Coronavírus e vocação tardia

Rafael Siminovitch, jovem e belo empresário em Paris, colecionador de arte contemporânea sem filhos, sofisticado e esportivo milênico, descendente de baby boomers bem-sucedidos, foi atingido severamente – como tantos – pela grande epidemia do século 21.

“Triptych. Dance. Hassidim Painting”, de Solomon Gold, 2020 (Israel). Segundo o artista, “este é o momento em que o Todo-Poderoso concede grandes bênçãos às pessoas que estão se divertindo e se regozijando. Assim, os chassídicos que dançam são retratados.”

Antes, raramente bebia uns uísques ou umas vodcas quando chegava do trabalho. Porém, com o confinamento, o tele trabalho, as intermináveis reuniões por Zoom, a derrocada vertiginosa da sua empresa, e sem conseguir vender nem mesmo uma peça de sua coleção de arte, Rafael passou a consumir estes “ansiolíticos” (como ele os chamava) diariamente. Na maior parte das vezes, a partir das 11 da manhã, o que o obrigava dormir a tarde toda e recomeçar a beber às 8 da noite. A ponto de a sua mulher lhe dizer:

“Basta! Ou você procura ajuda, ou é divórcio!”

Rafael, que, de fato, acordava de madrugada sentindo-se culpado, temendo a punição de Deus, jogou-se no Google à procura de um especialista em alcoologia que pudesse salvá-lo, assim como o seu casamento. Encontrou o Dr. Menahem Schneersohn, médico em uma clínica chamada Bokirtow que, em hebraico separando o “bokir” do “tow”, quer dizer “bom dia”.

Na foto, o doutor posava com uma longa barba branca, cabelo cortado rente ao crânio e óculos redondos de metal. No site Doctolib, por meio do qual todo mundo na França marca consulta ou tele consulta, Rafael descobriu as suas especialidades: geriatria, hipertensão arterial, medicina infantil e adolescente, check-up, alcoolismo, contracepção, burn-out, varicela, vacinação, eletrocardiograma, doenças sexualmente transmissíveis, infecções, HIV e tabagismo. Tudo isso, falando “alemão, inglês, árabe, francês, hebraico e italiano”. “Perfeito!”, pensou o jovem empresário. “É um poliglota e, ainda por cima, da colônia…”

O que Rafael não imaginava é que este clínico geral era um erudito que ensinava a Torá. Pediu a ajuda do Google mais uma vez, para conhecer as avaliações dos pacientes, e descobriu que o Dr. Schneersohn se apresentava, nada mais nada menos do que, em condição de… rabino! Um rabino ortodoxo, mas evoluído, com canal no YouTube e posto de diretor de uma revista online no endereço “hassidismo.org”.

Como se isto não bastasse, Rafael viu na revista que o rabino Dr. Schneersohn, frequentava muitas “farbrengen”, reuniões durante as quais os chassídicos buscam elevação moral. Momentos de troca, onde é possível inspirar-se para o serviço de Deus, aproximar os corações, sublinhar a importância da ação concreta que visa “enxaguar os olhos com as lágrimas da meditação”. Nas farbrengen, aqueles judeus ortodoxos se unem, se amam e se alegram, recebendo as bênçãos mais importantes, especialmente a tal da “Libertação futura”.

“Dança e Hassidim”, Arieh MERZER (1905 – 1966). Baixo-relevo em bronze, pertencente ao acervo do Museu de Arte e História do Judaísmo (MAHJ), em Paris.

Rafael olhou bem as fotos. Claro, só havia homens em volta de mesas cheias de acepipes. Na questão “igualdade entre homens e mulheres”, os chassídicos continuam seguindo a corrente mística do judaísmo fundado no século 18 pelo rabino Israel ben Eliezer, mais conhecido como Baal Shem Tov. Mulheres de um lado, homens de outro.

Rafael aumentou as imagens e, surpresa! Já na primeira, com um grande chapéu de Lubavitch, não de pele, mas de abas, o sorridente doutor rabino Menahem Schneersohn, especialista em alcoologia, levantava um copinho, enquanto todos se serviam de várias garrafas de Smirnoff e J&B. No final da soirée farbrengen, depois de muitos brindes “L’Chaim!” (À Vida!) com os copinhos no alto, alguns convivas pareciam realmente ter encontrado a “elevação moral”, estando prontos para a “Libertação futura”.

