Golden imbecility

Há quem defenda os rapazes do “golden shower”, uma vez que eles mesmos se defenderam dizendo que a sua “performance” foi “ato político-artístico planejado com o intuito de comunicar uma mensagem de artistas contra o conservadorismo”. Mas as imagens, os objetivos, a ocasião e o lugar não deixam nenhuma dúvida. Trata-se de uma apresentação pública de parafilia incontestavelmente inartística, uma impostura que, em qualquer país do mundo, seria proibida ou punida pela lei.  

Imagem: Réplica da “Fonte” de 1017, ready-made de urinol assinado por Marcel Duchamp. Centro Pompidou. (Sucessão Marcel Duchamp / ADAGP / foto RMN-GP / Christian Bahier / Philippe Mige.)

Nas imagens indevidamente divulgadas pelo presidente Bolsonaro, entretanto, não se vê nada do que os dois autodenominados “artistas” supostamente pretendem. O manifesto que eles escreveram, e só depois que o vídeo viralizou, descreve um projeto esdrúxulo de produtora pornográfica, propõe uma discussão sobre “práticas sexuais não hegemônicas e hegemônicas” (?!) e coloca “populações indígenas, LGBTTQIAN+, mulheres cisgênero e transgênero, população negra, quilombola” (sic) etc., tudo no mesmo saco. Ou seja, é uma mixórdia total.

Pode-se chamar qualquer ato de “ato político”, até mesmo um assassinato. Assim como se pode dizer que uma panela é objeto de arte. Porém, não é a simples nominação que torna um ato político ou transforma um objeto em arte. Mesmo Marcel Duchamp instaurou a escolha como a sucessora da elaboração mental, para os seus “ready-made”.

Os rapazes se divertiram

Li um comentário no Facebook dizendo que “os rapazes se divertiram praticando o que lhes apetece e diz respeito apenas a eles”. Certamente. Só o lugar estava errado.  Quando não se trata de arte, todos têm o direito de fazer o que lhes apetece… entre quatro paredes. Quando se trata de arte, existem cuidados. Antes de jogar qualquer coisa de forma egoísta e irresponsável na cara das pessoas, é preciso lembrar que se está diante de um público de diferentes faixas etárias e sociais. Quando se exibe performance ou arte erótica, por exemplo, em qualquer lugar o mundo – Paris, Nova York, Tóquio ou Berlim – tudo que é inadequado a crianças ou que pode ferir o sentimento ou a sensibilidade de certos adultos, se for em espaço aberto é proibido e se for exibido em instituições é isolado com um aviso e uma indicação etária. Neste caso, há também alternativas expográficas (agrupando as obras mais problemáticas em espaços exclusivos) para liberar o acesso a todas as idades. O público fica livre para escolher visitar os “espaços reservados” ou não. Isto se chama “classificação indicativa”. Jamais se viu uma “apresentação explícita” em países civilizados ou, pelo menos, alguma que não fosse impedida ou enquadrada pela justiça.

Esta exibição inartística de rua nada tem a ver com a verdadeira performance (La Bête) apresentada em 2017 por Wagner Shwartz no MAM em São Paulo. E menos ainda com o que foi exibido no mesmo ano, na mostra “Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira” no Santander Cultural da capital gaúcha. A performance de Shwartz, artista coreógrafo (que já realizou muitas outras na mesma linha) interpretava a célebre obra interativa “Bicho” de Lygia Clark – na qual o público era convidado a interagir mexendo em seus braços, pernas e no restante do corpo para alterar a sua posição como se ele mesmo fosse a escultura articulada da artista, falecida em 1988.

Se pessoas nuas não são “tabu” em tribos indígenas, são menos ainda em espetáculos, performances (ou pinturas) de museu. No entanto, a confusão entre arte e obscenidade se dá por motivos que todos conhecemos. E os objetivos de quem transforma em ato político o que é simples pornografia, também.  Não é porque somos um Estado Democrático de Direito, que supostamente a performance está “amparada constitucionalmente” e que, segundo os advogados dos “artistas”, “a Carta da República garante, em seu artigo 5º, inciso IX, a liberdade de manifestação cultural e artística”, que juristas, críticos de arte e analistas experientes são obrigados a considerar indecência como arte ou manifesto político. Ou que atos torpes supostamente artísticos sejam reprimidos ou reprovados porque se esteja do lado da censura.

Até a próxima que agora é hoje e a verdade é que o célebre “Golden Shower” que ficará na história política e dos costumes de nosso país – e que, infelizmente, não deu origem a um efetivo “Golden Shower Gate -” não foi mais do que puro comportamento parafílico de exibicionismo e voyeurismo. O que, em lugares públicos de qualquer país do mundo é – muito justamente – proibido e punido pela lei!

A mentira é melhor do que a verdade

O mal desta época da pós-verdade, neologismo que descreve a evolução das interações entre a política e as redes sociais, é a mentira. Hoje, mais do que nunca, ela serve para atacar adversários, destruir reputações, agrupar e separar pessoas, formar comunidades, vender produtos e, entre outras coisas, ganhar eleições.

Imagem: Nicolas Poussin (1594 -1665), “O Tempo tira a Verdade dos ataques da Inveja e da Discórdia”, 1641. Quadro encomendado pelo cardeal Richelieu (1585-1642) para o teto do atual Palais-Royal, em Paris. Museu do Louvre. Foto © R.M.N./P. Bernard

A mentira prospera na Coreia do Norte, Rússia, Oriente médio, entre a extrema-direita, extrema-esquerda em toda parte, e no meio dos coletes amarelos na França. Sabemos que a mentira foi a principal responsável pela vitória do Brexit, de Trump e outros presidentes. Vire e mexe a imprensa internacional aponta a mentira como razão primordial do êxito de Jair Bolsonaro. Trump continua tuitando inverdades que são desmentidas a cada vez. Já se tornou um esporte.

A mídia mundial perde espaço, tempo e mão de obra em seções dedicadas a desmentir fake news. Às vezes produzem outras fake news, como quando o jornal Le Monde desmentiu as acusações de que em determinado subúrbio francês não existem mais judeus por causa das hostilidades antissemitas. Existem, mas agora em número infinitesimal, e isto o jornal não publicou porque não convém.

