionava, sem usá-la como panfleto, sem interpretá-la. Apenas apreendendo-a pela sua apurada noção estética e percepção. A sua representação é objetiva. Uma representação que se utiliza dos elementos naturais da mesma forma como o poeta das palavras: trazendo à luz expressões já existentes, porém não percebidas.

A arte simples e extraordinária de ver

Picasso costumava dizer que devemos agradecer aos artistas a imagem que temos da natureza. E que o artista não cria, ele encontra. De fato, artistas como Frans Krajcberg nos fizeram perceber os elementos naturais e o ambiente em que eles estão, através de seus olhos. Às vezes, menos pela produção e montagem artística do que pela pura seleção de formas, cores e materiais, eles tiveram a capacidade infinita de transferir ao espectador as mesmas experiências das suas descobertas. E de iniciá-lo, didaticamente, na arte simples e extraordinária de ver.

Até a próxima, que agora é hoje!

 

Notas:

*O texto aqui reproduzido encontra-se originalmente no número recém-saído (edição 44) do jornal Arte & Crítica da ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Arte).

** A noção de “natural concedido” está implícita no Manifesto do naturalismo integral ou Manifesto do Rio Negro escrito por Pierre Restany, na presença do próprio Krajcberg e de Sepp Baendereck, em agosto de 1978, em sua viagem fluvial pelo ecossistema da Amazônia.

 

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Digamos que este artista possui a rara capacidade de provocar suspense, fascínio e curiosidade; análise de Sheila Leirner

 

“A obra é um gigante jogo geométrico de percursos, onde os passantes não são mais do que pontos impulsionados pela vontade desse “Anticristo pop” que quer nos fazer andar sobre as águas.”; análise de Sheila Leirner

 

 

A vida sexual das estátuas

Acabo de descobrir que bonecas infláveis têm a ver com arte. Ou, mais especificamente com esculturas. Sim, porque se o potencial erótico de corpos modelados não deixa as pessoas indiferentes, isto quer dizer que elas talvez sofram de “agalmatofilia”, que é um desvio sexual bastante estranho.

Imagem: “Estátua de jovem mulher com o rosto coberto por uma colméia de abelhas”, obra do artista francês Pierre Huyghe na documenta 13 de Kassel, na Alemanha, 2012.

“Agalma” em grego significa “escultura” e “filia”, no caso, o amor e atração sexual por estátuas. Agalmatofilia, portanto, é uma perversão que existe, mas é pouco estudada e conhecida, provavelmente porque não perturba a ordem pública e não faz mal a ninguém, exceto à própria pessoa que às vezes pode ficar um pouco traumatizada.

Pelo menos é o que conta em seu livro Sobre Agalmatofilia (Editora L’Échoppe, 2012), a formidável historiadora das ideias, de arte e da filosofia da ciência, Laura Bossi, também neurologista, especialista em epilepsia e doenças neurodegenerativas, curadora de arte e mulher de Jean Clair – pseudônimo de Gérard Régnier, igualmente curador e historiador, hoje membro da Academia francesa.

Sabemos que além da perfeição de suas formas, as estátuas dividem com amor o seu sonho de eternidade. O que não sabíamos é que há casos célebres na Antiguidade, de trocas íntimas entre elas e seres humanos, sobretudo homens. O que não deixa de ser uma boa solução, já que estátuas não têm como usar #metoo nem caçar os que as assediam.

 

Francisco Brennand, Oficina Cerâmica, Recife.

 

Lembro muito bem de Jack Lang em pessoa, o ministro da cultura de Mittterrand, que vi na Bienal de São Paulo, acariciando o traseiro de uma escultura de Francisco Brennand. Foto, aliás, que saiu em todos os jornais da época. Na Folha, se não me falha a memória (“na Folha se não me falha”, me perdoe, saiu sem querer), com o título: “A mão-boba do ministro francês em visita à Bienal”.

No livro, descobrimos com surpresa o quanto de emoção, paixão e comportamentos sexuais estranhos certas pinturas e esculturas podem suscitar. Pensando bem, quem não fica embasbacado com o charme de Lady Hamilton pintada por George Romney, uma das jóias da Frick Collection que pode ser contemplada em Nova York? Até o cachorro do quadro parece magnetizado.

 

Lady Hamilton por George Romney(1734–1802), uma das jóias da Frick Collection, Nova York.

