11 de setembro: o que a arte pode dizer 20 anos depois?

O mundo ocidental, tocado e terrivelmente ameaçado pelo estado das coisas no Afeganistão – com o terrorismo evoluindo no âmago daquele país – reverencia a memória de suas vítimas. A nossa vida, no Brasil igualmente, não é mais a mesma depois desta data. Embora o governo brasileiro atual, presidido por um atroz alienado, não possa nos significar isto em nenhum momento, intimamente sabemos que temos uma responsabilidade e uma solidariedade a assumir, até o fim de nossas existências. O que a arte pode dizer, 20 anos depois?

Manju Shandler – AFP / William EDWARDS / Getty Images

Enquanto os Estados Unidos comemoram o 20° aniversário de um dos dias mais traumáticos do mundo ocidental, o extraordinário Memorial & Museu Nacional do 11 de Setembro em Nova York exibe um acervo histórico e didático para que os atos terroristas hediondos não sejam esquecidos. Conta os fatos daquele dia e das pessoas que o viveram ou foram mortas ali, no mesmo espaço do antigo World Trade Center. O museu já foi visitado por milhões de pessoas.

A instituição apresenta também exposições temporárias, renovando o interesse dos visitantes, como as de obras criadas em resposta à tragédia. Reuniu, por exemplo, vários artistas nova-iorquinos que, através das lentes da linguagem artística, refletem de maneira íntima e contemplativa, sobre a emoção bruta que experimentaram naquela inesquecível terça-feira de 2001.

Os trabalhos oferecem um outro modo de lembrar as emoções provocadas pelos sinistros acontecimentos nos quais morreram quase 3 mil pessoas. São pinturas, instalações, vídeos e escultura de artistas que, de uma maneira ou de outra, viveram o atentado. Um deles, Christopher Saucedo, perdeu até mesmo um de seus dois irmãos, ambos bombeiros, cujo corpo jamais foi encontrado.

“WTC como uma nuvem”,” série de Christopher Saucedo.

A arte traz um sentimento de empatia, não fala à mesma parte do cérebro

Que não se espere ver nestes trabalhos, entretanto, telas violentas ou representações assustadoras. A arte, quando é arte, sempre traça o seu caminho transcendendo o mimetismo, excedendo o realismo, o que por vezes é ainda mais contundente do que a realidade. E é a única forma, talvez, de aprisionar a história e apaziguar o sofrimento.

O artista Ejay Weiss, por exemplo, utilizou as cinzas do “Ground Zero” para incorporá-las em pinturas que sublimam o caos com um centro quadrado onde se vê o céu azul. Esta é a imagem que todos guardamos: cinzas e céu.

Ejay Weiss

Manju Shandler, para quem “a arte traz um sentimento de empatia, não fala à mesma parte do cérebro”, no dia seguinte ao atentado já começara a pintar pequenas telas para representar cada uma das vítimas. A artista pintou todas elas, das quais 850 foram montadas em um afresco no museu. “A arte permite ressentir imediatamente a verdade emocional de um instante passado”, disse ela.

Foram exibidos centenas de trabalhos e um vídeo coletivo pungente do grupo Blue Man, inspirado pelas folhas de papel, cartas e documentos que voaram desde o World Trade Center até o pátio de seu ateliê no Brooklin. Há vinte anos, cada um de nós, tanto quanto os artistas presentes, viveu de forma profunda este ataque à integridade do Ocidente. Mas só os artistas tiveram a chance de exprimir tal comoção.

Até a próxima que agora é hoje e, quando a dor não pode mais ser descrita por palavras, felizmente restam as imagens que a exprimem, libertam e purificam!

“Mulher Caindo”, trabalho de Eric Fischl no Memorial & Museu Nacional do 11 de setembro.

E o desastre não é só político

Nunca usei estes selos. Guardo-os há quase duas décadas, porque contém a efígie de um herói que sempre admirei. Hoje, no Afeganistão, quando os direitos humanos se encontram em perigo, as mulheres correm risco, a liberdade do povo está ameaçada e o país caminha de modo a se tornar um estado pária, o meu pensamento vai ao comandante Massoud. E à sua visão que, na nossa época, não é mais modelo a povo de país algum – Brasil, França e Estados Unidos ainda menos. 

