Portinari: antissemita ocasional?

O respeitável único filho de Candido Portinari (1903-1962), fundador e diretor-geral do Projeto que leva o nome de seu pai, publicou em rede social o cartaz desenhado pelo artista, militante durante a Segunda Guerra Mundial, contra a ameaça nazifascista, parecida com a que hoje paira sobre o Brasil. Muito bem. Historicamente, a analogia é pertinente. Mais tarde, Portinari esteve até mesmo em Israel, pintou o povo judeu e seus costumes, viagem e estadia pagas pelo governo israelense. Mas, o que estaria por trás desta “imagem pública” do artista?

Cartaz militante de Portinari, na época do nazismo, durante a Segunda Guerra Mundial

O que ninguém descobriu até agora, eu tampouco, é que Candido Portinari parece ter tido laivos de antissemitismo enrustido em certas caricaturas que desenhou nos anos 1950. As ambiguidades, bastante características da época, talvez um dia serão descobertas por críticos e pesquisadores mais jovens. É possível que ele, artista que, na minha opinião, não tem a estatura que lhe dão, tenha sido um “antissemita ocasional”, um tremendo preconceituoso assim como o foi Gilberto Freyre e Mário de Andrade, porém não um “antissemita oficial” e virulento como os monstros do integralismo brasileiro.

Isto era comum entre certas pessoas que faziam parte da elite intelectual, não só no Brasil. Nos anos 1930, 1940, e ainda nos 1950, entraram “na onda” da imagem estereotipada do judeu, repisando os cacoetes do antissemitismo que se espalhara pela Europa, durante e depois da Segunda Guerra Mundial. Hoje as vemos como uma espécie de “papagaios” racistas.

Certamente, não é o caso de tecer paralelo com o expressionista alemão Emil Nolde, um dos maiores do seu tempo, cuja obra, aliás, aprendi a olhar na minha juventude com a inesquecível historiadora e crítica de arte Lisetta Levi. Nolde – isto só soubemos há pouco – não foi um antissemita “oficial”, apenas virulento. Tanto que Angela Merkel retirou as suas pinturas da Bundeskanzleramt, a chancelaria alemã. E tornou-se adepto inveterado do nazismo, apesar de sua obra ter sido considerada “degenerada” e proibida pelos próprios nazistas. Fascistas tem contradições e razões que a própria razão desconhece.

O antissemitismo de Portinari é uma suposição

É possível que quem não tenha experiência com a estética antissemita de certas épocas, não perceba nada. Pois eu vi exatamente igual gênero de desenhos numa exposição sobre “arte e caricatura antissemitas” no fantástico Museu de Arte e História do Judaísmo (MAHJ), em Paris. O mesmo museu, aliás, que já mostrou Lasar Segall e, há alguns anos, organizou uma exposição sobre Helena Rubinstein, onde o retrato dela, feito por Candido Portinari, estava presente. Ao descobrir e ficar chocada com as horrendas caricaturas deste artista, para mim, o antissemitismo dele tornou-se uma justa suposição.

Suposição esta, reforçada pela sugestão de um amigo querido para eu olhasse o livro Portinari amico mio, cartas de Mário de Andrade a Portinari, organizado por Annateresa Fabris. Efetivamente, parece que há duas cartas em que o poeta toca no assunto. Numa delas, Mário de Andrade (1893-1945) disse a Portinari: “judeu é uma raça com que não me acomodo.” As caricaturas de Portinari foram feitas alguns anos depois da morte de Mário de Andrade, mas mais racista do que essa frase, é difícil encontrar.

Em outra correspondência, comentando os retratos que Portinari e Lasar Segall haviam feito dele, Mário de Andrade escreveu: “Como bom russo complexo e bom judeu místico Segall pegou o que havia de perverso em mim. (…) A parte do Diabo. Ao passo que Portinari só conheceu a parte do Anjo.” Não é à toa que “não se acomodava” com pessoas que enxergavam quem ele era.