A verdade é feia

A indústria da mentira prospera, o tribalismo nas redes e na mídia marrom aumentam e consequentemente a democracia está em falência. Tudo isso porque a mentira é melhor do que a verdade. “A verdade é feia”, já falava Nietzsche. Geralmente é desagradável, faz mal, traz dúvidas e não convém. A mentira representa exatamente aquilo que se quer ouvir.

O que poucos suspeitam, entretanto, é o destino negro de quem acredita em mentira, é influenciado por ela ou a pratica: a perda total e definitiva de sua liberdade. E é bem feito para ele! Até a próxima que agora é hoje, e como dizia o escritor e dramaturgo russo Anton Tchekhov (1860-1904), “não existe razão que justifique a mentira”!

Nicolas de Courteille, “A Verdade que traz a República e a Abundância” (1973) Vizille, musée de la Révolution française. Foto © RMN-Grand Palais / Michèle Bellot
Ilustração de Emmanuel Pierrot, para o jornal Libération de 6 de Fevereiro, 2019.

 

Uma Marianne judia para a França

No último sábado, dia 16, em plena manifestação dos coletes amarelos em Paris, o ataque antissemita sofrido pelo filósofo Alain Finkielkraut, membro da Academia francesa de Letras, foi intolerável. Este ataque seguiu vários outros, entre os quais na semana passada a violação do retrato de Simone Veil, que foi marcado com a suástica nazista. Em consequência, os membros do partido Agir propuseram que o busto de Marianne, efígie da República francesa, tome o rosto de Veil – magistrada, cientista política, e política sobrevivente do Holocausto, que pertenceu à Academia francesa de Letras e exerceu vários cargos, entre eles o de ministra da saúde.

Imagem: “Marianne”, a efígie da França com o rosto de Simone Veil.

Ao contrário do que se diz, e segundo especialistas, o antissemitismo não “aumentou” na Europa ou em outro continente. O que progrediu foi a “liberação da palavra”, os governos e ideologias de extrema-direita e extrema-esquerda, os nacionalismos, populismos, etc. É o que dá vazão a esta aversão abjeta aos judeus que sempre existiu em maior ou menor surdina, mas agora tornou-se a expressão aberta dos racistas.

Na França, embora nem todos os coletes amarelos estejam do lado do mal –  muitos nem sabem o que desejam e grande parte quer apenas viver dignamente do seu trabalho – o fenômeno trouxe manifestações de hostilidades racistas, xenofobia, homofobia, ódio e violência, provocando fraturas em várias camadas da sociedade. Em geral, por trás de todas as explicações sócio-políticas ou históricas, e além da instrumentalização dos partidos extremistas (os quebradores da ultradireita e ultraesquerda não têm nenhuma exigência além de semear o caos), o evento parece ser o resultado do agrupamento de pessoas ressentidas, azedas e infantis que culpam o próximo, jamais a si mesmos, pelo próprio fracasso. Nas declarações a que se assiste, o ódio que parece nascer de uma inveja desmedida contra aqueles que tiveram sucesso na vida, às vezes sobrepuja as vagas e difusas reinvindicações.

No último sábado, dia 16, em plena manifestação dos coletes amarelos, o ataque antissemita sofrido pelo filósofo Alain Finkielkraut, membro da Academia francesa de Letras, foi intolerável.

Este ataque seguiu vários outros, entre os quais a violação do retrato de Simone Veil no 13° bairro de Paris que foi marcado com a suástica nazista.

Os membros do partido Agir (ex-LR, pró Macron) acreditam que Simone Veil, ex-presidente do Parlamento Europeu, é “um rosto unificador e um significado simbólico rico de sentido para unir os franceses”. Dois dias após a indignação causada pela marca antissemita, propuseram o novo busto de Marianne, efígie da República francesa. “Propomos dar à Marianne os traços de Simone Veil que é a personificação da França e da República, seus valores, combates, desafios, suas raízes europeias”, escreveu a porta-voz do partido Fabienne Keller, em uma carta a Emmanuel Macron. Para esta senadora, “teria um verdadeiro significado dar à personificação nacional o rosto de uma de suas maiores e mais ilustres servidoras e defensoras.” Muitos, eu inclusive, ficariam especialmente felizes se a próxima figura simbólica do virtuoso tríptico “liberdade, igualdade, fraternidade” adotasse os traços de uma mulher que encarna o país com a sua honra, grandeza, coragem e dignidade, mesmo na adversidade.

Melhor não contrapor Veil à Damares

Simone Veil (1927-2017) foi uma magistrada, cientista política, e política sobrevivente do Holocausto, que pertenceu à Academia francesa de Letras e exerceu vários cargos, entre eles o de ministra da saúde na França. Hoje ela se encontra no Panteão, ao lado dos grandes personagens que marcaram a História deste país, como Voltaire, Jean-Jacques Rousseau e Victor Hugo, entre outros. Veil foi encarregada de apresentar ao Parlamento um projeto de lei que despenalizava o aborto. Este combate, apoiado pela parte esclarecida da sociedade francesa (artistas, cientistas, professores, filósofos e intelectuais) lhe valeu ameaças da extrema direita, direita e extrema esquerda.

Num discurso que ficou famoso, ela afirmou que o aborto deve continuar como uma “exceção”, o “último recurso para situações sem saída”. O texto foi finalmente aceito na Assembleia nacional em 1974 e a lei adotada pelo Senado, duas semanas mais tarde, entrando em vigor em 1975. Simone Veil se opunha à “banalização do aborto”, prática que, segundo ela, “permaneceria sempre um drama” mas precisou que “se a sua lei não o proibia, ela não criava nenhum direito a ele.” A despenalização do aborto foi um avanço civilizador, uma grande vitória e um passo decisivo em favor das mulheres, de seus direitos e sua proteção, no primeiro mundo.

A vida de Simone Veil, como disse a senadora Fabienne Keller, é um “apelo à recusa de todos os compromissos com os extremistas, os populistas, os mercadores de infelicidade.” Seria pertinente neste momento, talvez, contrapor esta vida e este combate ao percurso e à luta da pastora evangélica da Igreja do Evangelho Quadrangular e atualmente pastora da Igreja Batista da Lagoinha que trabalhou em Turismo, foi formada por uma faculdade de São Carlos e nomeada pelo presidente Jair Bolsonaro para chefiar o, assim chamado, “ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos”. Entre outros atrasos de vida apoiados evidentemente pela maioria inculta dos brasileiros, Damares Alves (1964) é “contra o aborto” e disse em 2016: “É hora de a igreja governar”.

