Um mestre da pintura

Johannes Vermeer, O Astrônomo, Paris, museu do Louvre, departamento de Pinturas © RMN-Grand Palais (musée du Louvre) / Franck Raux

ESPECIAL PARA O ESTADO

05 Março 2017 | 04h00

Estar subitamente diante das telas de Johannes Vermeer (1632-1675) na mostra que o museu do Louvre inaugurou há pouco não traz a mesma sensação de quando nos encontramos em face de um “mito”. Também não conseguimos relacioná-las a nada. Mesmo associadas às obras de seus contemporâneos holandeses, são únicas. E, ainda que o percurso tenha sido concebido sob o princípio comparativo, por temas que todos desenvolvem de maneira semelhante, as suas pinturas continuam estranhas. Olhar Vermeer, de perto, é uma pausa de estupor.

Vermeer e os mestres da pintura de gênero é o nome desta exposição que se inscreve na linhagem das maiores sobre o assunto, desde 1866 no Palácio dos Champs-Élysées até 1966, no Museu da Orangerie. Consegue a proeza de reunir 12 exemplares, ou seja, um terço dos 36 quadros oficialmente autenticados como de Johannes Vermeer, um dos artistas mais conhecidos do mundo, com tão poucas obras. E, ao mesmo tempo, de revelar as suas relações com outros pintores do seu tempo.

Assim, sob várias temáticas (cartas amorosas, papagaios, instrumentos musicais, afrodisíacos, etc.) também são exibidas as telas dos principais interlocutores de Vermeer no chamado Século de Ouro dos Países Baixos: Pieter de Hooch (1629 – cerca de 1694) Gerard Dou (1613-1675), Gerard ter Borch (1617-1681), Jan Steen (1626-1679), Gabriel Metsu (1629-1667), Frans van Mieris de Oudere (1635-1681) e Caspar Netscher (1639-1684). Nativos de Delft como ele, de Leiden ou Roterdã, quase todos saídos de famílias com tradição artística.

O florescimento daquela sociedade e a homogeneidade destes artistas são flagrantes, assim como a sua coerência estilística. Era frequente receber uma formação rigorosa que permitisse tratar os mínimos detalhes da realidade em telas de tamanho reduzido, de modo que coubessem nos interiores das ricas casas burguesas às quais eram destinadas. Todos são virtuoses da luz e das sombras, do drapeado, dos reflexos em pérolas e até mesmo em cabeças de pregos. Possuem o domínio técnico que restitui a textura de tecidos, os pequenos pontos de um bordado ou tapete, a pátina de móveis, o brilho dos azulejos. Nenhuma fotografia no mundo, a não ser por imitação, seria hoje capaz de transmitir tal veracidade, esplendor e excesso da vida.

Constatamos que Vermeer de fato “dialogava” com os seus conterrâneos, ele que todos pensavam ser solitário, enigmático, a chamada “Esfinge de Delft”. As duas primeiras telas da mostra, penduradas lado a lado, ilustram esta troca de maneira grandiosa. À direita, a Mulher da Balança, de Johannes Vermeer: à esquerda a sua irmã gêmea, A Pesadora de Ouro, de Pieter de Hooch. Ambas, pintadas exatamente em 1664, representam o mesmo tema, em cenários e enquadramentos muito parecidos.

Todavia, enquanto na obra de Hooch o gesto é preciso, a luz é quente, as texturas reais e a cena é linda e ruidosamente narrativa; na de Vermeer, “a pesadora”, grávida, não pesa nada, a balança está vazia, o gesto congelado, a luz é sobrenatural e a cena, ao contrário de uma narração, pende dentro do mais profundo e metafísico silêncio. Hooch destoaria em ambiente com arte contemporânea. Ali, seria um “clássico”. Vermeer combinaria perfeitamente. Ali, permaneceria intemporal, suspenso na história das imagens.

Esta é a pintura de Vermeer, descoberta apenas no século 19 pelo crítico Théophile Thoré-Burger (1807-1869). Paradoxal, quase “pré-conceitual”. Ao mesmo tempo, precisa e imprecisa, complexa e depurada, ascética e magnificente, ritualizada e interrompida, repetida e variada, essencial e contingente.

