O novo souvenir de Paris

O Centro Pompidou em Paris abriga o Museu Nacional de Arte Moderna, com uma coleção à altura do MoMA em Nova York ou da Tate em Londres. Suas exposições extraordinárias me inspiram sempre. E, no entanto, acabo de receber um press release propondo o hashtag #SOUVENIRSDEPARIS para “descobrir uma ação surpreendente que atrairá os turistas estrangeiros”. Com isso, a instituição quer alçar-se – segundo ela – à altura da Torre Eiffel, Basílica de Sacré Cœur, Catedral de Notre-Dame e do Arco do Triunfo. Pobres de nós e do que resta de nossa vida espiritual. Pobres artistas como Ad Reinhardt (1913-1967) para quem um museu devia ser “a tumba do silêncio”…

Quando um museu torna-se ponto turístico, pode a arte manter para o público, a sua função e seus objetivos? Podem os artistas e a sua arte transmitir mais do que se fossem uma publicidade de si próprios?

A glória era de Deus e não dos homens

No Ocidente, exceto durante um curto lapso de notoriedade individual na Grécia do século V a.C., os artistas foram fundamentalmente incógnitos até o fim da Idade Média. E nesses períodos – quando a arte era usada originalmente para a mágica e o ritual- a posição social do artista era a de artesão. A arte medieval não precisava de artistas individuais que almejassem a fama: a glória do que se conquistava era de Deus e não dos homens.

Em certas cidades italianas do século XIV já se pensava, no entanto, de forma diferente. Ali, juntar fortunas pessoais poderia representar uma glória muito maior, e o desejo de identificar e discutir o artista era, então, uma consequência natural. Grosso modo, foi essa a postura adotada pelos intelectuais do Renascimento, que estavam justamente providenciando os tijolos para a construção da ideologia do capitalismo.

Em vez de liberação, o anonimato tornou-se alienação

A progressão constante do artista meio-divino-meio-gênio culminou com o expressionismo na primeira metade do século XX e adquiriu uma feição de reprise tragicômica no neoexpressionismo dos anos 1980. Entre os dois expressionismos, o século passado viu a ascensão do intelectualismo na prática da arte. As primeiras manifestações podiam ser relacionadas à política de massa e as seguintes à cultura de massa. A diferença foi imensa.

Sabemos que o sistema capitalista sempre encontrou meios para impor a cultura “da conveniência e do espetáculo”, de cima. De lá para cá, passando pela especulação no mundo financeiro, infelizmente, o anonimato, entre outras coisas, é mais um fator de alienação do que de liberação. No presente, o sistema da arte não funciona sem estrelas e o turismo também não.

Até a próxima que agora é hoje e se as instituições se derem a concessões perigosas como essa, será difícil continuarmos a repensar os objetivos da arte, seus valores em termos mais profundos e imateriais; ou, pelo menos, compreendê-la como uma resposta mais plausível à nossa nova época! Não basta trazer o público à arte, para efeito de bilheteria. É preciso primeiro, por meio da educação, levar a arte às pessoas, o que não ocorre automaticamente, por captação e bugigangas “atraindo turistas”. Transmitir sem angariar: penso que é este o papel e o dever da instituição.

A lei Rouanet e a ilusão da necessidade

A tradição do mecenato renascentista nos permitiu até há pouco tempo aceitar com certa benevolência, e mesmo com alguma satisfação, esse caráter “benemérito” do patrocínio e das instituições com relação à arte e aos artistas. Todos sabemos, no entanto, que se de um lado essa relação é sempre questionada e desejada simultâneamente, por outro lado, determinados incentivos ou certos tipos de política podem acabar muito mal.


Imagem: Retrato do mecenas Lourenço de Médici “o Magnífico”, por Girolamo Macchietti (1585). Homem generoso, foi um dos personagens mais notáveis de sua época. Além de seus talentos de diplomata e político, vivia no meio de brilhantes eruditos, artistas e poetas, dedicando-se a várias atividades entre as quais o mecenato. Lourenço de Médici é a mais formidável representação do “ideal do Homem do Renascimento”.

Os interesses políticos, econômicos e sociais da sociedade que eles representam sempre foram preteridos no entendimento de todos nós — organizadores e produtores culturais — em favor dos valores “supremos” da cultura.

Todos sabemos muito bem, no entanto, que se de um lado a relação arte e instituição é sempre questionada mas aceita – e não só aceita, como desejada – por outro lado, as melhores intenções como determinados incentivos ou certos tipos de política podem acabar em detrimento lamentável da produção cultural.

Com uma boa pesquisa, não seria difícil enumerar centenas de exemplos de distorções provocadas pelos subsídios oficiais no mundo. O caso do Brasil, com a Lei Rouanet deveria ser (se já não é) objeto de tese universitária ou livro de investigação jornalística sobre esse desvirtuamento. Basta lembrar, porém, que nos Estados Unidos – onde o National Endowment for the Arts (NEA) é controverso e várias vezes quase desapareceu – as subvenções de grandes bancos aos artistas terminaram por formar uma arte-tipo-banco, análoga à arte-tipo-hall nos edifícios brasileiros; ou que os próprios salões de arte foram responsáveis pela arte-tipo-salão, quer dizer, feita especialmente para agradar e passar pelo sistema caduco dos juris.

