Alerta aos eleitores de Boulos

O resultado das eleições para prefeito reflete inegavelmente uma dupla mudança na estruturação da vida política brasileira. Primeiro, se encaixa no início de uma redefinição das divisões organizadas em torno das noções de direita e esquerda. Segundo, revela o futuro surgimento de uma nova maneira de a sociedade brasileira se representar.

A estrutura da vida política não é mais a mesma, depois do fim do século 19, quando as divisões históricas arcaicas opunham os modos de entrar na modernidade e a dimensão social tornou-se conflito de classes. A esquerda ficou como campo da redistribuição, das leis sociais, da regulação econômica, enquanto a direita permaneceu como representante do mundo dos não assalariados e dos que tinham medo das mudanças.

Mudou muita coisa a partir dos anos 1970. Primeiro, por meio de um ideal tecnocrático, segundo o qual a política não é uma questão de oposição partidária, mas de gestão dos negócios públicos, da escolha entre boas e más soluções. É neste momento que esquerda e direita adquirem o seu significado moderno, misturando elementos diferentes: de um lado a dimensão social de representação de certos grupos na sociedade, de outro uma dimensão ideológica, ou seja, a relação com a construção do futuro.

A partir dos anos 1980, face à mundialização, há a divisão entre países abertos e países fechados. O protecionismo emerge então como forma de resolução da questão social. Esta questão infiltra-se até mesmo na cultura e na arte, tanto que as 18ª e 19ª bienais internacionais de São Paulo foram mostruários evidentes dos dois tipos opostos de países. Estas mudanças não fizeram desaparecer os conflitos sociais e a dimensão de classe, mas estes se inscreviam na representação de uma sociedade que continha, portanto, oposições de outra natureza.

A partir daí a sociedade não é mais definida apenas por condições sociais objetivas, mas por situações vividas de forma mais complexa e subjetiva. Hoje, as pessoas já não se definem simplesmente pelo fato de serem operários, mas também por estarem desempregados, ameaçados de desemprego ou rebaixamento profissional e social, com filhos em dificuldade de inserção, etc.

Por não ter entendido isso, a linguagem política tradicional está morta. Hoje, ela favorece as retóricas populistas, que só não desvalorizam a visão de classe quando falam de maneira vaga e simplificadora sobre “o povo” em sua simples “oposição a minorias distantes ou destrutivas”. Trata-se de uma regressão na compreensão da sociedade.

Liberalismo e antiliberalismo

Outro conceito mal interpretado e entendido é o liberalismo. No século 19, a doutrina começou desqualificada por razões sociológicas, porque era o símbolo de uma sociedade de indivíduos. Estava, portanto, condenada à desonra pública pelo movimento socialista nascente. Mas, ao mesmo tempo, foi recusada pelos contrarrevolucionários, para quem a sociedade “não era um contrato, mas uma ordem natural”.

Segundo alguns historiadores e sociólogos, este antiliberalismo continuou entre as duas grandes guerras por meio de uma crítica econômica. Muitos achavam que era coisa do passado. Para eles, o mundo moderno era aquele da organização racional, do planejamento, aos quais o mercado não podia responder. Ora, esta crítica ao liberalismo, que assumiu a forma de keynesianismo, foi muito significativa até a década de 1980.

Antes antropológico, depois econômico, o antiliberalismo acabou se tornando social. Mas os pilares do antiliberalismo ruíram parcialmente. Ninguém mais pensa que o planejamento é a solução; o problema não é mais recusar a economia de mercado, mas supervisioná-la e regulá-la. Depois de sucessivas crises do “paternalismo de estado”, levanta-se cada vez mais – e com razão – a questão da responsabilidade individual e do esforço pessoal.