Dentro de uma atmosfera algodoada, de pintura ora flou ora exata, ela nos dá praticamente sempre os mesmos elementos, luz e delimitação da imagem. Contudo, como dizia Marcel Proust, amamos o que retorna. A repetição não é aborrecida, ao contrário, pode ser um imenso prazer. Warhol certamente entendeu isto: a narração cansa, o demonstrativo satura. Amamos Vermeer porque seus pequenos trabalhos são muito maiores do que nós e… nos repousam.

O Louvre ultrapassado por sua época

Quando estive na apresentação da exposição “Vermeer e os mestres da pintura de gênero” para a imprensa, no museu do Louvre, me pareceu absurda a exiguidade do espaço e a falta de antevisão museológica no caso de uma gigantesca afluência do público. Além do novo e previsível fenômeno da nossa época que é o das visitas culturais em massa, quem não gostaria de ver de perto um terço de toda a célebre obra do mestre de Delft, sobretudo a amada “Leiteira”?
Comuna de Paris, 24 de maio de 1871, incêndio no Louvre/Palácio das Tulherias
Comuna de Paris, 24 de maio de 1871, incêndio no Louvre/Palácio das Tulherias

Como as obras são de pequeno porte, ao tentar observá-las de perto – mesmo com poucas dezenas de jornalistas – cheguei a levar uma ou outra cabeçada e algumas cotoveladas. Imagino aquelas salas agora, com várias centenas de visitantes em rodízio. O resultado não poderia ser diferente. Se por um lado, em apenas alguns dias, a exposição obtém um sucesso jamais alcançado, por outro lado é uma catástrofe também inigualável!

Inventaram a fórmula do “bilhete único” por 15 euros, para ver a Mona Lisa e o resto do museu, com hora marcada para Vermeer. Não adiantou. O povo, enlouquecido, só quer Vermeer. No primeiro dia, 22 de fevereiro, 9 400 pessoas conseguiram “perceber ligeiramente” o holandês. Isso, levando muito mais cotoveladas e cabeçadas do que eu, depois de ficar em pé na fila durante 3 ou 4 horas. Mesmo as grandes exposições do passado jamais atingiram a metade deste número…

Os que conseguiram “vislumbrar” Vermeer tiveram sorte. O resto ficou na porta, mesmo tendo pago o bilhete, sem poder entrar. Até mesmo a bilheteria online teve que fechar. O público gritava, os funcionários do museu corriam de um lado para outro, sem saber o que fazer. E essa bagunça dura até hoje.

O Louvre não está pronto para o turismo desenfreado

Seguindo o exemplo da Fundação Louis Vuitton – cuja mostra “Coleção Chtchoukine” termina no domingo, dia 5, depois de ter recebido 1,2 milhões de visitantes – o Louvre prometeu que tudo entrará nos eixos no dia 6, segunda-feira. Segundo os responsáveis, com as reservas (online) de horários definidos, a espera não excederá 45 minutos. Isto, para quem conseguir um bilhete, é claro. Mas também há a possibilidade de aparecer sem reserva, correndo o risco de esperar… e não ver Vermeer.

O Louvre, que não está preparado para ataques – nem de terroristas nem de Trump (tuitando mentiras contra o museu e Paris) -, que perdeu 2 milhões de visitantes em dois anos porque 80% deles são turistas, também não está pronto para a massa.

Junto com Vermeer, inauguraram-se duas exposições maravilhosas, uma das quais roubou um enorme espaço vizinho que poderia ter sido dado aos “mestres da pintura de gênero”. Estas mostras de Valentin de Boulogne (1591- 1632) e de onze telas de Rembrandt (1606 -1669) na coleção Leiden, deveriam ter sido inauguradas em outro momento. Estão praticamente vazias e se alguém quiser visitá-las, será obrigado a passar pela mesma fila de Vermeer.

Os projetos deste museu são varridos pela voracidade por “grandes nomes” e pelo turismo desenfreado. Culpa da nossa época? Na minha opinião, culpa sobretudo deste museu que não aprendeu a lidar com ela.

Até a próxima, que agora é hoje e dá pena saber que, segundo a previsão, 400 000 verão Vermeer, quando o número de pessoas que pode acolher uma grande instituição cultural como esta, se for bem organizada e equipada, é três vezes maior!

 

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