Sartre e Beauvoir ‘calavam-se e continuavam’

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir jamais escreveram alguma coisa contra Franco, Hitler ou Mussolini. Calavam-se e continuavam. Como disse um famoso filósofo e musicólogo francês, ‘foi só depois da Guerra que os dois começaram a se engajar. Isso, para fazer esquecer o próprio esquecimento.’

Foto: Jean-Paul Charles Aymard Sartre e Simone Lucie Ernestine Marie Bertrand de Beauvoir, em Roma, 1978.

Assisti a um programa literário de boa audiência na televisão francesa, onde a “expoente da nova literatura francófona” (não é a minha opinião), a franco-marroquina Leïla Slimani, filha de banqueiro que adora o presidente Macron (e confirmou presença na Flip 2018 ) se desmancha completamente falando do novo posfácio que escreveu sobre “O Segundo Sexo” de  Simone de Beauvoir, que todas as feministas – pobres, ricas ou remediadas – adoram… nem sempre sabendo exatamente por que.

Os convidados respondem sem dizer muita coisa e subitamente Dan Franck, verdadeiro escritor que jamais seria convidado à Flip, penso eu, diz: “Simone de Beauvoir? Bem… enquanto ela e Sartre bebiam aperitivos no Café de Flore nos anos 1940, Max Jacob estava morrendo. A ‘guerra’ de Beauvoir em suas memórias é completamente simplória. Sartre e ela jamais escreveram alguma coisa contra Franco, Hitler ou Mussolini. Calavam-se e continuavam. Como afirmou o filósofo e musicólogo francês  Vladimir Jankélévitch(1903-1985), ‘foi só depois da Guerra que os dois começaram a se engajar. Isso, para fazer esquecer o próprio esquecimento.’ ”

Sartre e Beauvoir, bodes expiatórios?

Já se disse tudo e o contrário sobre a atitude de Jean-Paul Charles Aymard Sartre e Simone Lucie Ernestine Marie Bertrand de Beauvoir sob a Ocupação estrangeira. “Collabos”? Resistentes? Expectantes? Ou seja, aqueles que “esperavam em observação”, prática política, sindical ou atitude individual que recusa a inciativa e só toma posição segundo as circunstâncias? De todo modo, a atitude do filósofo e de sua companheira durante a guerra sempre suscitou o debate. Ora, graças a novos documentos descobertos em 2014, Ingrid Galster (1944-2015), grande pesquisadora na Universidade de Paderborn, na Alemanha, coloca tudo em seu lugar. Diz ela: “Sartre ocupou o posto de um professor afastado pelo regime de Vichy. Será que ele não sabia? (…)”

Mas Ingrid Galster se pergunta, sabendo que entra no campo da especulação, se o “super engajamento” de Sartre no livro Reflexões Sobre o Racismo, publicado em 1946, não traduziria também uma espécie de culpabilidade escondida diante de sua indiferença humana durante a guerra. Sobretudo quando se conhece o caso infeliz com Bianca Bienenfeld, a jovem judia com quem Sartre manteve uma relação em 1939.  Na primavera de 1940, quando eles se separam, e que Bianca, desesperada, foi obrigada a se esconder para não ser enviada a um campo de concentração, jamais recebeu um sinal de seu ex-amante.

De modelos, Sartre e Beauvoir tornaram-se bodes expiatórios. Galster explica: “É como se fosse apenas Sartre que tivesse levado toda uma geração ao erro – URSS, Cuba, esquerdismo… Seria injusto. As coisas são mais complexas. Como na Ocupação.”

Mas, voltando ao programa literário, os convidados e o apresentador, depois de ouvir Franck, cuja especialidade é contar magnificamente os bastidores da história e intelectualidade francesa, engoliram em seco. E eu exultei como sempre exulto nas ocasiões em que a verdade histórica destitui o aspecto mítico do qual precisam os tolos para poder fundamentar as suas tolices.

Até a próxima, que agora é hoje e que satisfação quando aparece alguém colocando os pingos nos is!