Nada mais faltava para que Rafael marcasse consulta. O doutor rabino que, provavelmente, acumulava menos pacientes do que alunos de Talmude, tinha hora livre no dia seguinte. Como o estacionamento na rua seria difícil, o jovem empresário deixou o seu Audi na garagem e, uma hora antes da consulta na clínica Bokirtow, precipitou-se no metrô em direção à estação Belleville.

Leonard Freed (1929 – 2006). “Casamento judaico chassídico”, Nova York 1954. Foto adquirida pela França, em 1984, e doada ao Museu Nacional de Arte Moderna / Centro Pompidou, em 1988.

Faz seis meses que a mulher de Rafael Siminovitch, não tem mais notícias dele. O jovem ex empresário tornou-se financista e courtier d’art*, mora em Belleville, deixou crescer a barba, passa o seu tempo a ser poliglota, a aprender e discutir finança talmúdica numa ieshiva**, comprou um chapéu de aba para frequentar as farbrengen, nem pensa mais no que é correto ou politicamente incorreto. Está feliz que mulheres fiquem de um lado e homens de outro, estes amando-se, unindo-se, alegrando-se, recebendo as bênçãos mais importantes e brindando L’Chaim com o copinho, na boa companhia de muitas garrafas de Smirnoff e J&B.

Até a próxima que agora é hoje, e boa sorte ao Rafael, personagem fictício deste meu pequeno conto de pandemia!

 

  • Courtier d’art (corretor de arte): especialista sem galeria ou butique, que atua como intermediário entre os compradores que procuram determinadas obras e os vendedores. O courtier deve ter excelentes habilidades de negociação e falar vários idiomas para aconselhar seus clientes estrangeiros.

** Ieshiva: instituição de ensino em que se estuda o Talmude.

Crianças ouvem judeus chassídicos lendo os manuscritos de Ester, na sinagoga da cidade israelense de Beni Brak, perto de Tel Aviv, durante a festa de Purim. A festa judaica de Purim comemora a salvação dos judeus dos antigos persas, conforme descrito no livro de Ester. AFP PHOTO/MENAHEM KAHANA, 2006

Um péssimo e delicioso filme para quem odeia o sistema da arte

“Arte é um perigo”. Com esta frase, a fria galerista Rhodora Haze (interpretada por Rene Russo, no filme Velvet Buzzsaw de seu marido Dan Gilroy) adverte Morf Vandewalt, famoso e temido crítico de arte (Jake Gyllenhaal). Morf está em vias de escrever a monografia de um extraordinário e desconhecido pintor que acaba de falecer, e percebe que este deixou uma obra enfeitiçada. Inicia-se uma estranha e mortífera espiral…

Imagem: Josephina (Zawe Ashton) e Morf Vandewalt (Jake Gyllenhaal) na Haze Gallery

Na verdade, Velvet Buzzsaw (Netflix) foi baseado em outro longa-metragem que jamais apareceu: Superman Vive, realizado por Tim Burton, protagonizado por Nicolas Cage e escrito pelo mesmo Dan Gilroy, roteirista do excelente Night Call. O estilo Tim Burton persiste até mesmo com um “robô artista” dotado de muletas letais (em vez de tesouras) e o horror também. Com a diferença que o mundo da arte, igualmente conhecido por Burton, propõe aqui uma ácida moral: arte não é “produto” e não se brinca com a sua especulação.

O efeito que o mercado da arte pode ter sobre o público, os artistas e os profissionais que dele dependem, em termos de manipulação, reduz as obras a simples produtos, imprimindo-lhes um valor artificial, na maior parte das vezes diverso de sua qualidade estética real. Eis uma das partes principais do escândalo permanente do sistema da arte em nossa época, algo que se assemelha bastante a um filme de horror.

Uma impostura com todas as letras

Na Costa Oeste dos Estados Unidos – mais especificamente em Los Angeles, na Califórnia, onde se passa Velvet Buzzsaw, vemos a consequência da enorme transformação no sistema internacional da arte, sintomática de uma tendência à “financeirização”. A grande novidade é a galeria de arte fantasiada de museu. Não uma espécie de kitsch, mas uma impostura com todas as letras: um estereótipo de estabelecimento comercial de arte, gênero “loja gigante de departamentos” que pretende encarnar os valores da tradição cultural. E que também não tem nada de inocente: é lobo na pele de cordeiro que conhece e visa com precisão o seu público alvo.

