Em democracia ‘delito de opinião’ não existe, minha gente!

Peter Handke, escritor, dramaturgo, roteirista, cineasta e imenso tradutor austríaco, foi qualificado, nada mais nada menos, de “herdeiro de Goethe”. Como não sou especialista, não saberia dizer se é exagero. O escritor assinou roteiros de filmes com Wim Wenders que julguei obras-primas, como “Asas do desejo”. Além disso, gostei muito, mas muito mesmo, do pouco que li e estava lendo em 1996, em Paris, quando ele publicou aquele longo panfleto infeliz, com o título “Justiça para a Sérvia”, publicado no jornal cotidiano Süddeutsche Zeitung. Uma de minhas  melhores e mais queridas amigas (até hoje), croata de Split, me telefonou indignada.

 

Imagem: Peter Handke, 2019. Foto Alain Jocard, AFP

 

“Você viu o que o Handke escreveu? Nunca imaginei!”

“Ninguém imagina”,  disse eu, “mas escritores são livres para dizer o que quiserem. E têm o direito de errar.”

Foi o que aconteceu. Handke nunca acariciou fatos e ideias no sentido do pelo (o que é muito louvável) mas certamente não é o monstro Céline, escritor celebrado por seu gênio, apesar de tudo. Revoltado pela maneira como a mídia internacional, segundo ele, se colocou contra a Sérvia durante a guerra, acusou aqueles “cachorros de guerra” (os jornalistas) que “confundiam a profissão deles com a de juízes ou demagogos”. Por mais errado que estivesse, o olhar de Handke pelo menos liberava, como justificou o seu jornal, “os modelos congelados de pensamento”.

Grandes jornais brasileiros dificilmente defenderiam assim os seus colaboradores.

O prêmio Nobel hoje, depois de Bob Dylan, outros equívocos e confusões internas, está decadente, não significa mais a mesma coisa. E mesmo assim, certos intelectuais, hoje, ao chamar Handke de “idiota” ou clamar pela retirada do prêmio, assemelham-se bastante ao presidente brasileiro que não quer assinar o “Camões” de Chico, confundindo arte com política.

Handke cometeu um crime ao pensar de maneira diferente e ter outro ponto de vista sobre a história da Iugoslávia? Como escreveu Vojislav Pavlovic, historiador e diretor do Instituto de estudos balcânicos em Belgrado no “La Croix” (hoje, um dos melhores jornais da França), “Handke é antes de tudo um escritor e não um político. O prêmio lhe foi atribuído por sua obra.” E acrescentou: “desde o final da União soviética, o ‘delito de opinião’ não existe mais.”

Até a próxima, que agora é hoje!

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