A despeito de você, eleitor de Boulos

Outro ponto é o esgotamento do modelo dos partidos tradicionais que historicamente, tiveram a dupla função de organizar o sufrágio universal e representar a sociedade. Os dois desempenhos sofreram corrosão. Há muito tempo que os partidos não representam mais as categorias sociais, não são mais seus porta-vozes porque a sociedade não é mais formada apenas por alguns grandes blocos sociais como assalariados, trabalhadores, empregados, executivos, mas a partir de situações sociais muito mais complexas e mutáveis.

Hoje, o caminho está aberto para que os políticos e partidos sejam de esquerda e direita ao mesmo tempo, os únicos capazes de acabar com a clivagem destrutiva que os opostos que se auto alimentam, a direita e a esquerda, provocam. Insistir no apoio à esquerda hoje, é reforçar a direita. E vice-versa.

A despeito de você, eleitor de Boulos, o Brasil poderá sair do impasse em que acabou se metendo em 2018.

Até a próxima, que agora é hoje e as últimas eleições provaram: o eleitor talvez tenha entendido que é o momento de deixar as ideologias de lado e usar a estratégia certa para dar forma a uma frente ampla contra o bolsonarismo e as atrocidades das quais ele é a imagem!

Qual a estratégia certa? Apoiar quem é de esquerda e direita, ao mesmo tempo.

Brexit: que consequências para a arte?

Os artistas ingleses, e todos os que defendem o poder revolucionário da arte, sentem-se decepcionados e apreensivos com o retrocesso que o Brexit representa. Seria bom se continuassem vigilantes. Agora que já conhecem a má resposta sobre o destino do país deles e da Europa, vai ser preciso que se movimentem também em torno das mil questões inquietantes que ainda não têm solução como, por exemplo: o que vai ser dos imigrantes poloneses, em Londres, que já começam a sofrer com o racismo e a xenofobia das camadas populares?

Imagem: Poster de Rankin, encomendado para a campanha oficial “Britain Stronger In Europe”, em 2016.

Mas deverão se preocupar sobretudo com o terreno deles e as finanças públicas do Reino Unido.  No campo das artes plásticas (e artes em geral), as previsões* são funestas. Os impostos e taxas aumentarão, obrigando os colecionadores a deixar o país para evitar a tempestade fiscal. Os tesouros artísticos deixarão os museus nacionais que, por sua vez, farão o público pagar mais caro as entradas. Como os emprestadores de obras aos museus exigem a gratuidade das visitas, não haverá mais empréstimos. Ocorrerá, portanto, um duplo êxodo de obras de arte: dos colecionadores e dos museus. O Brexit certamente acarretará, por outro lado, numa interrupção unilateral das subvenções aos meios artísticos e terá efeitos perversos sobre a criatividade, assim como sobre a independência artística da nação.

Claro que o VAT (ou GTS, o imposto indireto sobre o consumo) será aumentado. O Estado vai se fixar nesta taxa fácil de ser elevada para deter o sangramento. Os compradores potenciais de arte na Grã-Bretanha serão penalizados. O país sofrerá o desmoronamento de sua capacidade de atração fiscal, o que havia feito de Londres um dos melhores lugares do mundo para a arte. Como a barreiras alfandegárias com a Europa serão restabelecidas, os europeus não comprarão mais na Grã-Bretanha por causa da reintrodução das taxas de importação relativas aos países de seu domicílio.

As casas de leilões, cujo pessoal viaja e trabalha entre Londres e o continente, deverão rever todas as suas estratégias de relações financeiras e comerciais com ele. As galerias e todos os ofícios que gravitam em torno da arte serão também sinistrados pela queda da libra, o que tornará as suas compras no estrangeiro mais onerosas.

