‘Vírus’ contamina a sociedade e a arte

A sociedade, a política, as redes sociais e até mesmo a arte foram contaminados por um “vírus” nascido dos índices de audiência e do sistema de algoritmos. Trata-se do chamado “Influenza quantitas”, nome provisório que dei a ele, uma vez que este agente infeccioso leva o nosso mundo a ser regido pela “lei do grande número”. Provoca uma doença viral que faz as pessoas perderem, definitiva ou circunstancialmente, a capacidade de discernir qualidade de quantidade.
Ontem inaugurou-se, no Grand Palais em Paris, “Gauguin o alquimista”, exposição igualmente tocada pelo vírus. Feito apenas para surpreender, o espetáculo reúne obras prodigiosas mas privilegia a quantificação em detrimento da qualificação, afastando-nos da complexidade estética do artista.

Sabe-se que os motores de procura dão visibilidade ao que não tem necessariamente superioridade, que páginas pessoais em Internet não indicam importância, que matérias de jornal e programas de televisão não medem qualidade, que as “avaliações” de hotéis, restaurantes, produtos, etc. podem ser mentirosas; que existem fábricas de “curtir” e de “cliques”, que mesmo um perfil falso pode alcançar milhões de seguidores no Twitter ou cinco mil amigos no Facebook. Apesar disso, atacados por “Influenza quantitas” os cérebros dos leitores (e eleitores) médios não encontram defesas para lutar contra o vírus.

Hoje, estas pessoas se orgulham de ter a mesma opinião que 99,99% da população e se acaso discordam das ideias da minoria, usam como argumento o fato de que “são maioria e, portanto, estão certas”. Mesmo quando “ser da maioria” não fala a favor de ninguém: até mesmo o prêmio Nobel de literatura George Bernard Shaw (1856-1950) assinalou que “a minoria às vezes tem razão, mas a maioria está sempre errada.”

Por uma espécie de falácia febril, o leitor (e eleitor) médio, contaminado, sempre delira defendendo que a quantidade conta mais do que a qualidade e “isso é democracia”. Fica difícil explicar para o doente que, como dizia o escritor e filósofo Albert Camus (1913-1960), outro prêmio Nobel de literatura, “democracia não é a lei da maioria, e sim a proteção da minoria”.

Gauguin ‘pedófilo’

Ora, em arte o “vírus” também se manifesta. Ontem inaugurou-se, no Grand Palais, em Paris, “Gauguin o alquimista” (até 22 Janeiro de 2018) que é, decididamente, uma exposição para grande público: um pouco sombria e misteriosa, porém longa, espetacular e didática. Se alguém perdeu Paul Gauguin (1848-1903) pelo caminho, é a boa hora de recuperá-lo.

Porém, se no Centro Beaubourg, também em Paris, cada mostra faz o visitante pensar, aqui cada exposição tem sido organizada ultimamente apenas para surpreender. O espetáculo, tocado igualmente pelo “vírus”, espanta o espectador pela quantificação no lugar da qualificação. E não por causa do número de obras, bem ao contrário. Faltam as mais importantes.

Em contrapartida, o visitante saberá quantas camadas de tinta Gauguin passava sobre a tela, quantas vezes pintava na parte de trás do quadro, quantos lugares visitou, quantos anos passou em cada um, quantas matérias utilizava nas cerâmicas, quantos instrumentos usava para esculpir a madeira, quantas doenças pegou na vida, quantas vezes teve casos com mocinhas de 13 anos, etc. Como se a contagem e a “medição” técnica e histórica tivessem relação direta com a obra do mestre que, sim, hoje seria considerado pedófilo e recidivista.

Na verdade, esta é uma exposição anticrítica e formalista, ligada demais aos materiais, que explica “como” sem dizer “porque”. Faz tudo para nos afastar da complexidade estética de Gauguin e também do que a sua obra possui de mágico e sublime. “Influenza quantitas” atacou firme: há três espaços onde vídeos explicam quantitativamente e de que forma ele trabalhava sem dizer uma palavra sobre o que fazia.

Em nenhum instante, os curadores discutem ou estimulam a discussão sobre as qualidades plásticas de um pintor que foi precursor em relação a Picasso. Também não há cronologia visual. Apenas cronogramas em painéis, como se estivéssemos consultando Wikipédia. Descobrimos sozinhos os prodigiosos desenhos, telas, gravuras, painéis de madeira esculpida, relevos policromados, vasos e garrafas de cerâmica. Sendo mais fácil conseguir móveis e vasos do que pinturas, há um exagero deles na exposição que, assim, torna-se extremamente cansativa.