Mas ficamos por aqui. Melhor não contrapor, Simone Veil não merece. Deixemos que repouse em paz no Panteão. Até a próxima que agora é hoje, e não haveria melhor resposta ao obscurantismo e sobretudo ao antissemitismo do que uma Marianne judia, civilizada e civilizadora como esta!


Movimento dos coletes amarelos completa três meses na França – Vídeo AFP



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Um péssimo e delicioso filme para quem odeia o sistema da arte

“Arte é um perigo”. Com esta frase, a fria galerista Rhodora Haze (interpretada por Rene Russo, no filme Velvet Buzzsaw de seu marido Dan Gilroy) adverte Morf Vandewalt, famoso e temido crítico de arte (Jake Gyllenhaal). Morf está em vias de escrever a monografia de um extraordinário e desconhecido pintor que acaba de falecer, e percebe que este deixou uma obra enfeitiçada. Inicia-se uma estranha e mortífera espiral…

Imagem: Josephina (Zawe Ashton) e Morf Vandewalt (Jake Gyllenhaal) na Haze Gallery

Na verdade, Velvet Buzzsaw (Netflix) foi baseado em outro longa-metragem que jamais apareceu: Superman Vive, realizado por Tim Burton, protagonizado por Nicolas Cage e escrito pelo mesmo Dan Gilroy, roteirista do excelente Night Call. O estilo Tim Burton persiste até mesmo com um “robô artista” dotado de muletas letais (em vez de tesouras) e o horror também. Com a diferença que o mundo da arte, igualmente conhecido por Burton, propõe aqui uma ácida moral: arte não é “produto” e não se brinca com a sua especulação.

O efeito que o mercado da arte pode ter sobre o público, os artistas e os profissionais que dele dependem, em termos de manipulação, reduz as obras a simples produtos, imprimindo-lhes um valor artificial, na maior parte das vezes diverso de sua qualidade estética real. Eis uma das partes principais do escândalo permanente do sistema da arte em nossa época, algo que se assemelha bastante a um filme de horror.

Uma impostura com todas as letras

Na Costa Oeste dos Estados Unidos – mais especificamente em Los Angeles, na Califórnia, onde se passa Velvet Buzzsaw, vemos a consequência da enorme transformação no sistema internacional da arte, sintomática de uma tendência à “financeirização”. A grande novidade é a galeria de arte fantasiada de museu. Não uma espécie de kitsch, mas uma impostura com todas as letras: um estereótipo de estabelecimento comercial de arte, gênero “loja gigante de departamentos” que pretende encarnar os valores da tradição cultural. E que também não tem nada de inocente: é lobo na pele de cordeiro que conhece e visa com precisão o seu público alvo.

O ouro, as feiras de arte, os depósitos discretos do tipo Schaulager na Basileia, os antigos museus transformados em vistosos showrooms (o contrário das galerias fantasiadas de museus), os leilões, enfim, com vendas colossais, obscenas… Subprimes, titularização, esquema em pirâmide de Ponzi…  Em pouco mais de duas décadas se tomou consciência de que os objetos sem valor eram suscetíveis não somente de serem postos à venda, mas tornarem-se igualmente objetos de troca, próprios à circulação e à especulação financeira mais extravagante. Os procedimentos que permitem promover e vender uma obra dita de “arte contemporânea”, podem ser comparados aos que, no mercado de valores mobiliários e outros, possibilitam vender qualquer coisa e muitas vezes, até mesmo, nada.

Quase duas horas de vingança e divertimento

O filme é longo e um pouco chato. Não tem genialidade, é superficial mas bem feito e cria algum suspense. São quase duas horas de vingança e divertimento para quem odeia o sistema da arte, sobretudo o mercado. Principalmente no final. Jogo é jogo, e isto também é Netflix.

Tudo começa no mundo da arte contemporânea em Miami e depois Los Angeles. Retrata a nossa época em que o cinismo atingiu o seu auge. Gilroy se interessa pelo funcionamento deste microcosmo extravagante e caricatural que reúne marchands, artistas, colecionadores, conservadores de museus, curadores, “advisors”, etc. O crítico bissexual blasé chama-se Morf, nome que – invertido – certamente podemos ler como “Form” (Forma).

Quando este microcosmo se interessa pelo trabalho inclassificável do artista falecido, e o rouba, o “poder intrínseco da arte” se sobrepõe à força do dinheiro, da desonestidade, e as consequências são terríveis. Humor, ferocidade e descaramento criam crimes à altura deste sistema: obras se incendiam, quadros ganham vida, telas tornam-se homicidas, acidentes sanguinários viram instalações macabras visitadas por crianças (“fazemos furor em Instagram, somos um grande sucesso!”), grafites regurgitam de tinta assassina numa espécie de body art exterminadora, tatuagens transformam-se em armas… A arte se revolta, o cinismo se autodestrói. Salva-se Piers (John Malkovich) o artista alcoólatra e a sua arte efêmera, invendável, que ele desenha sobre a areia.

Até a próxima que agora é hoje e, pena que em vez de continuar a sátira do início, Velvet Buzzsaw descambe para um péssimo filme de horror e vingança, só delicioso e moral para quem odeia o sistema da arte como eu!

Trailer oficial do filme


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Despede-se Ai Weiwei, o artista que põe em xeque a ordem social

Não deixa de ser simbólico que o célebre contestatário chinês, artista crítico que põe em cheque a ordem social, deixe o nosso país praticamente no momento em que se inicia um governo oposto a tudo que representa a sua arte. Um governo conservador, ‘quimicamente puro’ (como afirma a historiadora Armelle Enders), ultranacionalista, antiglobalização, anti-multilateralismo, anti-clima. É possível que Ai Weiwei, depois de passar pelas agruras do regime totalitário de seu país, possa até mesmo achar ‘coerente’ que o ministro brasileiro das Relações Exteriores defenda e corteje o modelo chinês. Hoje, 20, é o último dia de ‘Raiz Weiwei’, exposição de 70 trabalhos na Oca (Parque Ibirapuera).

Imagem: “Straight”, impressionante instalação de Ai Weiwei realizada com restos de escolas destruídas por um terremoto em Sichuan. © Nelson Almeida / AFP

Mas quem é Ai Weiwei realmente?