O mundo da cultura está apreensivo com a ameaça que o Brexit representa

Os trabalhos reproduzidos aqui são protestos feitos em 2016 por artistas como o escultor Antony Gormley (presente na Bienal de São Paulo em 1983, e no CCBB em 2012), Tacita Dean, o famoso ilustrador Axel Scheffler e o fotógrafo Rankin. Eles faziam parte dos 14 nomes, internacionalmente conhecidos, que realizaram pôsteres para que o Reino Unido se mantivesse na Europa. Entre as obras encomendados pela campanha oficial Britain Stronger In Europe, encontravam-se igualmente as de Michael Craig-Martin, Bob & Roberta Smith, Dog & Rabbit, Eva Rothschild, Michael Tierney, Jon Burgerman e Wolfgang Tillmans, além de duas peças de Jefferson Hack e Ferdinando Verderi.

Política ou não, mesmo quando está ao alcance do povo, certa arte evidentemente é erudita e não “popular”. A cultura, como se sabe, é minoritária. Uma vez mais, portanto, o reflexo nacional-populista “contra as elites” sacrificará a arte e a cultura em nome de aspirações demagógicas. Os riscos de retrocesso e obscurantismo estão presentes em toda parte, tanto no Reino Unido e na Europa quanto no Brasil, sendo que neste país acrescenta-se a trágica invenção ideológica da luta imaginária contra um “marxismo cultural” inexistente. Até a próxima, que agora é hoje e o futuro de nossos países não pode estar mais ameaçado!

*Segundo o macroeconomista Michel Santiexpert em mercados financeiros e bancos centrais.

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O aviso da história à extrema direita

Ao ler o editorial de ontem, dia 4, no Estadão, sob o título ‘Falta de civilidade’, lembrei imediatamente uma das principais razões que parecem ter provocado o desmoronamento do Império Romano do Ocidente com a abdicação do imperador Rômulo Augusto em setembro de 476, o que marcou o início do obscurantismo com a Idade Média na Europa Ocidental. Claro que a elasticidade do tema ‘a queda de Roma’ está sempre de acordo com preocupações contemporâneas. No século 19, quando a fibra nacionalista começava a ficar afiada, os historiadores colocavam o acento principalmente ‘nas invasões bárbaras e seus desastres’ (veja a pintura abaixo). No século 20, quando o que mais contava era a análise econômica e social, foi sob este prisma que eles viam o declínio romano. Não é de surpreender que, no século 21, as questões ambientais ou a escalada da extrema direita possam dominar a visão sobre este campo de estudo.

Imagem: “Os romanos da decadência”, Thomas Couture, 1847. Musée d’Orsay, Paris

Você já percebeu que, cada vez mais, vários brasileiros de suas relações estão ficando grosseiros, mal-educados, para não dizer, simplesmente cafajestes e cafonas? Já se deu ao trabalho de ler os comentários do mais baixo nível de leitores em jornais ou de usuários nas redes sociais? Já notou o tom deprimido, enfermiço e obsessivo de pessoas que antes lhe pareciam inteligentes, humoradas e hoje não fazem outra coisa além de gemer e repetir o óbvio como papagaios?

Ao ler o editorial de hoje no Estadão, sob o título “Falta de civilidade”, lembrei imediatamente uma das principais razões que parecem ter provocado o desmoronamento do Império Romano do Ocidente. As conquistas militares da Roma antiga (a conquista da Itália e as Guerras Púnicas, com a destruição de Cartago pelo exército romano em 146 a.C.) permitiram que a civilização romana dominasse a bacia do Mediterrâneo, e portanto o mundo, durante mais de 600 anos. No entanto, a abdicação do imperador Rômulo Augusto em 4 de setembro de 476 marca a queda de Roma. Por que aquele Império nascido em 27 a.C., entrou em colapso?

Naturalmente, os motivos são assunto de várias e diferentes teorias. É muito difícil para os historiadores desenvolverem um conceito único sobre esta ruína, por causa da falta de dados objetivos deixados pelos narradores que viveram na época.

Mesmo assim, escritores como o romano Flávio Vegécio (século 4), o francês Montesquieu (1689-1755) que também foi filósofo político, historiadores como o inglês Edward Gibbon (1737-1794) ou pensadores como o tcheco Radovan Richta (1924-1983), consideravam que uma combinação de circunstâncias perigosas levou à queda do Império Romano. Caso contrário, segundo eles, o domínio poderia ter continuado indefinidamente.

