Todos os homens são homossexuais?

Não que eu defenda esta hipótese, mas seria ótimo se fosse provada. Os machões teriam que reinicializar o “aplicativo de gênero” e rever muita coisa, a partir do grau zero da masculinidade.

Imagem: “O estupro de Tamar”, pintura de Eustache Le Sueur, 1640, representa a passagem da Bíblia em que Tamar é estuprada por Amnon, seu meio-irmão. (Wikipédia)

Os franceses estão chocados com as imagens divulgadas na mídia do “presumido” (é preciso lembrar que ele ainda não foi julgado) assassino do Paraná espancando a sua mulher no carro, na garagem, dentro do elevador do prédio onde moravam e, depois, ocultando as provas.

Mas o mundo inteiro está ainda mais escandalizado com as estatísticas gerais da violência contra as mulheres no Brasil: 60 mil estupros por ano (6 casos por hora) e 221.238 crimes de violência conjugal enquadrados na Lei Maria da Penha (25 casos por hora). E tudo isso apenas em 2017. O número de estupros cresceu 8,4% em relação a 2016.

Além do choque das imagens do vídeo e dos números, os europeus também deveriam ficar chocados com o que está por trás. O que esperam eles como “efeito derivado” de um território latino, alvo direto da onda conservadora, com uma bancada crescente de “bala”, “boi” e “bíblia” no seu Congresso, país de fato subdesenvolvido em educação, que renega a própria cultura, não tem memória, está muito longe ainda da necessária laicidade, é obrigado a votar e, além do mais, possui tradição machista? Esperam eles outra coisa desses milhares de homens que praticam estupro e violência conjugal em um país achincalhado, o terreno mais propício que existe para a misoginia, além do machismo?

Todos os homens são homossexuais

A teoria não é minha. Faz tempo que esta afirmação encontra-se na boca dos maiores psicoterapeutas e psicanalistas do mundo. Há livros de especialistas sobre o assunto. Até mesmo Platão e Freud estavam convencidos de que a bissexualidade seria inata.

Em seu apanhado de reflexões “A Vida material”, Marguerite Duras afirma:

“Os homens são homossexuais. Todos os homens possuem o potencial para serem homossexuais. Apenas lhes falta saber, encontrar o incidente ou a evidência que o revelará.”

Mesmo se dissermos que seria mais plausível a autora de “O Amante” acreditar em Papai Noel, ninguém pode negar que a convicção dela faz pensar…

O Gênesis, a narrativa das origens do mundo no Velho Testamento, diz que, criado por Deus à sua imagem, Adão procede da perfeição absoluta: ele é, ao mesmo tempo, masculino e feminino, o que não o impede de ficar entediado no Jardim do Éden.

Então, Deus o mergulha em sono profundo, tira uma de suas costelas e cria Eva, sua companheira, “a mulher”. Trata-se de um relato mitológico segundo o qual, cada um dos dois seres possui em si, de fato, componentes masculinos e femininos.

Pois este ser original, dotado de dois sexos, foi também evocado por Platão (428/427 – 348/347 a.C.) em “O Banquete”, onde o filósofo dividiu a humanidade em três categorias: o macho, a fêmea e o andrógino, designado lindamente como “filho da lua.”

E o pior (ou melhor) é que nada disso contradiz as descobertas muito posteriores da biologia. Se o sexo cromossômico do humano – XX para as mulheres, XY para os homens – é determinado desde a fecundação, o embrião demora a se diferenciar. Externamente, em um primeiro tempo, fica tanto masculino quanto feminino e é apenas durante o quarto mês de gravidez que, graças ao trabalho dos genes e hormônios, que os sexos fetais se formam.

De acordo com os nossos conhecimentos atuais, são os androgênios (hormônios sexuais masculinos) que desempenham um papel decisivo. Em quantidade suficiente, permitem que o feto se desenvolva como menino. Caso contrário, será uma menina. Poderíamos dizer, então, que o modelo feminino é o tipo humano básico, não?

Já segundo os “psi”, essa ausência de diferenciação embrionária seria encontrada igualmente em nossa psique. Sigmund Freud (1856 — 1939), em seus “Três Ensaios” sobre a teoria sexual, afirma que todo ser humano possui em si uma dimensão bissexual, em que as atrações por ambos os sexos coexistem. E que é somente durante o desenvolvimento afetivo e psíquico que uma das duas tendências – heterossexual ou homossexual – se afirma e assume a preponderância.

