Conjugalismo e ‘chabadabada’

Como se já não bastasse tantas perdas no ano passado, a morte do ator, cantor e compositor Pierre Barouh, três dias antes da virada para 2017, trouxe à lembrança a famosa canção do “chabadabada” que ele criou junto com Francis Lai para Claude Lelouch. E me inspirou este diálogo sobre conjugalismo e outros assuntos, entre Um Homem e Uma Mulher.
Um Homem, uma Mulher
Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée, em Um Homem, uma Mulher, filme de Claude Lelouch (1966)

Um Homem – Aquele filme de Lelouch marcou a minha vida. Quis, a partir de então, que as minhas relações fossem assim, livres e maduras.

Uma Mulher – “Maduras” pode ser. Mas “livres” já acho meio difícil. Não há relação totalmente livre. Quando existe amor, existe dependência e também o desejo, normal, de exclusividade. “Amor livre” é artificial, nunca deu certo e só criou ressentimento. Basta ler Simone de Beauvoir quando ela fala de Sartre e também saber que o pacto que fizeram nos jardins das Tulherias, de sempre se dizer verdade, não deu certo. Ele contou que mentia tanto pra ela, que teve que inventar para si uma “moral provisória”…

Um Homem – Não lembro de Beauvoir falando mal de Sartre.

Uma Mulher – Então você não leu A Cerimônia do Adeus. Não que ela fale mal de Sartre. Ela não fala mal… apenas destrói a imagem do coitado com pormenores crus da sua vida íntima, como se estivesse se vingando. Mulheres que, intimamente, odeiam os homens ou têm contas a ajustar, seriam mais coerentes e justas se não se aproximassem deles para nada.

Um Homem – Ela também tinha a vida e as grandes paixões dela. Está enterrada ao lado de Sartre em Montparnasse, com o anel que seu amante, o escritor Nelson Algren lhe ofereceu depois da primeira noite de amor.

Uma Mulher – E Algren era americano, talentoso, boa pinta, judeu e comunista. Não era vesgo, nem baixinho.

Um Homem – Tá vendo? Sartre aceitava relações livres e maduras! Vesgo e baixinho, porém jamais ressentido.

Uma Mulher – Sartre ressentido, não! Muitas outras coisas, sim. Durante toda a vida dele, o filósofo trocou com Beauvoir uma longa e terna correspondência na qual eles se contavam mil e um pormenores do cotidiano. Era “mon cher amour” pra cá, “minha pequena esposa morganática” pra lá. Simone de Beauvoir com o turbante, aquela voz  e jeito duro que tinha, foi o seu “castor encantador”. Imagine! Mas quando se lê todas as biografias e relatos das pessoas envolvidas, parece que nós, comuns mortais, somos anjos inocentes perto da existencialista feminista e seu filósofo. Ah, os mitos! Impossível tocá-los, não é mesmo?

Casamento não depende de igualdade.

Um Homem – Você é contra as feministas?

Uma Mulher – Eu sou contra a ditadura da igualdade.  O cínico Maurice Sachs dizia que “a igualdade é um preconceito de proletário” (risos). Hoje ele seria linchado (risos), se bem que acabou mal de todo jeito… Às vezes me pergunto se não tenho o mesmo espírito de contradição que ele adorava em Misia Sert, a egéria russa de tantos pintores, poetas e músicos no começo do século 20: quando estou com pessoas de esquerda fico de direita e quando estou com pessoas de direita fico de esquerda. (risos)

Um Homem – É… já percebi. Mas igualdade na vida comum é muito bom, não acha?

Uma Mulher – Quando o tema “igualdade” vem à tona em conversa de casal, é sinal de que as coisas vão mal. Casamento não depende de igualdade. Sou contra esse falso e demagógico discurso feminista, sim. Pois o que perturba um casal é falta de confiança, falta de entendimento. Para justificar problemas conjugais, até o sexo é supervalorizado. Como se a falta de desejo, tanto quanto a desigualdade, destruísse o amor. Mentira! É muito simpático o desejo, mas não dura até a tumba, sim? Um casal pode se amar sem desejo. Às vezes até mais!