Até a próxima que agora é hoje e, contra este vírus contemporâneo, infelizmente até agora não há tratamento!

Holograma que descreve “La Maison du Jouir” (A Casa do Gozar), uma casa na Polinésia francesa onde Paul Gauguin morou, e que Victor Segalen visitou um ano depois de sua morte.

 

 

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Nu no MAM: as reações reveladoras

João Doria, prefeito de São Paulo, é capaz de declarar publicamente (sem conhecer o percurso, a obra e a história da arte em geral) que o trabalho de um artista “é uma cena libidinosa”. Não sei e não é minha especialidade explicar a razão pela qual toda a baixeza que reside calada nos recônditos das sociedades só vem à tona e levanta a voz nos períodos mais podres de sua história. Mas é um fato.

Antes da segunda guerra, o exército francês era considerado como um dos mais potentes do mundo. Em 1940, quando a França entregou-se em rendição aos alemães – época em que o seu povo acabou perdendo confiança nas instituições, deixou de orgulhar-se de seu país e começou até mesmo a colaborar com o inimigo – testemunhou-se o início de um declínio que durou por muitos anos. A sociedade francesa revelou, então, o que tinha de pior: delações, racismo, intolerância, intimidação, clima de ódio, injustiça, polarização política entre colaboracionistas e resistência… Polarização, diga-se de passagem, já herdada do Caso Dreyfus que dividira a França por longo tempo, durante o final do século 19.

Não sei e não é minha especialidade explicar a razão pela qual toda a baixeza que reside calada nos recônditos das sociedades só vem à tona e levanta a voz nos períodos mais podres da história. Só sei que com o advento de Internet e das redes sociais, as ocorrências deste fenômeno são multiplicadas por milhões, tomam uma proporção devastadora e acabam revelando não só uma espécie de “imbecilidade de massa”, como também  a própria degenerescência de um país – que é o que está acontecendo hoje, infelizmente, no Brasil.

País cujo o prefeito de sua cidade mais importante é capaz de declarar publicamente (sem conhecer o percurso, a obra do artista e a história da arte em geral) que o seu trabalho “é uma cena libidinosa”. Ora, onde está a “afronta à liberdade de outrem”, como ele diz, numa apresentação que não possui nada de erótico, violento, sexual, perverso ou ofensivo – em que um homem nu encontra-se deitado como morto, ou dormindo, sobre as costas?

Claro que nem tudo pode ser mostrado às crianças. Cabe aos curadores usar a estratégia da “classificação indicativa” (coisa que não é censura, propus no artigo anterior e o Ministério da Cultura agora também defende) e aos pais de decidirem o que é melhor para os seus filhos. Onde está a ofensa, então, se a sala onde ocorria a performance, segundo os organizadores, estava “devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a nudez artística” e, mesmo com esta advertência, uma mãe decidiu levar a sua criança para assistir? Porque tanta indignação se a criança, com a permissão materna, tocou no homem como para ver se ele estava vivo ou dormindo, sem que se tenha podido testemunhar neste gesto, em nenhum momento, qualquer malícia ou intenção “sexual”?

Ou é com fins eleitoreiros que o nosso prefeito junta-se oportunisticamente aos neomoralistas integristas, os “talibãs” domésticos de plantão que, por sua vez, evidentemente também se unem a certas bancadas religiosas do nosso poder legislativo?

Em períodos de degenerescência política e social, qualquer fato pode tornar-se objeto de ódio e injustiça

A performance deste artista coreógrafo (que já realizou muitas outras na mesma linha) interpreta a célebre obra interativa “Bicho” de Lygia Clark – na qual o público é convidado a interagir mexendo em seus braços, pernas e no restante do corpo para alterar a sua posição como se ele mesmo fosse a escultura articulada da artista, falecida em 1988. Não há nada de novo, nem de excepcional em apresentações como esta. Yves Kein, John Cage, o grupo Fluxus e seu iniciador George Maciunas, Marina Abramović, Ulay, Vito Acconci, Joseph Beuys, Chris Burden, Allan Kaprow, Yayoi Kusama, Hermann Nitsch,Yoko Ono, Orlan, Gina Pane, Niki de Saint Phalle, Ben, Wolf Vostell, Ivald Granato, Gilbert & George e suas críticas à sociedade inglesa e à religião, são apenas poucos exemplos. Vários deles se apresentaram ou apresentaram personagens nus em seus trabalhos ao vivo, em diversas partes do planeta.