Misoginia: praga maior e mais destruidora

O fato é que a linha entre essas tendências é muitas vezes porosa. Sabe-se que tudo pode variar segundo o momento da vida, a idade, etc. As fronteiras do desejo sexual e do amor são flutuantes. E tão complexas quanto a natureza humana. Assim, se todos os indivíduos de sexo masculino fossem de fato homossexuais – dependendo, é claro, da mãe (e do pai) que tiveram – eles se dividiriam entre:

1) Homossexuais assumidos que amam as mulheres.
2) Homossexuais assumidos que não amam nem odeiam as mulheres.
3) Homossexuais assumidos que odeiam as mulheres.
4) Homossexuais não assumidos (ou não conscientes) que amam as mulheres.
5) Homossexuais não assumidos (não conscientes ou reprimidos) que não amam nem odeiam as mulheres.
6) Homossexuais não assumidos (ou reprimidos) que odeiam as mulheres. Sendo que estes, por motivos óbvios, seriam os mais violentos e perigosos.

Eis apenas um pequeno exercício simplificador (ou um capricho da imaginação) segundo a hipótese. Porém, seria ótimo se ela fosse provada. Os machões teriam que reinicializar o “aplicativo de gênero” e rever muita coisa, a partir do grau zero da masculinidade.

Na verdade, os franceses precisariam saber que o que está por trás dos números e imagens chocantes é a condição das mulheres num país aviltado como o Brasil de agora, onde  – nem todos felizmente, mas ainda – milhares de homens não conseguem e são até mesmo impedidos de se conhecer e lidar com própria sexualidade.

Até a próxima, que agora é hoje e nenhum aspecto da luta feminista poderá vingar enquanto a misoginia, uma praga muito maior e mais destruidora do que todos os racismos somados, não for discutida, entendida e denunciada, mesmo e sobretudo no Dia dos Pais!

Cena de Banquete. Vaso antigo, cerca de 480 a. J.-C. (Museu do Louvre).
São João Batista (Leonardo da Vinci), onde coexistem as naturezas feminina e masculina.
O Banquete de Platão, representado por Anselm Feuerbach (1873), Alte Nationalgalerie, Berlim.

Feminismo e machismo: lados da mesma moeda

Por coincidência, no dia 9 de Janeiro, data em que foi publicado na França o controvertido manifesto que pede a “liberdade de importunar para preservar a liberdade sexual”, comemorava-se os 110 anos do nascimento de Simone de Beauvoir. A mesma que escreveu e assinou outro manifesto chamado “Eu abortei”, em 1971, junto com Catherine Deneuve, Marguerite Duras, Françoise Sagan e mais 340 mulheres, quando esta ação ainda era passível de julgamento penal e prisão. Beauvoir, aliás, em uma das cartas apaixonadas que enviou ao amante, o escritor americano Nelson Algreen, entre 1947 e 1964, afirmou que “adoraria lavar as cuecas dele”. Eis uma grande, desprendida e exemplar feminista. Talvez não conseguisse salvar da dissensão a futura relação homem-mulher, mas certamente teria assinado o manifesto.

 

Imagem: Cartas de Simone de Beauvoir a Nelson Algreen, um amor transatlântico (1947-1964)

 

A presente declaração não foi escrita nem pensada por Catherine Deneuve, mas conceituada e redigida por 5 intelectuais, apoiada por algumas celebridades, entre as quais a atriz, e assinada por mais de cem mulheres respeitáveis de todas as áreas da cultura. Em resumo, ela começa dizendo que “o estupro é um crime” e em nenhum momento defende ou relativiza o assédio. Deixa claro que “a paquera insistente ou desajeitada não é um delito” e que a “galanteria, de forma alguma, pode ser considerada uma agressão machista”. O texto também não denigre a “palavra liberada” depois do caso Weinstein, embora deplore (com toda razão) o “risco de puritanismo”, moralização e  estandardização, aqueles “modelos únicos de comportamento” que caracterizam a “americanização” de certas sociedades.

O próprio presidente Emmanuel Macron, no dia 25 de Novembro do ano passado, por ocasião do “Dia Internacional da eliminação da violência contra as mulheres”, chamou a atenção para o perigo de se cair num “cotidiano de delações”, e de que “cada relação homem-mulher ficasse sob a suspeita de ‘dominação’, como uma proibição”. O manifesto deste mês, portanto, pareceu límpido, ponderado, digno, respeitoso e cheio de bom senso. Além de ter sido corroborado pela tribuna do New York Times, de Daphne Merkins, uma antifeminista brilhante que manifestou praticamente as mesmas ideias.

Quanto à preocupação das signatárias francesas com a moralização que também codifica cada vez mais a criação artística e literária, em nome do que é ou não conveniente, ela é igualmente legítima para todos nós – críticos, artistas, atores, jornalistas, escritores etc., em toda parte. Quando se trata de “normalizar” a arte, isto não tem outro nome: chama-se censura. Reescrever a ópera Carmem, que transforma a heroína em assassina de Don José, em nome da luta contra as violências sofridas pelas mulheres, não seria igualmente uma violação do artista e de sua obra, em nome do “bem”?

