Não, você não pode ser meu amigo

Se os neofascistas têm sempre más respostas a boas questões, deve ser porque, para boas respostas, é preciso boas pessoas. “Boas pessoas” não são as “politicamente corretas”. São as que sentem empatia, colocam-se no lugar dos outros, têm tato, são magnânimas, finas, correspondem ao código de valores humanistas, respeitam a democracia e os direitos humanos. São as que ouvem, sabem dialogar, reconhecem seus erros sem orgulho, respeitam opiniões diversas desde que benevolentes como as suas. Neste sentido, um neofascista, por definição, não pode ser uma “boa pessoa”. Porquê?


Me baseando nas conclusões do grande Michel Winock, premiado e admirado historiador francês (que não é comunista nem esquerdista), fiz uma listinha das “simpáticas” características de um neofascista de direita:

1 – Odeia o presente ou o passado recente, considerado um período de decadência política.
2 – Sente saudades de uma “idade de ouro” (que muitas vezes nem conheceu); como os anos da ditadura no Brasil que, aliás, não considera ditadura. Apologiza ditadores e torturadores.
3 – Distorce ou apaga a história, interpretando os fatos como lhe convém.
4 – Elogia a imobilidade.
5 – É anti-individualista, contra as liberdades e direitos individuais.
6 – Apologiza as sociedades elitistas, considerando a ausência de elites motivo de decadência.
7 – Na política, sente nostalgia pelo sagrado, seja ele religioso ou moral.
8 – Tem medo da imigração, miscigenação genética e do colapso demográfico.
9 – Pratica censura de costumes, sobretudo a liberdade sexual e a homossexualidade. É contra o aborto, a evolução da mulher, o feminismo. Não raro é misógino e/ou racista.
10 – É anti-intelectualista, acha que os intelectuais não têm nenhum contato com o mundo real.
11 – É, como todos os populistas, a favor do porte de arma.
12 – É nacionalista, anti-comunista roxo, se opõe ao sistema parlamentar e à democracia liberal. Não raro é monarquista.

Aliança Pelo Brasil não tem nada a ver com o patriotismo

44 entre tantos não é muito, felizmente. Mesmo assim, é com espanto e decepção que vejo 44 “amigos” meus na rede (alguns também na vida) fazendo parte do grupo radical Aliança Pelo Brasil, que reúne meio milhão de pessoas no Facebook (o que também não é muito num país com 211 milhões) em apoio ao atroz e à sua política no Brasil.

Este grupo – com 3 administradores e 13 moderadores – criado em janeiro de 2018, inicialmente com o nome “Já é Bolsonaro”, alterou o seu titulo quatro vezes até chegar ao atual que leva o nome do novo partido neofascista criado pelo presidente.

Em uma democracia, evidentemente, devem coexistir todos os tipos de sensibilidades políticas e precisa ser respeitada a divergência de opiniões. Ocorre que este novo partido – regido pelas armas e pela religião – é o que está mais à direita na ultradireita, é a extrema da extrema-direita, mais à direita do que o PSL, ultraconservador, ultranacionalista, que se apoia no poder esmagador, no Estado securitário (pelas armas, militarismo e – porque não? – milícias), no nacionalismo estreito e artificial, e numa política absolutamente reacionária que ameaça a cultura, a educação e os costumes.

Aliança Pelo Brasil representa uma fratura da direita e não tem nada a ver com o patriotismo, o amor profundo por seu seu país. Tem a ver com o ódio indiscriminado pela esquerda (quando é apenas do PT que se trata), por meio do radicalismo cego e do integrismo. Como dizia André Gide, “o que ameaça a cultura é a guerra à qual necessariamente os nacionalismos odiosos conduzem.”

Posso ser amiga e trocar ideias com pessoas e políticos de direita, até mesmo com alguns que pertencem ao PSL. Não quero e nem poderia, pela incapacidade de diálogo deles, conversar com gente que apoia o APB – um equivalente do RN francês de Le Pen, do Vox espanhol, do antissemita Fidesz de Orban na Hungria, do PiS na Polônia, do 5 estrelas de Salvini e de dezenas de outros, grande parte fomentada por Steve Bannon, que hoje são uma praga em todos os continentes.

Não. Você que virou radical e integrista só porque odeia os criminosos do PT, é pior ainda do que eles. Quem escolhe o lado mau por causa do mal, não pode ser meu amigo.

Amigos, até a próxima que agora é hoje!

“Coletes amarelos” e a bandeira com a cruz celta, símbolo da extrema-direita. Paris, dezembro de 2018 (LUKE DRAY/COVER IMAGES/SIPA)

Homenagem de um judeu ao Hitler sul-americano

O mesmo deputado provocador, medíocre antirrepublicano ligado ao agronegócio que defende a monarquia, a cassação de “todos” os ministros do STF (dois ou três impeachments constitucionais seriam suficientes, não?), neofascista que acusou a revista ISTOÉ de antissemitismo, já conhecido por ter espalhado fake news em vídeo forjado sobre o pai do presidente da OAB, propôs – bem à maneira de quem nos governa – ato solene na Assembleia Legislativa de São Paulo em memória de Augusto Pinochet, ditador do Chile entre 1973 e 1990.