Um Homem – Então você não é feminista.

Uma Mulher – Claro que sou feminista! Penso que tudo deve estar aberto às mulheres: carreiras, posições, TUDO! E também a liberdade de escolher a vida e as paixões que quiserem. Ainda não é o caso, infelizmente. Há muita luta pela frente. Mas sou pela igualdade de oportunidades, não pela igualdade de resultados.

Um Homem – Entendo. Mas, nuance! Quando afirmei que gostaria que as minhas relações fossem livres queria dizer fora do matrimonio formal, sem laços e obrigações, exceto as emocionais. Se o amor não for livre, não é amor. Aquele filme do “chabadabada” inspirou a minha reflexão sobre o que é o amor, e mais especialmente, o que é o grande amor estilo Tristão e Isolda, Lancelote e a rainha Genebra, Dama das Camélias, Werther. Podemos nos contentar com relações medíocres ou buscar algo grande, obrigando-nos a ser melhores do que somos normalmente.

Uma Mulher – Essa é uma visão masculina, acho. Como para Sartre. O grande amor, ou “amor necessário” (como ele dizia) com a Simone; os amores “contingentes” (também como ele dizia) com o resto, a pexotada. Para as mulheres, uma ligação amorosa não é forçosamente “grande”, “necessária” ou “contingente”. Nós amamos sem hierarquia.

Vale a pena vestir-se de branco para nada?

Um Homem – Na verdade, casamento de gente jovem sempre me entristece. Uma festa de divulgação de um sentimento é potencialmente perigoso. A metade dos casamentos em toda parte duram pouco. Vale a pena vestir-se de branco para nada?

Uma Mulher – Vale a pena vestir-se da cor que for, quando se ama alguém, se pensa que é a pessoa certa e se quer ficar com ela, mesmo sabendo que podemos nos enganar e que o amor pode não ser eterno. Além de que, às vezes, não nos enganamos e o amor é eterno mesmo. Saiba que sou a favor, super a favor do casamento formal. Mais do que isso, penso que as relações sem “laços e obrigações” não são relações. Persiste uma nuvem cinza sobre um casal que não possui uma situação definida por dentro e por fora: emocionalmente, claro, e também legalmente. Só existe uma palavra para definir pessoas que não querem – ou não têm coragem de – se casar pra valer: RESISTÊNCIA!

Um Homem – Então vou ser mais preciso: não sou contra o casamento. Sou contra o divórcio. Quando eu era jovem quase todos os pais dos meus amigos estavam separados, assim como hoje uma grande parte dos meus amigos. Eu creio no amor verdadeiro e eterno. A questão está em como chegar a ele.

Uma Mulher – Como chegar eu não sei. A gente acaba chegando, de uma maneira ou de outra. E se não chegar, também está bom. Valeu a aceitação de que o amor e a vida a dois podem (e devem) existir em vez das racionalizações que levam as pessoas, por medo da frustração, a inventar mil desculpas para dizer que é “melhor viver sozinho”. Talvez até seja muito bom – e é mesmo – mas não me digam que é “melhor”!

Um Homem – Eu gosto e também não gosto de viver sozinho. De todo modo, não consigo manter uma vida a dois por muito tempo. Sartre e o Castor, quando a vida deles começava a ficar um pouco monótona, faziam “ménage à trois” ou cada um ia para o seu lado e depois voltavam…

Uma Mulher – Salvo exceções, claro, em questão de ligações amorosas heterossexuais, vocês homens se mostram um pouco incapazes (risos). Para “ligação amorosa”, acho que é preciso uma capacidade essencialmente feminina. As mulheres têm uma perspectiva sobre o casal e a duração da relação, que é diferente. Geralmente, elas são ativas e “fazem” o casal. Os homens são passivos, na maior parte das vezes tem imagens de “prisão”, recusam a ideia do “par amoroso” ou se resignam a ela. Em geral veem isso como uma carga. E quando elogiam o casamento (o que é raro), desconfio um pouco me perguntando quais são os seus motivos. Para as mulheres, viver a dois não exclui a liberdade. Para os homens, sim. Para elas, é um investimento do espírito, uma ação de emancipação. Para eles, não. Dá trabalho viver a dois, é preciso refletir, ponderar. Talvez as mulheres sejam menos preguiçosas neste aspecto (risos).

