Minha vacinação contra a gripe

No dia anterior, com o papel do SUS francês que me dá vacina grátis, fui à farmácia mais próxima. O farmacêutico de olhos verdes e unhas sujas, demorou 5 minutos digitando no computador para, finalmente, me indicar a cortina que escondia uma salinha apertada com a imitação da cadeira Louis Ghost de  Philippe Starck, pia, gel alcoólico e prateleiras abarrotadas de caixas de remédio. Sentei-me e esperei um pouco constrangida pois o braço do Luís Fantasma tinha três manchas de sangue. 

“Louis Ghost” (Luís Fantasma), poltrona de Philippe Starck.

O farmacêutico não conseguiu entrar. Tive que sair, para que ele mudasse a posição da poltrona mal colocada. Entrou, já com a injeção na mão, pronto para furar.

“O senhor não vai passar álcool no meu braço, antes de picar?”

“Não é necessário”, respondeu, enquanto procurava, e não achava, álcool e algodão com a mão que restava, equilibrando a agulha com a outra.

“Também não é necessário descartar o primeiro líquido da seringa para tirar o ar e lavar as mãos antes de me vacinar?”

Antes que ele dissesse qualquer coisa, pulei da cadeira fantasma, pedi o meu papel de volta, uma caixinha fechada de vacina e fui embora, deixando o rapaz de unhas sujas com os olhos verdes esbugalhados e a injeção na mão.

No Centro

Para não ter que pagar consulta ao médico, que também vacina, e arruinar mais ainda a já tão devastada Securité Sociale francesa, que reembolsa tudo, fui diretamente ao centro público de vacinação Covid. Pensei: “Se picam para uma coisa devem picar para outra.”

Engano meu. Só picam contra a gripe se puderem picar também, ao mesmo tempo, contra a Covid. Expliquei que já tenho dia marcado para a 3ª dose, não quero misturar vacinas por uma simples razão: se tiver efeito secundário, quero conhecer a culpada.

Considero o meu argumento muito lógico, porém a “alta autoridade da saúde” fala mais alto, o pessoal é obediente e recebi um “não”. Fui a outra farmácia.

Lá, disseram que não tinham licença para me vacinar com material de caixinha vinda de farmácia que não fosse deles. Também, como o meu papel já estava carimbado, eu não tinha mais direito a outra caixinha.

Não desisti. Alguns quarteirões mais à frente encontrei a chamada Farmácia dos Pireneus. Informaram-me da existência de Madame Hamimi, “enfermeira especializada com formação em vacina, que é ótima na picada” e poderia, sem problema, cumprir esta missão com qualquer caixinha. Exultei! Mas Madame só viria no dia seguinte.

Farmácia dos Pireneus

Peguei o elevador no dia seguinte, pensando: “Hamimi deve ser nome japonês. Ou será que é africano?” Fui à farmácia. Na entrada, cumprimentei o segurança vietnamita mal-encarado e fiquei na fila. No fundo, uma senhora idosa sentada em banquinho, gesticulava e falava alto. Farmacêuticos circulavam em torno dela, com remédios e papéis. O ambiente parecia agitado.

Chegou a minha vez. Dirigi-me ao balcão envidraçado e vi que, do meu lado direito, estava uma jovem senhora vestida como uma típica “bobô” (burguesa boêmia), com expressão de poucos amigos, soltando bufa de minuto em minuto, como é de hábito entre os parisienses. Perguntei se eu tinha tomado o seu lugar.

“Não. Estou aqui esperando em pé há meia hora para ser vacinada, e a conversa ali não acaba mais”, respondeu, bufando mais uma vez e apontando a idosa no final da sala.

De fato, a senhora de cabelos brancos exigia faturas em dobro, mudava o pedido, conversava sobre o tempo, contava do filho, queixava-se de dores, “alugava” o pessoal sem pena, como se a farmácia fosse dela e estivesse vazia. Na fila, os clientes impacientavam-se.

Eu vi tudo!

