Morreu Henry Sobel

Como rabino, foi ele quem me casou nos anos 1970, oficiou as cerimônias religiosas de meus filhos, sempre tinha uma palavra espiritual nos momentos mais difíceis.

Como amigo, esteve constantemente presente, fiel e atencioso. Mesmo quando deixei o país trocávamos, anualmente, até há pouco tempo, os votos de Rosh Hashaná (Ano Novo Judaico).

Como exemplo de integridade política, foi uma luz para mim e muita gente, durante os anos de ditadura militar.

Imagem: Rabino Henry Sobel beija o Dalai Lama

Uma vez, triste e cheia de dúvidas, eu andava na rua Rio de Janeiro, em São Paulo, na mesma calçada onde o rabino morava. Não sei por que motivo ele segurava um balão vermelho de festa pelo fio, talvez para oferecer à filha. Trocamos poucas palavras, eu não disse nada, mas ele deve ter sentido o meu sofrimento. Me ofereceu o balão, dizendo: “pegue, ele vai te trazer alegria e a resposta que você procura.” Foi o que aconteceu.

Este encontro se deu 14 anos depois do culto ecumênico na Praça da Sé. Também jamais esquecerei as palavras de Henry Sobel no 31 de outubro de 1975,  naquela cerimônia que ele celebrou junto ao arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns e ao pastor Jayme Wright em memória de Vladimir Herzog, de quem jamais admitiu o “suicídio” forjado pelos seus torturadores. A sua íntima convicção era de que o jornalista fora cruelmente torturado e assassinado. “Para Vladimir Herzog”, disse ele emocionado, “ser judeu significava ser brasileiro.”

Entre milhares de pessoas, fui igualmente testemunha desta maior manifestação pública de repúdio à ditadura militar, desde 1964. E finalmente comprendi que nem tudo estava perdido. Sempre existirão os humanistas e os justos, como Henry Sobel, para proteger os direitos do homem.


‘A gente tem uma mensagem somente se a gente for uma mensagem’

Para mim, o pensamento mais maravilhoso do rabino Henry Sobel é este: “A gente tem uma mensagem somente se a gente for uma mensagem”.

Isto quer dizer que não adianta falar e publicar coisas – na mídia, nas redes, entre amigos – quando não somos exemplares como pessoas, a ponto de representar, nós mesmos, a nossa mensagem.

Fazer propaganda, autopromoção ou promoção de outros, exibindo-se, é anti-exemplaridade. Quem é modelo respeitado, ou seja “a mensagem mesma” (como a pessoa de Sobel) o é por sua própria vida e suas ações. Jamais pelo lado externo, pela aparência narcisística que exibe aos outros.

Até a próxima, que agora é hoje e o rabino Henry Sobel viverá na nossa memória para sempre!

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