Paris é uma festa, mas… desta vez um colunista a perdeu

Não existe festa, sem arroz de festa. Na sua última coluna, Leandro Karnal redescobre Paris depois do “impacto inicial há quase 30 anos, apesar de ter estado aqui muitas vezes”. E, como se faz com pouca geleia em bastante torrada, no mais puro estilo didático, tenta traçar o processo histórico na construção da imagem da capital francesa. Algumas sequências são simpáticas e pitorescas, a geleia é colorida, mas ele espalha informações das quais ao menos uma deve ser ajustada e outra corrigida, penso eu.
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André Malraux e a ideia do “Museu imaginário”

Diz ele que “no século 20, o último remodelador expressivo foi o socialista Mitterrand e, entre suas obras, vemos o arco de La Défense e o museu d’Orsay.” Aqui, o colunista cita o último, e não fala do primeiro, no mesmo século, que abriu o caminho e sem o qual Mitterrand, mesmo se realizou muito, não teria conseguido fazer grande coisa.

Ora, o primeiro foi André Malraux no governo de Charles de Gaulle. Sendo que hoje “a grande obra” de Mitterrand, muito mais do que “La Défense” ou o “Museu d’Orsay”, como diz Karnal – e mesmo a Ópera da Bastilha, o Palais-Royal (“Les Deux Plateaux”), o Parc de la Villette, o Grande Louvre, o Instituto do Mundo Árabe e o Ministério da Economia e das Finanças – é a Biblioteca nacional da França (BnF), a maior deste país e umas das mais importantes do mundo.

Malraux, o autor de O Museu imaginário (ensaio editado em 1947, e depois em As Vozes de Silêncio em 1951), foi o primeiro a ocupar um órgão oficial de cultura na França. O seu “ministère des Affaires culturelles” agrupava artes, letras, arquitetura, arquivos e cinema. Deu um impulso totalmente novo à restauração e proteção dos monumentos, sítios históricos e bairros inteiros. Criou o inventário das riquezas artísticas, estimulou e descentralizou o teatro, multiplicou os locais de exposições, ofereceu “securité sociale” aos escritores, reformou o ensino de arquitetura e música, criou a “Caisse Nationale des Lettres” e o Centro Nacional de Arte Contemporânea”, favoreceu as artes vivas, museus, música e cinema (“Art et Essai”). André Malraux fundou a Bienal de Paris, apoiou Matisse, Braque, Picasso, Giacometti, encomendou obras públicas a André Masson e a Marc Chagall, enviou a Mona Lisa aos Estados Unidos, não parou de fazer a cultura francesa ser divulgada no mundo inteiro. Se intervenção do Estado é bom ou ruim para a criação cultural ou artística, esse é outro assunto. O fato é que até hoje ninguém fez mais pela “imagem da capital francesa” e sua cultura que, aliás, continua colhendo os seus frutos.

O problema de certas visões exteriores é que elas se fundam em estereótipos antigos

O colunista diz ainda (e com que segurança!) que “Paris é uma das maiores concentrações de idosos isolados em apartamentos”. Diz ele que “aqui se descobre que as pessoas morrem, pelo cheiro”. Não sei em que estudo recente se apoiou e onde ouviu tamanho absurdo. Ou, se criou esse clichê apenas porque coisa parecida aconteceu com o seu professor na USP, Gérard Lebrun, filósofo e historiador francês que faleceu em Paris, não exatamente “idoso” mas de maneira precoce pode-se dizer, aos 69 anos. Aliás, Danièle Lebrun, sua irmã, é uma conhecida atriz de quem os franceses e eu gostamos muito.

Certo, Paris concentra (assim como todas as grandes metrópoles) pessoas desacompanhadas, de todas as idades, muitas realmente solitárias e isoladas. Os idosos, porém, há 13 anos – justamente após a canícula de 2003 – hoje são tratados, na capital e na França inteira, talvez como em nenhum outro país do mundo.

Serviços oficiais e extraoficiais especiais, vigilância reforçada de todos os setores, associações, ONGs, benevolência, “securité sociale”, SAMU social (sobretudo no inverno), todas as camadas da sociedade francesa estão conscientes e agem individual e coletivamente contra o isolamento. Hoje, praticamente todos os idosos na França são seguidos de maneira obrigatória, recebem telefonemas e visitas diárias (especialmente em caso de crises climáticas), ajudas domiciliares subvencionadas pelo governo (por meio de suas regiões e prefeituras), controle médico e refeições.

Somos testemunhas disto, não apenas com familiares mas com amigos em Paris e na província. O trágico filme “Amor” (Amour, 2012, Michael Haneke) do qual o colunista diz lembrar a propósito deste assunto, e que trata de um casal de professores aposentados de música da grande burguesia, não tem absolutamente nada a ver com a questão. Verdade seja dita, muito ao contrário.

O problema de certas visões exteriores acerca da Europa, e da França em particular, é que não raro elas se fundam em estereótipos antigos, mas tenazes, aos quais escapam as evoluções extremamente rápidas e recentes de suas sociedades.

Até a próxima, que agora é hoje e tomara o Brasil seguisse o exemplo do Welfare state (Estado de bem-estar social), modelo de governo que por felicidade sobrevive aqui, ainda que a duras penas!

 

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