Parece que Mário de Andrade defendeu Lasar Segall, nos anos 1930, na apresentação do catálogo de uma de suas exposições. A defesa foi resposta direta à uma reportagem difamatória e antissemita publicada pelo jornal “A Notícia”. Porém, antes ainda de ler aquele texto, algo me diz que existe uma ambiguidade, ou talvez até mesmo falsidade, na posição de Mário de Andrade. Claro que ele, um homem com tal inteligência, não poderia ter concordado com uma difamação ou um selvagem ataque frontal. E Segall, apesar de judeu, era o amigo que, ademais, fizera o seu retrato.

Sinto muito por seu filho. Penso que, na verdade, Portinari foi um grande oportunista. Capaz de receber cartinhas antissemitas, fazer caricaturas maldosas de judeus e, ao mesmo tempo, um retrato “embelezador” de Helena Rubinstein, a judia milionária que ele bajulou porque seria pago a preço de ouro.

Helena Rubinstein (1872 – 1965), aos 67 anos. Retrato de 1939, bastante rejuvenecido por Cândido Portinari e doado por HR ao Museu de Arte de Tel Aviv, Israel. Foto: S.L., realizada na exposição dedicada à empresária, no Museu de Arte e História do Judaísmo, em Paris, em junho de 2019.

 

A escultora Felícia Leirner (1904-1996) aos 52 anos, não menos bonita do que Helena Rubinstein, porém maldosamente caricaturada e envelhecida por Candido Portinari, em 1956.

Minha avó Felícia, contou-me as “boas lembranças” que tinha da viagem com meu avô Isai no navio Augustus que os levou à Itália, junto com Portinari, sua esposa Maria, Di Cavalcanti e outros. Maledicência nunca foi coisa do seu feitio.  Tenho as fotos da XXVIII Bienal de Veneza, destino do percurso, onde se dava a exposição coletiva da delegação brasileira, visitada na ocasião pelo presidente Giovanni Gronchi (1887-1978). Ela e meu avô, aos 52 anos, estão radiantes e elegantes.

Felícia havia exposto na III Bienal de São Paulo e recebido o prêmio de aquisição do MAM do Rio no ano anterior e, em 1956, não expôs em Veneza. Alguns dos artistas da delegação brasileira – cujo comissário foi Sérgio Milliet, amigo de meus avós – faziam parte do grupo figurativo apoiado por eles, que depois protestariam contra o novo júri da IV Bienal de SP, acusado de cortar os figurativos e privilegiar os concretistas. Aquela foi a época da ruptura de meu avô com a Bienal de SP (ele era diretor-tesoureiro do MAM/SP que organizava a Bienal), e da criação do Prêmio Leirner – início da futura Galeria das Folhas, da qual ele seria fundador e parte deste grupo de artistas participaria.

Além de visitar a Bienal de Veneza, o objetivo principal de meus avós, portanto, era prestigiar a representação nacional na sala do Palácio Central, composta por Hector Carybé, Emiliano Augusto Di Cavalcanti, Marcelo Grassmann, Renina Katz,  Fayga Ostrower e Aldemir Martins que, aliás, recebeu o grande prêmio internacional de desenho concedido pela Biennale. Provavelmente, o objetivo de Portinari, que também não participava da representação, era o mesmo.

Tanto no “retrato” horrendo de Felícia quanto na caricatura lamentável de Isai, desenhada no papel do navio da “Sociedade de Navegação Genova”, não há data nem assinatura. Foi Maria Portinari quem chancelou os desenhos pertencentes ao acervo do Projeto Portinari, reconhecendo o ano, local e a autoria. Um artista não assinar e não datar um desenho, mesmo que seja uma “caricatura”, é atitude típica de quem sabe que o que está fazendo é desprezível e não deve deixar evidências.

O colecionador e mecenas Isai Leirner (1903-1962), maldosamente caricaturado por Candido Portinari.
Inauguração da XXVIII Bienal de Veneza, 19 de junho de 1956. Felícia e Isai Leirner, com o presidente da Itália, Giovanni Gronchi.
Inauguração da XXVIII Bienal de Veneza, 19 de junho de 1956. Felícia e Isai Leirner, com o presidente da Itália, Giovanni Gronchi. Ao fundo, tela de Di Cavalcanti.