Em 1980 ele descobriu Nova York. A sua formação artística havia terminado na China, país onde dominava o realismo socialista importado da União Soviética nos anos 50. Evidentemente, tornou-se bulímico de tudo que lhe havia sido proibido. Frequentou o mundo da arte e cultura ocidental e assimilou, com voracidade imensa, obras e artistas americanos e europeus de toda a metade do século 20. Não contente com isso, voltou à China e publicou três livros sobre arte contemporânea para compartilhar com os seus compatriotas tudo o que havia aprendido em 13 anos.

Entre as suas descobertas estava um artista ao qual ele prestou, e presta ainda, homenagens explícitas: Marcel Duchamp (1887-1968). Impossível entender Ai Weiwei sem pensar nos ready-made – aqueles objetos tirados do contexto que viravam arte – nas atitudes provocantes, declarações enigmáticas e satíricas, e também no tom geral de insolência e liberdade do artista francês. Entre Ai Weiwei e Duchamp, a relação é evidente – até mesmo no caso das fotos do artista chinês com as jovens nuas.

Por outro lado, Duchamp sempre afirmou ser indiferente à política. E aí é que eles se distanciam. Ai Weiwei declarou numa entrevista ao jornal Libération: “Não sou mais verdadeiramente eu, mas uma mídia carregada de mensagem”. Diz ele: “Vim para a arte pois quis escapar de outros limites da sociedade. A sociedade inteira é tão política que a ironia é que a minha arte se torna cada vez mais política.”

Não me admiraria se Ai Weiwei se inspirasse em ‘Brasil acima de tudo, Deus acima de todos’

O artista quer que as suas obras sejam compreendidas como alusões ou alegorias. A sua arte é crítica. Põe em xeque a ordem social. Reinventa Duchamp, usando-o de maneira política e, portanto, simbólica. E nisso, aproxima-se de muitos outros artistas e dos cyber ativistas igualmente. Os seus censores sentiram isso muito bem, tanto que ele continuou a ser reprimido por muito tempo, até deixar o seu país.

Há menos de uma década se insurgiu contra a contínua vigilância que lhe era imposta. Com a criatividade que lhe é peculiar e os meios que possuía, este “dissidente” sediado em Pequim, respondeu com 4 webcam em lugares estratégicos, na mais estrita intimidade do seu apartamento. Mas esta “instalação” ligada à Internet – metáfora do poder chinês, mestre da censura do Web e dos internautas – não durou muito. Em poucos dias, as autoridades chinesas o obrigaram a desligar as câmeras.

Dentro de um quadro análogo, no mesmo período, o Twitter chinês (Weibo) também foi censurado pela polícia do Net. Assustado com o espectro da primavera árabe – alimentada pelas redes sociais e Internet – o PCC aumentava a pressão. Os comentários eram triados e o site corria o risco de ser fechado definitivamente. Mil pessoas foram presas, 16 sites Internet eliminados e os dois mais populares entre eles, Sina e Tencent, não podiam mais receber comentários. Aquela nova “violação da liberdade de expressão” provocou a mobilização dos cyber ativistas.

Não dá para não lembrar, por exemplo, da escultura que o artista italiano Maurizio Cattelan colocou na frente da Bolsa em Milão, das suas figuras de Hitler rezando ou de João Paulo II esmagado por um meteorito. Ele, tanto quanto outros, Ai Weiwei inclusive, usam objetos simples para cometer “sacrilégios”. Não me admiraria se ele se inspirar um dia na frase  “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, sabendo que esta é uma referência assumida ao Deutschland über alles (“Alemanha acima de todos”), o hino nazista. É possível também que Ai Weiwei, depois de passar pelas agruras do regime totalitário de seu país, possa até mesmo achar coerente que o ministro brasileiro das Relações Exteriores defenda e corteje o modelo chinês.

Escultura de Catellan na frente da Bolsa de Milão – Reuters
Ai Weiwei, “Estudo de perspectiva: tiananmen, 1995-2003”

Pode parecer estranho, mas Ai Weiwei também não está muito longe de Jeff Koons. De forma análoga, alguns ready-made deste último – aspiradores de luxo, joguinhos de praia, etc. – podem igualmente ser vistos como uma crítica à sociedade de consumo. O artista chinês fotografa-se em situações escandalosas da mesma forma como Koons apareceu nu nas fotos e na escultura policromática “Made in Heaven” ao lado da ex-mulher Cicciolina, aliás Ilona Anna Staller atriz de filmes pornô que tive a honra de conhecer no Aperto 90 da Bienal de Veneza, há algumas décadas.

Não acredito que existam “influências” na arte contemporânea. Trata-se mais de fenômenos de geração e de um certo sincronismo. Quem nasceu entre 1955 e 1960, e teve contato com Duchamp como estes artistas, forçosamente apropriou-se dele, reativando-o segundo as próprias necessidades. Se hoje eles são ouvidos e discutidos não é porque têm em comum apenas a vontade de escandalizar. É porque desejam ser compreendidos pelo maior número de pessoas, fazendo-as pensar. Para os artistas ocidentais, praticamente não há risco. Na China, não é a mesma coisa.

Um documentarista obsessivo e fecundo

Esta, talvez, é uma das razões pelas quais um trabalho “ativista” (e heroico) desta ordem não combina com um espaço institucional. Certamente “respirou” e se adaptou perfeitamente ao Parque Ibirapuera. A sua última exposição no Jeu de Paume, em Paris, há sete anos, ficou pior do que a de Hélio Oiticica, quando foi pasteurizado por Catherine David no mesmo Jeu de Paume, bem antes de ele se tornar um espaço para a fotografia. O trabalho de documentação fotográfica de Ai Weiwei exibido ali naquele momento, apesar do esforço da montagem fica bom apenas onde ele acontece: Internet, blog, twitter, performance, etc. Ai Weiwei não é essencialmente fotógrafo, no sentido estético da fotografia. É mais um documentarista obsessivo e fecundo, escultor, “instalador”, arquiteto, curador, cineasta, crítico da cultura e da política, uma espécie de antropólogo ou sociólogo selvagem, cujas obras plásticas não se encontravam na exposição, mas felizmente estão em São Paulo.

Até a próxima, que agora é hoje e se ainda existisse o Museu do Homem em Paris (e não esse monumento da promiscuidade exótica que é o Museu do Quai Branly, chamado de Museu do Outro, para onde o antigo Museu do Homem foi deslocado) é lá que Ai Weiwei devia ser exposto!

