História contra desordem e destruição

O governo de Jair Bolsonaro, sobretudo sua grande ala ideológica, é negacionista. Falseia e distorce a verdade histórica, como parte de um projeto separatista de desordem e destruição.

Não custa relembrar: o estado de direito é um sistema onde todos, mesmo os mandatários políticos, são submissos à legislação (carta constitucional). A separação dos poderes (Montesquieu), distingue executivo, legislativo e judiciário que se limitam e controlam mutuamente.

O estado de direito se opõe ao uso arbitrário do poder, às monarquias absolutas (tipo “O Estado, sou eu” de Luís XIV), aos totalitarismos e às ditaduras.

O Estado de direito só existe quando a ordem republicana e o respeito às instituições são assegurados.

A ausência deste sistema institucional leva, a história já provou, à decadência social, econômica e cultural.

Em nome de Jesus

Manifestações por causas são legítimas, fundamento da democracia. No entanto, o que vemos agora, e é intolerável, é a manipulação de causas pretensamente democráticas como projeto separatista de desordem e destruição.

O governo brasileiro de extrema-direita desune a nação, usa o ódio e a violência como instrumentos só que, ao contrário de seus iguais da extrema-esquerda… “em nome de Jesus”.

O governo brasileiro de extrema-direita, tanto quanto seus similares da esquerda extrema em outros países, é revisionista no pior sentido: o negacionista. Falseia e distorce a verdade histórica, com o mesmo projeto separatista de desordem e destruição.

História já!

A única coisa que reconcilia os brasileiros é o seu passado, tantas vezes glorioso. O único tesouro de união do nosso país é a sua história com tudo que ela tem de sombrio e diverso.

Precisamos de perspectiva e visão de totalidade. Precisamos de mais conhecimento histórico para estabelecer paralelos, tecer analogias no tempo, e divisar o futuro.

A História do Brasil é maior do que nós. Torna inútil a vicissitude da atualidade política. É a melhor arma contra o fascismo. Tira o sentido de qualquer divisão ideológica. História já!

#EstudemosHistória #HistóriaContraFascismo #ForaGovernoBolsonaro

Brexit: que consequências para a arte?

Os artistas ingleses, e todos os que defendem o poder revolucionário da arte, sentem-se decepcionados e apreensivos com o retrocesso que o Brexit representa. Seria bom se continuassem vigilantes. Agora que já conhecem a má resposta sobre o destino do país deles e da Europa, vai ser preciso que se movimentem também em torno das mil questões inquietantes que ainda não têm solução como, por exemplo: o que vai ser dos imigrantes poloneses, em Londres, que já começam a sofrer com o racismo e a xenofobia das camadas populares?

Imagem: Poster de Rankin, encomendado para a campanha oficial “Britain Stronger In Europe”, em 2016.

Mas deverão se preocupar sobretudo com o terreno deles e as finanças públicas do Reino Unido.  No campo das artes plásticas (e artes em geral), as previsões* são funestas. Os impostos e taxas aumentarão, obrigando os colecionadores a deixar o país para evitar a tempestade fiscal. Os tesouros artísticos deixarão os museus nacionais que, por sua vez, farão o público pagar mais caro as entradas. Como os emprestadores de obras aos museus exigem a gratuidade das visitas, não haverá mais empréstimos. Ocorrerá, portanto, um duplo êxodo de obras de arte: dos colecionadores e dos museus. O Brexit certamente acarretará, por outro lado, numa interrupção unilateral das subvenções aos meios artísticos e terá efeitos perversos sobre a criatividade, assim como sobre a independência artística da nação.

Claro que o VAT (ou GTS, o imposto indireto sobre o consumo) será aumentado. O Estado vai se fixar nesta taxa fácil de ser elevada para deter o sangramento. Os compradores potenciais de arte na Grã-Bretanha serão penalizados. O país sofrerá o desmoronamento de sua capacidade de atração fiscal, o que havia feito de Londres um dos melhores lugares do mundo para a arte. Como a barreiras alfandegárias com a Europa serão restabelecidas, os europeus não comprarão mais na Grã-Bretanha por causa da reintrodução das taxas de importação relativas aos países de seu domicílio.