Imagem: Santiago do Chile. Foto: Orlando Barría / EFE

Claro que estas agitações não passam de nuvens de fumaça para ocupar a imprensa, as redes, a nossa atenção e energia. São estratégias para distrair-nos dos verdadeiros e graves problemas que assolam o Brasil, nacional e internacionalmente.

Sabemos que os jovens políticos extremistas da geração de Frederico D’Avila, mauricinhos ou não, são ignorantes, desmemoriados, alienados da História. Manipulados por pornô-gurus como o da Virgínia e conselheiros satânicos como Steve Bannon, morrem de medo do bicho-papão da “esquerda”. O próprio embaixador do Chile no Brasil, Fernando Schmidt, classificou como lamentável a realização da homenagem, num momento delicado em que o Chile procura sua unificação.

Este deputado é mais um ignorante do baixo clero, tanto quanto o seu colega Coronel Tadeu (PSL-SP) que quebrou a placa com a charge do cartunista antissemita Latuff na exposição em homenagem ao Dia da Consciência Negra na Câmara. Ele argumenta que Pinochet “merece a homenagem porque foi elogiado por Ronald Reagan”, um dos piores presidentes dos Estados Unidos “e Margaret Thatcher” a dama de ferro (1925-2013) que nós sabemos muito bem quem foi e que ligou-se a Pinochet por causa das Malvinas.

Ronald Reagan (1911-2004)  financiou e apoiou de todas as maneiras possíveis as ditaduras militares de Salvador, Guatemala, Honduras, Indonésia, Uruguai, Turquia, Chile, além de governos abertamente eleitos depois de fraudes eleitorais como no México em 1988. E apoiou aquelas ditaduras apesar de elas terem violado os direitos do homem e a democracia. Reagan financiou até mesmo insurreições como a dos “contras” contra o governo democrático sandinista na Nicarágua. O deputado d’Avila deveria homenagear Reagan também, não é mesmo?

Quem tem o mínimo de conhecimento e cultura já ouviu falar no horror dos anos negros do presidente assassino Augusto Pinochet. Este sinistro personagem – acusado também por tribunais internacionais como o da Espanha, de genocídio, terrorismo e tortura – foi violador dos direitos humanos, perverso e corrupto, apontado pela Justiça em uma dezena de processos judiciais, por evasão fiscal e lavagem de dinheiro.

Segundo foi apurado, Pinochet, o chamado Hitler sul-americano, teria feito cerca de 50 mil vítimas, mortos e “desaparecidos”- entre eles, vários brasileiros -, boa parte à época do seu Golpe de Estado militar, em 1973. Tudo isso foi um pouco o espelho do que havia se passado antes no Brasil. Leia o post anterior O horror da ditadura de Pinochet, em 7 filmes e assista aos trailers. Este é o homem desde sempre apologizado pelo presidente Jair Bolsonaro, sendo que, da última vez, em meio a ofensas a uma vítima do regime ditatorial chileno.

Nem as desculpas de imunidade política e saúde, conseguiram livrar o bandido Pinochet do julgamento da História. Até a próxima que agora é hoje e todos sabem quem foi o ditador chileno, exceto a extrema-direita e o mauricinho da Assembleia Legislativa paulista que, além de tudo, cúmulo do absurdo, quer lhe prestar uma “homenagem”!

O horror da ditadura de Pinochet, em 7 filmes

Os cineastas Helvio Soto, Costa-Gavras, Andrés Wood, Patricio Guzman, Pablo Larrain e Nanni Moretti trouxeram o horror dos anos negros do presidente assassino Augusto Pinochet, em sete filmes de tirar o fôlego. Este seu principal e sinistro personagem – acusado também por tribunais internacionais como o da Espanha, de genocídio, terrorismo e tortura – foi violador dos direitos humanos, perverso e corrupto, apontado pela Justiça em uma dezena de processos judiciais, por evasão fiscal e lavagem de dinheiro. Segundo foi apurado, Pinochet, o chamado Hitler sul-americano, teria feito cerca de 50 mil vítimas, mortos e “desaparecidos”- entre eles, vários brasileiros -, boa parte à época do seu Golpe de Estado militar, em 1973. Tudo isso foi um pouco o espelho do que havia se passado antes no Brasil. Ademais, muitos bancos ocultaram a fortuna do ditador, porém sabe-se agora – e não é fake news – que ele teria acumulado 28 milhões de dólares (cerca de 110 milhões de reais). Além das barras de ouro (9600 kg) avaliadas em 190 milhões de dólares (cerca de 780 milhões de reais), num banco de Hong Kong. Nem as desculpas de imunidade política e saúde, conseguiram livrar o bandido Pinochet do julgamento da História. Hoje, todos sabem quem ele foi. Enfim… É este o homem desde sempre apologizado pelo presidente Jair Bolsonaro, sendo que, da última vez, em meio a ofensas a uma vítima do regime ditatorial chileno. Cuidado com os trechos e trailers, alguns são chocantes.

