Arte menstrual para o presidente

Vejo pessoas indignadas, apontando a desumanidade do veto à distribuição gratuita de absorventes a mulheres que sofrem com a pobreza menstrual. Não há como não ficar indignado. Porém, para não permanecer na ingenuidade, é preciso ir além da indignação e da repulsa epidérmica. Mais do que nunca, é urgente entender que o que está por trás dos fatos, vai bem além do horror que se julga em superfície.

Chiharu SHIOTA (1972). “Me Somewhere Else”, instalação de 2018, Londres.

Além do horror

Não há nada de espontâneo ou simplesmente “desumano e maldoso” em desprezar e tolher os pobres, as mulheres, todas as minorias. Não é por acaso que o atroz presidente brasileiro coloca-se continuamente na condição de “réu” por crime de responsabilidade, atos incompatíveis aos compromissos que possui com a nação.

Cada gesto dele e de seu governo é perfeitamente calculado, faz parte de uma única estratégia publicitária. Tanto vetar (no caso de absorventes necessários) quanto impor (no caso de tratamentos desnecessários) é PROPAGANDA. Duplamente eficaz – assim como ocorre com o Estado Islâmico, que visa recrutar novos militantes galvanizados pela brutalidade do grupo – esta propaganda também pretende atingir e inflamar o seu “gado”.

Tão cinicamente quanto aqueles terroristas, a extrema-direita brasileira aposta não somente no temor de seus inimigos, mas, a longo prazo, em sua reação: a violência da esquerda não poderá senão reconfortar a retrógrada e sempre conveniente fobia do “comunismo”. E justificar, depois, o seu combate pelas armas.

A extrema-direita anticonstitucional – aquela que nega o Estado laico com o hipócrita “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos” – constrói a grande estratégia de tensão para mergulhar o país numa barbárie sem fim.

Até a próxima, que agora é hoje e já sabemos que Marine Le Pen perderá as eleições francesas em 2022. O seu pai tinha razão. Quando Jean-Marie Le Pen viu a filha “desdiabolizar” o partido, ele afirmou: “uma extrema-direita boazinha não interessa a ninguém!”

‘ARTE MENSTRUAL’ PARA O PRESIDENTE

 

Cinco contas Instagram celebram a menstruação, uma estação de metrô na Finlândia expõe esta arte e, no mundo inteiro, centenas de artistas, militantes feministas ou não, criam em torno do assunto. Veja a galeria:

 

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E o desastre não é só político

Nunca usei estes selos. Guardo-os há quase duas décadas, porque contém a efígie de um herói que sempre admirei. Hoje, no Afeganistão, quando os direitos humanos se encontram em perigo, as mulheres correm risco, a liberdade do povo está ameaçada e o país caminha de modo a se tornar um estado pária, o meu pensamento vai ao comandante Massoud. E à sua visão que, na nossa época, não é mais modelo a povo de país algum – Brasil, França e Estados Unidos ainda menos. 

Elevado ao posto de herói nacional em seu país, após o seu assassinato aos 48 anos, Ahmad Shah Massoud foi o grande líder militar que expulsou os soviéticos. Engenheiro cultíssimo e poliglota, descrito em livro por sua mulher, como pai e marido amoroso e fiel, o “Leão de Panjshir”, como era chamado, amava ler, possuía uma biblioteca com 3.000 livros. Admirava Charles de Gaulle, assim como Victor Hugo e a poesia persa clássica. Jogava futebol e xadrez.

Num país cuja tradição restringe o direito das mulheres, Massoud foi um progressista em seu favor. Jamais transigiu. Ele tinha um só desejo para o Afeganistão: que fosse um país pacífico com boas relações entre todas as etnias e os países vizinhos.

Este não é mais o paradigma daquele país, que já está bem longe do momento em que a democracia desempenhava o seu papel, quando ajudava o povo afegão de estudiosos, místicos e cavalheiros a lançar, se quisessem, as bases de um Estado de Direito.

Não é mais modelo na nossa época, em país algum. Estamos entre a esquerda e a direita na França e no Brasil, democratas e republicanos nos Estados Unidos, ricos e proletários em todos os países, anárquicos, insubmissos, soberanistas, individualistas, adeptos da cultura woke ou do egoísmo nacionalista revisitado. Estamos, enfim, num globo onde quase todos parecem achar normal que a fraternidade não tenha mais o seu lugar, que o respeito do direito seja prerrogativa de um clube de nações ricas e que o Ocidente amuralhado se despeça tranquilamente do resto do planeta.

