A mentira é melhor do que a verdade

O mal desta época da pós-verdade, neologismo que descreve a evolução das interações entre a política e as redes sociais, é a mentira. Hoje, mais do que nunca, ela serve para atacar adversários, destruir reputações, agrupar e separar pessoas, formar comunidades, vender produtos e, entre outras coisas, ganhar eleições.

Imagem: Nicolas Poussin (1594 -1665), “O Tempo tira a Verdade dos ataques da Inveja e da Discórdia”, 1641. Quadro encomendado pelo cardeal Richelieu (1585-1642) para o teto do atual Palais-Royal, em Paris. Museu do Louvre. Foto © R.M.N./P. Bernard

A mentira prospera na Coreia do Norte, Rússia, Oriente médio, entre a extrema-direita, extrema-esquerda em toda parte, e no meio dos coletes amarelos na França. Sabemos que a mentira foi a principal responsável pela vitória do Brexit, de Trump e outros presidentes. Vire e mexe a imprensa internacional aponta a mentira como razão primordial do êxito de Jair Bolsonaro. Trump continua tuitando inverdades que são desmentidas a cada vez. Já se tornou um esporte.

A mídia mundial perde espaço, tempo e mão de obra em seções dedicadas a desmentir fake news. Às vezes produzem outras fake news, como quando o jornal Le Monde desmentiu as acusações de que em determinado subúrbio francês não existem mais judeus por causa das hostilidades antissemitas. Existem, mas agora em número infinitesimal, e isto o jornal não publicou porque não convém.

A verdade é feia

A indústria da mentira prospera, o tribalismo nas redes e na mídia marrom aumentam e consequentemente a democracia está em falência. Tudo isso porque a mentira é melhor do que a verdade. “A verdade é feia”, já falava Nietzsche. Geralmente é desagradável, faz mal, traz dúvidas e não convém. A mentira representa exatamente aquilo que se quer ouvir.

O que poucos suspeitam, entretanto, é o destino negro de quem acredita em mentira, é influenciado por ela ou a pratica: a perda total e definitiva de sua liberdade. E é bem feito para ele! Até a próxima que agora é hoje, e como dizia o escritor e dramaturgo russo Anton Tchekhov (1860-1904), “não existe razão que justifique a mentira”!

Nicolas de Courteille, “A Verdade que traz a República e a Abundância” (1973) Vizille, musée de la Révolution française. Foto © RMN-Grand Palais / Michèle Bellot
Ilustração de Emmanuel Pierrot, para o jornal Libération de 6 de Fevereiro, 2019.

 

Lula, a morte e a política: devemos nos indignar?

Como para milhares de indivíduos que não se detêm para refletir, ao ver as imagens do velório e ouvir o discurso de Lula, a minha primeira reação foi pensar que era deplorável aquele “faturamento político” da morte da ex-primeira-dama. Porém, antes de me indignar e julgar, resolvi me dar o tempo de pensar. Além do mais, esta é uma questão que toca a arte.

Imagem: Philippe Pasqua (1965), Vanité.

É uma questão que toca a arte porque trata de reflexão, julgamento e sobretudo empatia que, do ponto de vista psicológico, é o processo de se colocar no lugar do outro assim como de um objeto artístico para compreender emocionalmente o seu comportamento e significado. E do ângulo social ou estético é uma forma de percepção do objeto ou da pessoa que está fora de nós, do ponto de vista dela mesma – e não de nós.

Como para milhares de indivíduos que não se detêm para refletir, ao ver as imagens do velório e ouvir o discurso de Lula, a minha primeira reação foi pensar que era deplorável aquele “faturamento político” da morte da ex-primeira-dama.

Porém, antes de me indignar e julgar – o que teria sido mais fácil pois nunca defendi este personagem, suas ações e ideias; ao contrário, gostaria, isto sim, que respondesse em Justiça pelo que fez, não fez ou deixou de fazer – resolvi me dar o tempo de pensar. Afinal, quem somos nós para “moralizar”, se para Madame de Staël e Tolstói “tudo compreender é tudo perdoar”?

Além disso, tenho horror à chamada “moralina”, neologismo inventado por Nietzsche que designava uma certa moral cristã com a qual a burguesia “bem-pensante” do século 19 se vestia para camuflar melhor a sua rapinagem, autorizar o seu poder e continuar a explorar os pobres em nome de Deus.

Hoje, infelizmente ainda grassam os espíritos bem-pensantes e a “moralina” continua. Somos obrigados a beber pelo menos três copos por dia de ideias convencionais e padronizadas, tanto na imprensa quanto nas redes sociais.

Devemos nos indignar?

Para refletir, não levou mais do que alguns segundos. Nem precisei de muito esforço. Porém, mais do que entender o suposto “faturamento político da morte” por Lula, percebi o quanto falta de compreensão da alma e psicologia humanas mesmo em especialistas respeitáveis. Compreendi que alguns “pundits”, experts e líderes formadores de opinião – célebres gurus das redes sociais – precisariam, tanto quanto os políticos, de uma boa injeção de responsabilidade! Estes analistas de eventos na mídia popular transmitem falsas expectativas e julgamentos breves, não raro errôneos e levianos, a milhares de “carneirinhos automáticos” que os compartilham e “curtem”.

Contudo, será que é tão difícil captar, por empatia, que para alguém que come, bebe, fuma, dorme e ama política, não existe compartimentação entre os setores da sua vida? É tão complicado perceber que um homem primário que se casa, tem filhos, se veste, anda, ri, chora, fica são, cai doente, vive e vai morrer politicamente e só politicamente – que este indivíduo intelectualmente limitado e a política são uma coisa só? Se nem a participação de um Papa pode ser outra que a religiosa, como esperar uma configuração e consciência apenas humanas, num velório onde as pessoas envolvidas não têm outra dimensão senão a política?

Não tenho a menor intenção de defender Lula. Gostaria apenas de apontar os pseudo-moralizadores, destiladores constantes de “moralina” que se indignam com tanta rapidez e facilidade, sempre julgando sumariamente o que ou quem detestam, a partir de si mesmos, sem jamais se colocar no lugar do outro. Objetividade e justiça só podem nascer da aptidão de não projetar as próprias suposições, impressões e valores, mesmo quando o objeto é odiado.

Até a próxima que agora é hoje e tremo só de pensar em como que esses “gurus” julgariam obras de arte, caso a tarefa lhes fosse apresentada. Se é tão difícil para eles tomar alguns segundos do seu tempo para pequenos exercícios de empatia e reflexão, imagino como veriam a arte!