Os falsos aristocratas

Domingo, dia 21, foi o 93° aniversário da Rainha, falemos sobre os ‘falsos aristocratas’. São aquelas pessoas inconsequentes, egoístas e incapazes que, por não saberem construir ou manter um patrimônio, dilapidam fortunas familiares, bens públicos ou apenas revoltam-se culpando os próximos, as elites ou os governos por sua própria incúria e seu ‘infortúnio’. Estes ‘privilegiados sem privilégios’ aproveitam-se das conquistas alheias, repousam nelas e querem ser assistidos. Tudo lhes é devido. Afinal, nasceram ‘diferentes’ dos outros seres humanos.

Imagem: A estrutura interna do telhado de Notre-Dame de Paris, chamada de “floresta de Notre-Dame”, por causa da quantidade gigantesca de madeira (carvalho) que foi usada. 

Classe esquecida? Operários? Agricultores? Artistas? Intelectuais? Cientistas? Revolucionários? Nada disso. Apenas pequenos fidalgos de uma “corte imaginária” que odeia a elite, única substituta dos verdadeiros aristocratas nos regimes democráticos. Estão em toda parte; na França, são os “novos esnobes” que admiram os líderes políticos da extrema-direita e da extrema-esquerda acima deles que os aplaudem, e desprezam o povo “inferior” das ruas que não os apoia.

Vemos estes impostores da falsa aristocracia, também sem coletes amarelos e até mesmo sem consciência política, em qualquer país, às vezes bastante próximos de nós. Nas ruas francesas, os que pensam ter um objetivo político, causam tumulto aos sábados, há 23 semanas. São os mais abjetos. Estão a postos para destruir, agredir e incitar ao ódio com infâmias de todos os tipos.

A cada quatro dias, um policial se suicida. Está cada vez mais duro para a polícia francesa enfrentar e suportar a violência das ruas. No último sábado, dia 20, os coletes amarelos – a “casta dos sem humanidade” gritavam: “Suicidem-se, policiais!”

‘Falsos aristocratas’ odeiam milionários

Pessoas que são do povo, verdadeiramente do povo, não dilapidam, não quebram, não desrespeitam nenhum patrimônio. Se as possuíssem jamais destruiriam heranças familiares, quanto mais os bens públicos. Pessoas do povo compreendem o que é ser “herdeiro” em todos os níveis, inclusive espiritual e cultural. Os pseudo-aristocratas, não. Enquanto estes criticam as doações de bilionários – mesmo daqueles que garantiram não usar as isenções fiscais – o povo de verdade doa em massa, nem que seja contribuindo com apenas um euro. O povo ama Notre Dame de Paris e respeita os que juntaram dinheiro com o suor do seu trabalho, honestamente e sem explorar ninguém. Os falsos aristocratas dilapidadores, evidentemente, os odeiam e invejam.

Os “Companheiros do Dever” na França, por exemplo, membros artesãos de um movimento que assegura aos jovens desde os 15 anos, uma formação profissional de “reconstrução”– com todas as especialidades possíveis – sempre cultivaram os valores éticos do trabalho bem feito, da riqueza da experiência prática e da transmissão dos “savoir-faire” de pedreiros, carpinteiros, telhadores, talhadores de pedra, serralheiros, marceneiros, trabalhadores de zinco, encanadores, estucadores, pintores, tecelões, vidraceiros e outros…

Exposição “Obras-primas dos Companheiros do Dever”

 

Maquete do jovem carpinteiro Berry, 1994

 

Portão de parque em miniatura. Obra-prima realizada durante 14 anos (1878-1892) por Léopold le Tourangeau, companheiro do dever serralheiro. Ela se compõe de 2325 elementos de ferro forjado. Acima há um relógio e a fechadura possui 12 ferramentas em miniatura. Foto: O. PAIN

Os “Companheiros do Dever”, esta comunidade de elite no mundo moderno, confrontada às dificuldades do universo operário e, criada já no século 16, está fundamentada no aprendizado, em viagens pela França e no companheirismo. A sua história e desafios são imensos. Conhecendo técnicas e materiais como ninguém, eles – os verdadeiros aristocratas, distintos em castas reais – reconstruirão Notre Dame de Paris com as mãos calejadas, que os “pequenos fidalgos dilapidadores” não têm.