Se pessoas nuas não são “tabu” em tribos indígenas, são menos ainda em espetáculos, performances (ou pinturas) de museu. No entanto, as reações provocadas, em curto espaço de tempo, pela exposição “Queermuseu”, a peça teatral “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, e a presente performance “La Bête” no MAM, mostram como, em períodos de degenerescência política e social, qualquer fato torna-se “objeto de projeção”, derivado direto do “objeto transicional” que alimenta o fogo das paixões, quase como um vaticínio ou um apelo à guerra civil virtual.

Hoje, no Brasil, as intimidações morais se aproximam daquelas que se viu durante o declínio da sociedade francesa, quando esta se encontrava perdidamente desconfortável depois da derrota na segunda grande guerra. Até a próxima que agora é hoje e quando uma parte das pessoas começa injustamente a considerar arte como “degenerada”, isto sempre significa que são estas próprias pessoas que estão em vias de degeneração!

 

 

Que vergonha, senhores!

O fechamento da exposição “Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira” no Santander Cultural na capital gaúcha, é um dos raros casos no mundo da arte, em que todos – sem exceção – pisaram na bola.

“O tato é a imaginação do que os outros podem sentir.
O fato de ele nascer da imaginação explica porque é tão raro.”
Charles Dantzig

Todos pisaram na bola. A começar pelo curador Gaudêncio Fidelis que por ingenuidade, provocação, irresponsabilidade, falta de tato ou – como escrevi no meu post “O que é um curador?” – por se sentir mais real do que o rei, mais artista do que os artistas, exagerou em suas “obsessões, temas preferidos, subjetividade individual, possivelmente também integrando ao trabalho – como fazem outros curadores – a sua experiência pessoal”. Isso, porém, de maneira centrada, egoísta, arrogante e desrespeitosa. Como se o público, com as suas diferentes sensibilidades, muitas vezes com os seus às vezes inevitáveis e perfeitamente compreensíveis limites, não existisse.

Por mais pessoal que ela seja, uma exposição não é feita para si. Ela é destinada, antes de tudo, a um público de diferentes faixas etárias e sociais. Em qualquer exposição do mundo, em Paris, Nova York, Tóquio ou Berlim, as obras inadequadas a crianças ou que podem ferir o sentimento de certos adultos, são isoladas com um aviso. O público fica livre para escolher visitar estes “espaços reservados” ou não.

Na exposição de Jeff Koons, no Centro Pompidou em Paris, por exemplo, o curador teve este cuidado. Quando o público, depois de ler a comunicação, escolhe por sua própria vontade transpor as barreiras para ver algo que sabe que vai revoltá-lo, já não pode reclamar porque a escolha foi dele. É por esta razão que jamais se viu uma “exposição explícita” em países civilizados. Que vergonha, senhor curador!

Desrespeito de todos os lados…  Ninguém se salva nessa história.

O banco Santander pisou na bola. Depois de ter acolhido a mostra, cedeu à pressão das “críticas” e de seus cofres-fortes. Voltou atrás, numa atitude francamente covarde, contraditória e arbitrária (sem consultar o curador ou lhe dar a oportunidade de rever a montagem deslavada) “pedindo desculpas a todos os que se sentiram ofendidos”. Como se os banqueiros tivessem sabido no último minuto que algumas das obras da “Queermuseu” no Santander Cultural, feita com a captação de R$ 800 mil por meio da Lei Rouanet, “desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a sua visão de mundo”. Que vergonha, banco Santander!

Parte do público também pisou na bola, com uma enorme violência, sobretudo nas redes sociais. Os germes da intolerância e preconceito subiram à tona como para nos lembrar que o conceito de “arte degenerada” não pertence apenas aos nazistas. O MBL pisou na bola gravemente. Comemorou a censura como uma “vitória da pressão popular”, alguns tecendo um amálgama oportunista, vil e demagógico entre manifestações artísticas livres, partidos e ideologias. O movimento pediu até mesmo que os correntistas do banco, encerrassem as suas contas. Trata-se de uma nova forma de macarthismo na “caça às bruxas”  ou de sovietismo na “caça aos burgueses”. Dá na mesma, caça é caça. Em  vídeo com mais de 400.000 visualizações, um representante primitivo desse retrocesso visita o centro cultural com insultos dignos dos fascistas nas piores ditaduras. Que vergonha, facção e minoria de pequenos déspotas!