As contradições são claras: as melhores intenções partem justamente das instituições, ideias e personalidades que formam o todo negativo, o sistema contra o qual, paradoxalmente, por razões culturais, a arte sempre assumiu posições políticas radicais. De um lado, a criação atormentada por forças antagônicas, de outro a crença das instituições nos valores “supremos” da cultura. E também, contraditoriamente o desejo velado de normalizar o que a arte tem de subversivo ou de genuíno, desvitalizando-lhe o processo criativo. Ou, o que é pior, instrumentalizando e/ou manipulando arte e artistas com vistas a interesses político partidários, como vimos acontecer.

O “apoio” à cultura brasileira, em sua grande parte, passou a funcionar então, como uma espécie de cerco ideológico que delimitava a ação, transformando-a num compartimento diferenciado dentro do complexo histórico, político, social, econômico, científico e tecnológico que é o nosso país. Até hoje, e ainda mais depois de 1991 quando a Lei Rouanet começou a ser posta em prática, as instituições culturais brasileiras (e a Bienal de São Paulo não fugiu disso) sofreram do mesmo mal que atinge todas as entidades burocráticas. Esse mal é a “ilusão da necessidade”, um fator que — como o filósofo e sociólogo Raymond Aron afirmou — pode ser tão obscurantista quanto a censura.

Tanto a ilusão doutrinária — que é a política — quanto a ilusão da necessidade cultural impõem um sistema de valores vindos de “cima para baixo”. O que, além de tudo, reafirma uma visão “terceiro-mundista”, assegura um paternalismo e um provincianismo que não cabe mais numa época em que a noção de subdesenvolvimento, segundo Octávio Paz, “pode ser aplicada à economia e à técnica, porém não à arte, à literatura, à moral ou à política”.

‘Escolhas feitas de cima para baixo’

Existe ainda uma moral rígida, uma maioria silenciosa que atua não numa fantasia paranoica, mas, como nos extratos sociais, desempenhando um papel de normalizadora. Uma espécie de “classe média” intelectual que, ao despejar uma quantidade enorme de informações com a intensidade descritiva das suas minúcias, soterra eficientemente a camada “marginal” e, com ela, o “sentimento oceânico” do qual falava Freud, que é “provocado pela relação cósmica com o divino da Grande Arte, da Grande Cultura”.

Esse deslumbramento nos aproximaria de uma realidade que não se restringiria à ciência, à história e à lógica cotidiana dos fatos e dos conceitos artísticos. Ele nos revelaria, isto sim, o universal como uma dinâmica de transcendência, fim ideal, utopia. Trata-se igualmente da contraposição do “mundial e universal”, pensada pelo filósofo Jean Baudrillard, teórico da sociedade contemporânea. Segundo ele, “a mundialização – realidade irreversível – é aquela das técnicas, do mercado, turismo, da informação. A universalidade – em vias de desaparecimento, por outro lado – é aquela dos valores, dos direitos do homem, das liberdades, da cultura e democracia.”

É possível parafrasear Baudrillard com vistas ao enfoque “realista” dado às manifestações artísticas contemporâneas: “No tempo das luzes”, escreve ele, “a universalidade se fazia pelo alto, segundo um progresso ascendente. Hoje, ela se faz por baixo, pela neutralização dos valores devido à sua proliferação e à sua extensão indefinida”.

Culturalmente, em última análise, o que tivemos até agora nos sistemas que circunscrevem as nossas instituições, foi uma certa promiscuidade de todas as trocas, produtos, signos e valores, o que, segundo Baudrillard, trata-se de “pura pornografia”. “A sucessão, a difusão mundial de tudo e qualquer coisa, no fio das redes de informação, dizia ele com razão, isso é pornografia”. Eu acrescentaria que o patrocínio e o apoio a “escolhas feitas de cima para baixo”, em grande parte das vezes termina como “bloqueio” ou “favoritismo” decorrentes, não de merecimento real, mas de um sistema de ideias, convicções e interesses sustentados por grupos. O que nega a universalidade, a liberdade e a democracia. Diria, como Aron, que isto pode de fato causar tanto prejuízo à cultura quanto a censura.

Até a próxima que agora é hoje e não concluo que a lei Rouanet deva ser revogada, de forma alguma! Em vez de abolir a prescrição, o que certamente seria catastrófico, penso que é a sua forma e aplicação que devem ser reformuladas. De cabo a rabo.

 

Um colunista que precisa pedir desculpas. E já!