Até a próxima que agora é hoje e aquilo que há de tóxico e abjeto no mau gosto também dos falsos aristocratas é, como dizia Baudelaire, “o prazer aristocrático de desagradar”. Conseguiram. Hoje, a França os detesta.

No centenário da Bauhaus, perdoar o Holocausto não é a questão

Durante encontro com pastores evangélicos, no Rio de Janeiro, um dia antes da comemoração do centenário da Bauhaus – que para alguns historiadores deixou também o campo de Auschwitz como herança – o presidente brasileiro declarou que o Holocausto “deve ser perdoado, porém não esquecido”. A plateia bateu palmas e os analistas políticos o condenaram, ficaram indignados, lembraram a História, falaram do escritor Primo Levi, dos campos de concentração… Só que a questão vai muito mais longe.

Imagem: Gráfico “A herança da Bauhaus”, na exposição “O espírito da Bauhaus” no Museu de Artes Decorativas em Paris (2017), onde se vê o campo de exterminação de Auschwitz.

Para quem o presidente falava? Para evangélicos que, como ele, sabem que “perdoar” está na Bíblia. Como é que se justificava? Dizendo que “os israelenses perdoam o Holocausto”, o que é falsidade ou ignorância. Se Israel perdoasse o Holocausto, não haveria mais razão para a sua existência, uma vez que a fundação daquele país se deve em essência à tragédia da Shoá. O problema, portanto, não é um político de má-fé, ignorante ou inábil dizer que foi eleito “por milagre”, ou ele “perdoar” ou não o Holocausto. O gravíssimo problema, isto sim, é a mistura de religião com Estado.

Um cristão pode perdoar qualquer coisa, mas um governo não pode. Um presidente fazer uma declaração como esta é uma infâmia não porque o Holocausto foi o maior genocídio do século 20, o resultado de um programa sistemático de extermínio étnico de seis milhões de judeus patrocinado pelo Estado nazista de extrema-direita, durante a Segunda Guerra Mundial. O presidente declarar isso é uma ignomínia porque ele é presidente.

Sim, “Jair Bolsonaro precisa voltar para a escola”, como disseram alguns. Mas penso que certos jornalistas, analistas políticos e historiadores também. Em vez de condenar o “mensageiro”, deveriam condenar a condição hierática do país ao qual ele serve. E dizer aos seus leitores não apenas que este presidente está sendo inapto, mas sobretudo explicar porque é tão importante um estado laico em nossos dias.

Hoje, dia 12 de abril, comemora-se o centenário da Bauhaus, instituto fundado pelo belga Henry Van de Velde, depois dirigido por Walter Gropius, que representa igualmente toda uma corrente artística relativa à modernidade na arquitetura, design, fotografia e dança. E cuja herança também foi, longe de poder ser perdoada, o campo de exterminação de Auschwitz. Quanto ao presidente brasileiro, volto a ele no final.

Ver Auschwitz como ‘herança da Bauhaus’, não é do gosto de todos

A história desta escola artística inovadora de Weimar, na Alemanha, estabeleceu as bases da reflexão sobre a arquitetura moderna, como a conhecemos hoje, e sobretudo do chamado “estilo internacional” que floresceu entre os anos 1920 e 1980 no mundo inteiro. Móveis, objetos do cotidiano, têxteis, obras de arte, o movimento queria “dar vida ao habitat e à arquitetura por meio de uma síntese entre as artes plásticas, o artesanato e a indústria”. Por um desvio, talvez, o arquiteto Fritz Ertl participou da concepção do campo de concentração de Auschwitz. Estudante na Bauhaus, de 1928 a 1931, Ertl que se tornou um SS durante a guerra, de fato desenhou as barracas horrendas e funestas do campo de exterminação na Polônia. Ver esta “realização” como “herança da Bauhaus”, certamente não é do gosto de todos.

Mesmo porque a Bauhaus foi proibida pelo poder nazi e não raro mostrada, ao contrário, como símbolo da resistência. A verdade é que alguns de seus membros se acomodaram ao novo regime e outros o apoiaram francamente (veja “a lista dos 11”, no final deste post). Símbolo do modernismo, entretanto, esta escola foi considerada pelos nazistas como um abrigo à subversão “judaica-bolchevique” e eles a fecharam em 1933. Em seguida aceitaram reabri-la com a condição de que se expulsasse alguns de seus professores, entre os quais Kandinsky, o que Ludwig Mies van der Rohe, o diretor na época, se recusou a fazer.