O ouro, as feiras de arte, os depósitos discretos do tipo Schaulager na Basileia, os antigos museus transformados em vistosos showrooms (o contrário das galerias fantasiadas de museus), os leilões, enfim, com vendas colossais, obscenas… Subprimes, titularização, esquema em pirâmide de Ponzi…  Em pouco mais de duas décadas se tomou consciência de que os objetos sem valor eram suscetíveis não somente de serem postos à venda, mas tornarem-se igualmente objetos de troca, próprios à circulação e à especulação financeira mais extravagante. Os procedimentos que permitem promover e vender uma obra dita de “arte contemporânea”, podem ser comparados aos que, no mercado de valores mobiliários e outros, possibilitam vender qualquer coisa e muitas vezes, até mesmo, nada.

Quase duas horas de vingança e divertimento

O filme é longo e um pouco chato. Não tem genialidade, é superficial mas bem feito e cria algum suspense. São quase duas horas de vingança e divertimento para quem odeia o sistema da arte, sobretudo o mercado. Principalmente no final. Jogo é jogo, e isto também é Netflix.

Tudo começa no mundo da arte contemporânea em Miami e depois Los Angeles. Retrata a nossa época em que o cinismo atingiu o seu auge. Gilroy se interessa pelo funcionamento deste microcosmo extravagante e caricatural que reúne marchands, artistas, colecionadores, conservadores de museus, curadores, “advisors”, etc. O crítico bissexual blasé chama-se Morf, nome que – invertido – certamente podemos ler como “Form” (Forma).

Quando este microcosmo se interessa pelo trabalho inclassificável do artista falecido, e o rouba, o “poder intrínseco da arte” se sobrepõe à força do dinheiro, da desonestidade, e as consequências são terríveis. Humor, ferocidade e descaramento criam crimes à altura deste sistema: obras se incendiam, quadros ganham vida, telas tornam-se homicidas, acidentes sanguinários viram instalações macabras visitadas por crianças (“fazemos furor em Instagram, somos um grande sucesso!”), grafites regurgitam de tinta assassina numa espécie de body art exterminadora, tatuagens transformam-se em armas… A arte se revolta, o cinismo se autodestrói. Salva-se Piers (John Malkovich) o artista alcoólatra e a sua arte efêmera, invendável, que ele desenha sobre a areia.

Até a próxima que agora é hoje e, pena que em vez de continuar a sátira do início, Velvet Buzzsaw descambe para um péssimo filme de horror e vingança, só delicioso e moral para quem odeia o sistema da arte como eu!

Trailer oficial do filme


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Feiras e mercado de arte: um escândalo permanente

“Confundir ‘feira de arte’ com ‘cultura’ é o mesmo que não distinguir ‘peixaria’ de ‘museu oceanográfico’.” Ao ler as notícias e ver as imagens da 13ª edição da SP-Arte, imediatamente pensei neste meu aforismo antigo, usado há algum tempo em um livro sobre o  o “valor da arte”, na entrevista à “rainha (agora internacional) do mercado” que, naturalmente, não gostou nada do dito. Enquanto eu ainda pensava em colocá-lo como incipit de um ensaio crítico sobre o assunto, a questão já foi ultrapassada em maleficência. Na verdade, o problema vai bem mais longe do que saber se feiras de arte são ou não são cultura.

Revólver de Verlaine
Venda em leilão do revolver de Verlaine, com o qual ele tentou matar Arthur Rimbaud, em julho de 1873. Com preço inicial de 50 000 euros, a arma foi arrematada por 434 500 euros. Christie’s, Paris (2016) – Foto : Aurélien Laudy/PHOTOPQR/L’UNION DE REIMS/MAXPPP

Sobre “reis” e “rainhas” do mercado da arte nem sempre há coisas muito probas e edificantes a relatar, de tal maneira que algumas já se encontram deliciosamente em minhas memórias, tanto para deixar fluir o excesso de bile negra que causa mau humor, quanto para divertir o leitor. É normal que marchands não gostem dos meus ditos. Gostarão menos ainda quando acabarem de ler este artigo.

