A vida sexual das estátuas

Acabo de descobrir que bonecas infláveis têm a ver com arte. Ou, mais especificamente com esculturas. Sim, porque se o potencial erótico de corpos modelados não deixa as pessoas indiferentes, isto quer dizer que elas talvez sofram de “agalmatofilia”, que é um desvio sexual bastante estranho.

Imagem: “Estátua de jovem mulher com o rosto coberto por uma colméia de abelhas”, obra do artista francês Pierre Huyghe na documenta 13 de Kassel, na Alemanha, 2012.

“Agalma” em grego significa “escultura” e “filia”, no caso, o amor e atração sexual por estátuas. Agalmatofilia, portanto, é uma perversão que existe, mas é pouco estudada e conhecida, provavelmente porque não perturba a ordem pública e não faz mal a ninguém, exceto à própria pessoa que às vezes pode ficar um pouco traumatizada.

Pelo menos é o que conta em seu livro Sobre Agalmatofilia (Editora L’Échoppe, 2012), a formidável historiadora das ideias, de arte e da filosofia da ciência, Laura Bossi, também neurologista, especialista em epilepsia e doenças neurodegenerativas, curadora de arte e mulher de Jean Clair – pseudônimo de Gérard Régnier, igualmente curador e historiador, hoje membro da Academia francesa.

Sabemos que além da perfeição de suas formas, as estátuas dividem com amor o seu sonho de eternidade. O que não sabíamos é que há casos célebres na Antiguidade, de trocas íntimas entre elas e seres humanos, sobretudo homens. O que não deixa de ser uma boa solução, já que estátuas não têm como usar #metoo nem caçar os que as assediam.

 

Francisco Brennand, Oficina Cerâmica, Recife.

 

Lembro muito bem de Jack Lang em pessoa, o ministro da cultura de Mittterrand, que vi na Bienal de São Paulo, acariciando o traseiro de uma escultura de Francisco Brennand. Foto, aliás, que saiu em todos os jornais da época. Na Folha, se não me falha a memória (“na Folha se não me falha”, me perdoe, saiu sem querer), com o título: “A mão-boba do ministro francês em visita à Bienal”.

No livro, descobrimos com surpresa o quanto de emoção, paixão e comportamentos sexuais estranhos certas pinturas e esculturas podem suscitar. Pensando bem, quem não fica embasbacado com o charme de Lady Hamilton pintada por George Romney, uma das jóias da Frick Collection que pode ser contemplada em Nova York? Até o cachorro do quadro parece magnetizado.

 

Lady Hamilton por George Romney(1734–1802), uma das jóias da Frick Collection, Nova York.

 

O importante escritor Julian Green, cuja obra foi marcada pelo homossexualismo e a fé católica, por exemplo, não pára de contar os enfeitiçamentos que sofreu olhando certos corpos masculinos em vários museus. A sensualidade e o erotismo que brotam de obras de arte, quadros e sobretudo esculturas percorrem toda a sua obra. Vale a pena reproduzir uma de suas narrativas autobiográficas, onde ele conta a sua visita ao Museu nacional de Nápoles. Mesmo porque, quando estive lá, na mesma sala, não senti nada disso. Diz ele:

“Quando eu me encontrava na sala dos bronzes pompeanos, o sangue começou a pulsar no meu corpo com uma força que me obrigou a parar (…) compreendi que eu estava no coração de uma zona proibida. Tudo que eu possuía em mim de religião batalhava para me fazer deixar aquele lugar perigoso, mas eu não me mexia. Dizer que a nudez se espalhava entre aquelas paredes é pouco: a volúpia triunfava sob todas as suas formas.”

Fascinado por uma estátua de Narciso, ele acrescenta: “Com uma felicidade misturada a horror, andei em volta desta estátua verdadeiramente infernal. Eu estava enfeitiçado como nenhum homem neste mundo. Quanto tempo fiquei lá? Não sei. O tempo não existia mais, eu me sentia lentamente transformar em outra pessoa, despertada, avisada”. E em um de seus livros, Green relata ainda um sonho no qual ele abraça uma escultura.

Estátua de Narciso, Museu de Nápoles. (se não estiver vendo esta imagem, clique no LINK) 

 

Fonte Marco Polo, Praça Ernest Denis, Paris. Construída entre 1867 e 1874, na entrada do Jardim Marco Polo, avenida do Observatório em direção ao Jardin do Luxemburgo, suas 4 mulheres desnudadas foram realizadas por Jean-Baptiste Carpeaux.