Quando a enfermeira, com seu sotaque característico e sua cabeleira avermelhada, chamou a bufante para ser vacinada perto da porta, em uma salinha sem cortina, percebi que Hamimi não é nome japonês. Segui as duas e fiquei esperando, enquanto ouvia o segurança gritar, gesticulando muito, com um grande pote na mão:

“Eu vi tudo! Foi aquele sujeito! Olha aqui, ele abriu a tampa e quebrou o lacre pra cheirar!”

Duas clientes entraram na conversa e Madame Hamimi parou de vacinar a senhora bobô, que esperava com a manga arregaçada:

“É isso mesmo! Faça o sujeito pagar o produto!”, exclamou.

O “sujeito” do qual todo mundo falava era um morador de rua, enorme e musculoso, que já se encontrava perto da saída quando o mirrado vietnamita, com a metade de sua altura, se aproximou gritando e agitando o pote na cara dele:

“Não pode fazer isso!!!”

“Não pode por quê? Abriu é só fechar de novo!” berrou o homem, partindo para cima do segurança.

Pensei que ia presenciar um pugilato, mas o pessoal da farmácia acudiu, o morador de rua foi embora e a enfermeira voltou ao braço da bufadora.

Quero o atestado com o lote

Chegou a minha vez. Madame Hamimi não tinha lavado as mãos, mas havia passado álcool, descartado o primeiro líquido da seringa para tirar o ar e não me causar uma embolia, e estava prestes a me picar quando a bobô emburrada voltou.

“Quero o atestado com o lote da minha vacina.”

“Não tem!”

“Tem sim. Exijo o lote!”

As duas começaram a brigar. Desta vez era eu que esperava com a manga arregaçada. A enfermeira brandia a minha injeção e explicava, gritando:

“Agora tudo é automático. O lote já foi por computador direto à Securité Sociale! A senhora está por fora!”

A jovem senhora – que a estas alturas, já descabelara-se e ficara vermelha por trás da máscara – rodou os tornozelos, jogou a echarpe para trás, quase nos atingindo, e foi embora.

Respirei fundo. Finalmente, estávamos tête-à-tête, Madame Hamimi e eu. Mas, no exato instante em que ela virou a cabeça para saudar a idosa de cabelos brancos que também saía, a agulha encontrou a minha carne e a furou de um só golpe:

“Au revoir, Madame Goldschmidt!”

Eu fui a única a ver onde tomei a vacina. Enquanto vestia o casaco e voltava ao balcão, massageando o meu pobre braço, Madame Hamimi já se encontrava atrás do vidro, ao smartphone vermelho, cor de sangue, falando em língua magrebina:

“Salam! Kayfa halok ? Men fadlek, ayna nahn ?”

“Por favor, Madame, preciso de máscaras.”

“Aqui estão, pode escolher a cor.” E, voltando ao celular, “Chokran, chokran!”

“Ah, tem pretas… não, prefiro cor-de-rosa. É mais fresco.”

“É mais fresco. Aqui está uma caixa de cor-de-rosa com 50, custa 4 euros.” E continuou: “La chokra ala wajib. Laá. Estou dizendo ‘laá’, OK? Laá! Beijinho!”

Vai querer as pretas?

Paguei enquanto ela se despedia do seu interlocutor. Já estava perto da porta quando lembrei que meu marido certamente não iria usar. De volta para trocar, vi o farmacêutico num canto assoando o nariz em lenço de papel e limpando as mãos no avental. Chegamos juntos ao balcão, mas ele foi logo dizendo que não podia me atender, pelo que dei graças a Deus.

Veio a Madame, expliquei a questão da cor e ela retrucou, emburrada:

“Claro que cor-de-rosa homem não usa! Vai querer as pretas?”

Para não criar caso, e como o celular dela já estava tocando de novo, eu disse que compraria, então, mais uma caixa de máscaras, desta vez azuis, o que fez Madame Hamimi sorrir pela primeira vez.

Saí da farmácia com as duas caixas na mão, pois aqui ninguém oferece um saquinho se você não pedir, e uma só esperança:

“Até a próxima que agora é hoje… será que seremos confinados novamente?”