Elevado ao posto de herói nacional em seu país, após o seu assassinato aos 48 anos, Ahmad Shah Massoud foi o grande líder militar que expulsou os soviéticos. Engenheiro cultíssimo e poliglota, descrito em livro por sua mulher, como pai e marido amoroso e fiel, o “Leão de Panjshir”, como era chamado, amava ler, possuía uma biblioteca com 3.000 livros. Admirava Charles de Gaulle, assim como Victor Hugo e a poesia persa clássica. Jogava futebol e xadrez.

Num país cuja tradição restringe o direito das mulheres, Massoud foi um progressista em seu favor. Jamais transigiu. Ele tinha um só desejo para o Afeganistão: que fosse um país pacífico com boas relações entre todas as etnias e os países vizinhos.

Este não é mais o paradigma daquele país, que já está bem longe do momento em que a democracia desempenhava o seu papel, quando ajudava o povo afegão de estudiosos, místicos e cavalheiros a lançar, se quisessem, as bases de um Estado de Direito.

Não é mais modelo na nossa época, em país algum. Estamos entre a esquerda e a direita na França e no Brasil, democratas e republicanos nos Estados Unidos, ricos e proletários em todos os países, anárquicos, insubmissos, soberanistas, individualistas, adeptos da cultura woke ou do egoísmo nacionalista revisitado. Estamos, enfim, num globo onde quase todos parecem achar normal que a fraternidade não tenha mais o seu lugar, que o respeito do direito seja prerrogativa de um clube de nações ricas e que o Ocidente amuralhado se despeça tranquilamente do resto do planeta.

Até a próxima que agora é hoje, e o desastre no mundo de hoje não é só político, é também intelectual e moral!

Esta alameda para pedestres, localizada no 8º arrondissement de Paris, fica no jardim da Avenida Champs-Élysées. Foi inaugurada no dia 27 de março de 2021.

A aberração revisionista e cancelista chamada Marilene Felinto

Para Marilene Felinto – no texto de ontem, dia 6, com o título Complexo de ‘Negrinha’ na Folha de S. Paulo – “é importante que haja revisão e alteração da aberração racista chamada Monteiro Lobato”. Para mim, é importante que haja revisão e alteração da aberração revisionista e cancelista chamada Marilene Felinto, cujas ideias resultam da mistura do velho revisionismo histórico com a cultura contemporânea do cancelamento.

Tia Anastácia, personagem adorável do “Sítio do Pica-pau Amarelo” de Monteiro Lobato. Foi de suas mãos que surgiu a boneca Emília.

O revisionismo histórico, já conhecemos. Hoje está até mesmo no negacionismo. A cultura do cancelamento, importada dos Estados Unidos, consiste em anular, denunciar, boicotar, excluir do debate, do espaço público, profissional ou cultural, toda pessoa de hoje ou de ontem, julgada inaceitável por suas opiniões, por seu comportamento ou simplesmente por ser considerada “refratária à moral dos novos tempos”.

Trata-se de exercer uma vigilância (woke) para denunciar os crimes da “branquitude” (parafraseando “negritude”), sobretudo a heterossexual, capitalista e normativa. Mesmo que esses “crimes” tenham se dado no passado, em outras culturas e entendimentos da realidade.

Seu móbil: o ressentimento, a sede de vingança. Sua ponta de lança: as redes sociais. E, agora, também os jornais. Os cancelistas podem literalmente decretar a morte social de um indivíduo ou de uma instituição. A influência desses linchadores na imprensa, na cultura e no seio da universidade não para de crescer. É uma verdadeira praga, e como todas as pragas, injusta e peçonhenta.

Na cultura do cancelamento, não se trata apenas de denunciar as ações ou os argumentos de alguém, mas de impedir qualquer pessoa de defender o seu direito à liberdade de expressão. O objetivo não é somente obstruir a palavra contraditória, mas estimular cada um a ser agente desta mesma cultura do ostracismo. Quem não entrar nessa, será rapidamente designado como cúmplice. Assim, o medo impera.