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir no Café de Flore, em Paris. Fotografias de Brassaï.

 

Site oficial do último livro do autor

 

Feminismo e machismo: lados da mesma moeda

Por coincidência, no dia 9 de Janeiro, data em que foi publicado na França o controvertido manifesto que pede a “liberdade de importunar para preservar a liberdade sexual”, comemorava-se os 110 anos do nascimento de Simone de Beauvoir. A mesma que escreveu e assinou outro manifesto chamado “Eu abortei”, em 1971, junto com Catherine Deneuve, Marguerite Duras, Françoise Sagan e mais 340 mulheres, quando esta ação ainda era passível de julgamento penal e prisão. Beauvoir, aliás, em uma das cartas apaixonadas que enviou ao amante, o escritor americano Nelson Algreen, entre 1947 e 1964, afirmou que “adoraria lavar as cuecas dele”. Eis uma grande, desprendida e exemplar feminista. Talvez não conseguisse salvar da dissensão a futura relação homem-mulher, mas certamente teria assinado o manifesto.

 

Imagem: Cartas de Simone de Beauvoir a Nelson Algreen, um amor transatlântico (1947-1964)

 

A presente declaração não foi escrita nem pensada por Catherine Deneuve, mas conceituada e redigida por 5 intelectuais, apoiada por algumas celebridades, entre as quais a atriz, e assinada por mais de cem mulheres respeitáveis de todas as áreas da cultura. Em resumo, ela começa dizendo que “o estupro é um crime” e em nenhum momento defende ou relativiza o assédio. Deixa claro que “a paquera insistente ou desajeitada não é um delito” e que a “galanteria, de forma alguma, pode ser considerada uma agressão machista”. O texto também não denigre a “palavra liberada” depois do caso Weinstein, embora deplore (com toda razão) o “risco de puritanismo”, moralização e  estandardização, aqueles “modelos únicos de comportamento” que caracterizam a “americanização” de certas sociedades.

O próprio presidente Emmanuel Macron, no dia 25 de Novembro do ano passado, por ocasião do “Dia Internacional da eliminação da violência contra as mulheres”, chamou a atenção para o perigo de se cair num “cotidiano de delações”, e de que “cada relação homem-mulher ficasse sob a suspeita de ‘dominação’, como uma proibição”. O manifesto deste mês, portanto, pareceu límpido, ponderado, digno, respeitoso e cheio de bom senso. Além de ter sido corroborado pela tribuna do New York Times, de Daphne Merkins, uma antifeminista brilhante que manifestou praticamente as mesmas ideias.

Quanto à preocupação das signatárias francesas com a moralização que também codifica cada vez mais a criação artística e literária, em nome do que é ou não conveniente, ela é igualmente legítima para todos nós – críticos, artistas, atores, jornalistas, escritores etc., em toda parte. Quando se trata de “normalizar” a arte, isto não tem outro nome: chama-se censura. Reescrever a ópera Carmem, que transforma a heroína em assassina de Don José, em nome da luta contra as violências sofridas pelas mulheres, não seria igualmente uma violação do artista e de sua obra, em nome do “bem”?

Nem tudo é luta o tempo todo…

Na carta do jornal Le Monde, contudo, o que provocou tal bafafá foi apenas uma frase mal explicada e mais alguns mal-entendidos em desastradas declarações públicas. A tribuna foi acusada, injustamente, de promover a “banalização das violências sexuais” e o desprezo pelas mulheres. Os detratores foram incapazes de assimilar um “outro olhar” sobre a questão. E o linchamento público de uma atriz e mulher da envergadura de Catherine Deneuve, com posições irrepreensíveis, e cuja experiência dramática e literária atravessou um século pelas mãos dos maiores cineastas do mundo, não pode ter sido mais injusto e ignóbil.