90 anos, e Tintim sempre o mesmo ídolo

Tintim é Hergé, seu criador, claro! O positivo e modelar herói loiro de topete da nossa infância e juventude, repórter no qual nos projetávamos, e seu cachorro Milu – com mais de 250 milhões de álbuns vendidos no mundo, traduzidos em 110 línguas e dialetos – mesmo quando não podemos dizer que fomos ou somos verdadeiros “tintinófilos”. Isto, embora o personagem tenha sido criado em 1929 e constitua apenas a parte mais visível de uma obra com outras figuras e uma grande invenção, a famosa “linha clara”: o estilo de desenho que utiliza um só traço negro em torno das imagens e que influenciou até mesmo a Pop art.

Imagem: Tintim e Milu • Créditos : © Hergé-Moulinsart 2018

Além da centena de personagens – entre as quais estão o Professor Girassol, Dupond e Dupont, Bianca Castafiore, Nestor, Rastapopoulos, Dr. Müller -, quem pode esquecer da residência do Capitão Haddock, calcada no castelo de Cheverny? E por falar neste marinheiro, os curadores da grande exposição no Grand Palais em Paris dedicada a Hergé, há três anos, foram felizes na criação da sua página Twitter com um “gerador de insultos”. Assim, se as pessoas tivessem uma veia um pouco masoquista e quisessem ser injuriados(as) em francês de “Bachi-bouzouk!”, “Bugre falso ao molho tártaro”, “Espécie de cabra mal penteada”, “Coloquíntida com gordura de porco-espinho” ou “Ectoplasma de rodinhas”, bastava seguir o vociferador e dialogar com ele. Eu fui insultada de “Sombra oricterope”!

Muito se fala da “questão colonialista” nas histórias de Tintim. Mas entre os 600 livros que foram consagrados a ele, Albert Algoud, autor do volume integral dos xingamentos do Capitão (Ed. Casterman, 2014),  que lançou também o Dicionário amoroso de Tintim (Ed.Plon), esclareceu um aspecto menos conhecido. O da batalha entre célinianos e tintinófilos, sobre a paternidade dos palavrões. Teria Hergé se inspirado em Louis-Ferdinand Céline para criá-los? Ora, parece que o barbudo de bom coração – fumador de cachimbo e colérico, também nascido do célebre Pencroff, personagem de Júlio Verne em “A Ilha Misteriosa” – sim, ele proferia horrores inspirados pela pluma (antissemita) do escritor e médico francês. Que honra e… decepção.

Um grande artista contemporâneo

A origem do seu pseudônimo deve-se às iniciais invertidas “RG” (de Georges Rémi), cuja pronúncia é “Hergé”. Hergé (1907-1983) foi um desenhista que esgotou todas as suas possibilidades de criação, inspirando-se inclusive em outros cartunistas, países, regimes, civilizações antigas e primitivas. No processo criativo do mestre, fica evidente a influência que tiveram sobre ele diferentes formas de arte como o cinema, a fotografia e também as ilustrações de Benjamin Rabier (autor da famosa “vaca que ri”).

Fora da obra do gênio, quanto ao indivíduo, ainda resta a sombra de um grande mistério. Ele foi de fato um grande artista contemporâneo, uma das figuras mais conhecidas do planeta, porém também uma das mais elusivas. Por esta razão talvez, não apreciei a cronologia invertida naquela exposição retrospectiva no Grand Palais. Começava por mostrar um sofisticado homem de cultura, para terminar com a infância dele em Bruxelas, sua cidade natal, a admiração pelo escotismo e as imagens do primeiro amor Milu, apelido da namorada. Este “percurso ao contrário” perturbava, e muito. Opunha-se à ambição e à luta formidável de um artista sobre o qual uma das únicas coisas que sabemos de seu íntimo é que, inversamente, desejou sair da “cinza e medíocre juventude” e ganhar o vasto mundo.

Até a próxima, que agora é hoje e como diria Hergé, “as maiores aventuras são as interiores”! Mas como diria também o Capitão em “O Caranguejo das pinças de ouro” (e, no momento político presente, você pode interpretar como quiser) “VINGANÇA! VINGANÇA! VINGANÇA! VINGANÇA! Canalhas!… Emplastros!… Pés-descalços!… Trogloditas!… Caramelos-Tchuk-tchuk!”

Como entender o mal-estar à nossa volta?

Não se trata de fazer amálgamas. Depois de terem se manifestado no último sábado, pela 5ª vez, alguns milhares de franceses pretendem protestar novamente Hoje, dia 22. Agora é Versalhes que os bárbaros oportunistas, que se juntam aos manifestantes, gostariam de quebrar, incendiar, pilhar. As tragédias de Estrasburgo e Campinas, os coletes amarelos, os quebradores da ultradireita e ultraesquerda que semeiam o caos, o cemitério judaico na Alsácia profanado com suásticas, o terrorismo, os psicóticos, as surpreendentes revelações sobre João de Deus, o ódio, preconceito e ressentimento nas redes sociais, tudo têm em comum, de fato, vítimas, carrascos e bodes expiatórios. Enxergar isso é talvez o primeiro passo para entender o que se passa.
Imagem: “Teseu lutando contra o Centauro”, Antonio Canova, 1805, Kunsthistorisches Museum, Viena.

É Natal, símbolo de paz. Aparentemente, nada justifica o terrorismo, o aumento da violência, cemitérios profanados, psicóticos à solta, teorias da conspiração, redes sociais transbordando de ódio, abuso de poder sobre os corpos de centenas de mulheres por um só curandeiro – o inverso do médico Denis Mukwege, Nobel da Paz 2018 por seus esforços para acabar com o uso da violência sexual como arma de guerra e conflito armado. Como explicar o mal?

A França, enquanto “estado de bem-estar social” (welfare state), é um dos países mais protetores do mundo, um dos mais lindos, culturalmente prodigiosos e profícuos em todos os campos. O seu governo não é uma ditadura a combater. Constitui, ao contrário – mesmo se instável – uma república democrática exemplar. Para um brasileiro, os movimentos sociais atuais e a cólera são indecifráveis. A conclusão é a de sempre: “os franceses não merecem a França.”