Também é natural que artistas e profissionais, dependentes do mercado da arte, possam não apreciar a alusão à “peixaria”. No entanto, se para eles “o mercado é necessário”, “cumpre o seu papel”, “é honesto ou desonesto” – nada disso é a minha questão. O que me interessa é a arte, o artista, o público e o efeito que o mercado da arte pode ter sobre eles, em termos de manipulação que reduz as obras a simples produtos, imprimindo-lhes um valor artificial, diverso de sua qualidade estética real. Eis, na minha opinião, uma das partes principais do escândalo permanente do mercado da arte em nossa época.

Poucos sabem, por exemplo, que em certas escolas de arte há uma corrida aos projetos mais rentáveis, para os quais a razão estética e o senso artístico tornaram-se desnecessários. Colecionadores e galeristas percorrem estas escolas, não raro oferecendo aos estudantes somas desmesuradas. O exagero é a regra. Encoraja-se o tipo de criação que vai agradar e alimentar a atração pelas “provocações da arte contemporânea”. Como cada exposição em galeria deve ser financeiramente autossuficiente, os jovens precisam “produzir” trabalhos “vendáveis”, seguindo a tendência do momento. Assim, privilegiam as falsas transgressões afim de serem percebidos e poderem rapidamente se entrar na arena.

É natural que tenhamos caído ao nível das latrinas

Sou do tempo em que o conjunto de negócios da arte era regulado por um jogo sutil de conhecedores, de um lado galeristas de alto nível, de outro, verdadeiros experts. Com a mundialização, a partir dos anos 1990, talvez, a coisa mudou gradualmente, e de tal forma, que hoje aquele sistema transformou-se num mecanismo de alta especulação financeira entre algumas galerias, casas de leilão e um pequeno público de “novos ricos” em todo o mundo, Brasil inclusive. “Novos ricos” dos quais alguns nem mesmo sabem o que compram ou – como confessou Bidzina Ivanishvili, o oligarca georgiano que gasta centenas de milhões de dólares em sua coleção – “não são grandes fãs de artes plásticas”. Em 2005 havia 70 feiras de arte no mundo. Hoje são 190. Em Nova York, no início dos anos 1970, contava-se pouco menos de 80 galerias. Hoje, o seu número oscila entre 900 e 1000.

Como escreveu Jean Clair – pseudônimo de Gérard Régnier, curador e historiador, hoje membro da Academia francesa – “do culto à cultura, da cultura ao cultural, do cultural ao culto do dinheiro, é natural que tenhamos caído ao nível das latrinas”. “Que sentido tem isto?” pergunta ele, “porque o ‘socius’* precisa deste poder ‘artístico’, quando a sua categoria não é mais assumida nem na qualidade do religioso nem na ordem do político? Seria a desordem escatológica, que se espalha e cola, que pode assegurar a coesão que lhe falta?”

Estou de acordo com Régnier. O ouro, a especulação, as feiras de arte, os depósitos discretos do tipo Schaulager na Basileia, os antigos museus transformados em vistosos showrooms, ou as galerias transformadas em museus, os leilões, enfim, com vendas colossais, obscenas… Subprimes, titularização, esquema em pirâmide de Ponzi…  Em pouco mais de duas décadas se tomou consciência de que os objetos sem valor eram suscetíveis não somente de serem postos à venda, mas tornarem-se igualmente objetos de troca, próprios à circulação e à especulação financeira mais extravagante. Os procedimentos que permitem promover e vender uma obra dita de “arte contemporânea”, podem ser comparados aos que, no mercado de valores mobiliários e outros, possibilitam vender qualquer coisa e muitas vezes, até mesmo, nada.

Damien Hirst na Bienal de Veneza não surpreende

Tomemos como exemplo, Damien Hirst (1965) que estará agora em duas megaexposições na 53a Bienal de Veneza, com 200 trabalhos inéditos no Palazzo Grassi e na Punta della Dogana de Pinault, o colecionador milionário. Não surpreende. Dinheiro faz dinheiro.

Ora, suponhamos que “objetos de curiosidade” possuam um autor do tipo Damien Hirst e que estes objetos precisem ser “lançados” da mesma forma como os de Hirst o foram. Que processo permitirá ao artista, entrar no mercado? Como, a partir de um valor não apurado artisticamente (caso de Hirst), lhes dar um preço e vendê-los por milhões de dólares individualmente ou, se possível, por lote?