Ora, a frase ultrajante estava simplesmente no pedido da “liberté d’importuner” (liberdade de importunar), que deve ser traduzida segundo o seu sentido em francês e não foi. Nesta língua, ela significa “liberdade de galantear e seduzir, inclusive por contato”. Nada a ver com assédio e importunação tal como conhecemos, que é crime. Trata-se da famosa “sedução à la française”. Além da incompreensão semântica, talvez fosse uma certa histeria, misturada com provincianismo e moralismo, que impediu o entendimento de algo que, afinal, é bastante simples. Nem tudo é luta o tempo todo…

Não representou uma surpresa, portanto, o fato de que o manifesto tivesse chocado algumas feministas radicais, assim como certas hipócritas do #MeToo (que denunciaram Weinstein depois que conseguiram o que queriam) ou do #BalanceTonPorc, as “donas da doxa”, as ideólogas e “bem-pensantes” e sobretudo as arrogantes egocêntricas que pensam que falam em nome da humanidade enquanto que só sabem olhar o próprio umbigo.

Atenção amorosa não mata

Pelo jeito, vai demorar bastante ainda para que certas brasileirinhas, francesinhas e americaninhas que se julgam melhores do que as outras e querem impor sua vontade compreendam que o que elas acham e sentem não é necessariamente o que outras mulheres acham e sentem. Umas gostam de mão no joelho e beijo roubado, outras não. E nem sempre isso é crime! Galantear (com maior ou menor delicadeza, com ou sem insistência) ou passar uma cantada não é o mesmo que assediar e menos ainda do que estuprar. “Importunar” de verdade também é outra coisa (e dá prisão!).

Atenção amorosa não mata e não machuca mulheres fortes. Homens sendo livres para cortejar, as mulheres serão livres para gostar ou não, e mesmo se defender, de seus métodos de sedução. Existem diferentes formas de sexualidade, erotismo e relação. Seria preciso que as puritanas com mais neurônios lessem urgentemente L’érotisme (o título do volume, em português, é em francês) de Georges Bataille. Já para as que gostam de Cinquenta Tons de Cinza, a recomendação é André Pieyre de Mandiargues (Narrativas eróticas). Para as demais, fica o delicioso filme Beijos roubados de Truffaut, baseado em O Lírio do Vale, romance de Balzac. Não é porque uma mulher prefira dar um tapa na cara de quem lhe rouba um beijo, que ela tem o direito de proibir os homens em geral de fazerem isso e certas mulheres de gostarem. O direito de amolar existe, sim.

Claro que há casos horripilantes. Com as mulheres que sofreram reais violências só podemos ser solidários. E com os criminosos que as brutalizaram, não podemos pedir outra coisa do que “tolerância zero”. Porém, existem mulheres que têm o direito de não sentirem que uma sedução mais pesada seja um traumatismo eterno. De não sentirem que são necessariamente uma isca, uma vítima, pois sabem que o aprisionamento neste “estatuto de fragilidade” pode ser uma armadilha.

Não restará pedra sobre pedra na relação homem-mulher

Feminismo e machismo tornaram-se lados da mesma moeda. Nada de novo sobre a Terra. Trata-se de mais um círculo vicioso. Desde o fim do século 19, com raízes no Iluminismo do século 18 e mesmo antes, em outros contextos históricos, o machismo engendra o feminismo que, por sua vez, paradoxalmente, gera mais virilidade agressiva e vice-versa. Com o passar do tempo, é uma subida aos extremos da violência. Uma dinâmica divergente onde os argumentos de um lado afastam o outro, provocando ações cada vez mais hostis e/ou coercivas nos dois campos, em direção à total dissensão.

Até a próxima, que agora é hoje – felizmente ainda não chegamos lá – e devemos fazer tudo para que isto não aconteça pois, o final será a fratura. Não restará pedra sobre pedra na relação homem-mulher, apenas a indiferença, o silêncio glacial da entropia!

“O Estupro de Hilas pelas Ninfas” Arte românica da primeira metade do século IV. Museu Nacional Romano, Palácio.
“Hilas e as Ninfas”(1896), John William Waterhouse (1849–1917), Manchester Art Gallery

Conjugalismo e ‘chabadabada’

Como se já não bastasse tantas perdas no ano passado, a morte do ator, cantor e compositor Pierre Barouh, três dias antes da virada para 2017, trouxe à lembrança a famosa canção do “chabadabada” que ele criou junto com Francis Lai para Claude Lelouch. E me inspirou este diálogo sobre conjugalismo e outros assuntos, entre Um Homem e Uma Mulher.