Coronavírus e vocação tardia

Rafael Siminovitch, jovem e belo empresário em Paris, colecionador de arte contemporânea sem filhos, sofisticado e esportivo milênico, descendente de baby boomers bem-sucedidos, foi atingido severamente – como tantos – pela grande epidemia do século 21.

“Triptych. Dance. Hassidim Painting”, de Solomon Gold, 2020 (Israel). Segundo o artista, “este é o momento em que o Todo-Poderoso concede grandes bênçãos às pessoas que estão se divertindo e se regozijando. Assim, os chassídicos que dançam são retratados.”

Antes, raramente bebia uns uísques ou umas vodcas quando chegava do trabalho. Porém, com o confinamento, o tele trabalho, as intermináveis reuniões por Zoom, a derrocada vertiginosa da sua empresa, e sem conseguir vender nem mesmo uma peça de sua coleção de arte, Rafael passou a consumir estes “ansiolíticos” (como ele os chamava) diariamente. Na maior parte das vezes, a partir das 11 da manhã, o que o obrigava dormir a tarde toda e recomeçar a beber às 8 da noite. A ponto de a sua mulher lhe dizer:

“Basta! Ou você procura ajuda, ou é divórcio!”

Rafael, que, de fato, acordava de madrugada sentindo-se culpado, temendo a punição de Deus, jogou-se no Google à procura de um especialista em alcoologia que pudesse salvá-lo, assim como o seu casamento. Encontrou o Dr. Menahem Schneersohn, médico em uma clínica chamada Bokirtow que, em hebraico separando o “bokir” do “tow”, quer dizer “bom dia”.

Na foto, o doutor posava com uma longa barba branca, cabelo cortado rente ao crânio e óculos redondos de metal. No site Doctolib, por meio do qual todo mundo na França marca consulta ou tele consulta, Rafael descobriu as suas especialidades: geriatria, hipertensão arterial, medicina infantil e adolescente, check-up, alcoolismo, contracepção, burn-out, varicela, vacinação, eletrocardiograma, doenças sexualmente transmissíveis, infecções, HIV e tabagismo. Tudo isso, falando “alemão, inglês, árabe, francês, hebraico e italiano”. “Perfeito!”, pensou o jovem empresário. “É um poliglota e, ainda por cima, da colônia…”

O que Rafael não imaginava é que este clínico geral era um erudito que ensinava a Torá. Pediu a ajuda do Google mais uma vez, para conhecer as avaliações dos pacientes, e descobriu que o Dr. Schneersohn se apresentava, nada mais nada menos do que, em condição de… rabino! Um rabino ortodoxo, mas evoluído, com canal no YouTube e posto de diretor de uma revista online no endereço “hassidismo.org”.

Como se isto não bastasse, Rafael viu na revista que o rabino Dr. Schneersohn, frequentava muitas “farbrengen”, reuniões durante as quais os chassídicos buscam elevação moral. Momentos de troca, onde é possível inspirar-se para o serviço de Deus, aproximar os corações, sublinhar a importância da ação concreta que visa “enxaguar os olhos com as lágrimas da meditação”. Nas farbrengen, aqueles judeus ortodoxos se unem, se amam e se alegram, recebendo as bênçãos mais importantes, especialmente a tal da “Libertação futura”.

“Dança e Hassidim”, Arieh MERZER (1905 – 1966). Baixo-relevo em bronze, pertencente ao acervo do Museu de Arte e História do Judaísmo (MAHJ), em Paris.

Rafael olhou bem as fotos. Claro, só havia homens em volta de mesas cheias de acepipes. Na questão “igualdade entre homens e mulheres”, os chassídicos continuam seguindo a corrente mística do judaísmo fundado no século 18 pelo rabino Israel ben Eliezer, mais conhecido como Baal Shem Tov. Mulheres de um lado, homens de outro.