Inúmeros membros da Bauhaus foram, então, proibidos de trabalhar ou tiveram que deixar a Alemanha. Por isso é tão chocante e difícil de entender que outros tenham contornado ou sustentado o regime fascista, pensando que a “modernidade” das formas (em escala humana), fosse compatível com a estética monumental, aterradora e glacial, totalmente representativa da extrema-direita do nacional-socialismo. Um partido que, para um presidente negacionista que quer justificar o seu lado e agora também perdoa o Holocausto, só pode ser de esquerda.

Até a próxima que agora é hoje!

Maquete de casa modernista em “O espírito da Bauhaus” (2017), no Museu de Artes Decorativas, Paris

A lista dos 11

Alfred Arndt (1896-1976)
Arquiteto da Bauhaus que adere ao partido nacional-socialista nazista em 1937. Trabalha ativamente, inclusive como chefe de propaganda nazista para o regime.

Herbert Bayer (1900-1985)
Grafista. Cria documentos e cartazes de propaganda para o regime nacional-socialista, no estilo Bauhaus.

Friedrich Engemann (1898-1970)
Estudante e depois professor na Bauhaus de 1927 à 1933, ano em que adere ao partido nacional-socialista.

Fritz Ertl (1908-1982)
Austríaco, estuda arquitetura na Bauhaus de 1928 à 1931. Torna-se SS e desenha os projetos para o campo de exterminação de Auschwitz-Birkenau.

Walter Gropius (1883-1969)
Arquiteto, fundador da Bauhaus em 1919, adere à Câmara da Cultura do Reich fundada por Goebbels e participa do concurso da Reichsbank organizada pelo novo poder nacional-socialista. A sua correspondência revela que Gropius era antissemita.

Ludwig Mies van der Rohe (1886-1969)
Arquiteto, diretor da Bauhaus de 1930 a 1933. Expulsa, com a ajuda da polícia, os estudantes comunistas. Negocia com os nazistas para conseguir a reabertura da Bauhaus. Assina uma declaração de apoio a Hitler e adere à “Câmara da Cultura” do Reich.

Ernst Neufert (1900-1986)
Adjunto de Gropius, ensina na Bauhaus. Fascinado por Le Corbusier (outro arquiteto controvertido), escreve a ele para recomendar um aluno que deseja fazer estágio em Paris. Publica o “Guia da Racionalização da Arquitetura”, utilizado até hoje. De 1938 a 1945 Colabora com Albert Speer, o arquiteto oficial do 3° Reich. Seu modelo de referência para o “sistema de medida modular” (à maneira de Le Corbusier) é um homem loiro de 1,75m. Esta foi a “norma” adotada para acelerar as construções nos territórios conquistados pelos nazistas.

Lilly Reich (1885-1947)
Colaboradora de Mies van der Rohe. Em 1934 ela organiza a exposição “Povo alemão – Trabalho alemão”.

Hinnerk Schepper (1897-1957)
Estuda na Bauhaus de 1919 a 1922 e é nomeado diretor do ateliê de pintura mural. Pinta afrescos de propaganda nazista.
Hermann Göring lhe encomenda murais para a sua mansão.

Oskar Schlemmer (1888-1943)
Coreógrafo, diretor de teatro e professor, de 1923 à 1929. Rejeitado por seus colegas em razão de sua simpatia declarada pelo nacional-socialismo, deixa a Bauhaus para ensinar em Breslau. Adere à “Câmara de cultura” do Reich. Realiza para concurso, um afresco com multidão fazendo a saudação nazista. Segundo o historiador Eric Michaud (de quem assisti a notável defesa de tese), Schlemmer escreveu a Goebbels para assegurar o seu apoio ao nacional-socialismo. Mesmo assim, foi considerado “artista degenerado” e proibido de exercer.

Lothar Schreyer (1886-1966)
Predecessor de Oskar Schlemmer na Bauhaus. Em 1933 assina uma declaração de obediência e apoio a Hitler. Mesmo assim, em 1937 também foi classificado “artista degenerado” e proibido de exercer.

