Racismo antifrancês

Vira e mexe recebo mensagens de brasileiros com menção aos atos antissemitas que ocorrem, não no resto do mundo, mas apenas na França. Cheguei a cortar relações com um crítico de arte recém-falecido porque, mesmo sabendo que eu não apreciava aquilo, ele me assediava semanalmente até com notícias antigas, quando não encontrava recentes. De quatro possibilidades, uma. Ou, quem sabe, todas juntas:

  1. Certos brasileiros têm um “problema” consciente ou  inconsciente com a França.
  2. Querem me alertar, “por amizade” que eu, uma franco-brasileira, “moro no país errado, o mais antissemita do planeta”.
  3. Estão com inveja, porque o Brasil virou uma democratura bananeira e a França continua e é cada vez mais um Estado republicano, civilizado e respeitado internacionalmente.
  4. Gostariam, “por amor”, que eu voltasse ao Brasil.

Imagem: “O galo gaulês (daí, a palavra “galo”) é um dos símbolos alegóricos e um dos emblemas da França.”

A última mensagem que recebi por WhatsApp fazia menção ao ataque a um pequeno restaurante kosher, no 19ème em Paris, onde destruíram mesas de fórmica e picharam as paredes com a cruz gamada e os dizeres “Hitler tinha razão”. Este ato imundo aconteceu no início do mês, durante o grande julgamento dos criminosos vivos e mortos no massacre de Charlie Hebdo, no supermercado kosher e em outros atentados da mesma época, o que fez aumentar o vandalismo antissemita e a ameaça terrorista em Paris e no resto do país.

“Você ouviu falar neste julgamento?”, perguntei à missivista. Ela respondeu: “Não estou acompanhando.” Quer dizer, ela tirou a informação do contexto porque não o conhece, o julgamento do massacre provavelmente não a interessa – ela prefere o lado sensacionalista gênero “antissemitismo francês” – e mandou por mandar, só para ouvir a resposta clichê: “Oh! Que horror!”

A Europa inteira vê crescer o antissemitismo, junto com os “nacionalismos”. Efeito também das manifestações da extrema direita e extrema esquerda (que instrumentalizam os coletes amarelos na França, por exemplo), somadas ao islamismo radical. Respondi, é claro,  enviando links para a situação na Inglaterra e na Alemanha. Poderia mandar muito mais. A França não está sozinha.

Porém, a minha interlocutora brasileira, que é judia evidentemente, não se deu por vencida e respondeu: “Quer dizer que falar que os franceses estão entre as sociedades mais antissemitas do mundo é falso?”

Preconceito e campanha

É totalmente falso. Arqui-falso. Para começar, não existe “sociedade antissemita nacional”. Existem números de antissemitas em regiões ou países. E há maior ou menor repressão ao antissemitismo, e maior proteção constitucional, num país ou noutro.

A França, hoje, é um dos países do mundo onde a repressão ao antissemitismo é a mais forte, e a Constituição é muito clara, por causa de sua história, justamente. As leis e a Carta Magna são duríssimas. Todas as datas históricas do Holocausto são comemoradas oficialmente e noticiadas; documentários e filmes aparecem, de maneira obrigatória, em todas as televisões.

Há, além de outras organizações de defesa, o CRIF que trabalha junto ao governo francês, federando mais de 60 associações. Não conheço o número de antissemitas na França, mas os especialistas em Europa sabem que é na Áustria, Polônia e Hungria, onde encontra-se o maior número deles, inclusive em seus governos. E onde as leis contra o racismo são mais brandas.

Dizer que os franceses estão entre “as sociedades mais antissemitas” não só é mentira, como faz parte de um velho e ultrapassado preconceito e uma campanha desenvolvidos depois da guerra por causa da “colaboração” durante o governo de Vichy. Esta parte da história francesa (que não deve e não pode ser amalgamada a uma suposta “índole francesa”) foi uma vergonha e é lembrada hoje em todas as escolas francesas, para que isto não mais se repita. O Holocausto faz parte das matérias obrigatórias nestas escolas, desde a mais tenra idade.

Falsa propaganda

Acontece exatamente a mesma coisa na Alemanha que faz de tudo para se redimir de seu passado, bem mais pesado do que o da França que possui, por outro lado, uma nobre história da Resistência. Quem visitou o Memorial aos Judeus Mortos da Europa em Berlim, pode constatar. É a homenagem mais impressionante que vi em minha vida. O extraordinário Museu Judaico alemão, igualmente.