As experiências contemporâneas clarificam a História

Há 10 anos, numa entrevista à uma revista, um historiador e professor me perguntou “se podemos pensar em outros períodos tão férteis e importantes como o Modernismo, que é um marco na história da arte brasileira.” E questionou “se eu não achava também que o excesso de respeito atribuído a ele (talvez pelo vício nacionalista) acabasse por silenciar artistas do mesmo período, talvez mais importantes e radicais que Di Cavalcanti, Tarsila e Portinari, os mais glorificados”, citando, “como exemplo, Guignard e Flávio de Carvalho.”

Achei ótima a pergunta.  E respondi que não é apenas o passado que lança luz sobre o presente. Disse que são sobretudo as experiências contemporâneas que clarificam a História. Isso é o que o fazia citar, com muita razão, Guignard e Flávio de Carvalho.

Com a distância de hoje, sem dúvida podemos dizer que existem períodos tão férteis quanto o do Modernismo, nos anos 1950, 1960,1970 e mesmo 1980. Para julgar as décadas subsequentes, acredito que será preciso esperar um pouco mais. Entender estes períodos e seus artistas com o olhar e a experiência de hoje, nos faz ver melhor – e mais criticamente- um Portinari ou um Di Cavalcanti.

E afirmei a ele que, apesar de tudo, por vezes tenho a impressão de que certos historiadores, não tanto por nacionalismo quanto por medo de questionar um status quo, congelam os momentos históricos de maneira a impedir toda e qualquer analogia ou prospecção. Não há questionamento, não há dúvidas.

Além disso, o trabalho universitário muitas vezes é tão focado em minúcias que a visão e a perspectiva generosa e dinâmica de um movimento artístico dão lugar à uma certa “fossilização”. A crítica de arte não universitária utiliza livremente, não apenas a história, mas todos os instrumentos que têm à mão, como a sociologia, filosofia, psicanálise, literatura etc. Um dos trabalhos desta crítica seria justamente ajudar a sair desse “excesso de respeito” como afirmou o meu entrevistador.

Até a próxima, que agora é hoje, não sou “revisionista”, não quero “cancelar” ninguém, como as patrulhas tipo anti-Monteiro Lobato, mas todos os “mitos” devem ser revistos, estética e eticamente, sim. A começar pelo atroz que nos governa, chegando, em marcha a ré, a certos “históricos” e discutíveis “bons artistas”, como Candido Portinari, que podem não ser mais do que a representação vazia do “senso comum”, a imagem completamente idealizada do nosso passado!

Há 200 anos, nascia ‘o olho’ de Baudelaire

O aniversário de 200 anos de nascimento de Charles Baudelaire (1821 – 1867) foi comemorado ontem, dia 9.  A data me fez lembrar que, no outono de 2016, visitei a exposição L’Oeil de Baudelaire no Museu da Vida Romântica, em Paris, com a esperança de experimentar um pouco do spleen baudelairiano, aquele estado de mágoa pensativa, tédio existencial, desânimo profundo que o poeta exprime em As Flores do Mal. Pura ilusão! A exposição foi euforizante, o museu é lindo, o pessoal simpático e o jardim, onde fica o salão de chá, é deslumbrante. Saí de lá muito mais contente do que entrei.

“Retrato de Charles Baudelaire”, Gustave Courbet, cerca de 1848.

Nas salas que fotografei, cujas fotos estão na “galeria” abaixo, uma centena de pinturas, esculturas e estampas evocadas pelo poeta nos convidavam a confrontar o nosso próprio olhar à sua sensibilidade artística.  Nos estimulavam a compreender como é que ele pôde inventar aquela definição da “beleza moderna”, a partir de uma “concepção dupla que exprime o eterno no provisório”. Além disso, tudo fazia lembrar que ele proclamou o primado da imaginação, a “rainha das faculdades”, e a “função essencial da cor para a expressão de sensibilidade.” Dava para sentir tédio?

