Formidável resposta à ‘bacanal narcisista no Louvre’

Sem qualquer dúvida, ‘This Is America’ clipe do americano Childish Gambino colocado no YouTube há pouco mais de um mês, é o melhor e mais extraordinário contraponto ao brega arrogante de Beyoncé e Jay-Z no Museu do Louvre. Clipe inteligente que, com a sua crueza, ao contrário de ‘Apeshit’, denuncia de fato a América atual: o lobby das armas, o racismo, o sistema penal, a violência policial, o hiperconsumo e a própria luxuosa, vulgar e pretensiosa sociedade do espetáculo na era das redes sociais, da qual ‘The Carters’ são os expoentes máximos. ‘This is America’, além da ótima música e atuação, ele sim, faz pensar.

Foto: “This Is America”, formidável videoclipe de Donald Glover (Childish Gambino).

Aos 34 anos, Donald Glover (Childish Gambino) confirma com este clipe os seus múltiplos e prodigiosos talentos. Além de rapper e compositor, ele também é dançarino, ator, cantor, cineasta, roteirista, produtor, humorista e DJ. Glover cresceu em família pobre no subúrbio de Atlanta, em Stone Mountain, onde se refugiou na leitura de peças de teatro e criação de esquetes. Diplomado pela Universidade de Nova York, a sua obra preferida é Huis clos (Entre quatro paredes) de Jean-Paul Sartre, escrita em 1944. No Exit, aliás, é o título de uma de suas canções.

Cada trabalho dele surpreende, seja com o álbum onde mistura funk dos anos 1970 com soul e gospel ou com a série de televisão Atlanta, onde ele revela a realidade americana contemporânea. Não é de admirar que, neste clipe de 4 minutos este artista culto e reflexivo desenhe o retrato de uma América despreocupada que prefere dançar e correr atrás de dinheiro, em vez de enxergar a opressão e a violência em sua volta.

Nos Carters a violência é provocação, em Childish Gambino ela é real.

Childish Gambino é o oposto do talentoso The Carters, casal que, no fundo, acaba como traidor da causa negra já que é vendido ao capitalismo branco. O suposto “orgulho negro” deles é a soberba de dois egos superdimensionados, embriagados pelo poder, enquanto que o orgulho negro em Childish Gambino, muito melhor expresso neste clipe, é modesto, a verdadeira “honra negra” e consciência do próprio valor e cultura nativa. Nos Carters a violência é provocação, é mímica e pose. Vulgaridade pura. Em Childish Gambino ela é real, um grito de desespero. Com classe e dignidade.

O clipe This Is America – que se tornou viral (5,8 milhões de visualizações até agora) – pode ser analisado, inclusive, semiologicamente. Temos vontade de revê-lo várias vezes até conseguir desvendar o significado de cada coreografia, gesto e imagem. Há momentos, por exemplo, que alguns críticos dizem se inspirar simultaneamente em uma dança africana, a Gwara Gwara, no “stanky leg” texano e nos gestos de Jim Crow. Este personagem foi popularizado nos anos 1830 pelo ator (branco) Thomas D. Rice que, fantasiado de negro, zombava dos gestos das populações afro-americanas. No fim do século 19, quando os Estados Unidos aprovaram as leis de segregação racial, elas foram chamadas de “leis de Jim Crow”.

Mas há outras mensagens . No clipe, depois que o cantor negro é assassinado com uma bala na cabeça, ele é arrastado como um animal enquanto alguém recupera delicadamente a arma colocando-a dentro de um tecido vermelho. Este é um sinal claro contra o armamento de civis. A cena do fuzilamento do coro de igreja composto por cantores negros americanos, refere-se explicitamente ao massacre racista na igreja episcopal da comunidade negra em Charleston, em 2015, porque o assassino queria provocar “uma guerra entre raças”.

Nas coreografias, o contraste entre as cenas festivas e o caos é perturbador. Além da denúncia contra o racismo e as armas, é uma crítica severa à sociedade do entretenimento e das redes sociais, o mundo de imbecis do qual falava Umberto Eco, que – entre outras coisas – não sabe interpretar o que lê, agindo por impulso e mimetismo muitas vezes com enorme violência. Uma cena curta mostra jovens filmando as rixas com seus smartphones, o que lembra a série inglesa Black Mirror de Charlie Brooker.

O clipe termina com Childish Gambino perseguido, um final que também pode ser interpretado de diversas maneiras, inclusive em paralelo com o filme Get Out (Corra! de Jordan Peele ) que trata igualmente de racismo.

Até a próxima, que agora é hoje, hora de deixar a agressividade e os preconceitos de lado, aprender a ver obras de maneira inteligente e ler textos exatamente como foram escritos!