Para alguns, Roma trazia nela mesma as causas de sua queda. Vegécio, por exemplo, disse que o império declinou devido ao contato com populações bárbaras. Ele fala de um “aumento do barbarismo” que seria a força motriz do declínio.

Corroeram-se as relações sociais e instituições. Lembra alguma coisa?

Uma teoria bastante semelhante foi desenvolvida por Gibbon. Segundo ele, os cidadãos romanos (assim como os brasileiros de hoje) perderam gradualmente as suas virtudes cívicas. Eles teriam finalmente esquecido de defender o império contra as intrusões dos bárbaros, teriam deixado deteriorar o respeito pelo outro, e corroerem-se as relações sociais e instituições. O historiador britânico também considerava a religião, a ascensão do cristianismo, como uma das causas da queda. A religião teria desviado o povo da vida cotidiana do império para o benefício de esperar pelas recompensas do paraíso, assim como teria começado a justificar a perda das virtudes cívicas. Lembra alguma coisa?

Outra das razões do desmoronamento do Império Romano do Ocidente foi o poder excessivamente autoritário. Mesmo que o imperador Rômulo Augusto fosse bastante incompetente, não tivesse nenhum carisma, senso de prioridades e capacidade de tomar decisões importantes, foi o autoritarismo – seu e dos antecessores – que provocou lentamente o declínio de Roma. A isso, juntava-se o fato de que as autoridades romanas sofriam de um sentimento de superioridade diante dos exércitos bárbaros que se encontravam nas fronteiras do Império. Lembra alguma coisa?

Na verdade, os imperadores romanos eram um pouco como os governos nacional-populistas que vemos hoje, entre os quais se encontra o brasileiro. Se, ao invés do seu “nacionalismo” e aceitação apenas de seus iguais, tivessem mantido trocas frutíferas no final do século V, como por exemplo com Constantinopla (o Império Romano do Oriente do qual “não eram fãs”), Roma jamais teria caído nas mãos dos bárbaros.

Desrespeita-se a cultura, Roma declina. Lembra alguma coisa?

Muitos cientistas tiveram uma visão teleológica considerando a queda do Império romano como a antítese natural do seu enorme florescimento. Mais recentemente, o historiador Henri-Irénée Marrou (1904-1977) rompeu com esta visão e utilizou o prisma sobretudo cultural para explicar o fenômeno. Desrespeita-se a cultura, Roma declina. Lembra alguma coisa?

Claro que a elasticidade do tema da “queda do Império Romano” está de acordo com preocupações contemporâneas. Não é de surpreender que também sejam as questões ambientais que dominem esse campo de estudo no século 21. Kyle Harper, professor de História na universidade de Oklahoma e também o especialista em história romana Benoît Rossignol, professor na Sorbonne estudam o impacto do clima, calor, insalubridade e doenças, na queda de Roma.

Rossignol confirma: “A questão climática foi levada muito a sério na história com o trabalho de Emmanuel Le Roy-Ladurie desde os anos 1960, mas no nosso campo mais específico de estudo, o da história romana, temos fontes e dados que nos permitem ter uma ideia clara sobre o assunto, apenas a partir dos anos 2000.”

Os romanos, antes da queda, estavam tão convencidos quanto alguns brasileiros de que o seu mundo permaneceria essencialmente o mesmo (ou, pelo menos, “de pé”) para sempre. Estavam errados. Cabe a estes não repetir o mesmo erro dos romanos, tentando garantir-se com a falsa segurança. A história da humanidade, história geralmente negada ou distorcida pela extrema direita, pode conter avisos severos e certos escrúpulos que devem ser tomados, sobretudo quando há violência social e falta de civilidade, como na Roma antiga, alimentadas por uma crise de autoridade.

Até a próxima, que agora é hoje!