O linchamento às vezes leva à morte

Nos Estados Unidos, a cultura do cancelamento faz e desfaz carreiras. Bret Weinstein, professor da Evergreen State (Washington), teve que renunciar ao cargo após uma campanha viral, apenas porque se opôs à organização do “dia sem brancos” na universidade. O linchamento às vezes leva à morte: Mike Adams, professor de criminologia da Universidade da Carolina do Norte, polemista com ideias “não politicamente corretas” (com as quais pode-se até mesmo não concordar) foi tão assediado e ameaçado no Twitter que acabou suicidando-se em julho passado.

O diretor do MoMA de São Francisco foi demitido em julho de 2020, porque disse que continuaria a comprar artistas brancos para não entrar em uma “discriminação inversa”. Esta expressão é agora proibida pelo discurso antirracista. O emérito conservador do Metropolitan Museum de Nova York precisou se desculpar por ter perguntado em seu Instagram: “Quantas grandes obras de arte foram perdidas por causa do desejo de jogar no lixo um passado que não se aprova?”

Na França, a cultura do cancelamento ganha cada vez mais espaço. A filósofa Sylviane Agacinski foi impedida de falar na faculdade de Bordeaux devido à sua oposição à RMA (reprodução medicamente assistida). O jornalista e escritor Mohamed Sifaoui foi banido injustamente da Sorbonne por “islamofobia” porque realiza enquetes sobre os islamistas do crime organizado. A apresentação da peça As Suplicantes de Ésquilo foi cancelada, acusada de retratar uma blackface* racista. Recentemente, Alexander Neef, diretor da Ópera de Paris, referindo-se aos balés cult de Nureyev, disse que “algumas obras vão, sem dúvida, desaparecer do repertório”, pela mesma razão.

Como no Brasil, aqui o título O Caso dos Dez Negrinhos de Agatha Christie desapareceu. O livro foi ridiculamente rebatizado como Eles eram Dez.  No mundo da música, alguns sugerem o recrutamento de músicos não mais por mérito, mas por cotas.

Quando os tribunais intervêm, às vezes corrigem certos excessos. A inventora do #Balancetonporc (o #MeToo francês) foi condenada em 2019 por difamar o homem que ela acusou de assédio. O tribunal decidiu que a moça “ultrapassara os limites permitidos da liberdade de expressão”. Muito bom, mas tarde demais. A vida do acusado já fora destruída.

Blackface: cartaz do espetáculo de menestrel do americano William H. West (1853 – 1902), em 1900.

Muitos professores se calam e se adaptam por receio de “desaparecer”. Alguns aderem ao “cancelismo” com entusiasmo: uma universitária de Massachusetts ficou “super orgulhosa” de retirar a Odisseia de Homero de seu programa de ensino. Outros sofrem. Uma jornalista do New York Times teve que provar aos seus superiores a equidade no número de negros, brancos, mulheres e homens que serviram como “fonte” em sua reportagem.

 “Fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer” (Roland Barthes)

O politicamente correto substituiu a antiga censura. Quer instaurar o pensamento único. É, de novo, o mesmo totalitarismo que torna o debate impossível. Céline, tanto quanto Monteiro Lobato, pode e deve ser lido sem qualquer alteração. Apenas com explicação. Em literatura não se toca! Só a educação nos permite distinguir o certo do errado.

Como escreveu J. Roberto Whitaker Penteado, autor de Os Filhos de Lobato (Ed. Globo), em matéria especial para o Estadão, há um ano, “não se deve censurar ou mexer em uma vírgula sequer dos mais de 50 livros e quase 100 traduções que Monteiro Lobato publicou, entre 1914 e 1948”. “Reescrever qualquer parte da obra dele”, diz o escritor, “seria como reformar Brasília, transformar a Asa Branca em Asa Negra ou fechar o abraço do Cristo Redentor.”

Leia Felinto, em 1998, quando escreve sobre Spielberg. Ela, que quer “revisão e alteração” da literatura da nossa infância, aparece apontando teorias de conspiração, em plena histeria antissemita.

Até a próxima, que agora é hoje e não temos nada a ver com a “não leitura de Monteiro Lobato” por Marilene Felinto, mas temos tudo a ver com a verdadeira luta contra TODOS os racismos!

Nota: *Blackface (rosto negro) refere-se à prática teatral de atores que se coloriam com carvão para representar personagens afro-americanos de forma exagerada, geralmente em espetáculos de menestréis norte-americanos.