 

O importante escritor Julian Green, cuja obra foi marcada pelo homossexualismo e a fé católica, por exemplo, não pára de contar os enfeitiçamentos que sofreu olhando certos corpos masculinos em vários museus. A sensualidade e o erotismo que brotam de obras de arte, quadros e sobretudo esculturas percorrem toda a sua obra. Vale a pena reproduzir uma de suas narrativas autobiográficas, onde ele conta a sua visita ao Museu nacional de Nápoles. Mesmo porque, quando estive lá, na mesma sala, não senti nada disso. Diz ele:

“Quando eu me encontrava na sala dos bronzes pompeanos, o sangue começou a pulsar no meu corpo com uma força que me obrigou a parar (…) compreendi que eu estava no coração de uma zona proibida. Tudo que eu possuía em mim de religião batalhava para me fazer deixar aquele lugar perigoso, mas eu não me mexia. Dizer que a nudez se espalhava entre aquelas paredes é pouco: a volúpia triunfava sob todas as suas formas.”

Fascinado por uma estátua de Narciso, ele acrescenta: “Com uma felicidade misturada a horror, andei em volta desta estátua verdadeiramente infernal. Eu estava enfeitiçado como nenhum homem neste mundo. Quanto tempo fiquei lá? Não sei. O tempo não existia mais, eu me sentia lentamente transformar em outra pessoa, despertada, avisada”. E em um de seus livros, Green relata ainda um sonho no qual ele abraça uma escultura.

Estátua de Narciso, Museu de Nápoles. (se não estiver vendo esta imagem, clique no LINK) 

 

Fonte Marco Polo, Praça Ernest Denis, Paris. Construída entre 1867 e 1874, na entrada do Jardim Marco Polo, avenida do Observatório em direção ao Jardin do Luxemburgo, suas 4 mulheres desnudadas foram realizadas por Jean-Baptiste Carpeaux.

 

Penso que qualquer pessoa, mesmo sem sofrer de agalmatofilia, pode enumerar algumas obras que fazem nascer em seu coração uma emoção estética ou um sentimento erótico. Dá para imaginar o que devem sentir certos homens ou mulheres ao passearem nos Jardins do Observatório em Paris, onde está a fonte das “quatro partes do mundo”, representadas por mulheres desnudadas e formosas! Até os cavalos fazem parte do erotismo.

Para nossa felicidade existe também o oposto desta “parafilia” artística, este distúrbio psíquico igualmente chamado “pigmalionismo” em francês e espanhol (por causa do mito de Pigmalião), que é caracterizado por práticas sexuais não muito recomendáveis do ponto de vista social e estético. Até a próxima que agora é hoje, e “agalmatofilia ao contrário” é Grace Kelly, deslumbrante em Alta Sociedade (1956), filme de Charles Walters, tentando demonstrar que “não é fria como uma estátua de bronze”!

Réplica da estátua de Narciso que está no Museu de Nápoles (se não estiver vendo esta imagem, clique no LINK)

 

O artista Joseph Erhardy, em seu ateliê. Foto de Henri Cartier-Bresson.

 

“Pigmalião e Galatea” de Jean-Léon Gérôme (cerca de 1890), representa o mito de “Pigmalião” que se apaixona por sua própria escultura. Metropolitan Museum of Art, Nova York.

 

“Pigmalião apaixonado por sua estátua”, Jean-Baptiste Regnault (1785).

 

“Pigmalião e Galatea” (1886), por Ernest Normand. Atkinson Art Gallery and Library.

 

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‘The Square’, um filme que faz bem!

““No século 19 “arte total” era a ópera, no século 21 é o cinema. Não existem mais cineastas de gênio que não saibam se movimentar simultânea e confortavelmente em todos os campos do conhecimento e da cultura”; análise de Sheila Leirner

‘Mãe tóxica’, o assunto que ainda é tabu

“Todos os pais têm defeitos. Uns mais, outros menos. Porém, quando as imperfeições tornam-se destrutivas, podemos defini-las como “tóxicas.”; análise de Sheila Leirner

Alquimia de Pierre Huyghe se processa no terreno da experiência total

Digamos que este artista possui a rara capacidade de provocar suspense, fascínio e curiosidade; análise de Sheila Leirner

Com nova exposição em Paris, René Magritte se consolida como filósofo da arte moderna

“Racionais e rigorosos – jamais fortuitos, aleatórios ou arbitrários – seus trabalhos são como fórmulas matemáticas com as suas soluções já embutidas nas imagens.”; análise de Sheila Leirner