 

Penso que qualquer pessoa, mesmo sem sofrer de agalmatofilia, pode enumerar algumas obras que fazem nascer em seu coração uma emoção estética ou um sentimento erótico. Dá para imaginar o que devem sentir certos homens ou mulheres ao passearem nos Jardins do Observatório em Paris, onde está a fonte das “quatro partes do mundo”, representadas por mulheres desnudadas e formosas! Até os cavalos fazem parte do erotismo.

Para nossa felicidade existe também o oposto desta “parafilia” artística, este distúrbio psíquico igualmente chamado “pigmalionismo” em francês e espanhol (por causa do mito de Pigmalião), que é caracterizado por práticas sexuais não muito recomendáveis do ponto de vista social e estético. Até a próxima que agora é hoje, e “agalmatofilia ao contrário” é Grace Kelly, deslumbrante em Alta Sociedade (1956), filme de Charles Walters, tentando demonstrar que “não é fria como uma estátua de bronze”!

Réplica da estátua de Narciso que está no Museu de Nápoles (se não estiver vendo esta imagem, clique no LINK)

 

O artista Joseph Erhardy, em seu ateliê. Foto de Henri Cartier-Bresson.

 

“Pigmalião e Galatea” de Jean-Léon Gérôme (cerca de 1890), representa o mito de “Pigmalião” que se apaixona por sua própria escultura. Metropolitan Museum of Art, Nova York.

 

“Pigmalião apaixonado por sua estátua”, Jean-Baptiste Regnault (1785).

 

“Pigmalião e Galatea” (1886), por Ernest Normand. Atkinson Art Gallery and Library.

 

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Em Paris, moda é arte

A retrospectiva dos 70 anos de Christian Dior, “o costureiro do sonho”, inaugurada no início do mês no Museu das Artes Decorativas em Paris (até 7 de Janeiro de 2018), é um enorme sucesso de público. Isto não surpreende. A mostra é um espetáculo deslumbrante de imagens, som e luz.
Videoclipe realizado especialmente para os amigos e leitores deste blog. Recomendo assistir em tela cheia.

Na exposição Christian Dior, o costureiro do sonho, um universo feérico põe em valor mais de 400 vestidos e acessórios de alta-costura, em 3,000 metros quadrados. As suntuosas criações são assinadas pelo mestre e seus sucessores, que reinterpretam os códigos do imaginário de Christian Dior, homem de cultura enciclopédica e referências infinitas, tiradas de um repertório artístico eclético. A sua própria coleção de arte surrealista e metafísica provam isso. Junto aos tesouros de costura, estão objetos de arte de todas as épocas e todos os continentes, que lembram o quanto a visão de Christian Dior foi universal.

Quando nos inspiramos na natureza não podemos nos enganar. (Christian Dior)

O percurso abre-se com a lembrança de sua vida, os “anos loucos” da vanguarda na arte e na vida intelectual parisiense, o aprendizado do desenho de moda e a entrada na alta-costura. Antes de se dirigir à moda, Christian Dior foi diretor de uma galeria de arte, onde conviveu com toda uma geração de artistas como Giacometti, Dalí, Calder, Leonor Fini, Max Jacob, Jean Cocteau e Christian Bérard. Colecionador apaixonado, amador de jardins, arte e fotografia, porcelanas e tecidos orientais, o mestre inspirou-se em todas as fontes para criar as suas roupas.

Até a próxima que agora é hoje e, para uma experiência proustiana, há também o  Museu Christian Dior, em Grandville, com uma exposição (até 24 de setembro) que faz voltar às origens da legenda!

Galeria Pierre Colle, dirigida por Christian Dior nos anos 1950. À direita, escultura de Salvador Dalí, presente na exposição.

 

Henri Cartier-Bresson, a modelo Alla com o vestido “May”, 1953 © Henri Cartier-Bresson / Magnum Photos

 

Claude Monet, O Jardim do artista em Giverny, 1900 – Óleo s/ tela, Paris, Musée d’Orsay © RMN-Grand Palais (musée d’Orsay) / Hervé Lewandowski

 

 

Desenho de Marc Chagall, dedicado a Christian Dior

 

Elizabeth Taylor, vestindo Dior