Até a próxima que agora é hoje e, mesmo para mim que nunca fui nostálgica, o Brasil da minha infância parece um paraíso!

A exposição ‘Queermuseu’, no Santander Cultural, em Porto Alegre

7 cuidados que devemos tomar

Como dizia o escritor, poeta e filósofo francês Paul Valéry (1871-1945)1, precisamos tomar muito cuidado com os que:

1) gritam em alto-falantes, insultam, apostrofam.

2) fazem discurso de poder maior do que um homem.

3) fazem falar coisas fictícias (e inverificáveis) como Povo, História, deuses e ídolos.

4) tratam os outros e os entendem como matéria de seus próprios julgamentos e desejos.

5) levam as pessoas a agir, pagar e lutar.

6) estipulam no lugar dos outros.

7) pretendem conhecer melhor os nossos interesses do que nós mesmos.

O espírito livre

Se anarquia – segundo Valéry – é “quando cada um de nós tenta recusar qualquer submissão à injunção do inverificável”; se, ainda segundo ele, um “espírito livre não se apega às suas próprias opiniões e é inalienável”2; e se eu mesma penso que devemos sempre recusar as ideias feitas, os discursos ideológicos de direita e esquerda – colocando em causa os valores estabelecidos – então… até a próxima que agora é hoje e acabo de descobrir:

devo ser anarquista!

 

1 em “Principes d’anarchie”, Ed. Espaces & Signes
2 em “Regards sur le monde actuel”, Ed. Gallimard

 

Ilustração – “Cristo abençoando”, Rafael Sanzio (1483 – 1520), cerca de 1506.

Em Paris, moda é arte

A retrospectiva dos 70 anos de Christian Dior, “o costureiro do sonho”, inaugurada no início do mês no Museu das Artes Decorativas em Paris (até 7 de Janeiro de 2018), é um enorme sucesso de público. Isto não surpreende. A mostra é um espetáculo deslumbrante de imagens, som e luz.
Videoclipe realizado especialmente para os amigos e leitores deste blog. Recomendo assistir em tela cheia.

Na exposição Christian Dior, o costureiro do sonho, um universo feérico põe em valor mais de 400 vestidos e acessórios de alta-costura, em 3,000 metros quadrados. As suntuosas criações são assinadas pelo mestre e seus sucessores, que reinterpretam os códigos do imaginário de Christian Dior, homem de cultura enciclopédica e referências infinitas, tiradas de um repertório artístico eclético. A sua própria coleção de arte surrealista e metafísica provam isso. Junto aos tesouros de costura, estão objetos de arte de todas as épocas e todos os continentes, que lembram o quanto a visão de Christian Dior foi universal.

Quando nos inspiramos na natureza não podemos nos enganar. (Christian Dior)

O percurso abre-se com a lembrança de sua vida, os “anos loucos” da vanguarda na arte e na vida intelectual parisiense, o aprendizado do desenho de moda e a entrada na alta-costura. Antes de se dirigir à moda, Christian Dior foi diretor de uma galeria de arte, onde conviveu com toda uma geração de artistas como Giacometti, Dalí, Calder, Leonor Fini, Max Jacob, Jean Cocteau e Christian Bérard. Colecionador apaixonado, amador de jardins, arte e fotografia, porcelanas e tecidos orientais, o mestre inspirou-se em todas as fontes para criar as suas roupas.

Até a próxima que agora é hoje e, para uma experiência proustiana, há também o  Museu Christian Dior, em Grandville, com uma exposição (até 24 de setembro) que faz voltar às origens da legenda!

Galeria Pierre Colle, dirigida por Christian Dior nos anos 1950. À direita, escultura de Salvador Dalí, presente na exposição.

 

Henri Cartier-Bresson, a modelo Alla com o vestido “May”, 1953 © Henri Cartier-Bresson / Magnum Photos

 

Claude Monet, O Jardim do artista em Giverny, 1900 – Óleo s/ tela, Paris, Musée d’Orsay © RMN-Grand Palais (musée d’Orsay) / Hervé Lewandowski

 

 

Desenho de Marc Chagall, dedicado a Christian Dior

 

Elizabeth Taylor, vestindo Dior

 

 

14 de Julho: o preço da liberdade

É a 26ª vez que assisto in loco a comemoração da queda da Bastilha e hoje particularmente também do centenário da entrada do Tio Sam na 1ª Guerra. E é a 1ª vez que vejo o Brasil, minha pátria original, nesse estado.

