Que país é este?

Que país é este, onde poucos souberam ler o artigo de Lilia Moritz Schwarcz sobre o novo filme/álbum visual de Beyoncé, e concluir que ele não tem absolutamente nada de racista ou ofensivo contra os negros?

Que país é este, onde uma intelectual como ela – branca ou não – não tem o direito e a liberdade de criticar uma artista negra por imagens de fato estereotipadas que criam uma África retrógrada, tão caricata e ilusória quanto ficou o museu do Louvre como cenário da sua bacanal narcisista com Jay-Z, no clipe brega de 2018?

Imagem: Beyoncé no trailer de ‘Black Is King’ (Reprodução). Deturpação cultural e arrogante vingança político-racial.

Que hipócritas são estes, que atacam, em nome do que seria “supostamente sem falha” ou de algum outro “lugar” imaginário “da palavra”, como se o ser humano não fosse ser humano em qualquer lugar?

Que enganadores são estes, que estimulam deturpação cultural e arrogante vingança político-racial, quando provocação hollywoodiana ambígua, luxuosa e artificial de fato jamais será verdadeira arma contra o odiento racismo, mas – ao contrário – pode ser até mesmo contraproducente como tudo que ostenta orgulho, insolência e  prepotência?

Que intelectual é Lilia Moritz Schwarcz – provavelmente mais uma “adepta honrada” dos eufemismos imbecis – que de “tão” política e paradoxalmente correta e antirracista, de “tanto” querer agradar, ensina (?!) no seu canal YouTube a censurar palavras ou expressões legítimas da língua brasileira que, segundo ela, possuem raízes e significados racistas, mesmo se já foram depuradas pelo tempo e pela história?

Que professora é Lilia Moritz Schwarcz, a mal compreendida e atacada, que pede desculpas no Twitter pelo que não fez, talvez apenas para escapar da “cultura do cancelamento” (tão em voga no Brasil e nos Estados Unidos) e ficar “de bem” com a numerosa galera que a segue? Ooooi pessoaaaaal !

Que vergonha do meu país!

Que vergonha do meu país e desta sua gente, certos intelectuais inclusive. Vergonha da mediocridade e maldade nas redes sociais. Eu que poderia ser mais uma vítima injusta do “cancelamento” pelo que escrevi no Estadão sobre o engodo Greta Thunberg, não sou. E não por concessão, patéticamente pedindo desculpas pelo que não fiz, como a professora.

Ao contrário, me felicito em cada um dos 10.585 dias dos 348 meses dos 29 anos deste autoexílio, por ter conseguido deixar – talvez agora, definitivamente – o meu Brasil.

Até a próxima, que agora é hoje!

Formidável resposta à ‘bacanal narcisista no Louvre’

Sem qualquer dúvida, ‘This Is America’ clipe do americano Childish Gambino colocado no YouTube há pouco mais de um mês, é o melhor e mais extraordinário contraponto ao brega arrogante de Beyoncé e Jay-Z no Museu do Louvre. Clipe inteligente que, com a sua crueza, ao contrário de ‘Apeshit’, denuncia de fato a América atual: o lobby das armas, o racismo, o sistema penal, a violência policial, o hiperconsumo e a própria luxuosa, vulgar e pretensiosa sociedade do espetáculo na era das redes sociais, da qual ‘The Carters’ são os expoentes máximos. ‘This is America’, além da ótima música e atuação, ele sim, faz pensar.

Foto: “This Is America”, formidável videoclipe de Donald Glover (Childish Gambino).

Aos 34 anos, Donald Glover (Childish Gambino) confirma com este clipe os seus múltiplos e prodigiosos talentos. Além de rapper e compositor, ele também é dançarino, ator, cantor, cineasta, roteirista, produtor, humorista e DJ. Glover cresceu em família pobre no subúrbio de Atlanta, em Stone Mountain, onde se refugiou na leitura de peças de teatro e criação de esquetes. Diplomado pela Universidade de Nova York, a sua obra preferida é Huis clos (Entre quatro paredes) de Jean-Paul Sartre, escrita em 1944. No Exit, aliás, é o título de uma de suas canções.

Cada trabalho dele surpreende, seja com o álbum onde mistura funk dos anos 1970 com soul e gospel ou com a série de televisão Atlanta, onde ele revela a realidade americana contemporânea. Não é de admirar que, neste clipe de 4 minutos este artista culto e reflexivo desenhe o retrato de uma América despreocupada que prefere dançar e correr atrás de dinheiro, em vez de enxergar a opressão e a violência em sua volta.

Nos Carters a violência é provocação, em Childish Gambino ela é real.

Childish Gambino é o oposto do talentoso The Carters, casal que, no fundo, acaba como traidor da causa negra já que é vendido ao capitalismo branco. O suposto “orgulho negro” deles é a soberba de dois egos superdimensionados, embriagados pelo poder, enquanto que o orgulho negro em Childish Gambino, muito melhor expresso neste clipe, é modesto, a verdadeira “honra negra” e consciência do próprio valor e cultura nativa. Nos Carters a violência é provocação, é mímica e pose. Vulgaridade pura. Em Childish Gambino ela é real, um grito de desespero. Com classe e dignidade.