Videoclipe “Childish Gambino – This Is America”

 

“Jim Crow” por Jean-Michel Basquiat

 

 

Bacanal narcisista no Louvre

‘Apeshit’ (fezes de macaco), o título do novo clipe de Jay-Z e Beyoncé já diz tudo: a partir do hábito de macacos raivosos arremessarem suas próprias fezes no que odeiam, este nome significa ‘a raiva que produz nos humanos um comportamento parecido com o do macaco enfurecido.’

Foto: Apeshit’ (fezes de macaco), o novo, pretensioso e arrogante clipe de Jay-Z e Beyoncé.

Pois é exatamente o que o novo videoclipe do casal parece fazer com a arte e a instituição que lhe serve de cenário. Os dois se contorcem diante de quadros que não olham, enquanto outros personagens posam, igualmente de costas para as obras mais importantes do museu: Vênus de Milo, Vitória de Samotrácia, Coroação de Napoleão, Balsa da Medusa, Gioconda. O mau gosto atroz impera.

Não, não estamos sonhando, não é pesadelo, apenas um mau momento brega que felizmente não vai durar como a Mona Lisa, ao contrário do que disse Jay-Z. Sim, porque na entrevista que o rapper deu à Times Magazine, ele pergunta: “É melhor ser uma tendência ou ser Ralph Lauren? Melhor ser uma tendência ou ser eterno?” E afirma: “Serei como a Mona Lisa, cara! Me identifico com a verdade! Vou ser cool em 40 anos.” Que bom que a Mona Lisa, segundo o insolente rapaz, vai “durar tanto”…

O clipe, esta pequena vingança política afro-americana sobre a grande cultura, é da mesma arrogância sem par. O patriota Peruggia fez melhor quando roubou a Mona Lisa do museu em 1911. Mas se os pretensiosos Jay-Z e Beyoncé podem alugar um estádio inteiro de rúgbi, não surpreende que possuam meios de se oferecer um Louvre voraz de dinheiro e publicidade.

Depois de Niggas in Paris (2011) de Jay-Z e Kanye West – do seu álbum Watch the Throne – onde eles contam as seis noites no hotel de luxo Le Meurice no qual se esbaldam com modelos, álcool e o resto, consumindo 144 mil euros, e citando pelo menos 8 marcas de luxo (por contrato), o Louvre certamente é mais distinto.

No entanto, mesmo em instituição cultural, não são muito elegantes o escárnio, cinismo, oportunismo e atrevimento destes novos filisteus. Os selfies deles, com vestimentas perfeitamente adaptadas a uma visita de museu, de costas para a Mona Lisa, não podem ser mais cafonas. Ego-retratos capazes de fazer Leonardo se revirar em seu túmulo…

Isso, sem dizer que o significado de “Apeshit”, título desse videoclipe, é bastante ambíguo. Dentro do contexto, pode ser considerado racista. E sem dizer também que essa música (letra inclusive) de Beyoncé e Jay-Z é boa para “boi dormir”. Quem quiser curtir clipe viral, sem ficar com sono, é muito melhor assistir ao excelente “Childish Gambino – This Is America” (vídeo abaixo).

Até a próxima, que agora é hoje e eis o preço que a velha Europa deve pagar pela última e verdadeira expressão da América vulgar, ignorante e submissa, de Obama a Trump!

Videoclipe “Apeshit” – The Carters

Videoclipe “Childish Gambino – This Is America”

 

 

A vida sexual das estátuas

Acabo de descobrir que bonecas infláveis têm a ver com arte. Ou, mais especificamente com esculturas. Sim, porque se o potencial erótico de corpos modelados não deixa as pessoas indiferentes, isto quer dizer que elas talvez sofram de “agalmatofilia”, que é um desvio sexual bastante estranho.

Imagem: “Estátua de jovem mulher com o rosto coberto por uma colméia de abelhas”, obra do artista francês Pierre Huyghe na documenta 13 de Kassel, na Alemanha, 2012.

“Agalma” em grego significa “escultura” e “filia”, no caso, o amor e atração sexual por estátuas. Agalmatofilia, portanto, é uma perversão que existe, mas é pouco estudada e conhecida, provavelmente porque não perturba a ordem pública e não faz mal a ninguém, exceto à própria pessoa que às vezes pode ficar um pouco traumatizada.

Pelo menos é o que conta em seu livro Sobre Agalmatofilia (Editora L’Échoppe, 2012), a formidável historiadora das ideias, de arte e da filosofia da ciência, Laura Bossi, também neurologista, especialista em epilepsia e doenças neurodegenerativas, curadora de arte e mulher de Jean Clair – pseudônimo de Gérard Régnier, igualmente curador e historiador, hoje membro da Academia francesa.