As casas de leilões, cujo pessoal viaja e trabalha entre Londres e o continente, deverão rever todas as suas estratégias de relações financeiras e comerciais com ele. As galerias e todos os ofícios que gravitam em torno da arte serão também sinistrados pela queda da libra, o que tornará as suas compras no estrangeiro mais onerosas.

O mundo da cultura está apreensivo com a ameaça que o Brexit representa

Os trabalhos reproduzidos aqui são protestos feitos em 2016 por artistas como o escultor Antony Gormley (presente na Bienal de São Paulo em 1983, e no CCBB em 2012), Tacita Dean, o famoso ilustrador Axel Scheffler e o fotógrafo Rankin. Eles faziam parte dos 14 nomes, internacionalmente conhecidos, que realizaram pôsteres para que o Reino Unido se mantivesse na Europa. Entre as obras encomendados pela campanha oficial Britain Stronger In Europe, encontravam-se igualmente as de Michael Craig-Martin, Bob & Roberta Smith, Dog & Rabbit, Eva Rothschild, Michael Tierney, Jon Burgerman e Wolfgang Tillmans, além de duas peças de Jefferson Hack e Ferdinando Verderi.

Política ou não, mesmo quando está ao alcance do povo, certa arte evidentemente é erudita e não “popular”. A cultura, como se sabe, é minoritária. Uma vez mais, portanto, o reflexo nacional-populista “contra as elites” sacrificará a arte e a cultura em nome de aspirações demagógicas. Os riscos de retrocesso e obscurantismo estão presentes em toda parte, tanto no Reino Unido e na Europa quanto no Brasil, sendo que neste país acrescenta-se a trágica invenção ideológica da luta imaginária contra um “marxismo cultural” inexistente. Até a próxima, que agora é hoje e o futuro de nossos países não pode estar mais ameaçado!

*Segundo o macroeconomista Michel Santiexpert em mercados financeiros e bancos centrais.

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Quando a lei das religiões não pode ser imposta à lei dos homens

J’étais Charlie, agora Je suis Porta dos Fundos. Vejo com horror o hediondo atentado à sede deste programa humorístico, no Rio de Janeiro, provocado indiretamente pela política cultural de um governo revanchista que quer enfrentar a “influência esquerdista”, estimulando censura e promovendo desmanche. Infelizmente, acabamos o ano sob a aura da intolerância, do obscurantismo, radicalismo, integrismo, fundamentalismo, retrocesso… enfim, tudo que caracteriza  o reacionarismo neofascista. Não podemos simplesmente ficar em silêncio, cruzando os braços.


Deputados bolsonaristas da Assembleia Legislativa de São Paulo, pedem uma CPI porque, segundo estes ignorantes imbecis, Porta dos Fundos “vilipendia a religião”. Para entender porque, mesmo se for detestável para alguns, A Primeira Tentação de Cristo não avilta a religião de forma alguma, é bom compreender melhor, antes de tudo, o que significa um estado laico, como reza a Constituição brasileira. Ou seja, um estado onde as instituições e os serviços públicos, assim como a vida intelectual e moral do seu povo, são totalmente independentes da influência e do controle da Igreja e do clero. Como a França, por exemplo.

Charlie Hebdo, sobrevivente do Islã radical e mais precisamente do terrorismo da Al-Qaeda que retomou o fôlego perdido, é – como todos sabem – francês. Portanto, deve ser analisado dentro do contexto francês, e não do ponto de vista de um papa argentino, padres brasileiros, jornalistas americanos protestantes e sobretudo de brasileiros simplórios que pensavam que, naquele 7 de janeiro de 2015, com o atentado ao jornal e o assassinato de 11 pessoas, a França caíra na “armadilha de uma guerra santa contra o EI por causa de três terroristas muçulmanos”. Como se a história mundial dos milhares de ataques do Islão radical nos últimos séculos não bastasse ou como se, então, na declaração de guerra ao terrorismo, não houvessem mais aliados do que nunca!

Na França, a liberdade de expressão é um princípio

Ora, se o “delito de blasfêmia” existiu aqui, muito antes da Revolução Francesa, ele foi definitivamente suprimido pela lei de 29 de julho de 1881 que já se referia à liberdade de imprensa, 7 anos antes da abolição da escravatura no Brasil. Na França, a liberdade de expressão é um princípio. Possui limites distintos, pois são condenáveis pela jurisdição apenas os seguintes delitos:

1) Ofensa pessoal

2) Difamação

3) Dano aos interesses fundamentais da Nação

4) Apologia de crimes de guerra e crimes contra a Humanidade

5) Provocação à discriminação

6) Ódio ou violência contra pessoas por causa de sua origem, etnia, raça ou religião.

