Uma das piores exposições da minha vida

Nunca imaginei que um dia visitaria uma retrospectiva de centenas de obras de Bernard Buffet (1928-1999), no principal espaço do Museu de Arte Moderna de Paris. Buffet está para a vida mundana e a pintura assim como Johnny Hallyday para o rock, e esta sua “reabilitação oficial” só pode ter sido feita por uma espécie de esnobismo estético que dá relevância à insignificância para preencher lacunas, inventar tendências, criar alarde. Ou, talvez, por outra razão mais proveitosa …
Retrospectiva Bernard Buffet, no Museu de Arte Moderna de Paris.

Não que Buffet pudesse ser classificado como expoente da “má pintura” voluntária, de significados, como o foram Philip Guston, Leon Golub, William Copley, Neil Jenney ou Judith Linhares, entre outros. Nem isso. Buffet se considerava “grande” no sentido clássico, herói do equilíbrio e instinto natural. Foi elogiado nos anos 1950 por críticos da envergadura de Jean Grenier. Se a sua produção em série, padronizada, resulta muito ruim e completamente vazia depois de 1955, não é apenas uma questão de gosto. É porque, intrinsecamente, ficou ruim e vazia de fato.

Era o começo da sociedade do espetáculo. Vítima talvez do sucesso comercial e reconhecimento do “grande público”, este artista já milionário não mais pintava cores, preenchia com tinta; não desenhava, traçava duro; não desenvolvia temas e poesia, literatejava mediocridade e pieguice; não improvisava, sistematizava; não interpretava, caricaturava; não criava, imitava-se fabricando centenas de “buffetzões” e “buffetzinhos”. Muitas vezes copiava mestres como Soutine ou Ingres, pastichando em vez de se inspirar em sua obra. Verdade que trabalhava compulsivamente. Nem sempre obsessão é qualidade. Buffet trabalhou cada vez mais, e pior, até o final.

Como se ignorasse tudo que a arte conquistou em sua época, assinava os seus quadros rebuscadamente, na parte mais visível, desrespeitando os próprios motivos, como se o seu nome fosse uma pequena marca de produto muito mais importante do que as telas, no mais puro estilo da Praça de Tertres (em Montmartre), onde os artistas trabalham para turistas.

Conceitos vagos e bons sentimentos sempre agradam mais do que arte

Concessão ao sucesso de público e ao mercado, talvez, o fato é que esta exposição (até 26 de fevereiro) tenta elevar uma obra não importante ao patamar de “arte maior”. Só demonstra, todavia, que os profissionais conscientes da sua insignificância estavam certos. Mesmo eles, que foram incriminados pelos defensores de Buffet com os chavões usados até hoje nos discursos políticos demagógicos e populistas pregando, em todo mundo, das mais diferentes maneiras, “coisas e noções simples”. Trata-se, sem dúvida, de uma mostra didática e bem feita como todas as manifestações deste museu. Contudo, do ponto de vista da história da arte, confirma exatamente o que diziam os críticos e artistas “presunçosos”, da “elite”.

Não consegui deixar de fazer um paralelo com a 32a Bienal de São Paulo, cujos detratores – assim como os críticos de Bernard Buffet, aos quais hoje só podemos dar total razão – também foram acusados de “elitistas, alienados e arrogantes”… Até a próxima que agora é hoje, e é claro que facilidade, conceitos vagos e bons sentimentos sempre agradam melhor do que arte. São mais confortáveis e reconhecíveis, porém, ainda que validados por grandes museus ou bienais, não duram para sempre!

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