Meu adeus à Marceline Loridan-Ivens

Marceline Loridan-Ivens, cineasta, produtora e escritora, faleceu anteontem, dia 18, em Paris. Nascida em 1928, ela passou a vida a denunciar a injustiça e a violência, marcada para sempre pela sua deportação, com 15 anos, ao campo de Auschwitz-Birkenau, depois a Bergen-Belsen e a Theresienstadt, de onde foi liberada em 1945. Amiga íntima e inseparável da estadista francesa Simone Veil (que hoje repousa no Panteão), Marceline foi casada com o célebre documentarista Joris Ivens (1898-1989).

Imagem: Marceline Loridan-Ivens, em seu apartamento em Paris, no dia 12 de Janeiro, 2018. AGLAÉ BORY (Le Monde)

Quando eu era jovem e reclamava que alguém estava zangado comigo sem razão, a sábia decana da família dizia: “Se você não fez nada, esta pessoa só pode estar mal pelo que ELA fez. Você não tem nada a ver com isso…”

Não entendia muito bem esse raciocínio, mas sempre o acatei. Mesmo porque ele confortava as minhas dúvidas.

No final do livro E Você Não Voltou* da cineasta francesa Marceline Loridan-Ivens, encontrei um novo e verdadeiro sentido para esta explicação, que agora pertence ao inventário de minhas “psicologias pessoais”. No seu relato póstumo ao pai, morto em Auschwitz, a autora – que sobreviveu a três campos de concentração – dá a chave do mal-estar que, a meu ver, reafirmará o antissemitismo para sempre: “Eles não nos perdoarão jamais o mal que nos fizeram.”

A diferença em relação à minha juventude é que, agora, mesmo eu sabendo que “não tenho nada a ver com isso”, a sábia decana Marceline Loridan-Ivens não consegue confortar os meus porquês.

Toda uma vida a denunciar a injustiça e a violência

Esta pequena crônica está contida em meu último livro, lançado há alguns meses. A republico aqui como uma homenagem à cineasta, mas também produtora e escritora, que faleceu anteontem, dia 18, em Paris, aos 90 anos. Marceline Loridan passou a vida a denunciar a injustiça e a violência, marcada para sempre pela sua deportação, com 15 anos. Amiga íntima e inseparável de Simone Veil (hoje no Panteão), Marceline realizou em conjunto com seu marido, o grande documentarista Joris Ivens (1898-1989), filmes sobre a guerra do Vietnã e a China maoísta. Fez também um tocante longa-metragem, La Petite Prairie aux bouleaux, em 2003.

No livro citado*, Et tu n’es pas revenu (E Você Não Voltou, com Judith Perrignon, Grasset, 2015 – ainda sem tradução para o português), ela contava a sua juventude quando foi enviada no mesmo trem que Simone Veil, em 1944, ao campo nazista de Auschwitz-Birkenau, depois a Bergen-Belsen e a Theresienstadt, de onde foi liberada em 1945. Seu último volume, L’Amour après (O Amor depois, igualmente escrito com Judith Perrignon, Grasset, 2018), relata o que veio a seguir: a liberdade recobrada, a descoberta do amor, a lenta reconstrução de uma sobrevivente. Merece igualmente uma tradução no Brasil.

Até a próxima, que agora é hoje e mais uma grande mulher se vai, deixando o seu exemplo e a sua luta. Como dizia Romain Rolland (1866-1944), “mesmo sem esperança, só a luta já é uma esperança.”
 

 

Crítica de um filme que não vi e não gostei

Jean-Jacques Beineix, realizador, produtor e argumentista francês, está certo: “o cinema anda povoado de cretinos irrecuperáveis”. Eu diria ainda que a sétima arte às vezes é exercida por gente que não deveria nem mesmo habitar o planeta.

Não vi A Casa que Jack Construiu, filme sinistro e repugnante de Lars von Trier que, em maio deste ano, causou a saída espontânea do público em Cannes, e a Mostra Internacional de SP exibirá em outubro. Assisti praticamente a todas as outras obras dele, o que já me autoriza a evitar esta última e concluir sem culpa e arrependimento intelectuais – com toda a subjetividade que o meu ofício me permite – que Trier é o realizador que mais detesto neste mundo!

Se o cinema é “uma mistura perfeita de verdade e espetáculo”, segundo François Truffaut, esta ignobilidade certa, “uma das atrações” do festival paulistano, só poderá constituir a nova mistura imperfeita de lama com a estupidez que aflige cada vez mais o cineasta, uma imundície tão dispensável quanto todas as outras várias perpetrações diabólicas dele até agora.