Duvido que a coluna de Luis Fernando Verissimo, do dia 1, no Estadão, publicada igualmente em papel, esteja em acordo com este órgão de imprensa exemplar que conheço desde criança, e onde comecei a escrever há 43 anos, quando o diretor de redação era Fernando Pedreira. Não acredito que expresse, nem de longe, a opinião de um jornal que, sob a direção de Júlio de Mesquita Neto e Ruy Mesquita (JT), passou pelas piores fases da ditadura, sempre defendendo com objetividade a justiça e os direitos do homem, abominando preconceitos e parti pris ideológicos.

 

Edifício OESP
Sede do Jornal O Estado de S. Paulo (1951-1976) Arquivo/Estadão

A coluna em questão deste escrevinhador de 82 anos, é ultrajante. Liberdade de expressão não é isso. Luis Fernando Verissimo certamente não é nenhum Flaubert, mas segundo a Wikipédia é também humorista, cartunista, tradutor, roteirista de televisão e autor de teatro, já foi publicitário, revisor de jornal e toca saxofone. Ainda segundo a mesma fonte “ele tem mais de 60 títulos publicados, é um dos mais populares escritores brasileiros contemporâneos, e é filho de…”  Está explicado. Ninguém é “filho de”, impunemente.  Tem que se esforçar muito!

Mas a coluna dele é ultrajante em vários aspectos. Em primeiro lugar desrespeita a escolha da maioria, julgando-a sob ideias preconcebidas que só podem ser provadas com pesquisa, estatísticas e estudo. Verissimo “afirma” em vez de “apresentar como hipótese” que “o ódio ao PT foi maior que o amor pela democracia”. Não é uma certeza. Aqui, tanto “ódio”, quanto “amor” e “democracia” podem ser questionados em todos os níveis, inclusive na sua convicção de que o governo petista preservaria a democracia e o governo bolsonarista, não.  Também não é uma certeza. E a desonestidade intelectual já se inicia desta maneira.

Mas o que o colunista condena principalmente é a “omissão”. Acusa a preterição (legítima, diga-se de passagem) dos políticos e o verdadeiro (e também legítimo) “protesto” (votos em branco, nulos e abstenção) de  42,1 milhões de pessoas no Brasil e 60% de votantes no Exterior. Pessoas para quem nenhum dos candidatos as representava. É muita gente só “para cuidar de suas hortas”, não é mesmo?

Antissemitismo às avessas

E, por fim, dá a sua contribuição que, evidentemente, cai como uma luva confortando uma espécie de antissemitismo às avessas, e transforma os petistas em “perseguidos”: “como será difícil distinguir um marginal vermelho de um cidadão normal, agora que até a direita usa barba, sugiro que se costure uma estrela vermelha na roupa dos marginais, para identificá-los”, escreve. E o colunista termina a ironia, afirmando  que “deu certo em outros países”. Só esqueceu de acrescentar “em outra época”.

É verdade que deu certo. A estrela infamante costurada na roupa – dispositivo obrigatório de identificação e discriminação imposto pela Alemanha nazista aos judeus residentes nas zonas conquistadas, durante a Segunda Guerra mundial – indicava as vítimas aos algozes. Só que aquelas vítimas constituíam um povo e uma civilização e não um partido político corrupto, em extinção. A estrela amarela não foi cosida como a imaginária “estrela vermelha” de Luis Fernando Verissimo na “roupa dos marginais, para identificá-los”. Os judeus, ao contrário de certos membros do PT, nunca foram “marginais” como ele diz, a partir do que gritou Jair Bolsonaro em seu horrível discurso. Além de que foram “cidadãos normais”, não precisavam “ser distinguidos” como sugere o colunista.

Até a próxima, que agora é hoje e estamos aguardando as desculpas deste esforçado colunista “filho de”! Sei que é difícil, mas ao ler esta frase final, por favor, não confunda com “filho da”.


Imagem de abertura: a “estrela amarela” foi um dispositivo obrigatório de identificação e discriminação, imposto pela Alemanha nazista aos judeus residentes nas zonas conquistadas, durante a Segunda Guerra mundial.


 

Adeus mamíferos, pássaros, peixes, anfíbios e répteis

Podemos nos despedir destes vertebrados. 60 % dos animais desapareceu em 44 anos, sobretudo nas zonas tropicais da América do Sul e central, onde a perda é de 89%. Sejam quais forem os argumentos dos presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro, eles deverão tomar em conta esta trágica conclusão do último relatório da WWF (Fundo Mundial para a Natureza), publicado hoje, dia 30, em seu site

Estão em causa as atividades humanas e suas consequências: agricultura intensiva, degradação dos solos, exploração e pesca exageradas, mudança climática, poluição pela matéria plástica, espécies invasoras, explosão da demanda de meios naturais e energia, etc.

O problema não se restringe apenas ao futuro dos bichos, mas ao capital natural do planeta, uma vez que tudo que funda as sociedades humanas se deve à natureza. Trata-se da sobrevivência da humanidade inteira.