As obras e documentos retraçavam o percurso de quem começou a sua carreira literária pela crítica de arte. Animador! O primeiro texto publicado sob o seu nome, sobre o “Salão de 1845”, encontrava-se em destaque numa vitrina. Esta primeira crítica foi seguida por outras, sobre os “salões” de 1846, 1855 e 1859, e vários ensaios. Segundo a vontade do poeta, depois de sua morte, todos os seus escritos sobre arte foram reunidos em duas antologias intituladas Curiosidades estéticas e A Arte romântica. Fiquei contente pelos críticos que – mesmo com mais livros prontos para o prelo – também só possuem dois volumes de críticas publicados. Muito embora ninguém possa dizer que foi amigo de Courbet em sua juventude, e sobretudo que foi teórico do romantismo, fervoroso admirador e exegeta de Delacroix. Bem que eu teria gostado…

Em sua obra poética e nos textos críticos, Baudelaire elaborou a noção de uma modernidade ligada à vida urbana, em Paris. Isto é outra coisa agradável de se descobrir, sobretudo quando passamos o nosso tempo praguejando contra o mau humor e falta de civilidade dos parisienses, a sujeira nas ruas e o pesadelo do metrô. Seu olho e sua pluma souberam captar e magnificar este heroísmo da vida moderna, desvendado na arte romântica.

Na mostra, cada obra possuía o seu comentário. Era como se percorrêssemos, ao lado do poeta, as mutações que se operam entre o romantismo e o impressionismo por meio dos expoentes daquela época – Delacroix, Ingres, Camille Corot, Rousseau, Chassériau -, artistas que souberam agradá-lo ou irritá-lo profundamente. Como Manet, por exemplo, cuja pintura ele jamais conseguiu gostar.

Findo o percurso, abri a porta da saída e dirigi-me à pérgola do jardim onde se encontra o salão de chá. Enquanto tomava um expresso, tentei imaginar a razão desta incompreensão do poeta. Afinal, Manet é um gigante. Só porque parecia “realista” aos seus olhos (o que não é verdade) Baudelaire precisava rejeitá-lo? Ele que havia sentido toda a riqueza dos desenhos de Daumier, ainda assim, passou longe da obra de Manet? Será que eram parecidos demais? Trocavam amizade, adoravam o dandismo, frequentavam os mesmos amigos e cafés. E, não obstante, Baudelaire reprovava a “decrepitude” da sua arte.

Pior do que isso, preferiu Constantin Guys, artista fraquinho cujo trabalho ele transformou no arquétipo pictórico da vida moderna! Mesmo presente em uma das telas emblemáticas de Manet, Música no Jardim das Tulherias, o autor de As Flores do Mal não captou nada da importância desta obra do autor da famosa Olympia. Deixou a um certo Émile Zola, ainda jovem e desconhecido escritor, a tarefa de acolher “comme il fallait” a imensa obra do mestre. Enfim… vá entender as fricções entre grandes inspirados!

Até a próxima que agora é hoje e, como dizia o próprio Charles Pierre Baudelaire em seu Spleen de Paris, contrariando toda e qualquer ideia de tédio existencial, “às vezes é bom ensinar aos felizes deste mundo que existe felicidade superior à deles, bem maior e mais refinada”. Claro, ela pode estar no simples contato com a energia do espírito e da arte, coisa que se apresenta – sempre e em quaisquer lugares – à disposição de todos nós!

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Um péssimo e delicioso filme para quem odeia o sistema da arte

“Arte é um perigo”. Com esta frase, a fria galerista Rhodora Haze (interpretada por Rene Russo, no filme Velvet Buzzsaw de seu marido Dan Gilroy) adverte Morf Vandewalt, famoso e temido crítico de arte (Jake Gyllenhaal). Morf está em vias de escrever a monografia de um extraordinário e desconhecido pintor que acaba de falecer, e percebe que este deixou uma obra enfeitiçada. Inicia-se uma estranha e mortífera espiral…

Imagem: Josephina (Zawe Ashton) e Morf Vandewalt (Jake Gyllenhaal) na Haze Gallery

Na verdade, Velvet Buzzsaw (Netflix) foi baseado em outro longa-metragem que jamais apareceu: Superman Vive, realizado por Tim Burton, protagonizado por Nicolas Cage e escrito pelo mesmo Dan Gilroy, roteirista do excelente Night Call. O estilo Tim Burton persiste até mesmo com um “robô artista” dotado de muletas letais (em vez de tesouras) e o horror também. Com a diferença que o mundo da arte, igualmente conhecido por Burton, propõe aqui uma ácida moral: arte não é “produto” e não se brinca com a sua especulação.

