Lição da queda

Caímos doentes, caímos apaixonados, caímos na calçada, caímos na política. Toda problemática está na queda.

Imagem: Yves Klein, “Salto no Vazio”, 1960.

Estava chovendo. Ao voltar de um exame de sangue que me estressou porque a enfermeira só encontrou a minha veia quatro picadas depois, pisei na calçada com sapatilhas macias, sem prestar atenção, e tropecei num desnível. Perdi o equilíbrio, fui arriando lindamente e caí. Pousei no chão como bailarina, sem machucadura alguma, porém um pouco arrependida da minha distração.

Logo apareceram dois cavalheiros que me acudiram com perguntas e recomendações, enquanto me colocavam em pé e colhiam a bolsa e o guarda-chuva, estatelados como eu. Sorri muito e agradeci não apenas a eles, mas intimamente à minha avó que me obrigou durante toda a infância e juventude a frequentar escolas de dança clássica e depois moderna. Nas vezes em que fui ao chão em minha vida – e não foram poucas – sempre arrumei uma forma de precipitar-me em desaceleração, de maneira coreográfica, protegendo joelhos e o resto.

‘Democradura’ à vista

Um escritor, não lembro quem, disse que sempre caímos. Caímos doentes, caímos apaixonados, caímos na calçada. Toda problemática, portanto – segundo ele – está na queda. Certamente. Caímos na política também. É o que vai acontecer se o resultado das eleições coincidir com as sondagens de ontem, segundo as quais – sem o ex-presidente – o candidato da extrema-direita persiste na dianteira. Faremos parte da cena caótica internacional, ao lado da Áustria, Polônia, Hungria, Itália, Venezuela, Turquia, Rússia, etc. Ou seja, teremos uma “democradura”, termo criado em 1987 pelo sociólogo francês Gérard Mermet, oximoro no qual se combinam palavras de sentido oposto: democracia e ditadura. Esta palavra é retomada constantemente por políticos, autores e jornalistas quando se referem às ditaduras camufladas ou trucadas. Democracia liquidada, sabemos, é caída total!

Quanto à minha queda de ontem, ao contrário, penso que foi muito útil para pensar sobre a questão em todos os seus ângulos e me perguntar que lição eu deveria tirar do acontecimento. Sim, porque já que nasceu de uma experiência, acontecimento sem preceito não faz sentido. Tanta gente viu maçãs caindo de árvores e não pensou em nada. Já imaginou se Newton não tivesse se perguntado qual era o ensinamento daquilo?

Para mim, a lição de Confúcio de que “a grande glória é saber levantar a cada vez que caímos”, serviu muito menos do que o ditado judaico que diz que para cair não precisamos de ninguém, mas para levantar é melhor ter um amigo”. O que teria feito estendida na rua, sem meus dois cavalheiros?

‘Cair’ é assunto sem fim

Lembrei, é claro, do terceiro capítulo do Gênesis, que – embora não fale dela – trata da “queda” que é quando Adão e Eva desobedecem o Criador e comem o fruto do conhecimento do bem e do mal. Depois pensei em Albert Camus, autor de um livro com este título, se bem que a verdadeira queda é de Meursault, seu personagem em “O Estrangeiro”. E pensei em Cioran, enorme escritor e filósofo romeno que adorava temas pessimistas e escreveu magníficamente sobre “The Crack-Up” de Scott Fitzgerald, que começa o livro com a frase simpática e otimista “Of course all life is a process of breaking down ….” (“Claro que a vida inteira é um processo de queda…”). Livro, aliás, que foi publicado por seu amigo, o grande Edmund Wilson, escritor e duro crítico literário que chamou “O Senhor dos Anéis” de J. R. R. Tolkien de “lixo juvenil”. Até o filósofo Gilles Deleuze adotou o termo “crack-up” de Fitzgerald para se referir à sua interpretação do “instinto de morte” freudiano. Enfim, “cair” é assunto sem fim tanto em literatura quanto em artes plásticas. E, nem sempre, baixo-astral.

Sei que “o melhor segredo para não cair é ficar sentado”, como dizia Stendhal, porém penso que as quedas foram inventadas para nos levantarmos e proteger. Até a próxima que agora é hoje, pena dos que nunca caem. Só quem cai pode se levantar!

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