Questão de vida ou morte

Sejam quais forem os argumentos dos presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro, esta é uma questão de vida ou morte. Segundo um estudo feito pelo economista americano Robert Costanza (apresentado pela WWF), a natureza nos fornece, gratuitamente, serviços de um valor igual a 125 trilhões de dólares por ano. Ou seja, se devêssemos pagar pelo ar que respiramos, pela água potável, e alimentação que ainda é gratuita, precisaríamos desembolsar bem mais do que o PIB mundial que é de 80 trilhões de dólares por ano. Fora isso, um terço da produção alimentar mundial depende de polinização (por 20 mil espécies de abelhas, centenas de outros insetos e mesmo de vertebrados como certos pássaros e morcegos).

É urgente!

A WWF considera urgente que os líderes mundiais, os responsáveis públicos e privados admitam que a natureza é a nossa única casa e que repensem a nossa maneira de produzir e consumir. Há recomendações e estudos concretos. Não resta muito tempo. Os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro já deveriam começar a planejar a presença de seus países no acordo ambicioso que será adotado na conferência mundial em Pequim, em 2020.

“A nossa casa morre e nós olhamos para outras coisas” disse Jacques Chirac – um presidente esclarecido, humanista, da direita – no “Sommet de la Terre”, em 2002.  Até a próxima que agora é hoje, a humanidade está em perigo, e para onde olham os governos de extrema-direita destituídos da luz do conhecimento?

Será que ninguém percebe?

Será que ninguém vê o que está por trás dos discursos chocantes de ódio e atritos (aparentemente “já desnecessários”) entre o candidato da extrema-direita, seus acólitos e familiares?

Imagem: Eugène Delacroix, “Méphistophélès dans les airs”(O Diabo no ar), cerca de 1825.

Poucos talvez imaginam, porém está “tudo certinho”, “totalmente necessário”, “exatamente como deve ser”.  O conjunto de esforços com fim eleitoral, segue o seu curso inerente. Não é preciso ser especialista. Estes eventos são conhecidos de todos, já podemos até mesmo chamá-los de “clássicos”, em todas as campanhas populistas do mundo. Sejam elas de esquerda ou de extrema-direita.

Bolsonaro e a mundialização do mal

Ali, cada acontecimento obedece às famosas táticas de Steve Bannon, orientado em direção a alvos precisos. Este DIABO manso, “Grande Sedutor” (nome com o qual o Evangelho designa o anjo mau), hoje talvez o maior expert em comunicação do mundo, declarou há pouco na Itália, publicamente ao lado do vice Matteo Salvini, estar criando “um grande movimento (anti-sistema) de ajuda aos governos (e candidatos) populistas do planeta (Brasil, inclusive), com o patrocínio dos maiores capitais americanos e estrangeiros.” Isto, para que o “Grande Capital” possa circular livremente num mundo agora “liquidificado”, para usar o termo do filósofo e sociólogo Zygmunt Bauman.

O ‘Diabo Bannon’

É muito simples, sem disfarce, não foi escondido de ninguém e não se trata de “teoria de complô”. Mesmo que não exista ou não for provado que existe um pacto do candidato com o DIABO, o tinhoso é onipresente, está cada vez mais rico e trabalha “de graça” pois não são os candidatos que o pagam. Se você votar em Jair Bolsonaro, estará necessáriamente contribuindo com o PROJETO AMERICANO DE DESTRUIÇÃO MUNDIAL DA DEMOCRACIA, já em andamento na América Latina e Europa (cuja desintegração é almejada, claro, a começar pelo Brexit abertamente orquestrado por Bannon).

Nessa altura, como diz o provérbio chinês, quando é a lua que brilha é melhor não ficar olhando só para o dedo que a aponta. Se você votar neste candidato, não é só o PT que estará atingindo. O PT não vale nem uma migalha do pão que o DIABO amassou. Até a próxima, que agora é hoje e… pense nisso.

 

A mentira e o ‘voto de mentira’

“Anulando o voto ou votando em branco os eleitores favorecem quem está liderando”? Em situação normal, sim. Mas esta não é uma situação normal.

Imagem: LIBERDADE, ORDEM E PROGRESSO

“Anulando o voto ou votando em branco o eleitor favorece quem está liderando”. Isso é mentira.

Resumindo o que diz o TSE:

“Os votos nulos e brancos constituem apenas um direito de manifestação de descontentamento do eleitor, não tendo qualquer outra serventia para o pleito eleitoral, do ponto de vista das eleições majoritárias (eleições para presidente, governador e senador), em que o eleito é o candidato que obtiver a MAIORIA SIMPLES (o maior número dos votos apurados) ou ABSOLUTA (mais da metade dos votos apurados, excluídos os votos em branco e os nulos).”

Voto nulo ou branco no Brasil é o que chamo de “voto fantasma”. Como é ignorado, ou seja, a sua soma não é contabilizada e nem mesmo revelada como é hábito nos países civilizados e democratas, fica-se sem saber quantos eleitores estão descontentes. Um verdadeiro absurdo.