Nem tudo é luta o tempo todo…

Na carta do jornal Le Monde, contudo, o que provocou tal bafafá foi apenas uma frase mal explicada e mais alguns mal-entendidos em desastradas declarações públicas. A tribuna foi acusada, injustamente, de promover a “banalização das violências sexuais” e o desprezo pelas mulheres. Os detratores foram incapazes de assimilar um “outro olhar” sobre a questão. E o linchamento público de uma atriz e mulher da envergadura de Catherine Deneuve, com posições irrepreensíveis, e cuja experiência dramática e literária atravessou um século pelas mãos dos maiores cineastas do mundo, não pode ter sido mais injusto e ignóbil.

Ora, a frase ultrajante estava simplesmente no pedido da “liberté d’importuner” (liberdade de importunar), que deve ser traduzida segundo o seu sentido em francês e não foi. Nesta língua, ela significa “liberdade de galantear e seduzir, inclusive por contato”. Nada a ver com assédio e importunação tal como conhecemos, que é crime. Trata-se da famosa “sedução à la française”. Além da incompreensão semântica, talvez fosse uma certa histeria, misturada com provincianismo e moralismo, que impediu o entendimento de algo que, afinal, é bastante simples. Nem tudo é luta o tempo todo…

Não representou uma surpresa, portanto, o fato de que o manifesto tivesse chocado algumas feministas radicais, assim como certas hipócritas do #MeToo (que denunciaram Weinstein depois que conseguiram o que queriam) ou do #BalanceTonPorc, as “donas da doxa”, as ideólogas e “bem-pensantes” e sobretudo as arrogantes egocêntricas que pensam que falam em nome da humanidade enquanto que só sabem olhar o próprio umbigo.

Atenção amorosa não mata

Pelo jeito, vai demorar bastante ainda para que certas brasileirinhas, francesinhas e americaninhas que se julgam melhores do que as outras e querem impor sua vontade compreendam que o que elas acham e sentem não é necessariamente o que outras mulheres acham e sentem. Umas gostam de mão no joelho e beijo roubado, outras não. E nem sempre isso é crime! Galantear (com maior ou menor delicadeza, com ou sem insistência) ou passar uma cantada não é o mesmo que assediar e menos ainda do que estuprar. “Importunar” de verdade também é outra coisa (e dá prisão!).

Atenção amorosa não mata e não machuca mulheres fortes. Homens sendo livres para cortejar, as mulheres serão livres para gostar ou não, e mesmo se defender, de seus métodos de sedução. Existem diferentes formas de sexualidade, erotismo e relação. Seria preciso que as puritanas com mais neurônios lessem urgentemente L’érotisme (o título do volume, em português, é em francês) de Georges Bataille. Já para as que gostam de Cinquenta Tons de Cinza, a recomendação é André Pieyre de Mandiargues (Narrativas eróticas). Para as demais, fica o delicioso filme Beijos roubados de Truffaut, baseado em O Lírio do Vale, romance de Balzac. Não é porque uma mulher prefira dar um tapa na cara de quem lhe rouba um beijo, que ela tem o direito de proibir os homens em geral de fazerem isso e certas mulheres de gostarem. O direito de amolar existe, sim.

Claro que há casos horripilantes. Com as mulheres que sofreram reais violências só podemos ser solidários. E com os criminosos que as brutalizaram, não podemos pedir outra coisa do que “tolerância zero”. Porém, existem mulheres que têm o direito de não sentirem que uma sedução mais pesada seja um traumatismo eterno. De não sentirem que são necessariamente uma isca, uma vítima, pois sabem que o aprisionamento neste “estatuto de fragilidade” pode ser uma armadilha.

Não restará pedra sobre pedra na relação homem-mulher

Feminismo e machismo tornaram-se lados da mesma moeda. Nada de novo sobre a Terra. Trata-se de mais um círculo vicioso. Desde o fim do século 19, com raízes no Iluminismo do século 18 e mesmo antes, em outros contextos históricos, o machismo engendra o feminismo que, por sua vez, paradoxalmente, gera mais virilidade agressiva e vice-versa. Com o passar do tempo, é uma subida aos extremos da violência. Uma dinâmica divergente onde os argumentos de um lado afastam o outro, provocando ações cada vez mais hostis e/ou coercivas nos dois campos, em direção à total dissensão.

Até a próxima, que agora é hoje – felizmente ainda não chegamos lá – e devemos fazer tudo para que isto não aconteça pois, o final será a fratura. Não restará pedra sobre pedra na relação homem-mulher, apenas a indiferença, o silêncio glacial da entropia!

“O Estupro de Hilas pelas Ninfas” Arte românica da primeira metade do século IV. Museu Nacional Romano, Palácio.
“Hilas e as Ninfas”(1896), John William Waterhouse (1849–1917), Manchester Art Gallery