Vendo os presidentes francês e americano lado a lado, tão diferentes e depois de o segundo ter se mostrado ferino com o primeiro, a palavra “magnanimidade” pairou nos meus pensamentos. Apesar de a França acordar a diplomacia que dormia até agora, e de precisar dos Estados Unidos para inúmeras questões, como a luta contra o terrorismo, os conflitos no Oriente médio, Síria e Iraque, a oposição foi contra o convite de Emmanuel Macron a Donald Trump, evidentemente. Assim como se opôs à visita de Vladimir Putin, já que este havia tentado desestabilizar as eleições, aprovando de certa maneira a candidata do FN (Frente Nacional), partido da extrema direita. Mas a oposição hoje, na França, representa a velharia intolerante e dogmática que ainda resta e este país não quer mais. Não têm estatura para saber que não leva a nada recusar o diálogo, e que a história é sempre maior do que qualquer governo.

Precisamos de indivíduos magnânimos e livres que saibam virar a página e esquecer o que deve ser esquecido. Uma pessoa assim é a generosa, aquela que perdoa com facilidade, mostra-se indulgente com o próximo. Alguém que, a despeito de todos os riscos e perigos, age ou pensa desinteressadamente, com vistas a servir os outros, um país ou a encarnar um ideal. Afinal, o mundo é uma passagem. Ele muda, os humanos se transformam e, com tal rapidez que, mesmo as coisas que foram ditas ou as ideias que tivemos na semana passada, hoje podem não valer mais nada.

Mesmo certos jovens brasileiros parecem pequenos velhos

Isto me fez concluir que a grande tragédia (e atraso) da minha primeira pátria hoje se deve, talvez, justamente, à falta deste olhar e desta grandeza. Vemos no Brasil engajamentos congelados em tempos que não existem mais, ideologias de direita e esquerda nas quais apenas os cegos ou os idiotas persistem.

O drama que os brasileiros vivem hoje não está apenas na corrupção e podridão de certas instituições. Ele se deve sobretudo ao espírito de ortodoxia e à mesquinhez ideológica de todos os tipos, fantasiados de uma artificial generosidade, ainda que em direção dos menos favorecidos. Mesmo muitos jovens brasileiros, tanto de esquerda quanto de direita, parecem pequenos velhos imutáveis dentro dessa conformidade absoluta com as normas ou padrões doutrinários.

Os menos favorecidos não carecem de ideologias. Os mais favorecidos, tampouco. Todos necessitam apenas de países fortes. E países fortes precisam apenas de ética, determinação, educação, cultura, eficiência, inteligência e… magnanimidade.

Até a próxima que agora é hoje e viva o 14 de julho!

Rasto deixado pela Patrulha Francesa, na comemoração da festa nacional, dia 14 de julho de 2017. Foto (zoom 10x) tirada de minha janela, às 10h40.

 

Claude Monet, “Festa Nacional na Rua Montorgueil” (1878)

 

 

Missão cumprida no espaço. Com arte e tudo mais!

na França, crianças e adultos apaixonados pela astronáutica estão felizes! E um artista brasileiro provavelmente também. Depois de seis meses na estação espacial internacional, Thomas Pesquet e seu colega russo Oleg Novitski pousaram no Cazaquistão, Ásia Central no mês passado. Foi quase uma ironia que, no dia seguinte à resolução ecocida* de Donald Trump, este astronauta francês voltasse à Terra, depois de também imortalizar o nosso amado planeta em fotos deslumbrantes.

Thomas Pesquet decolou no dia 17 de novembro do ano passado da base russa de Baïkonour a bordo do Soyuz e chegou na estação espacial internacional (ISS) levando 63 experiências que deveria fazer para a Agencia espacial europeia (ESA) e o Centro nacional de estudos espaciais (Cnes). Entre elas, a realização de uma obra de arte. Esta, foi concebida pelo artista brasileiro Eduardo Kac, conhecido pioneiro da chamada bio-arte, gênero que descreve a vertente da arte contemporânea que usa os mananciais oferecidos pela biotecnologia. Quem não lembra de sua experiência dos anos 2000, ele que possui um laboratório de biotecnologia na escola do Art Institute de Chicago, com os coelhos albinos que ficaram fluorescentes graças à proteína desenvolvida por uma medusa?