Anulando, votando em branco e mesmo se abstendo, portanto, o votante não favorece ninguém diretamente. Apenas deixa aos outros a tarefa de escolher, o que – apesar de politicamente frustrante – é absolutamente democrático, legítimo e consentâneo.

O ‘voto de verdade’

Em situação normal, se o eleitor votar no segundo colocado estará contribuindo, claro, para diminuir a diferença entre os candidatos, mesmo que não acredite nele de modo total e ainda que, de antemão, por causa da enorme diferença percentual nas pesquisas, já saiba que dificilmente o segundo conseguiria vencer.

Mas esta não é uma situação normal. É uma raríssima combinação de circunstâncias na qual muitas pessoas sentem-se “sem escapatória” diante de “duas excrescências políticas absolutas”. Com pesquisa ou sem, elas não são capazes de raciocinar com aquele tipo de lógica, simplesmente porque não suportam a ideia de “votar de mentira”, ou seja, votar “contra”. Para elas o único voto possível é o “voto de verdade” em quem acreditam, nem que seja parcialmente.

O fato de que o Brasil tenha lutado muito para que estes indivíduos pudessem ter o direito de votar diretamente para Presidente, algo que sem dúvida eles deveriam honrar, torna-se menos grave do que desonrar os seus valores pessoais. Não existe nenhuma regra moral que os obrigue a escolher entre um tirano de extrema-direita que, para eles, é uma aberração por tudo que defende e pretende, e um pseudodemocrata continuísta, “lobo reconvertido” em pele de carneiro, representante de partido arruinador que não os convence apenas porque é universitário, foi ministro, prefeito e “parece” democrata. Não há universitários e políticos atrás das grades? Não há universitários e políticos que levaram países ao fundo do poço?

O conforto dos ‘não isentões’

Por outro lado, muitos não conseguem entender como é triste e difícil o caminho para chegar à decisão do voto nulo numa democracia. Alguns pensam que neste gesto existe “simulação”, outros “omissão”, outros ainda, “irresponsabilidade”. Acusam os (pejorativamente) chamados “isentões” de “ficarem em cima do muro” ou de “lavarem as mãos”. Seria bom se os “não isentões” soubessem que é sempre mais confortável acreditar no candidato que está melhor colocado ou pedir votos para o segundo apregoando a teoria do “menos pior”. É muito mais cômodo ter alguém em quem votar e formar a sua igrejinha, do que encontrar coragem para enfrentar o desconforto, as críticas e o isolamento que representa esta renúncia.

Até a próxima que agora é hoje e o voto branco ou nulo é tomar posição, sim! Para os que decidiram por ele, significa dar verdadeiro valor ao voto e não depositá-lo em alguém que não os represente em nenhum aspecto, em nenhuma perspectiva e em nenhuma hipótese. Mesmo “fantasma”, não contabilizado, sem qualquer serventia para o pleito eleitoral, este voto serve para mostrar que numa democracia as pessoas podem apontar claramente que não concordam com o que está sendo imposto a elas e ao povo do qual fazem parte.

O direito ao ‘nem-nem’

Como não sou astróloga, Thoreau, Mahatma Gandhi ou Martin Luther King – ou seja, não preconizo política pelos astros e não aplico ‘desobediência civil’ antes (e nem mesmo depois) que um governo seja eleito – para alguns amigos, leitores e familiares fica difícil entender como é que me declaro contra candidatos sem jamais revelar o que apoio.

Imagem: “nem-nem”, d’après Ben Vautier

Alguns acham que estou fingindo que não sou a favor de um ou de outro. Exigem um esforço de racionalidade para que eu defina o que, para mim, é impossível de definir e às vezes ultrapassa qualquer tentativa racional.

Assim, os que gostam da extrema-direita e acham que querer bombardear uma favela é apenas “politicamente incorreto”, pensam que me curvo diante da ditadura das pequenas éticas, deixando-me levar por argumentações sobre as quais “não se pode ser contra”. Que, indo contra aquele (chamado por alguns de Bolsolini, Bolsoignaro ou Bolsonazi mas) que, para mim, é apenas “xucro”, posso contar com o apoio do PCC, do PT e seus deliciosos asseclas como a doce Gleisi e o probo Lindbergh, do PSDB do honrado Aécio, de todo PSOL e de gente maravilhosa como Jean Willys, Maria do Rosário e Ciro Gomes. Ou de jornalistas isentos como Paulo Henrique Amorim. Acham também que, nesse caso, me alinho ideologicamente aos artistas limpos e honestos, e atores, que se beneficiaram com o dinheiro público por meio de inocente maracutaia envolvendo a Lei Rouanet. Chegam a imaginar que estou tentando garantir alguma vantagem para mim ou algum próximo com o auxílio do generoso PT. Querida organização criminosa cujas estratégias durante 13 anos, junto com as de outros partidos nos faz, e à nossa democracia, pagar um preço tão alto…