 

 

Feminismo e machismo: lados da mesma moeda

Por coincidência, no dia 9 de Janeiro, data em que foi publicado na França o controvertido manifesto que pede a “liberdade de importunar para preservar a liberdade sexual”, comemorava-se os 110 anos do nascimento de Simone de Beauvoir. A mesma que escreveu e assinou outro manifesto chamado “Eu abortei”, em 1971, junto com Catherine Deneuve, Marguerite Duras, Françoise Sagan e mais 340 mulheres, quando esta ação ainda era passível de julgamento penal e prisão. Beauvoir, aliás, em uma das cartas apaixonadas que enviou ao amante, o escritor americano Nelson Algreen, entre 1947 e 1964, afirmou que “adoraria lavar as cuecas dele”. Eis uma grande, desprendida e exemplar feminista. Talvez não conseguisse salvar da dissensão a futura relação homem-mulher, mas certamente teria assinado o manifesto.

 

Imagem: Cartas de Simone de Beauvoir a Nelson Algreen, um amor transatlântico (1947-1964)

 

A presente declaração não foi escrita nem pensada por Catherine Deneuve, mas conceituada e redigida por 5 intelectuais, apoiada por algumas celebridades, entre as quais a atriz, e assinada por mais de cem mulheres respeitáveis de todas as áreas da cultura. Em resumo, ela começa dizendo que “o estupro é um crime” e em nenhum momento defende ou relativiza o assédio. Deixa claro que “a paquera insistente ou desajeitada não é um delito” e que a “galanteria, de forma alguma, pode ser considerada uma agressão machista”. O texto também não denigre a “palavra liberada” depois do caso Weinstein, embora deplore (com toda razão) o “risco de puritanismo”, moralização e  estandardização, aqueles “modelos únicos de comportamento” que caracterizam a “americanização” de certas sociedades.

O próprio presidente Emmanuel Macron, no dia 25 de Novembro do ano passado, por ocasião do “Dia Internacional da eliminação da violência contra as mulheres”, chamou a atenção para o perigo de se cair num “cotidiano de delações”, e de que “cada relação homem-mulher ficasse sob a suspeita de ‘dominação’, como uma proibição”. O manifesto deste mês, portanto, pareceu límpido, ponderado, digno, respeitoso e cheio de bom senso. Além de ter sido corroborado pela tribuna do New York Times, de Daphne Merkins, uma antifeminista brilhante que manifestou praticamente as mesmas ideias.

Quanto à preocupação das signatárias francesas com a moralização que também codifica cada vez mais a criação artística e literária, em nome do que é ou não conveniente, ela é igualmente legítima para todos nós – críticos, artistas, atores, jornalistas, escritores etc., em toda parte. Quando se trata de “normalizar” a arte, isto não tem outro nome: chama-se censura. Reescrever a ópera Carmem, que transforma a heroína em assassina de Don José, em nome da luta contra as violências sofridas pelas mulheres, não seria igualmente uma violação do artista e de sua obra, em nome do “bem”?

Nem tudo é luta o tempo todo…

Na carta do jornal Le Monde, contudo, o que provocou tal bafafá foi apenas uma frase mal explicada e mais alguns mal-entendidos em desastradas declarações públicas. A tribuna foi acusada, injustamente, de promover a “banalização das violências sexuais” e o desprezo pelas mulheres. Os detratores foram incapazes de assimilar um “outro olhar” sobre a questão. E o linchamento público de uma atriz e mulher da envergadura de Catherine Deneuve, com posições irrepreensíveis, e cuja experiência dramática e literária atravessou um século pelas mãos dos maiores cineastas do mundo, não pode ter sido mais injusto e ignóbil.

Ora, a frase ultrajante estava simplesmente no pedido da “liberté d’importuner” (liberdade de importunar), que deve ser traduzida segundo o seu sentido em francês e não foi. Nesta língua, ela significa “liberdade de galantear e seduzir, inclusive por contato”. Nada a ver com assédio e importunação tal como conhecemos, que é crime. Trata-se da famosa “sedução à la française”. Além da incompreensão semântica, talvez fosse uma certa histeria, misturada com provincianismo e moralismo, que impediu o entendimento de algo que, afinal, é bastante simples. Nem tudo é luta o tempo todo…

Não representou uma surpresa, portanto, o fato de que o manifesto tivesse chocado algumas feministas radicais, assim como certas hipócritas do #MeToo (que denunciaram Weinstein depois que conseguiram o que queriam) ou do #BalanceTonPorc, as “donas da doxa”, as ideólogas e “bem-pensantes” e sobretudo as arrogantes egocêntricas que pensam que falam em nome da humanidade enquanto que só sabem olhar o próprio umbigo.