Não tenho opinião sobre a ideia dos coelhos albinos- nenhum crítico é obrigado a possuir opinião sobre tudo – mas ao ver a Soyuz voltando à Terra, sob o paraquedas, pensei que a performance de poesia espacial que o artista encomendou ao astronauta é talvez tão emocionante em sua singeleza quanto esta cápsula menor do que um fusca dos anos 60, sendo arrastada pelo deserto do Cazaquistão.

O que é esta obra imaginada por Cac e realizada por Pesquet? Simples recortes de folhas de papel que formam a palavra “MOI” (EU, em francês) , com um tubo no meio, feitos para flutuar na estação espacial. Nada mais.

“MOI”. É com esta palavra que a arte foi para o espaço, no meio dos mais sofisticados avanços tecnológicos. Na milionária estação espacial internacional, a visita da humanidade, com toda a sua fragilidade, na ausência total da gravidade. Sinto que Fernando Pessoa teria ficado encantado com esse trabalho chamado “Telescópio interior”. E o poeta Rainer Maria Rilke também. O seu “Aberto” é o “puro, o inesperado que se respira, que se sabe infinito sem a avidez do desejo (…)”. **

Até a próxima que agora é hoje e, pelo jeito, mesmo na órbita terrestre baixa, a arte tem coisas a dizer!

“Telescópio interior”, Eduardo Kac 2016. Projeto para a missão “Proxima”, de Thomas Pesquet.

* Extermínio deliberado de um ecossistema regional ou comunidade
**Em “Elegias de Duíno (Oitava Elegia)

 

NEW EYES

 

 

Movimentos, sim!

(…) O Brasil é um caso notório de subdesenvolvimento partidário (…) Não iremos a lugar algum se as elites dos diversos setores não assumirem suas responsabilidades (…). Frases pescadas no artigo de Bolívar Lamounier, hoje, dia 20, no Estadão, que cita Fernando Gabeira na, também esclarecedora, matéria de ontem, dia 19. O que não está dito, como deveria, no texto do segundo e não foi acatado pelo primeiro (que afirma “não saber o que isso significa”), é que “movimentos” não são destinados a ficar ou “representar”.

Movimentos constituem apenas um primeiro passo. A sua vocação, em segundo tempo, é a sua transformação em partidos, como o “La République En Marche” (LREM), na França. Partido este que não poderia ter nascido senão de um movimento fulgurante, por meio da interação, da “troca” genuína entre seu líder e o povo.

Se, como lembra Gabeira, na década de 1980, no Brasil ou na França, as pessoas se indagavam “se os partidos não eram uma forma de organização historicamente condenada”, isso não teve, como ele deduz erroneamente, nenhuma influência (nem remota) “na forma como o atual presidente, Emmanuel Macron, se elegeu”. Ele se elegeu pois conseguiu impor a imagem de um candidato fora do sistema, portanto sem partido político, mas que assumiu plenamente a necessidade de criar o LREM, logo em seguida, com a função de fazer eleger representantes nas legislativas.

Claro que “a democracia representativa é o único modelo sério e consistente de democracia e os partidos lhe são essenciais”, como diz Lamounier. No entanto, em países que são “casos notórios de subdesenvolvimento partidário” nos quais agora “o processo de decomposição é irreversível”, podemos (e devemos) pensar em movimentos, sim.

Os valores da República francesa mudaram. Antes tínhamos “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Como “Fraternidade” não possui mais o mesmo sentido, hoje – com a atual visão de mundo – a nova divisa será “Liberdade, Igualdade e Benevolência”. Sim, adotar “benevolência” é a grande mudança que deverá orientar as gerações futuras, e não só da França. Movimentos em novos moldes, com ações participativas, à escuta real da população, podem surtir efeitos inimagináveis e terminar em partidos fortes, com formas bem definidas, em qualquer país. A prova aí está!

Até a próxima que agora é hoje, dia de lembrar que, enquanto assunto, arte e cultura só são prioridades em país vitorioso!

Como funcionou o movimento ‘En Marche!’

Foi um trabalho de proximidade. Perseverante, tranquilo, bem estudado, respeitoso do “outro”, mesmo que suas ideias fossem divergentes. Houve até mesmo programas de formação para os voluntários, que os ensinava como encarar, sem agressividade ou violência, as objeções e as propostas discordantes. Alta civilidade! Em seus meetings, Macron pediu que não se vaiasse os adversários. Sabe-se que ética e probidade começam com boa educação. Não foi o que testemunhamos até agora em nosso país.

