Brexit: que consequências para a arte?

Os artistas ingleses, e todos os que defendem o poder revolucionário da arte, sentem-se decepcionados e apreensivos com o retrocesso que o Brexit representa. Seria bom se continuassem vigilantes. Agora que já conhecem a má resposta sobre o destino do país deles e da Europa, vai ser preciso que se movimentem também em torno das mil questões inquietantes que ainda não têm solução como, por exemplo: o que vai ser dos imigrantes poloneses, em Londres, que já começam a sofrer com o racismo e a xenofobia das camadas populares?

Imagem: Poster de Rankin, encomendado para a campanha oficial “Britain Stronger In Europe”, em 2016.

Mas deverão se preocupar sobretudo com o terreno deles e as finanças públicas do Reino Unido.  No campo das artes plásticas (e artes em geral), as previsões* são funestas. Os impostos e taxas aumentarão, obrigando os colecionadores a deixar o país para evitar a tempestade fiscal. Os tesouros artísticos deixarão os museus nacionais que, por sua vez, farão o público pagar mais caro as entradas. Como os emprestadores de obras aos museus exigem a gratuidade das visitas, não haverá mais empréstimos. Ocorrerá, portanto, um duplo êxodo de obras de arte: dos colecionadores e dos museus. O Brexit certamente acarretará, por outro lado, numa interrupção unilateral das subvenções aos meios artísticos e terá efeitos perversos sobre a criatividade, assim como sobre a independência artística da nação.

Claro que o VAT (ou GTS, o imposto indireto sobre o consumo) será aumentado. O Estado vai se fixar nesta taxa fácil de ser elevada para deter o sangramento. Os compradores potenciais de arte na Grã-Bretanha serão penalizados. O país sofrerá o desmoronamento de sua capacidade de atração fiscal, o que havia feito de Londres um dos melhores lugares do mundo para a arte. Como a barreiras alfandegárias com a Europa serão restabelecidas, os europeus não comprarão mais na Grã-Bretanha por causa da reintrodução das taxas de importação relativas aos países de seu domicílio.

As casas de leilões, cujo pessoal viaja e trabalha entre Londres e o continente, deverão rever todas as suas estratégias de relações financeiras e comerciais com ele. As galerias e todos os ofícios que gravitam em torno da arte serão também sinistrados pela queda da libra, o que tornará as suas compras no estrangeiro mais onerosas.

O mundo da cultura está apreensivo com a ameaça que o Brexit representa

Os trabalhos reproduzidos aqui são protestos feitos em 2016 por artistas como o escultor Antony Gormley (presente na Bienal de São Paulo em 1983, e no CCBB em 2012), Tacita Dean, o famoso ilustrador Axel Scheffler e o fotógrafo Rankin. Eles faziam parte dos 14 nomes, internacionalmente conhecidos, que realizaram pôsteres para que o Reino Unido se mantivesse na Europa. Entre as obras encomendados pela campanha oficial Britain Stronger In Europe, encontravam-se igualmente as de Michael Craig-Martin, Bob & Roberta Smith, Dog & Rabbit, Eva Rothschild, Michael Tierney, Jon Burgerman e Wolfgang Tillmans, além de duas peças de Jefferson Hack e Ferdinando Verderi.

Política ou não, mesmo quando está ao alcance do povo, certa arte evidentemente é erudita e não “popular”. A cultura, como se sabe, é minoritária. Uma vez mais, portanto, o reflexo nacional-populista “contra as elites” sacrificará a arte e a cultura em nome de aspirações demagógicas. Os riscos de retrocesso e obscurantismo estão presentes em toda parte, tanto no Reino Unido e na Europa quanto no Brasil, sendo que neste país acrescenta-se a trágica invenção ideológica da luta imaginária contra um “marxismo cultural” inexistente. Até a próxima, que agora é hoje e o futuro de nossos países não pode estar mais ameaçado!

*Segundo o macroeconomista Michel Santiexpert em mercados financeiros e bancos centrais.

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