Atenção amorosa não mata

Pelo jeito, vai demorar bastante ainda para que certas brasileirinhas, francesinhas e americaninhas que se julgam melhores do que as outras e querem impor sua vontade compreendam que o que elas acham e sentem não é necessariamente o que outras mulheres acham e sentem. Umas gostam de mão no joelho e beijo roubado, outras não. E nem sempre isso é crime! Galantear (com maior ou menor delicadeza, com ou sem insistência) ou passar uma cantada não é o mesmo que assediar e menos ainda do que estuprar. “Importunar” de verdade também é outra coisa (e dá prisão!).

Atenção amorosa não mata e não machuca mulheres fortes. Homens sendo livres para cortejar, as mulheres serão livres para gostar ou não, e mesmo se defender, de seus métodos de sedução. Existem diferentes formas de sexualidade, erotismo e relação. Seria preciso que as puritanas com mais neurônios lessem urgentemente L’érotisme (o título do volume, em português, é em francês) de Georges Bataille. Já para as que gostam de Cinquenta Tons de Cinza, a recomendação é André Pieyre de Mandiargues (Narrativas eróticas). Para as demais, fica o delicioso filme Beijos roubados de Truffaut, baseado em O Lírio do Vale, romance de Balzac. Não é porque uma mulher prefira dar um tapa na cara de quem lhe rouba um beijo, que ela tem o direito de proibir os homens em geral de fazerem isso e certas mulheres de gostarem. O direito de amolar existe, sim.

Claro que há casos horripilantes. Com as mulheres que sofreram reais violências só podemos ser solidários. E com os criminosos que as brutalizaram, não podemos pedir outra coisa do que “tolerância zero”. Porém, existem mulheres que têm o direito de não sentirem que uma sedução mais pesada seja um traumatismo eterno. De não sentirem que são necessariamente uma isca, uma vítima, pois sabem que o aprisionamento neste “estatuto de fragilidade” pode ser uma armadilha.

Não restará pedra sobre pedra na relação homem-mulher

Feminismo e machismo tornaram-se lados da mesma moeda. Nada de novo sobre a Terra. Trata-se de mais um círculo vicioso. Desde o fim do século 19, com raízes no Iluminismo do século 18 e mesmo antes, em outros contextos históricos, o machismo engendra o feminismo que, por sua vez, paradoxalmente, gera mais virilidade agressiva e vice-versa. Com o passar do tempo, é uma subida aos extremos da violência. Uma dinâmica divergente onde os argumentos de um lado afastam o outro, provocando ações cada vez mais hostis e/ou coercivas nos dois campos, em direção à total dissensão.

Até a próxima, que agora é hoje – felizmente ainda não chegamos lá – e devemos fazer tudo para que isto não aconteça pois, o final será a fratura. Não restará pedra sobre pedra na relação homem-mulher, apenas a indiferença, o silêncio glacial da entropia!

“O Estupro de Hilas pelas Ninfas” Arte românica da primeira metade do século IV. Museu Nacional Romano, Palácio.
“Hilas e as Ninfas”(1896), John William Waterhouse (1849–1917), Manchester Art Gallery

‘Vírus’ contamina a sociedade e a arte

A sociedade, a política, as redes sociais e até mesmo a arte foram contaminados por um “vírus” nascido dos índices de audiência e do sistema de algoritmos. Trata-se do chamado “Influenza quantitas”, nome provisório que dei a ele, uma vez que este agente infeccioso leva o nosso mundo a ser regido pela “lei do grande número”. Provoca uma doença viral que faz as pessoas perderem, definitiva ou circunstancialmente, a capacidade de discernir qualidade de quantidade.
Ontem inaugurou-se, no Grand Palais em Paris, “Gauguin o alquimista”, exposição igualmente tocada pelo vírus. Feito apenas para surpreender, o espetáculo reúne obras prodigiosas mas privilegia a quantificação em detrimento da qualificação, afastando-nos da complexidade estética do artista.