Famosa foto de Augusto Pinochet e e seus acólitos, depois do golpe de Estado.

Chove sobre Santiago, de Helvio Soto (1975)

No dia 11 de setembro de 1973, o presidente Allende e a democracia chilena sucumbem, massacrados pela junta militar de Augusto Pinochet. Este é um filme histórico (aqui está reproduzida a parte final), rodado praticamente em cima dos fatos, apenas dois anos depois. A distribuição internacional foi impressionante. Annie Girardot, Jean-Louis Trintignant, André Dussollier, Bernard Fresson… pode-se ver neste filme uma reconstituição das torturas perpetradas no tristemente célebre Estádio nacional de Santiago, transformado em prisão política pelos militares entre setembro e novembro de 1973. Cerca de 40 mil pessoas foram presas ali, e milhares executadas.


Missing – Desaparecido, de Costa-Gavras (1982)

Missing – Desaparecido gira em torno da história verdadeira de um americano no Chile, desaparecido durante o golpe e procurado por seu pai  (Jack Lemmon). Costa-Gavras pinta um retrato impressionante da implicação dos Estados Unidos e da CIA no golpe de Estado militar contra uma democracia de inspiração socialista à qual o governo de Richard Nixon se opunha. “Qual é o seu papel aqui”, pergunta Jack Lemmon dirigindo-se a diplomatas americanos, “fora apoiar um regime que mata milhares de pessoas?”


Meu amigo Machuca, de Andrés Wood (2003)

Quando o regime monstruoso de Pinochet terminou, os cineastas chilenos puderam começar a revisitar o período, examinando as suas feridas e os “não-ditos”. Esta é a crônica da amizade entre dois garotos que tudo opõe, do meio social à orientação política de suas respectivas famílias. Trata-se de uma visão intimista e ao mesmo tempo histórica dos estragos que o regime Pinochet causou na sociedade e no cotidiano de pessoas comuns. Um pouco como ocorreu em 1964 e ocorre de novo no Brasil de hoje, o filme desenha um retrato da oposição entre o conservadorismo retrógrado e o fervor democrático chileno, em 1973.


Salvador Allende, de Patricio Guzman (2004)

O célébre cineasta chileno Patricio Guzman realizou este documentário baseado na história contemporânea do seu país. Trata-se de um trabalho formidável e singular de memória que completa a sua trilogia da qual também fazem parte os filmes “A batalha do Chile” (1975-1979) e “Nostalgia da Luz” (2010).  Aqui, ele apresenta o incansável balanço dos crimes de Pinochet e refaz o percurso de Allende, um presidente sacrificado, as condições de sua eleição e a sua morte no palácio presidencial de la Moneda, em Santiago.


Santiago 73 post mortem, de Pablo Larrain (2011)

Antes de realizar Não (abaixo), o cineasta Pablo Larrain já havia visitado duas vezes o Chile de Pinochet. A primeira, com o filme Tony Manero e a segunda com este Santiago 73 post mortem. Neste filme fúnebre sobre os primeiros tempos do regime militar, o empregado de uma morgue vê chegar cada vez mais cadáveres. Em uma entrevista que Patricio Guzman deu ao jornal Le Monde, o documentarista resume o filme perfeitamente: “Pablo Larrain”, diz ele, “conseguiu fazer de seu personagem a quintessência dessa mediocridade e desse cinza aos quais chega o fascismo. Soube impor, com audácia, uma atmosfera extremamente inquietante e fazer de seu filme uma espécie de bomba silenciosa.”


Não, de Pablo Larrain (2013)

Em Não (No), Pablo Larrain conta as últimas semanas do regime de Augusto Pinochet, em 1988. Ou seja, como um referendo, depois de uma campanha publicitária habilmente conduzida, pôs fim a quinze anos de terror. É um filme que dá esperança e algumas ideias aos brasileiros que hoje temem por sua democracia.


Santiago, Itália, de Nanni Moretti (2018)

O documentário do genial Nanni Moretti, lançado em fevereiro deste ano nos cinemas, passou há alguns dias na televisão francesa, deixando os telespectadores emocionados. Poucos sabem, mas depois do golpe de Estado militar do general Pinochet, a embaixada da Itália em Santiago do Chile, acolheu centenas de pessoas pedindo asilo. Por meio de testemunhos, o filme narra este período durante o qual muitas vidas puderam ser salvas graças a alguns diplomatas italianos.

Até a próxima, que agora é hoje e certas coisas precisam ser relembradas (o tempo todo) para que nunca mais se repitam!