Algum destes brasileiros sabe que a França possui mais de 60 museus e monumentos comemorativos do Holocausto no seu território? Algum deles  já  visitou o pungente Mémorial de la Shoah, classificado como “monumento histórico”, em Paris? Já visitou o Museu de Arte e História do Judaísmo , também em Paris?

O antissemitismo existe em toda parte, inclusive nos Estados Unidos com os “suprematistas brancos” e a extrema-direita de Bannon, e é uma praga, infelizmente. Mas está na hora desta parte ignorante da sociedade brasileira acompanhar as mudanças que ocorreram em certos países como a França, em vez de ficar repetindo preconceitos e velhas propagandas, como papagaios.

Exagero e mentiras

Ora, a minha amiga não desistiu e voltou com mais uma  perguntinha:  “Por que os judeus franceses são os que mais imigram para Israel?”

Também não é verdade. Isso acabou. Foi assim durante muito pouco tempo porque houve uma política israelense para levá-los para lá e que aproveitou a enxurrada do islamismo radical que os governos franceses anteriores não conseguiam conter. Saíram muitos vídeos fake na época e houve rumores sem fim. Muito exagero, muitas mentiras. Tudo isso foi desmascarado em reportagens muito bem feitas que todos vimos na televisão, artigos de jornal e até mesmo livros.

Alguns dados

Apenas alguns dados: imigração em Israel por país, nas últimas décadas.  A França, como se vê, está em 15° lugar, depois da Argentina e dos Estados Unidos.

URSS – 813.708
Magrebe – 345.753
Romênia – 273.957
Polônia – 171.753
Iraque – 130.302
Irã – 76.000
Estados Unidos – 71.480
Turquia – 61.374
Iêmen – 51.158
Etiópia – 48.624
Argentina – 43.990
Bulgária – 42.703
Egito e Sudão – 37.548
Líbia – 35.865
França – 31 172
Hungria – 30.316
Índia – 26.759
Reino Unido – 26.236
República Tcheca – 23.984
Alemanha – 17.912
África do Sul – 16.277
Iugoslávia – 10.141
Síria – 10.078

 

A dez maiores personalidades e organizações antissemitas do mundo

Segundo o Centro Simon Wiesenthal – ONG reconhecida pela Unesco e ONU, fundada em Los Angeles, em 1997, com representantes nas principais cidades do mundo – as dez maiores personalidades e organizações antissemitas do mundo são:

1. Os Irmãos muçulmanos
2. O regime iraniano
3. O desenhista brasileiro Carlos Latuff
4. O futebol europeu, sobretudo o inglês
5. O partido ucraniano Svoboda
6.
Aurora dourada, o partido grego (acusados ontem, dia 13 pela procuradoria de seu país, como organização criminosa)
7. Jobbik, o partido húngaro, com 47 deputados no parlamento
8. Trond Ali Linstad, médico conspiracionista norueguês
9. Jakob Augstein, jornalista alemão de esquerda
10. Louis Farakhan, líder da organização afro-americana “Nation of Islam” nos Estados Unidos

Como se vê, não há nesta lista, nenhuma personalidade ou organização francesa. 🇫🇷 Até a próxima que agora é hoje e, lembre-se, racismo antifrancês também é racismo!

A praga e seus aproveitadores

A diferença entre as pragas anteriores, deste e de outros séculos, e a calamidade com o novo Coronavírus, é que as precedentes não foram instrumentalizadas e não beneficiaram ninguém. No plano geopolítico, certamente nunca houve na história igual cinismo e sucesso nos negócios de um país onde tudo começou.

Imagem: Detalhe do “Morcego”, personagem do “Romance dos Três Reinos”, obra chinesa escrita no século XIV. Esta ilustração pertence à coleção do Museu do Quai Branly, em Paris.

Não que a China tivesse previsto ou causado a pandemia, no entanto os seus dirigentes compreenderam perfeitamente todos os benefícios que ela obtém e ainda obterá por ter mergulhado tantos países nessa situação.

É preciso lembrar que o vírus vem de uma grande e crescente potência autoritária, onde as virtudes da democracia, para não falar da conviviabilidade, estão longe de terem sido assimiladas. Ali, depois que a tempestade passar, o slogan “primeiro os negócios” certamente será “negócios, como de costume”.

Ganância e falta de gratidão

Bastou assistir a uma reportagem mostrando o seu comércio de máscaras e respiradores, divulgada em horário nobre por France 2, o canal de televisão de maior audiência deste país, para testemunhar a ganância e a falta de gratidão chinesa. Depois de a França ter oferecido grande quantidade de equipamentos de proteção e respiradores de forma gratuita, e de ter enviado também dezenas de médicos, cientistas e enfermeiros para ajudar durante a calamidade de Wuhan, a retribuição da China a este gesto foi ignóbil.