Sabe-se que os motores de procura dão visibilidade ao que não tem necessariamente superioridade, que páginas pessoais em Internet não indicam importância, que matérias de jornal e programas de televisão não medem qualidade, que as “avaliações” de hotéis, restaurantes, produtos, etc. podem ser mentirosas; que existem fábricas de “curtir” e de “cliques”, que mesmo um perfil falso pode alcançar milhões de seguidores no Twitter ou cinco mil amigos no Facebook. Apesar disso, atacados por “Influenza quantitas” os cérebros dos leitores (e eleitores) médios não encontram defesas para lutar contra o vírus.

Hoje, estas pessoas se orgulham de ter a mesma opinião que 99,99% da população e se acaso discordam das ideias da minoria, usam como argumento o fato de que “são maioria e, portanto, estão certas”. Mesmo quando “ser da maioria” não fala a favor de ninguém: até mesmo o prêmio Nobel de literatura George Bernard Shaw (1856-1950) assinalou que “a minoria às vezes tem razão, mas a maioria está sempre errada.”

Por uma espécie de falácia febril, o leitor (e eleitor) médio, contaminado, sempre delira defendendo que a quantidade conta mais do que a qualidade e “isso é democracia”. Fica difícil explicar para o doente que, como dizia o escritor e filósofo Albert Camus (1913-1960), outro prêmio Nobel de literatura, “democracia não é a lei da maioria, e sim a proteção da minoria”.

Gauguin ‘pedófilo’

Ora, em arte o “vírus” também se manifesta. Ontem inaugurou-se, no Grand Palais, em Paris, “Gauguin o alquimista” (até 22 Janeiro de 2018) que é, decididamente, uma exposição para grande público: um pouco sombria e misteriosa, porém longa, espetacular e didática. Se alguém perdeu Paul Gauguin (1848-1903) pelo caminho, é a boa hora de recuperá-lo.

Porém, se no Centro Beaubourg, também em Paris, cada mostra faz o visitante pensar, aqui cada exposição tem sido organizada ultimamente apenas para surpreender. O espetáculo, tocado igualmente pelo “vírus”, espanta o espectador pela quantificação no lugar da qualificação. E não por causa do número de obras, bem ao contrário. Faltam as mais importantes.

Em contrapartida, o visitante saberá quantas camadas de tinta Gauguin passava sobre a tela, quantas vezes pintava na parte de trás do quadro, quantos lugares visitou, quantos anos passou em cada um, quantas matérias utilizava nas cerâmicas, quantos instrumentos usava para esculpir a madeira, quantas doenças pegou na vida, quantas vezes teve casos com mocinhas de 13 anos, etc. Como se a contagem e a “medição” técnica e histórica tivessem relação direta com a obra do mestre que, sim, hoje seria considerado pedófilo e recidivista.

Na verdade, esta é uma exposição anticrítica e formalista, ligada demais aos materiais, que explica “como” sem dizer “porque”. Faz tudo para nos afastar da complexidade estética de Gauguin e também do que a sua obra possui de mágico e sublime. “Influenza quantitas” atacou firme: há três espaços onde vídeos explicam quantitativamente e de que forma ele trabalhava sem dizer uma palavra sobre o que fazia.

Em nenhum instante, os curadores discutem ou estimulam a discussão sobre as qualidades plásticas de um pintor que foi precursor em relação a Picasso. Também não há cronologia visual. Apenas cronogramas em painéis, como se estivéssemos consultando Wikipédia. Descobrimos sozinhos os prodigiosos desenhos, telas, gravuras, painéis de madeira esculpida, relevos policromados, vasos e garrafas de cerâmica. Sendo mais fácil conseguir móveis e vasos do que pinturas, há um exagero deles na exposição que, assim, torna-se extremamente cansativa.

Até a próxima que agora é hoje e, contra este vírus contemporâneo, infelizmente até agora não há tratamento!

Holograma que descreve “La Maison du Jouir” (A Casa do Gozar), uma casa na Polinésia francesa onde Paul Gauguin morou, e que Victor Segalen visitou um ano depois de sua morte.

 

 

Nu no MAM: as reações reveladoras

João Doria, prefeito de São Paulo, é capaz de declarar publicamente (sem conhecer o percurso, a obra e a história da arte em geral) que o trabalho de um artista “é uma cena libidinosa”. Não sei e não é minha especialidade explicar a razão pela qual toda a baixeza que reside calada nos recônditos das sociedades só vem à tona e levanta a voz nos períodos mais podres de sua história. Mas é um fato.