Tudo começou com o “porta a porta”, um procedimento inédito. Foram recolhidas por voluntários, vestidos com as camisetas do movimento, 100 mil conversas sobre o cotidiano dos franceses. Enquanto isso, 400 experts em todos campos formaram grupos de trabalho. Fez-se um diagnóstico das problemáticas, iniciativas e energias, a partir da chamada “Grande Marcha” e das reflexões dos grupos de experts. Formaram-se 3 mil e 400 comitês locais, ateliês para a discussão dos temas e planos de transformação, a partir das primeiras constatações e propostas concretas.

Simultaneamente desenvolveu-se o trabalho por Internet: houve a fundação (online) do movimento e a formação de todas as redes e plataformas disponíveis, com pormenorização didática do programa, sistema simplificado de adesão, mensagens individualizadas, vídeos instantâneos, programação de eventos, “caminhadas” de conscientização do público em ruas e espaços públicos. As visitas de “porta a porta” continuaram até as eleições. Toda a informação e o resultado dos trabalhos foi convergindo à equipe próxima de Emmanuel Macron que, finalmente, pôde propor um plano definitivo de transformação do país, ou seja, um plano que partiu de baixo para cima, da forma mais democrática possível.

 

Como ‘pôr ordem’ na cultura?

O perigoso programa cultural da candidata Marine Le Pen, que quer pôr “ordem na Cultura”, foi revelado há pouco. Segundo ele, que é a imagem mesma do fascismo, “todos os criadores devem se submeter a uma ‘arte oficial’, permitida pelo Estado”. Já faz um tempo que os eleitos da Frente Nacional, partido francês da extrema-direita que concorre às eleições presidenciais no próximo domingo, dia 7, excluem certos livros das bibliotecas públicas, vandalizam obras de arte, negam subvenções às associações culturais que julgam “politizadas ou comunitárias” e também àquelas que acolhem migrantes, rejeitam a arte contemporânea e, entre várias outras coisas, expulsam jornalistas indesejados dos meetings do seu partido.

 

Olivier de Sagazan, artista performático que, no dia 29 de abril, permaneceu horas “latindo” como protesto na praça da Défense, em Paris.

Como não desenvolver temas políticos dentro da categoria “Cultura”, se um e outro são indissolúveis? Esta semana, mais de mil personalidades do mundo da cultura se reuniram na Filarmônica de Paris e mais de uma centena assinou um manifesto contra Marine Le Pen e a extrema direita. Archie Shepp, Renaud, Jeanne Moreau, Annette Messager, Valeria Bruni Tedeschi, Christian Boltanski, Cécile de France, Zazie, Karin Viard, Zabou Breitman, Laura Smet, Alexandre Chemetoff, Georges Didi-Huberman, Romane Bohringer, Catherine Frot, entre outros, denunciaram o caráter racista, antissemita, xenófobo e nacionalista de um programa cultural que defende uma identidade imutável, voltada para si mesma, e uma arte que deve servir a uma ideologia de Estado.

O vandalismo já é a prática dos políticos eleitos que representam o FN. O prefeito de Hayange pintou em azul a fonte do escultor Alain Mila porque a cor original não o agradava e ele não conseguia chamá-la de “arte”. Maréchal-Le Pen, a sobrinha de Marine Le Pen, recusa-se a subvencionar arte contemporânea. O prefeito de Luc-en-Provence tirou da programação o filme de Lucas Belvaux, “Chez nous”, simplesmente porque “o incomoda”. O diretor da Frente Nacional, candidato à prefeitura de Reims, fala abertamente sobre obras importantes, para ele “pseudo-obras que poderiam ser feitas por crianças ou animais com um pincel no rabo”. A senhora Neveux, candidata à prefeitura de Roche-sur-Yon denuncia “criadores decadentes”, à maneira dos nazistas e do que eles chamavam de “arte degenerada”, quando ela se refere a nomes reconhecidos da arte moderna. E o senhor Gollnisch, ex-vice-presidente do FN, designa “todos” os artistas contemporâneos como “gozadores grotescos que tiram dinheiro dos franceses”, dizendo que gostaria que cedessem o lugar aos que “ele julga autênticos, talentosos e modernos”.