O efeito que o mercado da arte pode ter sobre o público, os artistas e os profissionais que dele dependem, em termos de manipulação, reduz as obras a simples produtos, imprimindo-lhes um valor artificial, na maior parte das vezes diverso de sua qualidade estética real. Eis uma das partes principais do escândalo permanente do sistema da arte em nossa época, algo que se assemelha bastante a um filme de horror.

Uma impostura com todas as letras

Na Costa Oeste dos Estados Unidos – mais especificamente em Los Angeles, na Califórnia, onde se passa Velvet Buzzsaw, vemos a consequência da enorme transformação no sistema internacional da arte, sintomática de uma tendência à “financeirização”. A grande novidade é a galeria de arte fantasiada de museu. Não uma espécie de kitsch, mas uma impostura com todas as letras: um estereótipo de estabelecimento comercial de arte, gênero “loja gigante de departamentos” que pretende encarnar os valores da tradição cultural. E que também não tem nada de inocente: é lobo na pele de cordeiro que conhece e visa com precisão o seu público alvo.

O ouro, as feiras de arte, os depósitos discretos do tipo Schaulager na Basileia, os antigos museus transformados em vistosos showrooms (o contrário das galerias fantasiadas de museus), os leilões, enfim, com vendas colossais, obscenas… Subprimes, titularização, esquema em pirâmide de Ponzi…  Em pouco mais de duas décadas se tomou consciência de que os objetos sem valor eram suscetíveis não somente de serem postos à venda, mas tornarem-se igualmente objetos de troca, próprios à circulação e à especulação financeira mais extravagante. Os procedimentos que permitem promover e vender uma obra dita de “arte contemporânea”, podem ser comparados aos que, no mercado de valores mobiliários e outros, possibilitam vender qualquer coisa e muitas vezes, até mesmo, nada.

Quase duas horas de vingança e divertimento

O filme é longo e um pouco chato. Não tem genialidade, é superficial mas bem feito e cria algum suspense. São quase duas horas de vingança e divertimento para quem odeia o sistema da arte, sobretudo o mercado. Principalmente no final. Jogo é jogo, e isto também é Netflix.

Tudo começa no mundo da arte contemporânea em Miami e depois Los Angeles. Retrata a nossa época em que o cinismo atingiu o seu auge. Gilroy se interessa pelo funcionamento deste microcosmo extravagante e caricatural que reúne marchands, artistas, colecionadores, conservadores de museus, curadores, “advisors”, etc. O crítico bissexual blasé chama-se Morf, nome que – invertido – certamente podemos ler como “Form” (Forma).

Quando este microcosmo se interessa pelo trabalho inclassificável do artista falecido, e o rouba, o “poder intrínseco da arte” se sobrepõe à força do dinheiro, da desonestidade, e as consequências são terríveis. Humor, ferocidade e descaramento criam crimes à altura deste sistema: obras se incendiam, quadros ganham vida, telas tornam-se homicidas, acidentes sanguinários viram instalações macabras visitadas por crianças (“fazemos furor em Instagram, somos um grande sucesso!”), grafites regurgitam de tinta assassina numa espécie de body art exterminadora, tatuagens transformam-se em armas… A arte se revolta, o cinismo se autodestrói. Salva-se Piers (John Malkovich) o artista alcoólatra e a sua arte efêmera, invendável, que ele desenha sobre a areia.

Até a próxima que agora é hoje e, pena que em vez de continuar a sátira do início, Velvet Buzzsaw descambe para um péssimo filme de horror e vingança, só delicioso e moral para quem odeia o sistema da arte como eu!

Trailer oficial do filme


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