O apoio do desvairado que votou com revólver

Já os que gostam desta esquerda, pensam que indo contra Haddad, o poste, vulgo “codinome de Lula” (mas que eu chamo simplesmente de “parvo”), contra a vice pixote (mestra em lapsos que fazem a delícia dos psicanalistas, sendo que no último discurso ela termina “tomando o poder” igual a José Dirceu), posso contar com o apoio do PSL inteiro, de todos os partidos de direita que começam a sustentá-lo agora, do Exército, do Olavo de Carvalho, dos “antagonistas”, conservadores, armamentistas, fundamentalistas antilaicismo, 48% dos evangelistas, da burguesia brasileira “que está numa lógica mais para Hitler do que Blum” (como diz a expert francesa Armelle Enders), de machistas, racistas, homofóbicos, certa imprensa, dos fabricadores de fake news, de todos arcaístas de costumes que defendem a família, a tradição e a propriedade e cospem em tudo que não for isso; do desvairado que votou na urna com um revólver, dos que agrediram jornalistas, proibiram numa escola carioca o livro inspirado na história de um jornalista perseguido pela ditadura militar, rasgam volumes que abordam a temática dos direitos humanos e arte do Renascimento em Brasília, baleiam cachorro porque ele latiu durante uma carreata bolsonarista, dos que mataram o mestre capoeirista Moa com 12 facadas nas costas em Salvador, porque ele revelou que votou Haddad, e tantos, tantos outros.

O nosso direito ao ‘nem-nem’

Ora, eu não sou obrigada a não opinar para poder manter o meu voto secreto, como objetam. Posso perfeitamente opinar contra quem eu quiser sem que esteja defendendo um ou outro.

Portanto, reivindico, definitivamente, o meu direito apofático de ver a realidade pela sua negação. Se alguns teólogos empregam o apofatismo para chegar a Deus, eu também posso empregá-lo para dizer o que penso sem ser obrigada a escolher entre dois candidatos que considero, talvez em proporções diferentes porém, igualmente nefastos para o nosso país.

Até a próxima que agora é hoje e viva o nosso direito de ultrapassar o esforço racional e não ter que escolher entre a cólera e a peste! Não votar nem no autoritarismo “politicamente incorreto” defendido pelos reféns do populismo de extrema-direita, nem na pseudo socialdemocracia “politicamente correta” (e éticamente incorreta) defendida pelos reféns do populismo desta esquerda. Em ninguém!

Meu adeus à Marceline Loridan-Ivens

Marceline Loridan-Ivens, cineasta, produtora e escritora, faleceu anteontem, dia 18, em Paris. Nascida em 1928, ela passou a vida a denunciar a injustiça e a violência, marcada para sempre pela sua deportação, com 15 anos, ao campo de Auschwitz-Birkenau, depois a Bergen-Belsen e a Theresienstadt, de onde foi liberada em 1945. Amiga íntima e inseparável da estadista francesa Simone Veil (que hoje repousa no Panteão), Marceline foi casada com o célebre documentarista Joris Ivens (1898-1989).

Imagem: Marceline Loridan-Ivens, em seu apartamento em Paris, no dia 12 de Janeiro, 2018. AGLAÉ BORY (Le Monde)

Quando eu era jovem e reclamava que alguém estava zangado comigo sem razão, a sábia decana da família dizia: “Se você não fez nada, esta pessoa só pode estar mal pelo que ELA fez. Você não tem nada a ver com isso…”

Não entendia muito bem esse raciocínio, mas sempre o acatei. Mesmo porque ele confortava as minhas dúvidas.

No final do livro E Você Não Voltou* da cineasta francesa Marceline Loridan-Ivens, encontrei um novo e verdadeiro sentido para esta explicação, que agora pertence ao inventário de minhas “psicologias pessoais”. No seu relato póstumo ao pai, morto em Auschwitz, a autora – que sobreviveu a três campos de concentração – dá a chave do mal-estar que, a meu ver, reafirmará o antissemitismo para sempre: “Eles não nos perdoarão jamais o mal que nos fizeram.”

A diferença em relação à minha juventude é que, agora, mesmo eu sabendo que “não tenho nada a ver com isso”, a sábia decana Marceline Loridan-Ivens não consegue confortar os meus porquês.

Toda uma vida a denunciar a injustiça e a violência

Esta pequena crônica está contida em meu último livro, lançado há alguns meses. A republico aqui como uma homenagem à cineasta, mas também produtora e escritora, que faleceu anteontem, dia 18, em Paris, aos 90 anos. Marceline Loridan passou a vida a denunciar a injustiça e a violência, marcada para sempre pela sua deportação, com 15 anos. Amiga íntima e inseparável de Simone Veil (hoje no Panteão), Marceline realizou em conjunto com seu marido, o grande documentarista Joris Ivens (1898-1989), filmes sobre a guerra do Vietnã e a China maoísta. Fez também um tocante longa-metragem, La Petite Prairie aux bouleaux, em 2003.

