Na França, o grande kitsch temático da arte

“A França é um gigantesco parque de diversão para turistas russos, indianos ou chineses.” (Michel Houellebecq, em “O Mapa e o Território”, 2010)
“Em cinquenta anos, vejo a França como um grande parque turístico.” (Gerard Depardieu, ator, em entrevista de 2016)

Até mesmo as artes plásticas possuem o seu parque de diversão. Ao lado de Disneyland Paris, Puy du Fou, Futuroscope ou Parque Asterix, há o “Les Carrières de Lumières”, lugar dedicado ao que chamam de “exposições de arte imersiva”. De Michelangelo, Leonardo, Bosch, Klimt, Monet, Renoir e Chagall, até Gauguin e Van Gogh, milhares de telas gigantes são projetadas em 7,000 metros quadrados como em uma coreografia, sob fundo musical clássico e moderno.

O “Les Carrières de Lumières”, inaugurado em 2012, fica em Les Baux-de-Provence, comuna turística perto de Provença-Alpes-Costa Azul. Apresenta neste momento, o espetáculo “Bosch, Brueghel, Arcimboldo. Fantástico e maravilhoso” (até 7 de Janeiro de 2018). O nome não é muito original e a exposição tampouco. Como em desfile alegórico de rua ou uma narrativa de narrativas (o que é bastante redundante) 2 mil imagens movimentam-se pelos muros, no espaço de 7,000 metros quadrados, durante 30 minutos. E tudo isso sob fundo musical de Carmina Burana (Carl Orff), Quatro Estações (Vivaldi), peças de Mussorgski e Led Zeppelin.

Difícil adivinhar o que a grande arte e a imaginação sem limites dos grandes mestres do século 16 fazem nestes cenários, músicas e animações, já que não são roupas ou acessórios de moda como as que foram mostradas na linda e feérica retrospectiva Christian Dior.

Ver esses trabalhos transformados em clipe tridimensional é triste! Pior do que ouvir os “remix” musicais onde os DJ’s desrespeitam compositores e intérpretes.  Ao dar volumes reais aos volumes virtuais dos artistas e outros truques, os virtuoses espertalhões esvaziam a linguagem dos mestres, transformando obras-primas em assombrosos e gratuitos exercícios técnicos.

Fica como se o Jardim das Delícias, a Tentação de Santo Antônio (telas de Hieronymus Bosch) e outras preciosidades como as frutas de Giuseppe Arcimboldo ou as festas campestres de Brueghel, fossem ilustrações ou decorações para a grandiloquência artificial e sensacionalista de um show de cabaré. Certo, pode ser muito bonito, mas será que estas maravilhas pictóricas (em si) precisam de “efeitos especiais” para que cheguemos a elas?  Até mesmo uma pequena reprodução em cartão postal pode ser mais fiel à nossa percepção…

De 2012 para cá, o lugar atraiu mais de 2,1 milhões de visitantes. O sucesso levou a instituição a abrir uma filial deste seu “parque temático” kitsch numa antiga fundição do século 19 em Paris, onde será inaugurado em abril de 2018. Mais de 3,300 metros quadrados serão dedicados a estes shows feitos com a técnica AMIEX® (Art & Music Immersive Experience).

Até a próxima que agora é hoje e os que se vendem ao mundo do espetáculo, ao invés de levar arte ao povo – em nome da diversão, vulgarização e consumo – acabam por afastá-lo cada vez mais da verdadeira experiência estética!

 

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Uma das piores exposições da minha vida

Nunca imaginei que um dia visitaria uma retrospectiva de centenas de obras de Bernard Buffet (1928-1999), no principal espaço do Museu de Arte Moderna de Paris. Buffet está para a vida mundana e a pintura assim como Johnny Hallyday para o rock, e esta sua “reabilitação oficial” só pode ter sido feita por uma espécie de esnobismo estético que dá relevância à insignificância para preencher lacunas, inventar tendências, criar alarde. Ou, talvez, por outra razão mais proveitosa …
Retrospectiva Bernard Buffet, no Museu de Arte Moderna de Paris.

Não que Buffet pudesse ser classificado como expoente da “má pintura” voluntária, de significados, como o foram Philip Guston, Leon Golub, William Copley, Neil Jenney ou Judith Linhares, entre outros. Nem isso. Buffet se considerava “grande” no sentido clássico, herói do equilíbrio e instinto natural. Foi elogiado nos anos 1950 por críticos da envergadura de Jean Grenier. Se a sua produção em série, padronizada, resulta muito ruim e completamente vazia depois de 1955, não é apenas uma questão de gosto. É porque, intrinsecamente, ficou ruim e vazia de fato.

Era o começo da sociedade do espetáculo. Vítima talvez do sucesso comercial e reconhecimento do “grande público”, este artista já milionário não mais pintava cores, preenchia com tinta; não desenhava, traçava duro; não desenvolvia temas e poesia, literatejava mediocridade e pieguice; não improvisava, sistematizava; não interpretava, caricaturava; não criava, imitava-se fabricando centenas de “buffetzões” e “buffetzinhos”. Muitas vezes copiava mestres como Soutine ou Ingres, pastichando em vez de se inspirar em sua obra. Verdade que trabalhava compulsivamente. Nem sempre obsessão é qualidade. Buffet trabalhou cada vez mais, e pior, até o final.

Como se ignorasse tudo que a arte conquistou em sua época, assinava os seus quadros rebuscadamente, na parte mais visível, desrespeitando os próprios motivos, como se o seu nome fosse uma pequena marca de produto muito mais importante do que as telas, no mais puro estilo da Praça de Tertres (em Montmartre), onde os artistas trabalham para turistas.

Conceitos vagos e bons sentimentos sempre agradam mais do que arte

Concessão ao sucesso de público e ao mercado, talvez, o fato é que esta exposição (até 26 de fevereiro) tenta elevar uma obra não importante ao patamar de “arte maior”. Só demonstra, todavia, que os profissionais conscientes da sua insignificância estavam certos. Mesmo eles, que foram incriminados pelos defensores de Buffet com os chavões usados até hoje nos discursos políticos demagógicos e populistas pregando, em todo mundo, das mais diferentes maneiras, “coisas e noções simples”. Trata-se, sem dúvida, de uma mostra didática e bem feita como todas as manifestações deste museu. Contudo, do ponto de vista da história da arte, confirma exatamente o que diziam os críticos e artistas “presunçosos”, da “elite”.

Não consegui deixar de fazer um paralelo com a 32a Bienal de São Paulo, cujos detratores – assim como os críticos de Bernard Buffet, aos quais hoje só podemos dar total razão – também foram acusados de “elitistas, alienados e arrogantes”… Até a próxima que agora é hoje, e é claro que facilidade, conceitos vagos e bons sentimentos sempre agradam melhor do que arte. São mais confortáveis e reconhecíveis, porém, ainda que validados por grandes museus ou bienais, não duram para sempre!