A arte, o golpe de 1964 e a ditadura

Como dizia Jorge Luis Borges, ‘as ditaduras fomentam a opressão, o servilismo e a crueldade; mas o mais abominável é que elas fomentam a burrice.’ Pelo jeito, no Brasil, a antiga ditadura militar continua a fomentar a burrice, muitos anos depois, até mesmo quando a democracia já foi restaurada, ainda que imperfeitamente. A comemoração (ou ‘rememoração’, o que simbolicamente é a mesma coisa) do 31 de março de 1964 foi proibida e depois liberada por Tribunal de Justiça, selando uma perigosa união entre poderes. O desejo de festividade só confirma as palavras de Borges por sua imbecilidade revisionista, passadista, e pela tola provocação ideológica. Nesta data, eu poderia lembrar os inúmeros acontecimentos funestos para as artes plásticas, como o boicote que atingiu a 10a edição da Bienal de São Paulo em 1969. Mas decidi trazer à memória sobretudo um fato “artístico” que me marcou de maneira indelével. É a minha maneira – eu que conservo neutralidade desde a idade adulta, sem aderir à esquerda ou à direita – de lembrar aquele (mais do que comprovado) golpe que deu início a um regime ditatorial criminoso de 21 anos. Penso que o dia de hoje, de fato, jamais deve ser esquecido. Para que nunca mais se repita.

Imagem: “Penhor de Igualdade”. Lincoln Volpini, 1976.

Pode-se lembrar da perseguição, censura, tortura e arbitrariedades que sofreram inúmeros artistas e intelectuais, nem sempre de esquerda, de forma alguma “terroristas”e às vezes nem mesmo “subversivos”. Fazem parte da história da arte brasileira os acontecimentos desastrosos a partir de 1964 e os que se seguiram ao duríssimo AI5 (Ato Institucional n°5) emitido pelo presidente Artur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968, como o boicote nacional e internacional que atingiu a 10a edição da Bienal de São Paulo, em 1969. Uma petição (“Non à la Biennale”)  somou centenas de nomes de toda parte, tendo sido assinada até mesmo por Pablo Picasso. Joan Miró chegou a oferecer a exilados brasileiros o dinheiro da venda de algumas de suas telas. O diretor do museu Stedelijk de Amsterdã, Edy de Wilde, o conservador sueco Pontus Hultén, o crítico francês Pierre Restany, entre muitos outros, fizeram parte da organização do movimento.

Logo na 9a bienal de 1967, Quissak Jr. – também poeta, escritor, filósofo e professor – havia sofrido ameaça de prisão por causa de seus “Polípticos Móveis da Gênese da Bandeira Nacional e Bandeira Brasileira”, telas que, ironicamente, hoje pertencem ao Palácio dos Bandeirantes do Governo do Estado de São Paulo mas que, segundo os militares “utilizava o símbolo para fins não patrióticos”. No mesmo dia da inauguração, a Polícia Federal retirou uma obra de Cybele Varela por considerá-la “antinacionalista” e “subversiva”.

O Salão Nacional de Arte Moderna no MAM do Rio sofreu o mesmo tipo de arbitrariedade. Muitos artistas, entre os quais Sonia Von Brusky, tiveram trabalhos censurados em sua 19°edição e o museu foi interditado. Instituições atingidas pela censura: o 4º Salão de Arte Moderna de Brasília (1967) foi ameaçado e cancelado por causa da obra “Guevara, Vivo ou Morto”, de Claudio Tozzi; a 2ª Bienal da Bahia (1968), em Salvador foi fechada por decreto militar sob alegação de apresentar obras de conteúdo erótico e subversivo, dez obras foram apreendidas e os organizadores, presos. Conhecidos artistas da exposição urbana coletiva “Do Corpo à Terra” (1970) em Belo Horizonte, tiveram que fugir e deixar a cidade.

A chamada “Bienal do boicote” (1969) tinha tudo para ser grandiosa. Ciccillo Matarazzo queria que a edição fosse tão importante quanto a 2ª Bienal de São Paulo, quando a cidade comemorou os seus 400 anos (1953/54). Ocorreu o contrário. Foi o início de um longo declínio durante a ditadura militar que se estendeu até os anos 1980. Mesmo o acervo da Fundação Bienal possui pouquíssimos documentos sobre este período negro da nossa história. Apesar do constrangimento, muitas personalidades atuantes (e militantes), entre as quais o crítico, cientista e professor Mário Schenberg, os artistas Carmela Gross, Marcello Nitsche, Claudio Tozzi, Mira Schendel, José Roberto Aguilar e Ione Saldanha tiveram a lucidez de escolher participar da mostra. Não porque fossem indiferentes ou alienados politicamente. Muito ao contrário. O que queriam, na verdade, era exercer a liberdade da arte.