Questão de crédito: quem acreditará neles a ponto de investir? Fundos de cobertura (Hedge Fund) e titularizações deram o exemplo do que a manipulação financeira é capaz de conseguir a partir do nada. Primeiro, afoga-se o crédito duvidoso (o “artista tipo Hirst”) em um lote de créditos um pouco mais seguros. Por exemplo, expõe-se uma obra “curiosa” deste autor ao lado de Sol LeWitt, Beuys ou Frank Stella – que têm trabalhos já conhecidos e com “classificação de crédito” (“notação financeira de risco”) AAA ou BBB – no mercado de valores, mais seguros do que os chamados “títulos tóxicos”.

Logo, faz-se com que entrem no circuito das raras e famosas galerias particulares, perfeitamente advertidas, e que podem compartilhar os riscos. Os acionários, que formam o núcleo de “iniciados”, financiam o projeto e também estão lá para “esclarecer” os especuladores dos leilões, feiras de arte, ou os simples amadores, aqueles que tomam o risco. Os “iniciados” são como as “agências de notação financeira” (ou “agências de notação de risco”) ou seja, a sua função é guiar os investidores, porém, na verdade, manipulando os juros e favorecendo a especulação. É o que se chama de insider trading.

Não é o valor da obra que é levado em conta, e sim o último preço com que foi vendida

Promete-se, por exemplo, um rendimento com juros muito elevados, 20% a 40% na revenda, desde que esta se faça em curto prazo, seis meses no máximo – ao contrário do que ocorria no mercado da arte antigamente, que era fundado no longo prazo. Se não houver comprador, a galeria pode até mesmo se comprometer a recomprar a obra do “artista tipo Hirst” pelo preço inicial, aumentada de pequenos juros. Encontra-se, enfim, uma instituição pública – um grande museu de preferência – que faça uma exposição dele. Os custos da mostra, transporte, seguros, catálogo, despesas de comunicação e relações públicas (coquetel, jantar de inauguração, etc.) serão discretamente cobertos pela galeria ou pelo consórcio que o promovem.

Mas, principalmente, pedra angular da operação, o sistema institucional – por meio deste engenhoso estratagema – parecerá garantir a conservação e o valor das propostas vindas do mercado privado, ou seja, duas ou três galerias, um leiloeiro e alguns especuladores.

Evidentemente, não é o valor da obra que é levado em conta, e sim o último preço com que foi vendida. Claro, como no esquema de Ponzi, o perdedor será aquele que não conseguir vender rapidamente a obra: o último perde tudo.

Um imbróglio financeiro mafioso internacional

Reduzir as obras a simples produtos, imprimindo-lhes um valor artificial, diverso de sua qualidade estética real já seria um delito em si. No entanto, se pedíssemos enquetes judiciárias junto a certas instituições, feiras de arte, museus e outras, cruzando fichas de compras, históricos, agentes e galeristas dos artistas comprados, membros das comissões técnicas e conselhos de compra, se se conseguisse desembaraçar esse imbróglio financeiro mafioso internacional, a verdadeira função e vocação destas instituições talvez pudesse ser salva um dia.

Por razões que não interessam aqui, visitei feiras em Colônia, na Basileia e em Paris, a FIAC. Vi com os meus próprios olhos, a cada vez, quando, não simples conservadores – diretores mesmo, no mais alto cargo – flertavam e traficavam com galeristas, aceitando comissões para apresentar certas obras (nem sempre boas e/ou representativas) aos “conselhos” ou “comissões de aquisição” de seus museus. Ninguém é ingênuo ou purista quando acredita que ética e estética são uma coisa só. Porque desejar moralização para a vida política e fechar os olhos quando se trata da vida artística?

Até a próxima, que agora é hoje e como diz Raymonde Moulin, pessoa maravilhosa que tive o prazer de conhecer nos anos 1990, especialista das relações entre arte e economia, fundadora do centro de sociologia da arte no CNRS, em Paris: “O mercado da arte é uma coisa à parte. O que é delito em outros lugares, aqui é valorizado.” “Por exemplo”, afirma ela, “quanto mais se é iniciado, mais se é reconhecido e ouvido. Em outros lugares, ‘ser iniciado’ é um delito! E eu me permito acrescentar que, na Bolsa, com insider trading, você vai direto à prisão!”
[*] “Socius”, segundo a psicologia social,  é o componente social do comportamento e da vida mental dos seres vivos.