No livro citado*, Et tu n’es pas revenu (E Você Não Voltou, com Judith Perrignon, Grasset, 2015 – ainda sem tradução para o português), ela contava a sua juventude quando foi enviada no mesmo trem que Simone Veil, em 1944, ao campo nazista de Auschwitz-Birkenau, depois a Bergen-Belsen e a Theresienstadt, de onde foi liberada em 1945. Seu último volume, L’Amour après (O Amor depois, igualmente escrito com Judith Perrignon, Grasset, 2018), relata o que veio a seguir: a liberdade recobrada, a descoberta do amor, a lenta reconstrução de uma sobrevivente. Merece igualmente uma tradução no Brasil.

Até a próxima, que agora é hoje e mais uma grande mulher se vai, deixando o seu exemplo e a sua luta. Como dizia Romain Rolland (1866-1944), “mesmo sem esperança, só a luta já é uma esperança.”
 

 

O que é mais doloroso?

Pode-se chamar a destruição de um acervo artístico ou científico de perda material? Pode haver seguro, reconstrução ou substituição para a morte do elemento vivo da criação e da nossa história? O desaparecimento de um ser humano, imortal porque deixa reminiscência, é mais doloroso do que a morte da sua própria memória?

IMAGEM: O Museu nacional do Rio de Janeiro em chamas, na noite de 2 de Setembro 2018. | AFP / STR /

São dois os níveis de compreensão para o desaparecimento do Museu Nacional do Rio De Janeiro, destruído pelas chamas ontem, dia 2. Um, o econômico, político e cultural. Outro, o filosófico.

Falar, portanto, sobre o prejuízo que significa o aniquilamento de um tesouro cultural, para um país que ainda se encontra em tão precária situação nesta área, seria o óbvio. Dizer que o ocorrido corresponde ao dano de uma sala histórica destruída em Versalhes, talvez fosse até impróprio. Afirmar que não existem recursos para a substituição ou restituição de um patrimônio cultural desta monta é cair na banalidade de uma evidência.

Do ponto de vista ético, no entanto, importa agora só a compreensão filosófica deste acontecimento lastimoso. É o momento em que fatalmente se questiona a fragilidade, não do homem, mas das suas manifestações e conquistas. Mesmo as que carregam a aura da imperecibilidade, o sentido de sua representação espiritual maior. Da mesma forma como aceitamos com resignação a transitoriedade da vida humana, para nós é extremamente difícil duvidar da perenidade da obra de arte, dos objetos e traços que deixamos, como ideias espelhadas. No seu sentido tradicional ou contemporâneo, tudo ainda parece representar a perpetuação do homem. Queiramos ou não, existe a noção de que os nossos testemunhos nos ultrapassam no tempo e no espaço.

A conhecida escultura do suíço Jean Tinguely, que se autodestruiu em alguns minutos, talvez tenha sido a primeira de todas as manifestações desmaterializadas da arte. Além de colocar em questão as características convencionais da arte tradicional, apresentava a obra verdadeiramente indestrutível. Na própria destruição estava a ideia da sua perenidade. Infelizmente, não é o que ocorre quando a nossa história e memória são imateriais e materiais simultâneamente.

Se assim não fosse, como explicar o sentimento de dor que nos invade ao saber da destruição real de coisas e valores às vezes por nós tão contestados? As ideias acabam por permanecer soterradas sob o metafísico e irreparável sentimento de perda, que não é mais do que um profundo e irracional sentimento de amor. O mesmo que gera o próprio ato da criação e também o da salvaguarda das nossas lembranças.

Até a próxima, que agora é hoje e será que a morte de um ser humano, imortal porque deixa reminiscência, é mais dolorosa do que a morte da sua própria memória?


Esta matéria foi inspirada no que pensei e escrevi na manhã de domingo, dia 9 de julho de 1978, na própria redação do Estadão, enquanto lágrimas rolavam pelo meu rosto. Eu estava sob o choque da notícia do incêndio no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, desastre sem precedentes na história das grandes coleções de artes plásticas onde desapareceram duas telas de Picasso, duas de Miró e centenas de obras de artistas brasileiros colecionadas ao longo de 20 anos. De mil obras, restaram 50, e dos dois andares atingidos, cinzas. O sinistro do MAM atingiu dimensões jamais registradas. Além do acervo do museu, queimou-se toda a mostra Arte Agora II onde estavam expostos 205 quadros de pintores latino-americanos, entre eles toda a fase construtivista do uruguaio Joaquín Torres-Garcia, um período de quase duas décadas de criação.

Crítica de um filme que não vi e não gostei

Jean-Jacques Beineix, realizador, produtor e argumentista francês, está certo: “o cinema anda povoado de cretinos irrecuperáveis”. Eu diria ainda que a sétima arte às vezes é exercida por gente que não deveria nem mesmo habitar o planeta.

Não vi A Casa que Jack Construiu, filme sinistro e repugnante de Lars von Trier que, em maio deste ano, causou a saída espontânea do público em Cannes, e a Mostra Internacional de SP exibirá em outubro. Assisti praticamente a todas as outras obras dele, o que já me autoriza a evitar esta última e concluir sem culpa e arrependimento intelectuais – com toda a subjetividade que o meu ofício me permite – que Trier é o realizador que mais detesto neste mundo!