Sabemos que além da perfeição de suas formas, as estátuas dividem com amor o seu sonho de eternidade. O que não sabíamos é que há casos célebres na Antiguidade, de trocas íntimas entre elas e seres humanos, sobretudo homens. O que não deixa de ser uma boa solução, já que estátuas não têm como usar #metoo nem caçar os que as assediam.

 

Francisco Brennand, Oficina Cerâmica, Recife.

 

Lembro muito bem de Jack Lang em pessoa, o ministro da cultura de Mittterrand, que vi na Bienal de São Paulo, acariciando o traseiro de uma escultura de Francisco Brennand. Foto, aliás, que saiu em todos os jornais da época. Na Folha, se não me falha a memória (“na Folha se não me falha”, me perdoe, saiu sem querer), com o título: “A mão-boba do ministro francês em visita à Bienal”.

No livro, descobrimos com surpresa o quanto de emoção, paixão e comportamentos sexuais estranhos certas pinturas e esculturas podem suscitar. Pensando bem, quem não fica embasbacado com o charme de Lady Hamilton pintada por George Romney, uma das jóias da Frick Collection que pode ser contemplada em Nova York? Até o cachorro do quadro parece magnetizado.

 

Lady Hamilton por George Romney(1734–1802), uma das jóias da Frick Collection, Nova York.

 

O importante escritor Julian Green, cuja obra foi marcada pelo homossexualismo e a fé católica, por exemplo, não pára de contar os enfeitiçamentos que sofreu olhando certos corpos masculinos em vários museus. A sensualidade e o erotismo que brotam de obras de arte, quadros e sobretudo esculturas percorrem toda a sua obra. Vale a pena reproduzir uma de suas narrativas autobiográficas, onde ele conta a sua visita ao Museu nacional de Nápoles. Mesmo porque, quando estive lá, na mesma sala, não senti nada disso. Diz ele:

“Quando eu me encontrava na sala dos bronzes pompeanos, o sangue começou a pulsar no meu corpo com uma força que me obrigou a parar (…) compreendi que eu estava no coração de uma zona proibida. Tudo que eu possuía em mim de religião batalhava para me fazer deixar aquele lugar perigoso, mas eu não me mexia. Dizer que a nudez se espalhava entre aquelas paredes é pouco: a volúpia triunfava sob todas as suas formas.”

Fascinado por uma estátua de Narciso, ele acrescenta: “Com uma felicidade misturada a horror, andei em volta desta estátua verdadeiramente infernal. Eu estava enfeitiçado como nenhum homem neste mundo. Quanto tempo fiquei lá? Não sei. O tempo não existia mais, eu me sentia lentamente transformar em outra pessoa, despertada, avisada”. E em um de seus livros, Green relata ainda um sonho no qual ele abraça uma escultura.

Estátua de Narciso, Museu de Nápoles. (se não estiver vendo esta imagem, clique no LINK) 

 

Fonte Marco Polo, Praça Ernest Denis, Paris. Construída entre 1867 e 1874, na entrada do Jardim Marco Polo, avenida do Observatório em direção ao Jardin do Luxemburgo, suas 4 mulheres desnudadas foram realizadas por Jean-Baptiste Carpeaux.

 

Penso que qualquer pessoa, mesmo sem sofrer de agalmatofilia, pode enumerar algumas obras que fazem nascer em seu coração uma emoção estética ou um sentimento erótico. Dá para imaginar o que devem sentir certos homens ou mulheres ao passearem nos Jardins do Observatório em Paris, onde está a fonte das “quatro partes do mundo”, representadas por mulheres desnudadas e formosas! Até os cavalos fazem parte do erotismo.

Para nossa felicidade existe também o oposto desta “parafilia” artística, este distúrbio psíquico igualmente chamado “pigmalionismo” em francês e espanhol (por causa do mito de Pigmalião), que é caracterizado por práticas sexuais não muito recomendáveis do ponto de vista social e estético. Até a próxima que agora é hoje, e “agalmatofilia ao contrário” é Grace Kelly, deslumbrante em Alta Sociedade (1956), filme de Charles Walters, tentando demonstrar que “não é fria como uma estátua de bronze”!

Réplica da estátua de Narciso que está no Museu de Nápoles (se não estiver vendo esta imagem, clique no LINK)

 

O artista Joseph Erhardy, em seu ateliê. Foto de Henri Cartier-Bresson.

 

“Pigmalião e Galatea” de Jean-Léon Gérôme (cerca de 1890), representa o mito de “Pigmalião” que se apaixona por sua própria escultura. Metropolitan Museum of Art, Nova York.

 

“Pigmalião apaixonado por sua estátua”, Jean-Baptiste Regnault (1785).

 

“Pigmalião e Galatea” (1886), por Ernest Normand. Atkinson Art Gallery and Library.

 

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