Sim, porque hoje o custo de vida nos dois países é praticamente idêntico, mas os salários mínimos totalmente díspares: 954 reais no Brasil, 5.700 reais na França (com o aumento de 450 reais já concedido pelo presidente Macron). Têm-se a impressão de que o individualismo consumista dos franceses da classe média faz com que não aceitem as reformas necessárias pretendidas pelo governo, perdendo a cabeça.

“David com a cabeça de Golias”, Caravaggio, 1606-1607 (Galeria Borghese, Roma)

O movimento dos coletes-amarelos não é político ou ideológico. As reivindicações dos pacíficos são difusas, muitos deles não são tão pacíficos assim. Pedem aumento do salário mínimo, são contra os impostos, as taxas, o aumento do combustível e a perda de poder aquisitivo. Já os quebradores da ultradireita e ultraesquerda, por sua vez, não têm nenhuma exigência além de semear o caos, pontualmente teleguiados por este ou aquele partido extremista que, naturalmente, também não quer outra coisa.

Depois de terem se manifestado no último sábado, dia 15, pela 5a vez, alguns milhares ainda pretendem protestar hoje, dia 22. Desta vez é Versalhes que os bárbaros oportunistas que se juntam aos coletes-amarelos gostariam de quebrar, incendiar, pilhar. Versalhes fechará suas portas, porém os criminosos continuarão a agredir a polícia e a causar prejuízos que já alcançaram milhões de euros ao país e aos próprios franceses.

Já na segunda-feira os coletes amarelos levarão as suas crianças a excelentes escolas gratuitas. Consultarão médicos, oftalmologistas, irão a hospitais e receberão óculos, remédios, exames de sangue e outros caríssimos, tudo isso quase gratuitamente. Receberão passes de vacinação gratuita, todos os exames para despistar doenças sem pagar nada, usarão uma enorme e confortável rede de transportes por um preço razoável, terão à disposição uma biblioteca e uma midiateca em cada bairro e em todas as cidades para lhes emprestar livros, discos e filmes por um preço simbólico.

Não sabemos ainda se os brasileiros merecem ou não o país que têm

O brasileiro é conhecido no mundo inteiro por sua doçura e espírito de apaziguamento. Não falta muito para que essa imagem positiva se dissipe. Basta ler o que se escreve nas redes sociais e nos comentários dos jornais on-line. De alguns anos para cá, qualquer assunto, mesmo o mais anódino, é motivo de rancor e agressividade. País polarizado, ainda indefinido politicamente, as consequências do ódio, preconceito e ressentimento, nos são, apesar da precariedade do país em comparação com a França, também inescrutáveis. Não sabemos ainda se os brasileiros merecem ou não o país que têm. Só sabemos que eles não merecem ter sido roubados como o foram até agora. Nem perder confiança e segurança jurídica em seus tribunais superiores, como acontece a todo instante.

Resta a teoria do filósofo e antropólogo René Girard (1923-2015), cuja síntese figura no meu último livro, no capítulo “O Inferno”, que republico abaixo. Sinto que precisamos dela neste momento, mais do que a discussão de Freud sobre o mal-estar na cultura, a pulsão de morte e a civilização. Freud tratava do indivíduo e da burguesia europeia no século 19. Época em que o mundo ainda não lidava com as “multidões democráticas”, a “democracia de massa”, as disfunções e doenças do igualitarismo como a derrocada do “segredo” (que protege) e a subida da “transparência” e da “liberação da palavra” que leva à violência crescente, da qual um bom exemplo é o #MeToo. Girard é da nossa época, nos fala de perto. A questão girardiana do “desejo mimético” exige um pouquinho de esforço para acompanhar, mas explica bastante, creio eu, o mal-estar geral que presenciamos à nossa volta, e em toda parte.

Desejo mimético

Em linhas gerais, na teoria sobre o fenômeno do “triângulo mimético” (que lançou as bases de uma nova antropologia e também pode explicar a violência apocalíptica e o radicalismo de certas civilizações islamitas), o “triângulo” é formado pelos indivíduos A e B, e pelo suposto “bem”, ou seja a “coisa desejada”. Trata-se de um jogo simbólico, onde o indivíduo B:

◆ Possui um bem (não necessariamente material)
◆ Parece dispor de um bem
◆ Poderia dispor de um bem

Que o indivíduo A pensa:

◆ Que ele mesmo não possui
◆ Que o seu gozo está ameaçado pelo simples fato de que B dispõe, pareça dispor ou possa dispor dele

O triângulo entre A, B e o “bem” é motivado pela necessidade de TER algo, já que não dá para SER algo. Ou seja, sem conseguir SER o “modelo” B, o indivíduo A pensa que o que caracteriza o indivíduo B, e justifica a diferença entre eles, é a “possessão” de um bem. A questão irá residir, portanto, na imitação do desejo desse bem. Quanto mais A deseja o bem, mais B o imita, entrando no mecanismo do “desejo mimético”. E mais A e B vão ficando parecidos em relação ao mesmo desejo.

Esquematicamente, quanto mais a tensão em direção ao objeto (material ou não) é forte, mais A e B perdem as suas diferenças.

Para Girard, essa indiferenciação entre as pessoas traz rivalidade por causa da tensão com relação ao mesmo objeto. E a rivalidade mimética cria conflito e violência.

Aí entra a outra teoria de Girard: a do “Bode Expiatório” (1982), fenômeno coletivo que, segundo ele, é a resposta inconsciente de uma comunidade à violência que seus próprios membros geraram por causa da rivalidade, dentro do “triângulo mimético” entre A, B e o objeto.

Esse fenômeno ancestral de “todos contra um” tem a função de extirpar a violência interna (endêmica) à sociedade. Em resumo, o bode expiatório é o mecanismo coletivo que permite a uma coletividade sobreviver à violência gerada pelo desejo mimético de seus membros, mesmo quando esses desejos não são individuais, mas coletivos.

Aplicado ao Brasil, à França – e a qualquer país instável  – o desejo e a rivalidade são excitados pela propaganda política, publicidade, mídia e redes sociais, que não são mais do que caixas de ressonância da “violência mimética”.

O jogo simbólico do “triângulo” permite a aproximação dos indivíduos em uma classe única. Esta, fica povoada de “iguais-rivais” que se invejam. Todos pensando que a saída é reencontrar uma “unanimidade” e, sobretudo, um “bode expiatório”. É o inferno sobre a Terra.