Naquele momento, os mais importantes intelectuais e criadores começaram a deixar o país e se exilar, como Ferreira Gullar, Fernando Henrique Cardoso, Oscar Niemeyer, Sergio Camargo. Alguns deles, como Fábio Magalhães, Arthur Luiz Piza, Mário Pedrosa, e mais tarde Sérgio Ferro (que havia ficado um ano na prisão), encontrei em Paris. Os brasileiros Carlos Vergara, Antônio Manuel, Evandro Teixeira e Humberto Espíndola – convidados para a 6a Bienal de Paris organizada por Jacques Lassaigne (de setembro a novembro de 1969 no Museu de Arte Moderna da cidade) – tiveram a sua coletiva fechada pela polícia, no Museu de Arte Moderna do Rio. Niomar Muniz Sodré, diretora do museu, foi presa causando comoção no meio artístico brasileiro e internacional.

Artistas como Cildo Meireles, Antonio Dias, Ivan Serpa, Hélio Oiticica, Antonio Henrique Amaral, Artur Barrio, Sergio Sister, Nelson Leirner, Tomoshigue Kusuno, Alex Flemming, Lygia Pape, Hudinilson Jr., Mário Ramiro, Rafael França (do grupo 3Nós3) realizaram obras fortemente contestadoras sobre as quais, em sua maioria, escrevi. A repressão aumentava com os anos até o arrefecimento em meados dos anos 1980, a opinião internacional se fazia ouvir. Todos os grandes jornais internacionais da época apontavam o perigo que corriam artistas e instituições por causa da situação política no Brasil.

Sofrimento, medo e revolta

O assunto vai muito longe, mas decidi trazer à memória principalmente uma carta que enviei para que fosse lida por um dos participantes das palestras sobre a censura na Funarte, no dia 2 de abril de 1998 no Rio de Janeiro. Nela, eu relatava a minha experiência enquanto membro do júri do IV Salão Global de Inverno de Belo Horizonte, em 1976, junto com o crítico e historiador Frederico Morais, e os artistas Rubens Gerchman (1942-2008), Mario Cravo (1923-2018) e Carybé (1911-1997). A narração do “Caso Lincoln Volpini”, do qual partilhamos os dissabores, foi a minha maneira de apoiar o evento carioca.

Além de Volpini – condenado a um ano de prisão pelo Conselho Permanente de Justiça da 4a Região Militar de Juiz de Fora –, Frederico Morais foi o mais prejudicado, pois ele havia presidido o nosso júri que premiou a obra do artista naquele Salão. O desfecho do processo para ele, Rubens Gerchman, Mario Cravo e Carybé, foi diferente do meu. Um filho de cinco anos adoentado que estava comigo, me fez deixar a capital mineira pouco antes do final do nosso trabalho de seleção. Não participei da deliberação para a premiação.

O fato de ter sido excluída por motivo de saúde de um processo que durou dois anos, não me afastou do sofrimento, medo e revolta durante o período dos interrogatórios na Polícia Federal, na superintendência de São Paulo. Mesmo que eu não a tenha premiado, apenas selecionado, lembrava-me da obra que depois foi retirada da galeria do Salão Global, realizado em Ouro Preto, por ordem da polícia. Esta alegou que o trabalho divulgava conteúdo subversivo porque mostrava a bandeira brasileira (sem a frase “Ordem e Progresso”) e a inscrição “Viva a guerrilha do Pará – 73”.

Eu me sentia solidária aos meus colegas de júri e àquele jovem pintor mineiro de 24 anos, estudante da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, a quem os policiais recomendavam fazer uma arte “pura”, como se estivéssemos revivendo os tempos dos “degenerados” na Alemanha nazista. Nazismo, diga-se de passagem, que o ministro das Relações Exteriores – pelo visto mais um ignorante adepto das teorias conspirativas – identifica como movimento de esquerda, quando o “nacionalismo”, a “arte pura”,  todas as características e a ideologia daquele partido são considerados no mundo civilizado, como de extrema-direita. Tanto que os neonazistas em todos os lugares são unicamente agrupamentos de extrema-direita.