Pelo pouco que vi e li, A Casa que Jack Construiu é certamente mais uma diatribe propagandística contra a humanidade e o humanismo, com todas essas sujeiras insuportáveis do tipo que von Trier faz Charlotte Gainsbourg dizer, como “a hipocrisia é o que melhor resume o gênero humano”, ou “todos nascemos para matar”, etc., etc., etc.

Como sempre, o roteiro deve ser bastante abjeto. E porque não, mesmo se o espectador ficar perplexo diante de mensagens tão delicadas que lhe darão vontade de se jogar do alto do Edifício Itália ou de sair trucidando todo mundo?

A grande contradição é que esse cinema se mostra sempre uníssono. As sequências são pesadas, escolares, e as provocações repetidas lembram incitações de um adolescente problemático. Isso, quando não aparecem pequenas “lições de história” tiradas da Wikipédia para “intelectualizar” a narrativa.

O “humor” geralmente ajuda o conjunto a ficar mais pesado. Com a câmera no ombro, Lars von Trier sempre consegue um feito: transforma em feiura pura até mesmo atores lindos (quando estes já não são feios como Gainsbourg) e também tudo que é ou poderia ser bonito.

Até a palavra violência torna-se fraca para definir a intimidação moral desses filmes, onde racismo, sexismo, misoginia, masoquismo e ódio humano saltam aos olhos. Sempre entremeados de minicursos de esoterismo e “harmonia musical para nulos”. Nos perguntamos se esse homem de 62 anos é de fato um malvado moderno ou apenas um idiota, tipo intelectual bárbaro e nauseabundo da Idade Média.

A Casa que Jack Construiu marcou o retorno do dinamarquês à Croisette, tentando ser escândalo, mas foi em vão. Nem o boato da saída do montador do filme, de sua mesa de trabalho, para ir vomitar, ou das ambulâncias na porta do Festival para recolher os desmaiados, estimulou os perversos. Já estamos todos bastante acostumados com Tarantino, Haneke, Lynch, Cronenberg, Marco Ferreri…

Fora que a história e seus cinco tipos arrojados de assassinato todo mundo já conhece: Jack (Matt Dillon) é um assassino em série, autor de mais de 60 crimes, e tudo se passa ao longo de 12 anos a partir dos anos 1970, no estado de Washington. No elenco estrelam Uma Thurman, que praticamente não tem tempo de abrir a boca e já leva uma tijolada, Riley Keough, Bruno Ganz, Siobhan Fallon Hogan e outros.

O que dá uma certa satisfação aos (e às) antifeministas e aos artistas macabros é que Matt Dillon grande ator, ou melhor, Jack, mata sobretudo mulheres que ele acha particularmente imbecis e chatas. Além do feminicídio, ele satisfaz também o seu desejo estético de elaborar uma “grande obra fúnebre” no museu, quero dizer, na catedral lívida de uma câmara frigorífica colocando os corpos em poses sugestivas, os quais fotografa. Como Facebook, Twitter, Instagram ou Pinterest ainda não foram inventados, ele envia as fotos aos jornais assinando “Sr. Sofisticação”. Damien Hirst não poderia ter imaginado performance melhor.

Parece que os diálogos em voz off com o personagem interpretado por Bruno Gantz (Verge, ou melhor, Virgílio, o poeta da “Eneida”) são muito piegas, o que não me admira. Assim como não me admira que, como li em alguma parte, ele faça liçãozinha em forma de considerações nada originais sobre Glenn Gould, a arquitetura gótica, William Blake, as diferentes maturações do vinho, e também os grandes crimes totalitários. Tudo isso, é claro, pontificando, revisitando Dante e sem deixar saber porque o Jack chegou naquele ponto, apesar de mostrar que, quando pequeno, o exterminador tinha cortado com tesoura a pata de um lindo pintinho.

O niilismo de Lars von Trier sem dúvida macera em litros de vodca misturados com Rivotril. A sua obsessão é sempre suja e infame, o riso amarelo, a provocação sexual e política gratuitas; e o “espertinho” continua coexistindo em seu cérebro com o mesmo doente mental que um dia evocou comiseração por Hitler.

Não faz mais efeito. No presente, Lars von Trier é como aquele velho tio inconveniente que não gostamos de receber em casa. Até a próxima que agora é hoje e duvido que o cineasta teria sido, ele mesmo, um “grande assassino em série “, como afirmou. Os verdadeiros matadores não brincam em serviço!

Como ‘pôr ordem’ na cultura?

O perigoso programa cultural da candidata Marine Le Pen, que quer pôr “ordem na Cultura”, foi revelado há pouco. Segundo ele, que é a imagem mesma do fascismo, “todos os criadores devem se submeter a uma ‘arte oficial’, permitida pelo Estado”. Já faz um tempo que os eleitos da Frente Nacional, partido francês da extrema-direita que concorre às eleições presidenciais no próximo domingo, dia 7, excluem certos livros das bibliotecas públicas, vandalizam obras de arte, negam subvenções às associações culturais que julgam “politizadas ou comunitárias” e também àquelas que acolhem migrantes, rejeitam a arte contemporânea e, entre várias outras coisas, expulsam jornalistas indesejados dos meetings do seu partido.