Este país depende tragicamente da China, inclusive para a segurança sanitária. Pequim arbitra, envia seus aviões carregados de máscaras aos que pagam mais… ou aos países mais próximos do seu regime. A reportagem mostrou, enquanto a epidemia atingia os franceses em cheio, os exportadores oficiais chineses como pequenos camelôs de esquina, tentando vender tudo isso ao sistema de saúde francês, de maneira cínica, pelo preço mais alto, tão alto que este país precisou produzir com urgência os seus próprios equipamentos, e pior: os hospitais passaram por tal penúria, que a França foi obrigada a enviar os seus doentes para outros países da Europa.

Esta reportagem repugnante mostrou também os exportadores negociando respiradores de uma maneira abjeta, como se fossem apetrechos de cozinha e não equipamentos para salvar vidas. Quando os compradores do ministério da Saúde pediam um tempo para calcular e refletir, os chineses respondiam: “É bom aceitar e resolver já, pois daqui a uma hora o preço estará ainda mais alto.” Que asco!

Novo coronavírus: um excelente negócio

Creio que a França aprendeu a matéria. Países como a China, infelizmente para seus povos, não devem receber ajuda humanitária. Não têm o menor senso de “bem comum”, jamais colaborarão benevolamente com o bem-estar da humanidade.

Mesmo se o coronavírus atingiu e continua a atingir gravemente a população chinesa, bem além do que revelam as estatísticas oficiais, ele é para os dirigentes chineses um excelente negócio. Pouco importa àqueles que tratam o seu povo como gado, que 100 mil morram ou mais; e que o começo da epidemia em Wuhan fosse objeto de negações enérgicas, e medidas de sufocamento. Os infelizes que alertaram foram obrigados a silenciar, e todo rumor foi reprimido.

A China minimizou a epidemia, demorou para alertar a opinião, mentiu sobre os números, escondeu o número de mortos que foram amplamente subestimados. Beneficiou do amparo sem falha da OMS, cujo presidente está lá justamente por causa do seu apoio. Homem que é um verdadeiro demônio, cúmplice dos piores violadores dos direitos do homem e genocidas, como aponta este artigo de Julio Ariza (em espanhol), que precisa ser traduzido urgentemente e publicado em algum jornal brasileiro.

Quando a verdade veio à tona, o governo chinês posou como “salvador da pátria, herói e grande capaz em face das democracias ocidentais desorganizadas, negligentes e mal preparadas”. Pura propaganda. Até hoje ninguém sabe o que se passa ou passou por lá, sendo que é da China a responsabilidade da eclosão e propagação de mais este vírus, novamente por causa da sujeira e promiscuidade de seus mercados. Mesmo depois do SRAS (2002) et do H1N1 (2009) aquele país ainda não aprendeu a lição.

Os chineses esfregam as mãos

Não que o presidente Xi Jinping tenha querido este vírus. Claro que não. Mas dá para desconfiar que os dirigentes chineses compreenderam rapidamente o enorme benefício que poderiam tirar de uma pandemia em escala planetária: uma Europa com a economia duramente afetada e enfraquecida pelas falências em cascata de empresas, bancos, governos e talvez instituições; os Estados Unidos igualmente em grave recessão, a Índia, os países da África e o Brasil (onde o desastre ainda está por vir), todos incapazes de circunscrever a praga e confinar suas populações … Quantos milhões de mortos, no final, o planeta contará?

Como sempre, serão afetados sobretudo os mais pobres. Está errado dizer que o vírus é igual para todos. Obviamente ele tem uma forte preferência pelos habitantes das favelas e de áreas que já sofrem. Quantas perdas a Índia, África e a América do Sul registrarão? Nos Estados Unidos, são os negros, como sabemos, que hoje detêm o triste recorde de infecção. No Brasil, um presidente psicopata profetiza mais danos à economia do país do que à sua população. Ele e Trump poderão se felicitar por este eugenismo soft. Afinal, o novo Coronavírus os livrará de bocas inúteis e dos esfarrapados.

Até a próxima, que agora é hoje e enquanto isso, os chineses esfregam as mãos… mesmo sem gel. Especialmente quando sonham com as compras que poderão fazer em uma Europa ferida, e em uma África à beira da falência!

Médico da peste em Marselha, em 1720