Antes da segunda guerra, o exército francês era considerado como um dos mais potentes do mundo. Em 1940, quando a França entregou-se em rendição aos alemães – época em que o seu povo acabou perdendo confiança nas instituições, deixou de orgulhar-se de seu país e começou até mesmo a colaborar com o inimigo – testemunhou-se o início de um declínio que durou por muitos anos. A sociedade francesa revelou, então, o que tinha de pior: delações, racismo, intolerância, intimidação, clima de ódio, injustiça, polarização política entre colaboracionistas e resistência… Polarização, diga-se de passagem, já herdada do Caso Dreyfus que dividira a França por longo tempo, durante o final do século 19.

Não sei e não é minha especialidade explicar a razão pela qual toda a baixeza que reside calada nos recônditos das sociedades só vem à tona e levanta a voz nos períodos mais podres da história. Só sei que com o advento de Internet e das redes sociais, as ocorrências deste fenômeno são multiplicadas por milhões, tomam uma proporção devastadora e acabam revelando não só uma espécie de “imbecilidade de massa”, como também  a própria degenerescência de um país – que é o que está acontecendo hoje, infelizmente, no Brasil.

País cujo o prefeito de sua cidade mais importante é capaz de declarar publicamente (sem conhecer o percurso, a obra do artista e a história da arte em geral) que o seu trabalho “é uma cena libidinosa”. Ora, onde está a “afronta à liberdade de outrem”, como ele diz, numa apresentação que não possui nada de erótico, violento, sexual, perverso ou ofensivo – em que um homem nu encontra-se deitado como morto, ou dormindo, sobre as costas?

Claro que nem tudo pode ser mostrado às crianças. Cabe aos curadores usar a estratégia da “classificação indicativa” (coisa que não é censura, propus no artigo anterior e o Ministério da Cultura agora também defende) e aos pais de decidirem o que é melhor para os seus filhos. Onde está a ofensa, então, se a sala onde ocorria a performance, segundo os organizadores, estava “devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a nudez artística” e, mesmo com esta advertência, uma mãe decidiu levar a sua criança para assistir? Porque tanta indignação se a criança, com a permissão materna, tocou no homem como para ver se ele estava vivo ou dormindo, sem que se tenha podido testemunhar neste gesto, em nenhum momento, qualquer malícia ou intenção “sexual”?

Ou é com fins eleitoreiros que o nosso prefeito junta-se oportunisticamente aos neomoralistas integristas, os “talibãs” domésticos de plantão que, por sua vez, evidentemente também se unem a certas bancadas religiosas do nosso poder legislativo?

Em períodos de degenerescência política e social, qualquer fato pode tornar-se objeto de ódio e injustiça

A performance deste artista coreógrafo (que já realizou muitas outras na mesma linha) interpreta a célebre obra interativa “Bicho” de Lygia Clark – na qual o público é convidado a interagir mexendo em seus braços, pernas e no restante do corpo para alterar a sua posição como se ele mesmo fosse a escultura articulada da artista, falecida em 1988. Não há nada de novo, nem de excepcional em apresentações como esta. Yves Kein, John Cage, o grupo Fluxus e seu iniciador George Maciunas, Marina Abramović, Ulay, Vito Acconci, Joseph Beuys, Chris Burden, Allan Kaprow, Yayoi Kusama, Hermann Nitsch,Yoko Ono, Orlan, Gina Pane, Niki de Saint Phalle, Ben, Wolf Vostell, Ivald Granato, Gilbert & George e suas críticas à sociedade inglesa e à religião, são apenas poucos exemplos. Vários deles se apresentaram ou apresentaram personagens nus em seus trabalhos ao vivo, em diversas partes do planeta.

Se pessoas nuas não são “tabu” em tribos indígenas, são menos ainda em espetáculos, performances (ou pinturas) de museu. No entanto, as reações provocadas, em curto espaço de tempo, pela exposição “Queermuseu”, a peça teatral “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, e a presente performance “La Bête” no MAM, mostram como, em períodos de degenerescência política e social, qualquer fato torna-se “objeto de projeção”, derivado direto do “objeto transicional” que alimenta o fogo das paixões, quase como um vaticínio ou um apelo à guerra civil virtual.