7) Apologia do terrorismo (Lei de novembro de 2014)

Charlie Hebdo sofreu processos, como qualquer jornal, porém jamais incorreu em alguma destas infrações e jamais foi condenado ou perseguido por isso. Seus desenhos gozadores, mesmo os de “mau gosto”, “irreverentes” ou “desagradáveis” podem ser considerados, no máximo, blasfematórios. Mas blasfêmia, em estado laico, não é crime. O estado laico não é apenas uma singularidade extraordinária, é uma PRECIOSIDADE que foi conquistada a duras penas!

Devemos ficar reconhecidos que a imprensa, por meio do sacrifício de Charlie Hebdo, reencontrou a sua formidável tradição histórica da sátira, que foi esquecida e/ou obliterada pela descerebração mundial! Como não pensar em Daumier, Cham e mais tarde o jornal “Le Crapouillot”(1915), André Gill, sob o Segundo Império cujas caricaturas são célebres. Aristocratas ou não, políticos, escritores, a Igreja católica e o Vaticano, todos sempre tiveram que se submeter à ironia dos caricaturistas, em sua maioria anticlericais.

Uma tradição iconoclasta

Charlie Hebdo não pode ser comparado a um criminoso antissemita como Dieudonné, julgado pela Justiça francesa. Charlie Hebdo reside na França, onde a liberdade de expressão é estabelecida pela lei republicana e não pela lei religiosa. Aqui é proibido ofender os crentes pessoalmente, é claro, mas pode-se ridicularizar qualquer religião e seus dogmas.

Na França de hoje, têm-se a liberdade de fazer caricatura de tudo e de profetas de toda ordem, sejam eles muçulmanos, cristãos ou judeus. Neste país existe uma tradição iconoclasta (moderna) porém não há qualquer herança iconofóbica advinda das civilizações árabes e bizantinas. A lei das religiões não pode ser imposta à lei dos homens e tampouco às demais religiões, como acontece quando grupos radicais vandalizam mesquitas e cemitérios judaicos. Sobretudo se esta lei serve como razão para violência como, no Brasil, quando destroem lugares de culto afro-brasileiro, terreiros de candomblé ou quando fundamentalistas evangélicos entram em igrejas católicas para quebrar imagens.

Goste ou não de Porta dos Fundos, tenha simpatia ou não por Gregório Duvivier, suas ideias políticas e conversas pueris com hackers; ache engraçado ou não A Primeira Tentação de Cristo no Netflix (que, aliás, não é obrigatório, pode ser desligado em qualquer momento)  – se você defende o Brasil enquanto estado laico, como está na nossa Constituição, se acredita em liberdade de expressão, nos verdadeiros valores da civilização judaico-cristã, odeia o radicalismo, quer que os criminosos sejam punidos, como eu – “seja Porta dos Fundos” também como eu.

Até a próxima, que agora é hoje!


Em tempo

Acabo de ver o filmeco humorístico. Está escrito na apresentação do Netflix que se trata de um “especial de Natal tão errado que só poderia ser do Porta dos Fundos”. Já está boa a explicação, não?

Para mim, o filmeco não é nem muito engraçado, nem muito insolente, não tem absolutamente nada de mais. Nem precisaria ser recomendado para maiores de 16 anos. É tão inofensivo quanto Branca de Neve e os 7 anões, sendo que – no Natal – dei mais risada com Walt Disney.

Além disso, está igualmente cheio de boas intenções, bons sentimentos e, pelo visto, ofereceu montes de emprego para muita gente. Ficar ofendido por causa deste roteiro natalino, que até que é engraçadinho, seria como se ofender quando alguém diz que é agnóstico ou ateu.

Ou seja, é preciso ser realmente muito cretino (ou politicamente mal-intencionado) para perpetrar um atentado ou criar caso por causa de uma gag humorística como esta que, além do mais, perto de Charlie Hebdo e seus humoristas atuais, parece “água com açúcar”.