Rafael aumentou as imagens e, surpresa! Já na primeira, com um grande chapéu de Lubavitch, não de pele, mas de abas, o sorridente doutor rabino Menahem Schneersohn, especialista em alcoologia, levantava um copinho, enquanto todos se serviam de várias garrafas de Smirnoff e J&B. No final da soirée farbrengen, depois de muitos brindes “L’Chaim!” (À Vida!) com os copinhos no alto, alguns convivas pareciam realmente ter encontrado a “elevação moral”, estando prontos para a “Libertação futura”.

Nada mais faltava para que Rafael marcasse consulta. O doutor rabino que, provavelmente, acumulava menos pacientes do que alunos de Talmude, tinha hora livre no dia seguinte. Como o estacionamento na rua seria difícil, o jovem empresário deixou o seu Audi na garagem e, uma hora antes da consulta na clínica Bokirtow, precipitou-se no metrô em direção à estação Belleville.

Leonard Freed (1929 – 2006). “Casamento judaico chassídico”, Nova York 1954. Foto adquirida pela França, em 1984, e doada ao Museu Nacional de Arte Moderna / Centro Pompidou, em 1988.

Faz seis meses que a mulher de Rafael Siminovitch, não tem mais notícias dele. O jovem ex empresário tornou-se financista e courtier d’art*, mora em Belleville, deixou crescer a barba, passa o seu tempo a ser poliglota, a aprender e discutir finança talmúdica numa ieshiva**, comprou um chapéu de aba para frequentar as farbrengen, nem pensa mais no que é correto ou politicamente incorreto. Está feliz que mulheres fiquem de um lado e homens de outro, estes amando-se, unindo-se, alegrando-se, recebendo as bênçãos mais importantes e brindando L’Chaim com o copinho, na boa companhia de muitas garrafas de Smirnoff e J&B.

Até a próxima que agora é hoje, e boa sorte ao Rafael, personagem fictício deste meu pequeno conto de pandemia!

 

  • Courtier d’art (corretor de arte): especialista sem galeria ou butique, que atua como intermediário entre os compradores que procuram determinadas obras e os vendedores. O courtier deve ter excelentes habilidades de negociação e falar vários idiomas para aconselhar seus clientes estrangeiros.

** Ieshiva: instituição de ensino em que se estuda o Talmude.

Crianças ouvem judeus chassídicos lendo os manuscritos de Ester, na sinagoga da cidade israelense de Beni Brak, perto de Tel Aviv, durante a festa de Purim. A festa judaica de Purim comemora a salvação dos judeus dos antigos persas, conforme descrito no livro de Ester. AFP PHOTO/MENAHEM KAHANA, 2006

O inimigo do Brasil

Tanto quanto o seu pau-mandado Kassio com “K” no STF, o presidente brasileiro é contra a decisão de que Estados e municípios podem decidir sobre a obrigatoriedade da imunização e impor sanções para quem se recusar a ser vacinado.

Ser contra uma obrigatoriedade que visa o bem de todos, não é liberalismo. É totalitarismo populista.

Imagem: Charles de Gaulle se impõe a (e salva) um país à beira da guerra civil. 1958 © AFP

O anúncio do plano de vacinação foi puro teatro. Todo mundo sabe que o presidente nunca quis preparar o País para campanha de vacinação, que ele prejudica todas as alternativas, manteve uma postura negacionista, não tem a menor empatia pela dor do outro e sempre minimizou a pandemia.

Desacatar instituições e ser contra o interesse e a saúde de cada brasileiro, influenciando-o ou deixando-o à sua própria sorte e decisão, não é ser liberal. É ser um inimigo do País.

A história mostra que face aos impasses e à paralisia política foi preciso SAIR PELO ALTO, por meio de figuras providenciais como Alexandre o Grande, Joana d’Arc, Charles de Gaulle (apelo de 18 de junho), George Washington, Abraham Lincoln, Georges Clemenceau, Franklin D. Roosevelt, Winston Churchill, Gandhi, John F. Kennedy, Emmanuel Macron (que neutralizou o combate estéril entre a direita e a esquerda) e tantos outros.

Até a próxima, que agora é hoje e impasses não devem persistir. Inimigos do povo devem ser postos para fora. Sempre. Constitucionalmente ou não.