Um Homem, uma Mulher
Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée, em Um Homem, uma Mulher, filme de Claude Lelouch (1966)

Um Homem – Aquele filme de Lelouch marcou a minha vida. Quis, a partir de então, que as minhas relações fossem assim, livres e maduras.

Uma Mulher – “Maduras” pode ser. Mas “livres” já acho meio difícil. Não há relação totalmente livre. Quando existe amor, existe dependência e também o desejo, normal, de exclusividade. “Amor livre” é artificial, nunca deu certo e só criou ressentimento. Basta ler Simone de Beauvoir quando ela fala de Sartre e também saber que o pacto que fizeram nos jardins das Tulherias, de sempre se dizer verdade, não deu certo. Ele contou que mentia tanto pra ela, que teve que inventar para si uma “moral provisória”…

Um Homem – Não lembro de Beauvoir falando mal de Sartre.

Uma Mulher – Então você não leu A Cerimônia do Adeus. Não que ela fale mal de Sartre. Ela não fala mal… apenas destrói a imagem do coitado com pormenores crus da sua vida íntima, como se estivesse se vingando. Mulheres que, intimamente, odeiam os homens ou têm contas a ajustar, seriam mais coerentes e justas se não se aproximassem deles para nada.

Um Homem – Ela também tinha a vida e as grandes paixões dela. Está enterrada ao lado de Sartre em Montparnasse, com o anel que seu amante, o escritor Nelson Algren lhe ofereceu depois da primeira noite de amor.

Uma Mulher – E Algren era americano, talentoso, boa pinta, judeu e comunista. Não era vesgo, nem baixinho.

Um Homem – Tá vendo? Sartre aceitava relações livres e maduras! Vesgo e baixinho, porém jamais ressentido.

Uma Mulher – Sartre ressentido, não! Muitas outras coisas, sim. Durante toda a vida dele, o filósofo trocou com Beauvoir uma longa e terna correspondência na qual eles se contavam mil e um pormenores do cotidiano. Era “mon cher amour” pra cá, “minha pequena esposa morganática” pra lá. Simone de Beauvoir com o turbante, aquela voz  e jeito duro que tinha, foi o seu “castor encantador”. Imagine! Mas quando se lê todas as biografias e relatos das pessoas envolvidas, parece que nós, comuns mortais, somos anjos inocentes perto da existencialista feminista e seu filósofo. Ah, os mitos! Impossível tocá-los, não é mesmo?

Casamento não depende de igualdade.

Um Homem – Você é contra as feministas?

Uma Mulher – Eu sou contra a ditadura da igualdade.  O cínico Maurice Sachs dizia que “a igualdade é um preconceito de proletário” (risos). Hoje ele seria linchado (risos), se bem que acabou mal de todo jeito… Às vezes me pergunto se não tenho o mesmo espírito de contradição que ele adorava em Misia Sert, a egéria russa de tantos pintores, poetas e músicos no começo do século 20: quando estou com pessoas de esquerda fico de direita e quando estou com pessoas de direita fico de esquerda. (risos)

Um Homem – É… já percebi. Mas igualdade na vida comum é muito bom, não acha?

Uma Mulher – Quando o tema “igualdade” vem à tona em conversa de casal, é sinal de que as coisas vão mal. Casamento não depende de igualdade. Sou contra esse falso e demagógico discurso feminista, sim. Pois o que perturba um casal é falta de confiança, falta de entendimento. Para justificar problemas conjugais, até o sexo é supervalorizado. Como se a falta de desejo, tanto quanto a desigualdade, destruísse o amor. Mentira! É muito simpático o desejo, mas não dura até a tumba, sim? Um casal pode se amar sem desejo. Às vezes até mais!

Um Homem – Então você não é feminista.