Até a próxima que agora é hoje e… obrigada René Girard!

O antropólogo francês René Girard em junho de 2008. LINDA CICERO/STANFORD NEWS SERVICE

 

“A adoração do Carneiro de Deus”, Jan Van Eyck, 1432 

Cassandro mon amour

Estou apaixonada por uma pessoa da qual nenhum homem pode ter ciúme. Ela é doce, carismática, vibrante, humana, corajosa e tem uma vida inacreditável. Uma vida que, apesar de tudo que me desgosta nela, para mim é um exemplo de transposição, superação de todos os limites sociais, fraquezas pessoais e preconceitos.

Cassandro, nome artístico de Saúl Armendáriz (1970), mais conhecido sob o apelido de ringue Cassandro el Exótico, é um esportista de luta livre nascido em El Paso, no Texas, que trabalhou no México e inspirou a cineasta Marie Losier, cujo documentário, apresentado no Festival de Cannes este ano, sai hoje nos cinemas em Paris.

A inspiradora do nome já dá o tom do seu destino: Cassandra foi a prostituta que com todo o seu ganho construiu e sustentou uma fundação de ajuda a mulheres batidas mexicanas. Vendo o lutador que escapou das drogas e adições pela espiritualidade, este ser que – com suas dezenas de ferimentos, cicatrizes e intervenções cirúrgicas – dança ao sol, como nos rituais astecas, vêm à memória a obra de Frida Kahlo.

Sim, porque além de fazer pensar no que há de “sacrifício” e de tradição mexicana na dualidade “vida e morte”, este artista se aproxima um pouco de Marina Abramović pela fusão entre a sua vida, biografia, suas neuroses pessoais e a sua “arte corporal” ou performática, porém de uma maneira ainda mais autêntica e profunda – sem sequer saber que é artista. E se afasta totalmente do artificialismo e das estratégias de uma Orlan, por exemplo, que – ao contrário de Cassandro – nunca foi uma “lição de vida” para ninguém.

Muros aviltantes

Não importa se é bom, passável ou ruim. Interessa que o filme, rodado na Ciudad Juarez, é profundamente marcado pelo dual, pelo sofrimento e desafio dos muros simbólicos e reais, aqueles anteparos aviltantes que todos enfrentamos e construímos mentalmente em nossa existência, também os que os governos de extrema-direita estão erigindo.

Se adorei Cassandro el Exótico, drag queen da luta livre, não é porque sou politicamente correta. Longe de mim este tipo de correção. Se sinto ternura e compaixão por Saúl, ser humano doce, vibrante, corajoso, sofrido e perseguido que está por trás do carismático Cassandro, é porque também poderia colocá-lo no meu colo. Abraçá-lo por puro instinto maternal com o qual amo meus filhos – como eles são, apesar do que são ou poderiam ser. Sentimento judaico-cristão, talvez, que me faz aceitar a diferença mesmo que ela me choque.

Até a próxima, que agora é hoje e a transgressão talvez seja a melhor forma de nos fazer entender o que é fraternidade!

 

O novo souvenir de Paris

O Centro Pompidou em Paris abriga o Museu Nacional de Arte Moderna, com uma coleção à altura do MoMA em Nova York ou da Tate em Londres. Suas exposições extraordinárias me inspiram sempre. E, no entanto, acabo de receber um press release propondo o hashtag #SOUVENIRSDEPARIS para “descobrir uma ação surpreendente que atrairá os turistas estrangeiros”. Com isso, a instituição quer alçar-se – segundo ela – à altura da Torre Eiffel, Basílica de Sacré Cœur, Catedral de Notre-Dame e do Arco do Triunfo. Pobres de nós e do que resta de nossa vida espiritual. Pobres artistas como Ad Reinhardt (1913-1967) para quem um museu devia ser “a tumba do silêncio”…

Quando um museu torna-se ponto turístico, pode a arte manter para o público, a sua função e seus objetivos? Podem os artistas e a sua arte transmitir mais do que se fossem uma publicidade de si próprios?

A glória era de Deus e não dos homens

No Ocidente, exceto durante um curto lapso de notoriedade individual na Grécia do século V a.C., os artistas foram fundamentalmente incógnitos até o fim da Idade Média. E nesses períodos – quando a arte era usada originalmente para a mágica e o ritual- a posição social do artista era a de artesão. A arte medieval não precisava de artistas individuais que almejassem a fama: a glória do que se conquistava era de Deus e não dos homens.

Em certas cidades italianas do século XIV já se pensava, no entanto, de forma diferente. Ali, juntar fortunas pessoais poderia representar uma glória muito maior, e o desejo de identificar e discutir o artista era, então, uma consequência natural. Grosso modo, foi essa a postura adotada pelos intelectuais do Renascimento, que estavam justamente providenciando os tijolos para a construção da ideologia do capitalismo.

Em vez de liberação, o anonimato tornou-se alienação

A progressão constante do artista meio-divino-meio-gênio culminou com o expressionismo na primeira metade do século XX e adquiriu uma feição de reprise tragicômica no neoexpressionismo dos anos 1980. Entre os dois expressionismos, o século passado viu a ascensão do intelectualismo na prática da arte. As primeiras manifestações podiam ser relacionadas à política de massa e as seguintes à cultura de massa. A diferença foi imensa.

Sabemos que o sistema capitalista sempre encontrou meios para impor a cultura “da conveniência e do espetáculo”, de cima. De lá para cá, passando pela especulação no mundo financeiro, infelizmente, o anonimato, entre outras coisas, é mais um fator de alienação do que de liberação. No presente, o sistema da arte não funciona sem estrelas e o turismo também não.

Até a próxima que agora é hoje e se as instituições se derem a concessões perigosas como essa, será difícil continuarmos a repensar os objetivos da arte, seus valores em termos mais profundos e imateriais; ou, pelo menos, compreendê-la como uma resposta mais plausível à nossa nova época! Não basta trazer o público à arte, para efeito de bilheteria. É preciso primeiro, por meio da educação, levar a arte às pessoas, o que não ocorre automaticamente, por captação e bugigangas “atraindo turistas”. Transmitir sem angariar: penso que é este o papel e o dever da instituição.