Hoje, no Brasil, as intimidações morais se aproximam daquelas que se viu durante o declínio da sociedade francesa, quando esta se encontrava perdidamente desconfortável depois da derrota na segunda grande guerra. Até a próxima que agora é hoje e quando uma parte das pessoas começa injustamente a considerar arte como “degenerada”, isto sempre significa que são estas próprias pessoas que estão em vias de degeneração!

 

 

4 razões para amar o barro

Na arte, assim como na vida, costumamos celebrar muitos elementos e matérias, porém o barro é sempre esquecido, às vezes até mesmo desconhecido pelos artistas.

E, no entanto, esta amada mistura de argila  e água, é nela que também podemos pensar quando queremos ficar de bem com a existência. Não apenas porque o barro seja bíblico ou simbólico, como repositório divino do sopro da vida, mas porque “é” a própria vida.

Escuro, úmido, orgânico, sempre enigmático, nunca se sabe de que reserva, margem de rio ou manguezal, ele provém. Frio, liso, elástico, odorante, quando exala seu perfume mineral entre os dedos torna-se sensualidade pura. Fala aos sentidos, mas também à memória e à percepção da arte. Não admira que se tivesse feito amar por Rodin, minha avó e todas as crianças que, enquanto “pequenos Prometeus” como eu, tiveram a sorte de acariciá-lo para modelar figurinhas em seus “olimpos”, sendo que o meu “lugar paradisíaco de divindades” era o ateliê de escultura dela.

Para Didier Vermeiren (1951), artista belga que esteve na 18a Bienal de São Paulo (1985), “Rodin não é um talhador mas um modelador”. Vermeiren, que, no começo deste ano, visitava o Museu do mestre falando ao microfone da Radio France Culture, comentou: “nos fizeram acreditar que Rodin era um talhador, essa figura heroica do escultor que ataca um bloco de mármore. Não é verdade! Isso evidentemente é a figura de Michelangelo que ainda domina, ele que dizia que a verdadeira escultura era a pedra e não a argila. Para Michelangelo trabalhar a argila era como fazer pintura.”

Princípio básico, herdado de Brecheret

Só entendi o significado do barro, quando passei a fazer companhia à minha avó Felícia (1904-1996), enquanto ela trabalhava no ateliê envidraçado, no fundo da casa. Lá, ela me construia uma pequena armação de madeira e arame, geralmente com a forma de um homem. Depois, dirigia-se ao tanque, onde afastava os pedaços de pano encharcados de água que protegiam a argila do ressecamento, arrancava um bom pedaço daquele material e, após amassá-lo e transformá-lo em uma bola, mostrava-me como preencher com ele o homenzinho.

“Se não der certo”, dizia, “a gente desfaz e refaz a figura, tudo de novo!”. Mas, quando ela via o meu horror ao imaginar a destruição do boneco, tentava me acalmar afirmando com muita autoridade:

– “Um artista deve ter a coragem de destruir o que ele julga ruim. Não pode ter medo, não pode ter preguiça! Ele tem que refazer, refazer, refazer, até o momento em que achar que está bom de verdade!”

Sim, certamente. Embora eu não fosse artista e gostasse do meu homenzinho mesmo que ele saísse torto, entendi muito bem a lição. Assim, enquanto eu me aplicava em copiar os gestos dela, usando as mesmas espátulas de madeira com aros de ferro, Felícia dizia coisas sobre o ato de esculpir que associo hoje às palavras de Vermeiren quando ele fala de Rodin.

Ao invés do “ataque à matéria”, a minha avó, apesar da força de suas mãos, empregava toda a sua energia para manipular a forma na duração eterna e inquebrantável dos contornos. A mim, parecia mais uma carícia, do que um ataque. E era o princípio básico, herdado de Victor Brecheret (1894-1955), seu professor, que provavelmente também herdou de Rodin: perpetuar os volumes num só transcurso, sem interrupções na linha que os contorna, imprimindo às formas todo o seu significado.

Até a próxima que agora é hoje e, como está no Tao Te Ching, “do barro fazemos um pote, mas é o vazio interior que retêm o que queremos”. Viva esse material divino! Material que:

  1. representa a vida

  2. tem o dom de nos deixar de bem com o mundo.

  3. fala aos sentidos, mas também à memória e à percepção.

  4. imprime às formas todo o seu significado, num só transcurso.

Cenas de “Rodin”, filme biográfico de Jacques Doillon, interpretado por Vincent Lindon (foto), Izïa Higelin e Séverine Caneele.