O clipe This Is America – que se tornou viral (5,8 milhões de visualizações até agora) – pode ser analisado, inclusive, semiologicamente. Temos vontade de revê-lo várias vezes até conseguir desvendar o significado de cada coreografia, gesto e imagem. Há momentos, por exemplo, que alguns críticos dizem se inspirar simultaneamente em uma dança africana, a Gwara Gwara, no “stanky leg” texano e nos gestos de Jim Crow. Este personagem foi popularizado nos anos 1830 pelo ator (branco) Thomas D. Rice que, fantasiado de negro, zombava dos gestos das populações afro-americanas. No fim do século 19, quando os Estados Unidos aprovaram as leis de segregação racial, elas foram chamadas de “leis de Jim Crow”.

Mas há outras mensagens . No clipe, depois que o cantor negro é assassinado com uma bala na cabeça, ele é arrastado como um animal enquanto alguém recupera delicadamente a arma colocando-a dentro de um tecido vermelho. Este é um sinal claro contra o armamento de civis. A cena do fuzilamento do coro de igreja composto por cantores negros americanos, refere-se explicitamente ao massacre racista na igreja episcopal da comunidade negra em Charleston, em 2015, porque o assassino queria provocar “uma guerra entre raças”.

Nas coreografias, o contraste entre as cenas festivas e o caos é perturbador. Além da denúncia contra o racismo e as armas, é uma crítica severa à sociedade do entretenimento e das redes sociais, o mundo de imbecis do qual falava Umberto Eco, que – entre outras coisas – não sabe interpretar o que lê, agindo por impulso e mimetismo muitas vezes com enorme violência. Uma cena curta mostra jovens filmando as rixas com seus smartphones, o que lembra a série inglesa Black Mirror de Charlie Brooker.

O clipe termina com Childish Gambino perseguido, um final que também pode ser interpretado de diversas maneiras, inclusive em paralelo com o filme Get Out (Corra! de Jordan Peele ) que trata igualmente de racismo.

Até a próxima, que agora é hoje, hora de deixar a agressividade e os preconceitos de lado, aprender a ver obras de maneira inteligente e ler textos exatamente como foram escritos!

Videoclipe “Childish Gambino – This Is America”

 

“Jim Crow” por Jean-Michel Basquiat

 

 

Bacanal narcisista no Louvre

‘Apeshit’ (fezes de macaco), o título do novo clipe de Jay-Z e Beyoncé já diz tudo: a partir do hábito de macacos raivosos arremessarem suas próprias fezes no que odeiam, este nome significa ‘a raiva que produz nos humanos um comportamento parecido com o do macaco enfurecido.’

Foto: Apeshit’ (fezes de macaco), o novo, pretensioso e arrogante clipe de Jay-Z e Beyoncé.

Pois é exatamente o que o novo videoclipe do casal parece fazer com a arte e a instituição que lhe serve de cenário. Os dois se contorcem diante de quadros que não olham, enquanto outros personagens posam, igualmente de costas para as obras mais importantes do museu: Vênus de Milo, Vitória de Samotrácia, Coroação de Napoleão, Balsa da Medusa, Gioconda. O mau gosto atroz impera.

Não, não estamos sonhando, não é pesadelo, apenas um mau momento brega que felizmente não vai durar como a Mona Lisa, ao contrário do que disse Jay-Z. Sim, porque na entrevista que o rapper deu à Times Magazine, ele pergunta: “É melhor ser uma tendência ou ser Ralph Lauren? Melhor ser uma tendência ou ser eterno?” E afirma: “Serei como a Mona Lisa, cara! Me identifico com a verdade! Vou ser cool em 40 anos.” Que bom que a Mona Lisa, segundo o insolente rapaz, vai “durar tanto”…

O clipe, esta pequena vingança política afro-americana sobre a grande cultura, é da mesma arrogância sem par. O patriota Peruggia fez melhor quando roubou a Mona Lisa do museu em 1911. Mas se os pretensiosos Jay-Z e Beyoncé podem alugar um estádio inteiro de rúgbi, não surpreende que possuam meios de se oferecer um Louvre voraz de dinheiro e publicidade.

Depois de Niggas in Paris (2011) de Jay-Z e Kanye West – do seu álbum Watch the Throne – onde eles contam as seis noites no hotel de luxo Le Meurice no qual se esbaldam com modelos, álcool e o resto, consumindo 144 mil euros, e citando pelo menos 8 marcas de luxo (por contrato), o Louvre certamente é mais distinto.

No entanto, mesmo em instituição cultural, não são muito elegantes o escárnio, cinismo, oportunismo e atrevimento destes novos filisteus. Os selfies deles, com vestimentas perfeitamente adaptadas a uma visita de museu, de costas para a Mona Lisa, não podem ser mais cafonas. Ego-retratos capazes de fazer Leonardo se revirar em seu túmulo…

Isso, sem dizer que o significado de “Apeshit”, título desse videoclipe, é bastante ambíguo. Dentro do contexto, pode ser considerado racista. E sem dizer também que essa música (letra inclusive) de Beyoncé e Jay-Z é boa para “boi dormir”. Quem quiser curtir clipe viral, sem ficar com sono, é muito melhor assistir ao excelente “Childish Gambino – This Is America” (vídeo abaixo).

Até a próxima, que agora é hoje e eis o preço que a velha Europa deve pagar pela última e verdadeira expressão da América vulgar, ignorante e submissa, de Obama a Trump!

Videoclipe “Apeshit” – The Carters

Videoclipe “Childish Gambino – This Is America”