A lei Rouanet e a ilusão da necessidade

A tradição do mecenato renascentista nos permitiu até há pouco tempo aceitar com certa benevolência, e mesmo com alguma satisfação, esse caráter “benemérito” do patrocínio e das instituições com relação à arte e aos artistas. Todos sabemos, no entanto, que se de um lado essa relação é sempre questionada e desejada simultâneamente, por outro lado, determinados incentivos ou certos tipos de política podem acabar muito mal.


Imagem: Retrato do mecenas Lourenço de Médici “o Magnífico”, por Girolamo Macchietti (1585). Homem generoso, foi um dos personagens mais notáveis de sua época. Além de seus talentos de diplomata e político, vivia no meio de brilhantes eruditos, artistas e poetas, dedicando-se a várias atividades entre as quais o mecenato. Lourenço de Médici é a mais formidável representação do “ideal do Homem do Renascimento”.

Os interesses políticos, econômicos e sociais da sociedade que eles representam sempre foram preteridos no entendimento de todos nós — organizadores e produtores culturais — em favor dos valores “supremos” da cultura.

Todos sabemos muito bem, no entanto, que se de um lado a relação arte e instituição é sempre questionada mas aceita – e não só aceita, como desejada – por outro lado, as melhores intenções como determinados incentivos ou certos tipos de política podem acabar em detrimento lamentável da produção cultural.

Com uma boa pesquisa, não seria difícil enumerar centenas de exemplos de distorções provocadas pelos subsídios oficiais no mundo. O caso do Brasil, com a Lei Rouanet deveria ser (se já não é) objeto de tese universitária ou livro de investigação jornalística sobre esse desvirtuamento. Basta lembrar, porém, que nos Estados Unidos – onde o National Endowment for the Arts (NEA) é controverso e várias vezes quase desapareceu – as subvenções de grandes bancos aos artistas terminaram por formar uma arte-tipo-banco, análoga à arte-tipo-hall nos edifícios brasileiros; ou que os próprios salões de arte foram responsáveis pela arte-tipo-salão, quer dizer, feita especialmente para agradar e passar pelo sistema caduco dos juris.

As contradições são claras: as melhores intenções partem justamente das instituições, ideias e personalidades que formam o todo negativo, o sistema contra o qual, paradoxalmente, por razões culturais, a arte sempre assumiu posições políticas radicais. De um lado, a criação atormentada por forças antagônicas, de outro a crença das instituições nos valores “supremos” da cultura. E também, contraditoriamente o desejo velado de normalizar o que a arte tem de subversivo ou de genuíno, desvitalizando-lhe o processo criativo. Ou, o que é pior, instrumentalizando e/ou manipulando arte e artistas com vistas a interesses político partidários, como vimos acontecer.

O “apoio” à cultura brasileira, em sua grande parte, passou a funcionar então, como uma espécie de cerco ideológico que delimitava a ação, transformando-a num compartimento diferenciado dentro do complexo histórico, político, social, econômico, científico e tecnológico que é o nosso país. Até hoje, e ainda mais depois de 1991 quando a Lei Rouanet começou a ser posta em prática, as instituições culturais brasileiras (e a Bienal de São Paulo não fugiu disso) sofreram do mesmo mal que atinge todas as entidades burocráticas. Esse mal é a “ilusão da necessidade”, um fator que — como o filósofo e sociólogo Raymond Aron afirmou — pode ser tão obscurantista quanto a censura.

Tanto a ilusão doutrinária — que é a política — quanto a ilusão da necessidade cultural impõem um sistema de valores vindos de “cima para baixo”. O que, além de tudo, reafirma uma visão “terceiro-mundista”, assegura um paternalismo e um provincianismo que não cabe mais numa época em que a noção de subdesenvolvimento, segundo Octávio Paz, “pode ser aplicada à economia e à técnica, porém não à arte, à literatura, à moral ou à política”.

‘Escolhas feitas de cima para baixo’

Existe ainda uma moral rígida, uma maioria silenciosa que atua não numa fantasia paranoica, mas, como nos extratos sociais, desempenhando um papel de normalizadora. Uma espécie de “classe média” intelectual que, ao despejar uma quantidade enorme de informações com a intensidade descritiva das suas minúcias, soterra eficientemente a camada “marginal” e, com ela, o “sentimento oceânico” do qual falava Freud, que é “provocado pela relação cósmica com o divino da Grande Arte, da Grande Cultura”.

Esse deslumbramento nos aproximaria de uma realidade que não se restringiria à ciência, à história e à lógica cotidiana dos fatos e dos conceitos artísticos. Ele nos revelaria, isto sim, o universal como uma dinâmica de transcendência, fim ideal, utopia. Trata-se igualmente da contraposição do “mundial e universal”, pensada pelo filósofo Jean Baudrillard, teórico da sociedade contemporânea. Segundo ele, “a mundialização – realidade irreversível – é aquela das técnicas, do mercado, turismo, da informação. A universalidade – em vias de desaparecimento, por outro lado – é aquela dos valores, dos direitos do homem, das liberdades, da cultura e democracia.”

É possível parafrasear Baudrillard com vistas ao enfoque “realista” dado às manifestações artísticas contemporâneas: “No tempo das luzes”, escreve ele, “a universalidade se fazia pelo alto, segundo um progresso ascendente. Hoje, ela se faz por baixo, pela neutralização dos valores devido à sua proliferação e à sua extensão indefinida”.

Culturalmente, em última análise, o que tivemos até agora nos sistemas que circunscrevem as nossas instituições, foi uma certa promiscuidade de todas as trocas, produtos, signos e valores, o que, segundo Baudrillard, trata-se de “pura pornografia”. “A sucessão, a difusão mundial de tudo e qualquer coisa, no fio das redes de informação, dizia ele com razão, isso é pornografia”. Eu acrescentaria que o patrocínio e o apoio a “escolhas feitas de cima para baixo”, em grande parte das vezes termina como “bloqueio” ou “favoritismo” decorrentes, não de merecimento real, mas de um sistema de ideias, convicções e interesses sustentados por grupos. O que nega a universalidade, a liberdade e a democracia. Diria, como Aron, que isto pode de fato causar tanto prejuízo à cultura quanto a censura.

Até a próxima que agora é hoje e não concluo que a lei Rouanet deva ser revogada, de forma alguma! Em vez de abolir a prescrição, o que certamente seria catastrófico, penso que é a sua forma e aplicação que devem ser reformuladas. De cabo a rabo.