Intimidações contemporâneas

Um Homem – Viver junto já está muito bom. Então, pra que casar?

Uma Mulher – Se o casamento enquanto ritual, contrato, instituição jurídica, cultural e social não fosse importante, ele simplesmente teria deixado de existir. E ele existe desde o Egito antigo, a antiguidade greco-romana, no antigo e novo testamento. Você diz que “metade dos casamentos em toda parte duram pouco”. Se ficássemos, como você, fazendo caraminholas ou se fossemos pensar em “estatística de separações” antes de casar, isso seria uma besteira muito grande!

Um Homem – (Faz menção de responder, dá um suspiro e fica em silêncio.)

Uma Mulher – Casar com a pessoa certa é muito bom, dá segurança e energia para trabalhar e produzir, dá uma alegria e um sentimento de realização muito grandes, além de ser prático e de estar em acordo com as leis. Recomendo o casamento, em qualquer idade e em qualquer configuração de gêneros, vivamente!

Um Homem – Ter as ideias claras é uma felicidade. Você tem uma visão otimista do casal.

Uma Mulher – Sim, a vida afetiva é sempre palpitante. Na verdade, procuro um caminho entre o pessimismo masculino e a vingança feminista. Estas pensam que “o amor é o ópio das mulheres”. Do meu lado, penso que o feminismo exacerbado (e sem reflexão) é o ópio das recalcadas.

Um Homem – Você não está sendo reacionária ao fazer a apologia do casamento?

Uma Mulher – Bem que estava esperando por essa pergunta! Faz parte das “intimidações contemporâneas” com as quais não devemos nos sentir intimidados de jeito nenhum! Você não gosta de arte ecológica, política, indigente, social, é reacionário. Mora em metrópole, onde tem acesso e sabe o que importa… é reacionário. Fica deprimido com a última Bienal de São Paulo, é reacionário. Tem mais de 60 anos, é reacionário…

Um Homem – Elogio de casal é coisa de burguês.

Uma Mulher –  É espantoso como, nos últimos tempos, tudo se torna um estigma de “direita”. Até o afetivo e o que toca valores familiares. Ocorre que conhecemos todos os tipos de amor na História: amor romano, amor medieval, amor do renascimento, amor burguês do século 19, amor Sartre e Simone de Beauvoir que foram os Abelardo e Heloísa laicos dos tempos modernos, e agora temos uma volta ao “conjugalismo” que não é burguês e também não é reacionário.

Um Homem – É verdade que essa ligação entre Sartre e Simone de Beauvoir foi um pouco acrobática, mas com aquele pacto que eles fizeram nos jardins em frente ao Louvre em 1929, a moral burguesa foi sacudida de vez. Hoje, com todas as composições possíveis, famílias recompostas, etc., estamos muito mais próximos deles do que da moral burguesa de “monogamia eterna” dos anos 50.  O que é esse conjugalismo do qual você fala?

Uma Mulher – Conjugalismo, para mim, é ser a favor do casamento para todos, mulheres com homens, homens com homens e mulheres com mulheres. É acreditar nos valores familiares, em todos os tipos de composição, com ou sem parentalidade. É saber que família é família, nem sempre biológica, que os laços são afetivos, legais e a responsabilidade é a mesma em qualquer configuração. “Viver junto” – o “grande e revolucionário” ideal – começa a dois. Defender a diversidade, a mistura de raças e a tolerância, sem ser capaz de viver com um ou uma parceira, e chegar a um entendimento em sua própria casa, em condições de liberdade total, é um disparate, não acha? Como defender uma moral universal, abstrata e sem relação com a experiência do dia a dia? O moral tanto quanto o ético estão no que vivemos cotidianamente. Jamais em regras ditadas por ideologias.

Até a próxima, que agora é hoje!

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