Escrevi: “ficará marcado para sempre, o momento de perplexidade e, em seguida, de horror – foi pouco depois da morte de Wladimir Herzog –, em que vi a Polícia Federal bater à minha porta para me encaminhar a interrogatório. Porque tive o bom reflexo de não recebê-los e, ao invés disso, telefonar ao meu editor no Estadão, fui alertada sobre o perigo e aconselhada a aguardar imóvel a chegada de um advogado. A polícia não podia me levar sem ordem de prisão. Rapidamente veio o dr. Aloisio de Toledo César, advogado e jornalista (hoje secretário de Justiça e Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo), que – a pedido do dr. Ruy Mesquita – me acompanhou até as dependências da Polícia Federal, onde passei a tarde e parte da noite, e para onde voltei ainda várias vezes, sempre acompanhada dele. O ambiente, a tensão, a pressão, o absurdo do teor, e também a forma como as perguntas me foram feitas, eu só tinha visto na literatura de Kafka, Dürenmatt, Malaparte, e nos filmes de Solanas e Gavras, entre outros.”

O patriotismo é o último refúgio do idiota

Imagino o que este momento tenha significado para Rubens Gerchman, Mario Cravo, Carybé e sobretudo para o jovem artista que nas décadas seguintes radicalizou-se, o que se pode entender. Eu conhecia e admirava a militância de Frederico Morais em favor dos direitos do homem, por meio de uma coerente atuação política e artística. Mesmo assim, como já disse, mantive neutralidade, sem aderir à esquerda ou à direita. A minha experiência limitava-se à ação estudantil no final dos anos sessenta, à uma vivência pessoal sem dúvida assustadora durante a prisão, o interrogatório, a queima de livros e a tortura de meus amigos e de meu primeiro marido em 1970, e à censura de partes de uma ou duas matérias minhas pelos interventores federais na imprensa paulista. Ali, mais uma vez, o dr. Ruy Mesquita, como forma de protesto, fazia publicar as famosas receitas e os poemas de Luís de Camões… De certo modo, naquele período de chumbo, o dr. Ruy foi o nosso anjo da guarda.

Acredito que o “Caso Lincoln Volpini” tenha marcado os meus colegas da mesma maneira indelével que a mim. Tanto é que, a cada ano, o 31 de Março traz de volta o gosto amargo daqueles tempos obscuros. Na verdade, os falsos ou pseudo-valores que sustentavam as “Seguranças Nacionais” – e que hoje sustentam igualmente o moralismo conservador, o passadismo e a mentalidade revisionista – enquadram os artistas para mascarar a própria fragilidade. É justamente fazendo isso, que eles acabam, ao contrário, por se revelar ainda mais fracos. Então, como num círculo vicioso, precisam, de novo, encontrar outra vítima para sobreviver. É por isso que as atrocidades – que hoje em democracia, ainda são apenas despropósitos -, se repetem ad infinitum.

Samuel Johnson, famoso escritor e pensador inglês do século 18, falava que “o patriotismo é o último refúgio do idiota”. Mas dizem que se começa sempre por ser idiota, antes de ficar imbecil; e palerma, antes de ficar louco. E que a estupidez que aparece depois da loucura não raro descamba na imoralidade. É o que temos presenciado nos últimos meses.

Até a próxima que agora é hoje, devemos ficar vigilantes. O Estado de Direito ainda é frágil no Brasil. Precisamos, sim, comemorar esta data. Do mesmo modo como se faz com outros crimes, como o Holocausto, que violaram os direitos fundamentais dos homens, inspirados por motivos políticos, filosóficos, raciais ou religiosos. O golpe militar, golpe mais do que comprovado que vivemos na pele e que deu início ao regime ditatorial criminoso de 1964 a 1985, jamais deve ser esquecido. Para que nunca mais aconteça!

Como os cartunistas da época driblaram a censura para falar do boicote à 10ª edição edição da Bienal de São Paulo. Charge de Mino. A Tribuna (7 de outubro de 1969)
Charge de Mino. A Tribuna (8 de outubro de 1969)