 

Olivier de Sagazan, artista performático que, no dia 29 de abril, permaneceu horas “latindo” como protesto na praça da Défense, em Paris.

Como não desenvolver temas políticos dentro da categoria “Cultura”, se um e outro são indissolúveis? Esta semana, mais de mil personalidades do mundo da cultura se reuniram na Filarmônica de Paris e mais de uma centena assinou um manifesto contra Marine Le Pen e a extrema direita. Archie Shepp, Renaud, Jeanne Moreau, Annette Messager, Valeria Bruni Tedeschi, Christian Boltanski, Cécile de France, Zazie, Karin Viard, Zabou Breitman, Laura Smet, Alexandre Chemetoff, Georges Didi-Huberman, Romane Bohringer, Catherine Frot, entre outros, denunciaram o caráter racista, antissemita, xenófobo e nacionalista de um programa cultural que defende uma identidade imutável, voltada para si mesma, e uma arte que deve servir a uma ideologia de Estado.

O vandalismo já é a prática dos políticos eleitos que representam o FN. O prefeito de Hayange pintou em azul a fonte do escultor Alain Mila porque a cor original não o agradava e ele não conseguia chamá-la de “arte”. Maréchal-Le Pen, a sobrinha de Marine Le Pen, recusa-se a subvencionar arte contemporânea. O prefeito de Luc-en-Provence tirou da programação o filme de Lucas Belvaux, “Chez nous”, simplesmente porque “o incomoda”. O diretor da Frente Nacional, candidato à prefeitura de Reims, fala abertamente sobre obras importantes, para ele “pseudo-obras que poderiam ser feitas por crianças ou animais com um pincel no rabo”. A senhora Neveux, candidata à prefeitura de Roche-sur-Yon denuncia “criadores decadentes”, à maneira dos nazistas e do que eles chamavam de “arte degenerada”, quando ela se refere a nomes reconhecidos da arte moderna. E o senhor Gollnisch, ex-vice-presidente do FN, designa “todos” os artistas contemporâneos como “gozadores grotescos que tiram dinheiro dos franceses”, dizendo que gostaria que cedessem o lugar aos que “ele julga autênticos, talentosos e modernos”.

Os eleitos do Front National excluem certos livros das bibliotecas públicas, tiram as subvenções de associações culturais julgadas “politizadas ou comunitárias” e também aquelas que acolhem migrantes, expulsam jornalistas indesejados dos meetings do seu partido. Exprimem desprezo por cineastas, autores literários, artistas plásticos, intelectuais, universitários e jornalistas que não entendem ou com os quais não concordam.

Google de Estado

Marine Le Pen no meeting de Saint-Raphael, dia 15 de março. No cartaz: “Recolocar a França em ordem, em 5 anos”. REUTERS/Jean-Paul Pelissier

E não é tudo. Na resposta feita por um representante do FN a uma organização do setor cultural, apresentou-se um projeto estruturado e metódico: a criação de um motor de procura nacional, uma espécie de “Google de Estado”(sic), cujo uso seria obrigatório, substituindo-se ao Google, e cujos critérios de procura, hierarquizados e ordenados, seriam decididos pelo “ministério da cultura”.

Cereja sobre o bolo, Marine Le Pen quer instituir um “cartão profissional” para os artistas de todas as categorias. Ora, foi o regime de Vichy que criou, pela lei de 2 de outubro de 1940, um “cartão de identidade” para os profissionais do cinema, documento que devia ser renovado a cada três meses.

No campo audiovisual, a “ordem” de Marine Le Pen compreende uma sociedade de produção nacional financiada por doações públicas. O plano é criar um orçamento anual fixado pelo Estado a partir da “taxa cultural” que seria destinada apenas aos artistas com o tal do “cartão de identidade profissional”. O ministério da cultura possuiria uma “direção da cultura francesa no Exterior”!

Se se quer recriar uma “arte oficial”, deixar o Estado escolher os seus artistas, controlar a criação cultural e amordaçar a imprensa, a opção de voto para domingo está clara.

A cultura é a condição de acesso a um pensamento livre e crítico, fora do qual não existe real cidadania. É por isso que a liberdade absoluta de criação e expressão deve ser assegurada a todos os criadores, sem exceção. Até a próxima que agora é hoje e tomara possamos preservar a irreverência e a subversão da arte, condição e garantia de liberdade e democracia!

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