Até a próxima que agora é hoje, e o desastre no mundo de hoje não é só político, é também intelectual e moral!

Esta alameda para pedestres, localizada no 8º arrondissement de Paris, fica no jardim da Avenida Champs-Élysées. Foi inaugurada no dia 27 de março de 2021.

‘Judeu bolsonarista’ é oximoro

Além de os dois avós de Beatrix Von Storch terem, cada um à sua maneira, tirado proveito do nazismo, ela mesma representa a “linha dura” do partido populista alemão AfD2. É uma pária absoluta no mundo democrático. O discurso antieuropeu e antidemocrático desta política extremista em “apoio a Israel”, no parlamento alemão, é mais do que discutível. Faz sentido a aliança do seu partido racista, homófobo, xenófobo e antissemita, com o presidente brasileiro. 

Beatrix Von Storch, descendente de nazistas, escreveu em sua página Facebook que o asilo a pessoas que entram na Alemanha deve ser recusado e que se elas “não aceitarem a ordem de parar na fronteira, os policiais deveriam atirar com armas de fogo, seja em mulheres ou crianças.”

Esta mulher é descrita por cientistas políticos como, acima de tudo, “uma reacionária desinibida, homofóbica e violentamente xenófoba, movida pelo desejo de uma cruzada contra o Islã.”

Beatrix Von Storch é uma conservadora no seu pior, mais obsoleto e obscurantista sentido. Mais fundamentalista do que os próprios islamistas que caça. Oponente, é claro, do casamento entre pessoas do mesmo sexo, contracepção e aborto, a bolorenta criatura diz que “chorou de alegria” com o anúncio do Brexit. Além disso, “grande defensora da igualdade de direitos”, é contra a presença de jogadores de origem imigrante na seleção alemã de futebol.

No início de 2016, durante os debates sobre um projeto de lei para refugiados, esta descendente de nazistas (dotada de igual caráter e ideologia), escreveu em sua página Facebook que o asilo a pessoas que entram na Alemanha deve ser recusado e que se elas “não aceitarem a ordem de parar na fronteira, os policiais deveriam atirar com armas de fogo, seja em mulheres ou crianças.”

Para Von Storch, Le Pen é ‘esquerdista demais’

Quando perguntada sobre a proximidade entre o seu partido e o de Marine Le Pen, a alemã análoga ideológica de Bolsonaro, respondeu que a francesa é “esquerdista demais” e “não aprova as suas ideias sobre o protecionismo e intervencionismo do Estado”. Por outro lado, Beatrix von Storch apoia a extrema-direita israelense. E apoia todas os extremistas com quem se identifica.

O atroz presidente do Brasil escondeu este encontro amistoso  onde foram servidos suco, vinho e sanduíchinhos, e do qual participaram o filho Bananinha, o marido da herdeira do nazismo, um deputado estadual mais conhecido como “Carteiro Reaça”, e outros dois convidados, além do ajudante de ordens do atroz, um tenente-coronel qualquer.

É claro que o atroz escondeu a festinha: afinal, a neta do Ministro das Finanças de Hitler foi clara quanto aos objetivos do encontro. Escreveu nas redes que está conversando com esse tipo de políticos para conseguir a adesão de aliados ao seu partido racista, homófobo, xenófobo e antissemita. E Bolsonaro, segundo ela, “é o ideal”.

De outro lado, como se vê, o atroz presidente brasileiro também busca aliados no mundo internacional da extrema-direita racista, homófoba, xenófoba e antissemita, para a campanha que já começou a fazer.

“Judeu bolsonarista” ou “judeu de extrema-direita” é uma combinação contraditória de palavras. Um oximoro, porque  o judaísmo baseia-se em princípios humanistas. Até a próxima que agora é hoje e, se forem realmente coerentes, os judeus que votarem em Bolsonaro em 2022, deveriam, antes de qualquer coisa, se converter!

O Ministro da Propaganda Joseph Goebbels discursa, em 1939. Atrás dele, da esquerda para a direita, estão o Ministro das Finanças Lutz Graf Schwerin Von Krosigk, avô de Beatrix, o presidente do Reichsbank Hjalmar Schacht e o Ministro da Guerra Werner Von Blomberg. (AP Foto)