Uma Mulher – Claro que sou feminista! Penso que tudo deve estar aberto às mulheres: carreiras, posições, TUDO! E também a liberdade de escolher a vida e as paixões que quiserem. Ainda não é o caso, infelizmente. Há muita luta pela frente. Mas sou pela igualdade de oportunidades, não pela igualdade de resultados.

Um Homem – Entendo. Mas, nuance! Quando afirmei que gostaria que as minhas relações fossem livres queria dizer fora do matrimonio formal, sem laços e obrigações, exceto as emocionais. Se o amor não for livre, não é amor. Aquele filme do “chabadabada” inspirou a minha reflexão sobre o que é o amor, e mais especialmente, o que é o grande amor estilo Tristão e Isolda, Lancelote e a rainha Genebra, Dama das Camélias, Werther. Podemos nos contentar com relações medíocres ou buscar algo grande, obrigando-nos a ser melhores do que somos normalmente.

Uma Mulher – Essa é uma visão masculina, acho. Como para Sartre. O grande amor, ou “amor necessário” (como ele dizia) com a Simone; os amores “contingentes” (também como ele dizia) com o resto, a pexotada. Para as mulheres, uma ligação amorosa não é forçosamente “grande”, “necessária” ou “contingente”. Nós amamos sem hierarquia.

Vale a pena vestir-se de branco para nada?

Um Homem – Na verdade, casamento de gente jovem sempre me entristece. Uma festa de divulgação de um sentimento é potencialmente perigoso. A metade dos casamentos em toda parte duram pouco. Vale a pena vestir-se de branco para nada?

Uma Mulher – Vale a pena vestir-se da cor que for, quando se ama alguém, se pensa que é a pessoa certa e se quer ficar com ela, mesmo sabendo que podemos nos enganar e que o amor pode não ser eterno. Além de que, às vezes, não nos enganamos e o amor é eterno mesmo. Saiba que sou a favor, super a favor do casamento formal. Mais do que isso, penso que as relações sem “laços e obrigações” não são relações. Persiste uma nuvem cinza sobre um casal que não possui uma situação definida por dentro e por fora: emocionalmente, claro, e também legalmente. Só existe uma palavra para definir pessoas que não querem – ou não têm coragem de – se casar pra valer: RESISTÊNCIA!

Um Homem – Então vou ser mais preciso: não sou contra o casamento. Sou contra o divórcio. Quando eu era jovem quase todos os pais dos meus amigos estavam separados, assim como hoje uma grande parte dos meus amigos. Eu creio no amor verdadeiro e eterno. A questão está em como chegar a ele.

Uma Mulher – Como chegar eu não sei. A gente acaba chegando, de uma maneira ou de outra. E se não chegar, também está bom. Valeu a aceitação de que o amor e a vida a dois podem (e devem) existir em vez das racionalizações que levam as pessoas, por medo da frustração, a inventar mil desculpas para dizer que é “melhor viver sozinho”. Talvez até seja muito bom – e é mesmo – mas não me digam que é “melhor”!

Um Homem – Eu gosto e também não gosto de viver sozinho. De todo modo, não consigo manter uma vida a dois por muito tempo. Sartre e o Castor, quando a vida deles começava a ficar um pouco monótona, faziam “ménage à trois” ou cada um ia para o seu lado e depois voltavam…

Uma Mulher – Salvo exceções, claro, em questão de ligações amorosas heterossexuais, vocês homens se mostram um pouco incapazes (risos). Para “ligação amorosa”, acho que é preciso uma capacidade essencialmente feminina. As mulheres têm uma perspectiva sobre o casal e a duração da relação, que é diferente. Geralmente, elas são ativas e “fazem” o casal. Os homens são passivos, na maior parte das vezes tem imagens de “prisão”, recusam a ideia do “par amoroso” ou se resignam a ela. Em geral veem isso como uma carga. E quando elogiam o casamento (o que é raro), desconfio um pouco me perguntando quais são os seus motivos. Para as mulheres, viver a dois não exclui a liberdade. Para os homens, sim. Para elas, é um investimento do espírito, uma ação de emancipação. Para eles, não. Dá trabalho viver a dois, é preciso refletir, ponderar. Talvez as mulheres sejam menos preguiçosas neste aspecto (risos).

