O direito ao ‘nem-nem’

Como não sou astróloga, Thoreau, Mahatma Gandhi ou Martin Luther King – ou seja, não preconizo política pelos astros e não aplico ‘desobediência civil’ antes (e nem mesmo depois) que um governo seja eleito – para alguns amigos, leitores e familiares fica difícil entender como é que me declaro contra candidatos sem jamais revelar o que apoio.

Imagem: “nem-nem”, d’après Ben Vautier

Alguns acham que estou fingindo que não sou a favor de um ou de outro. Exigem um esforço de racionalidade para que eu defina o que, para mim, é impossível de definir e às vezes ultrapassa qualquer tentativa racional.

Assim, os que gostam da extrema-direita e acham que querer bombardear uma favela é apenas “politicamente incorreto”, pensam que me curvo diante da ditadura das pequenas éticas, deixando-me levar por argumentações sobre as quais “não se pode ser contra”. Que, indo contra aquele (chamado por alguns de Bolsolini, Bolsoignaro ou Bolsonazi mas) que, para mim, é apenas “xucro”, posso contar com o apoio do PCC, do PT e seus deliciosos asseclas como a doce Gleisi e o probo Lindbergh, do PSDB do honrado Aécio, de todo PSOL e de gente maravilhosa como Jean Willys, Maria do Rosário e Ciro Gomes. Ou de jornalistas isentos como Paulo Henrique Amorim. Acham também que, nesse caso, me alinho ideologicamente aos artistas limpos e honestos, e atores, que se beneficiaram com o dinheiro público por meio de inocente maracutaia envolvendo a Lei Rouanet. Chegam a imaginar que estou tentando garantir alguma vantagem para mim ou algum próximo com o auxílio do generoso PT. Querida organização criminosa cujas estratégias durante 13 anos, junto com as de outros partidos nos faz, e à nossa democracia, pagar um preço tão alto…

O apoio do desvairado que votou com revólver

Já os que gostam desta esquerda, pensam que indo contra Haddad, o poste, vulgo “codinome de Lula” (mas que eu chamo simplesmente de “parvo”), contra a vice pixote (mestra em lapsos que fazem a delícia dos psicanalistas, sendo que no último discurso ela termina “tomando o poder” igual a José Dirceu), posso contar com o apoio do PSL inteiro, de todos os partidos de direita que começam a sustentá-lo agora, do Exército, do Olavo de Carvalho, dos “antagonistas”, conservadores, armamentistas, fundamentalistas antilaicismo, 48% dos evangelistas, da burguesia brasileira “que está numa lógica mais para Hitler do que Blum” (como diz a expert francesa Armelle Enders), de machistas, racistas, homofóbicos, certa imprensa, dos fabricadores de fake news, de todos arcaístas de costumes que defendem a família, a tradição e a propriedade e cospem em tudo que não for isso; do desvairado que votou na urna com um revólver, dos que agrediram jornalistas, proibiram numa escola carioca o livro inspirado na história de um jornalista perseguido pela ditadura militar, rasgam volumes que abordam a temática dos direitos humanos e arte do Renascimento em Brasília, baleiam cachorro porque ele latiu durante uma carreata bolsonarista, dos que mataram o mestre capoeirista Moa com 12 facadas nas costas em Salvador, porque ele revelou que votou Haddad, e tantos, tantos outros.

O nosso direito ao ‘nem-nem’

Ora, eu não sou obrigada a não opinar para poder manter o meu voto secreto, como objetam. Posso perfeitamente opinar contra quem eu quiser sem que esteja defendendo um ou outro.

Portanto, reivindico, definitivamente, o meu direito apofático de ver a realidade pela sua negação. Se alguns teólogos empregam o apofatismo para chegar a Deus, eu também posso empregá-lo para dizer o que penso sem ser obrigada a escolher entre dois candidatos que considero, talvez em proporções diferentes porém, igualmente nefastos para o nosso país.

Até a próxima que agora é hoje e viva o nosso direito de ultrapassar o esforço racional e não ter que escolher entre a cólera e a peste! Não votar nem no autoritarismo “politicamente incorreto” defendido pelos reféns do populismo de extrema-direita, nem na pseudo socialdemocracia “politicamente correta” (e éticamente incorreta) defendida pelos reféns do populismo desta esquerda. Em ninguém!

Um comentário em “O direito ao ‘nem-nem’

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