Os eleitos do Front National excluem certos livros das bibliotecas públicas, tiram as subvenções de associações culturais julgadas “politizadas ou comunitárias” e também aquelas que acolhem migrantes, expulsam jornalistas indesejados dos meetings do seu partido. Exprimem desprezo por cineastas, autores literários, artistas plásticos, intelectuais, universitários e jornalistas que não entendem ou com os quais não concordam.

Google de Estado

Marine Le Pen no meeting de Saint-Raphael, dia 15 de março. No cartaz: “Recolocar a França em ordem, em 5 anos”. REUTERS/Jean-Paul Pelissier

E não é tudo. Na resposta feita por um representante do FN a uma organização do setor cultural, apresentou-se um projeto estruturado e metódico: a criação de um motor de procura nacional, uma espécie de “Google de Estado”(sic), cujo uso seria obrigatório, substituindo-se ao Google, e cujos critérios de procura, hierarquizados e ordenados, seriam decididos pelo “ministério da cultura”.

Cereja sobre o bolo, Marine Le Pen quer instituir um “cartão profissional” para os artistas de todas as categorias. Ora, foi o regime de Vichy que criou, pela lei de 2 de outubro de 1940, um “cartão de identidade” para os profissionais do cinema, documento que devia ser renovado a cada três meses.

No campo audiovisual, a “ordem” de Marine Le Pen compreende uma sociedade de produção nacional financiada por doações públicas. O plano é criar um orçamento anual fixado pelo Estado a partir da “taxa cultural” que seria destinada apenas aos artistas com o tal do “cartão de identidade profissional”. O ministério da cultura possuiria uma “direção da cultura francesa no Exterior”!

Se se quer recriar uma “arte oficial”, deixar o Estado escolher os seus artistas, controlar a criação cultural e amordaçar a imprensa, a opção de voto para domingo está clara.

A cultura é a condição de acesso a um pensamento livre e crítico, fora do qual não existe real cidadania. É por isso que a liberdade absoluta de criação e expressão deve ser assegurada a todos os criadores, sem exceção. Até a próxima que agora é hoje e tomara possamos preservar a irreverência e a subversão da arte, condição e garantia de liberdade e democracia!

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Quem fez (ou faz) galopar o Frankenstein tupiniquim?

O lixo e a política

 

Quem fez (ou faz) galopar o Frankenstein tupiniquim?

Discute-se muito neste momento que o socialista François Mitterrand (1916-1996), presidente da França de 1981 a 1995, foi quem armou a estratégia deliberada de fortalecer a extrema-direita para desestabilizar a direita parlamentar. O galope da extrema-direita no Brasil seria igualmente fruto de “estratégia”?

 

Eleições 2017: Marine Le Pen e Emmanuel Macron no debate de ontem, 3 de maio, antes do segundo turno. Crédito: Eric FEFERBERG / POOL / AFP

 

Não que o socialista Mitterrand admitisse ter feito isso por “maquiavelismo”, mas porque acreditava que o Front National não alcançaria nunca nenhuma importância. Erro dele, de qualquer maneira. O fato é que hoje na França, graças a isto e a outros fatores, a direita explodiu (ou implodiu), mas o socialismo também. Estão fora do páreo, pelo menos até as eleições legislativas. A direita e os socialistas são os pais desse Frankenstein galopante da extrema-direita (primo da extrema-esquerda) que é fruto e parasita do sistema político francês. E que concorre mais uma vez, porém de forma jamais vista, à presidência da França.

Até a próxima, que agora é hoje e já que é também por aproximações e paralelos que conhecemos melhor a nossa própria história, da qual a arte e a cultura também dependem, pergunto: quem é responsável pelo galope do Moderno Prometeu tupiniquim, com ou sem partido, nos últimos 6 anos?

 

Frankenstein tupiniquim

 

Nota – Aos interessados francófonos que queiram aprofundar os seus conhecimentos sobre a crise da Quinta República Francesa e a reconstrução da paisagem política na França, a última emissão do programa “Répliques” do filósofo Alain Finkielkraut, com a participação do economista Jean-Claude Casanova (que fundou a revista “Commentaire” com Raymond Aron), e o filósofo e professor de ciência política Philippe Raynaud.

Nota 2 – Aos que apreciam “gavetinhas” e pensam que este blog está na “categoria errada”, aviso que arte e CULTURA são parte indissolúvel da história e portanto da política. Aliás, o programa (político) “Répliques” do filósofo Alain Finkielkraut, cujo link publico acima, também pertence à categoria CULTURA, e se ouve na RÁDIO FRANCE CULTURE.

 

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