Intimidações contemporâneas

Um Homem – Viver junto já está muito bom. Então, pra que casar?

Uma Mulher – Se o casamento enquanto ritual, contrato, instituição jurídica, cultural e social não fosse importante, ele simplesmente teria deixado de existir. E ele existe desde o Egito antigo, a antiguidade greco-romana, no antigo e novo testamento. Você diz que “metade dos casamentos em toda parte duram pouco”. Se ficássemos, como você, fazendo caraminholas ou se fossemos pensar em “estatística de separações” antes de casar, isso seria uma besteira muito grande!

Um Homem – (Faz menção de responder, dá um suspiro e fica em silêncio.)

Uma Mulher – Casar com a pessoa certa é muito bom, dá segurança e energia para trabalhar e produzir, dá uma alegria e um sentimento de realização muito grandes, além de ser prático e de estar em acordo com as leis. Recomendo o casamento, em qualquer idade e em qualquer configuração de gêneros, vivamente!

Um Homem – Ter as ideias claras é uma felicidade. Você tem uma visão otimista do casal.

Uma Mulher – Sim, a vida afetiva é sempre palpitante. Na verdade, procuro um caminho entre o pessimismo masculino e a vingança feminista. Estas pensam que “o amor é o ópio das mulheres”. Do meu lado, penso que o feminismo exacerbado (e sem reflexão) é o ópio das recalcadas.

Um Homem – Você não está sendo reacionária ao fazer a apologia do casamento?

Uma Mulher – Bem que estava esperando por essa pergunta! Faz parte das “intimidações contemporâneas” com as quais não devemos nos sentir intimidados de jeito nenhum! Você não gosta de arte ecológica, política, indigente, social, é reacionário. Mora em metrópole, onde tem acesso e sabe o que importa… é reacionário. Fica deprimido com a última Bienal de São Paulo, é reacionário. Tem mais de 60 anos, é reacionário…

Um Homem – Elogio de casal é coisa de burguês.

Uma Mulher –  É espantoso como, nos últimos tempos, tudo se torna um estigma de “direita”. Até o afetivo e o que toca valores familiares. Ocorre que conhecemos todos os tipos de amor na História: amor romano, amor medieval, amor do renascimento, amor burguês do século 19, amor Sartre e Simone de Beauvoir que foram os Abelardo e Heloísa laicos dos tempos modernos, e agora temos uma volta ao “conjugalismo” que não é burguês e também não é reacionário.

Um Homem – É verdade que essa ligação entre Sartre e Simone de Beauvoir foi um pouco acrobática, mas com aquele pacto que eles fizeram nos jardins em frente ao Louvre em 1929, a moral burguesa foi sacudida de vez. Hoje, com todas as composições possíveis, famílias recompostas, etc., estamos muito mais próximos deles do que da moral burguesa de “monogamia eterna” dos anos 50.  O que é esse conjugalismo do qual você fala?

Uma Mulher – Conjugalismo, para mim, é ser a favor do casamento para todos, mulheres com homens, homens com homens e mulheres com mulheres. É acreditar nos valores familiares, em todos os tipos de composição, com ou sem parentalidade. É saber que família é família, nem sempre biológica, que os laços são afetivos, legais e a responsabilidade é a mesma em qualquer configuração. “Viver junto” – o “grande e revolucionário” ideal – começa a dois. Defender a diversidade, a mistura de raças e a tolerância, sem ser capaz de viver com um ou uma parceira, e chegar a um entendimento em sua própria casa, em condições de liberdade total, é um disparate, não acha? Como defender uma moral universal, abstrata e sem relação com a experiência do dia a dia? O moral tanto quanto o ético estão no que vivemos cotidianamente. Jamais em regras ditadas por ideologias.

Até a próxima, que agora é hoje!