Se o cinema é “uma mistura perfeita de verdade e espetáculo”, segundo François Truffaut, esta ignobilidade certa, “uma das atrações” do festival paulistano, só poderá constituir a nova mistura imperfeita de lama com a estupidez que aflige cada vez mais o cineasta, uma imundície tão dispensável quanto todas as outras várias perpetrações diabólicas dele até agora.

Pelo pouco que vi e li, A Casa que Jack Construiu é certamente mais uma diatribe propagandística contra a humanidade e o humanismo, com todas essas sujeiras insuportáveis do tipo que von Trier faz Charlotte Gainsbourg dizer, como “a hipocrisia é o que melhor resume o gênero humano”, ou “todos nascemos para matar”, etc., etc., etc.

Como sempre, o roteiro deve ser bastante abjeto. E porque não, mesmo se o espectador ficar perplexo diante de mensagens tão delicadas que lhe darão vontade de se jogar do alto do Edifício Itália ou de sair trucidando todo mundo?

A grande contradição é que esse cinema se mostra sempre uníssono. As sequências são pesadas, escolares, e as provocações repetidas lembram incitações de um adolescente problemático. Isso, quando não aparecem pequenas “lições de história” tiradas da Wikipédia para “intelectualizar” a narrativa.

O “humor” geralmente ajuda o conjunto a ficar mais pesado. Com a câmera no ombro, Lars von Trier sempre consegue um feito: transforma em feiura pura até mesmo atores lindos (quando estes já não são feios como Gainsbourg) e também tudo que é ou poderia ser bonito.

Até a palavra violência torna-se fraca para definir a intimidação moral desses filmes, onde racismo, sexismo, misoginia, masoquismo e ódio humano saltam aos olhos. Sempre entremeados de minicursos de esoterismo e “harmonia musical para nulos”. Nos perguntamos se esse homem de 62 anos é de fato um malvado moderno ou apenas um idiota, tipo intelectual bárbaro e nauseabundo da Idade Média.

A Casa que Jack Construiu marcou o retorno do dinamarquês à Croisette, tentando ser escândalo, mas foi em vão. Nem o boato da saída do montador do filme, de sua mesa de trabalho, para ir vomitar, ou das ambulâncias na porta do Festival para recolher os desmaiados, estimulou os perversos. Já estamos todos bastante acostumados com Tarantino, Haneke, Lynch, Cronenberg, Marco Ferreri…

Fora que a história e seus cinco tipos arrojados de assassinato todo mundo já conhece: Jack (Matt Dillon) é um assassino em série, autor de mais de 60 crimes, e tudo se passa ao longo de 12 anos a partir dos anos 1970, no estado de Washington. No elenco estrelam Uma Thurman, que praticamente não tem tempo de abrir a boca e já leva uma tijolada, Riley Keough, Bruno Ganz, Siobhan Fallon Hogan e outros.

O que dá uma certa satisfação aos (e às) antifeministas e aos artistas macabros é que Matt Dillon grande ator, ou melhor, Jack, mata sobretudo mulheres que ele acha particularmente imbecis e chatas. Além do feminicídio, ele satisfaz também o seu desejo estético de elaborar uma “grande obra fúnebre” no museu, quero dizer, na catedral lívida de uma câmara frigorífica colocando os corpos em poses sugestivas, os quais fotografa. Como Facebook, Twitter, Instagram ou Pinterest ainda não foram inventados, ele envia as fotos aos jornais assinando “Sr. Sofisticação”. Damien Hirst não poderia ter imaginado performance melhor.

Parece que os diálogos em voz off com o personagem interpretado por Bruno Gantz (Verge, ou melhor, Virgílio, o poeta da “Eneida”) são muito piegas, o que não me admira. Assim como não me admira que, como li em alguma parte, ele faça liçãozinha em forma de considerações nada originais sobre Glenn Gould, a arquitetura gótica, William Blake, as diferentes maturações do vinho, e também os grandes crimes totalitários. Tudo isso, é claro, pontificando, revisitando Dante e sem deixar saber porque o Jack chegou naquele ponto, apesar de mostrar que, quando pequeno, o exterminador tinha cortado com tesoura a pata de um lindo pintinho.

O niilismo de Lars von Trier sem dúvida macera em litros de vodca misturados com Rivotril. A sua obsessão é sempre suja e infame, o riso amarelo, a provocação sexual e política gratuitas; e o “espertinho” continua coexistindo em seu cérebro com o mesmo doente mental que um dia evocou comiseração por Hitler.

Não faz mais efeito. No presente, Lars von Trier é como aquele velho tio inconveniente que não gostamos de receber em casa. Até a próxima que agora é hoje e duvido que o cineasta teria sido, ele mesmo, um “grande assassino em série “, como afirmou. Os verdadeiros matadores não brincam em serviço!